458 anos em celebração cinematográfica

Para celebrar o aniversário de São Paulo, comemorado no último dia 25, fiz uma opção mais preguiçosa. A temperatura caiu na tarde de ontem e assim persiste. Clima ainda mais propício, acompanhado pela chuva, para colocar-se debaixo das cobertas e fazer uma maratona de filmes. Indico, para tanto, longas-metragens que elegeram a capital paulista como cenário.

Alguns poderiam passar tranquilamente como homenagem, por captarem paisagens tão características. Quem nunca veio para cá, ou conhece pouco, pode explorar o local por meio de um tour cinematográfico.

Quando fui para Paris, peguei alguns roteiros oferecidos pela prefeitura. Continham as coordenadas para visitar as locações de filmes como Paris, Te Amo, Meia Noite em Paris e O Pequeno Nicolau. Um atrativo para os turistas e que, a meu ver, funcionaria bem em muitas capitais do Brasil.

Os títulos selecionados não correspondem necessariamente às minhas preferências, e a opção por dramas é evidente. Apesar de partilharem o gênero, considero os bem distintos. Para seguir uma ordem de lançamento, começo por dois filmes que estrearam em 2007 – A Via Láctea e Não Por Acaso.

Rodrigo Santoro, à esquerda, em "Não Por Acaso" e o casal vivido por Marco Ricca e Alice Braga em "A Via Láctea"

A abordagem de ambos possui uma forma delicada de colocar a narrativa em cena. A poesia permeia a cidade e disputa espaço com as histórias vividas pelas personagens. Em A Via Láctea, dirigido por Lina Chamie, um casal é levado a balancear e refletir sobre seus problemas pessoais presos no trânsito. Heitor (Marco Ricca) e Júlia (Alice Braga) discutem ao telefone e, num impulso, Heitor entra no carro com o intuito de ir até a casa de Júlia e encontrar uma solução para a briga.

O filme é curto e se passa majoritariamente neste percurso. O trânsito, as inquietações – enfim, problemas sujeitos a intervenção na vida de qualquer morador de uma cidade grande e tumultuada.

Não Por Acaso, com direção de Philippe Barcinski, segue uma linha semelhante, porém com mais personagens. E, consequentemente, com mais embates a serem desenrolados e solucionados ao longo da história. Diferente de A Via Láctea – composto por uma narrativa que prima pela subjetividade – Não Por Acaso faz uma opção um pouco mais objetiva, mesmo com duração maior.

O trânsito entra em cena, aqui, como um personagem. Pois Ênio (Leonardo Medeiros) trabalha como engenheiro de trânsito em São Paulo. O perfil metódico não é adotado apenas no trabalho, mas em seu cotidiano. O que o leva a uma reação um tanto fria quando sua ex-mulher o surpreende com a notícia de que sua filha, já com 16 anos, gostaria de conhecê-lo.

Outros personagens entram em cena após um acidente envolvendo Mônica (Graziella Moretto), a ex-mulher de Ênio, e Teresa (Branca Messina), namorada de Pedro (Rodrigo Santoro). A história é conduzida, então, pela forma com que os personagens encaram as consequências desse acidente em meio em meio aos dilemas cotidianos.

Cena do filme "Bróder"

É um drama mais ameno, que mantém sua seriedade. Bróder (2011), de Jefferson De, pode se adequar ao mesmo gênero, porém com uma abordagem mais descontraída – ao menos até a metade do longa. Ele marca o reencontro de três amigos de infância – Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane) no bairro Capão Redondo.

Embora a história se concentre nesse bairro, outros pontos da cidade também se fazem presentes. É interessante a mudança de perspectiva e a oportunidade de conhecer uma região pouco colocada em cena. O desfecho poderia ser apresentado de outra forma para torná-lo mais interessante. Ainda assim é um bom filme.

Leandra Leal e Cauã Reymond em "Estamos Juntos"

Posso dizer o mesmo de Estamos Juntos, lançado também em 2011 e dirigido por Toni Venturi. Não vou gastar muitas palavras sobre ele pois já o resenhei por aqui. De todos da lista, esse é, sem dúvidas, o mais primoroso no quesito fotografia. A história em si não tem nada de muito inovador. Pode parecer exagero, mas compensa assisti-lo mesmo pela escolha dos cenários. O diretor de fotografia colocou a região central em foco de maneira bem interessante.

Fernando Alves Pinto e Caco Ciocler em "2 Coelhos"

O último da lista é especial para o público jovem. Foge de todos os padrões de filmes nacionais e tem semelhanças mínimas com os outros deste post. Escrevi sobre ele n’O Bolchevique Analógico. Tem muita ação, efeitos especiais e um acontecimento atrás do outro. Para sair do cinema sem fôlego. Se você não gosta de filmes “moderninhos”, opte por um dos citados anteriormente.

Bom, a minha homenagem desta vez foi bem discreta, mas não queria me repetir (até por ter atrasado a postagem). Quem não tem paciência para cinema, pode dedicar um minuto a um vídeo bem bacana feito pelas meninas do Lomogracinha.

Elas solicitaram o envio de fotos de São Paulo aos visitantes. As imagens foram reunidas neste vídeo-homenagem. Vocês podem conferi-lo abaixo:

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Je t’aime, Paris

Je t’ai aimé au premier regard. Tu m’inspires. Tu m’aspires. Tu me fascines. Tu me rends folle. Je t’aime, Paris.

Confesso – tenho vontade de postar tudo que encontro sobre Paris aqui. Acabaria transformando a página em um clipping ambulante da cidade. Procuro me conter e já deixei passar muitas coisas, mas um vídeo foi compartilhado em um momento tão propício que seria absurdo ignorar.

Não vi a semana passar por conta de muitos compromissos que acabaram se acumulando. Até o vídeo acima aparecer e me levar para a “Cidade Luz” por dois minutos. Minha paixão pela cidade já virou figura carimbada (ser monotemática é uma arte, como podem perceber).

Então vejo um monte de gente EM Paris contando porquê amam a cidade. Dá vontade de arrumar as malas e ir direto para lá, sem exageros. Tem uma pegada meio Vivez la langue, vídeo de divulgação da escola de línguas EF.

O vídeo é uma produção do site My Little Paris, um site de notícias muito gracioso. Para os estudantes da língua francesa, a página em si é uma ótima dica para praticar a leitura.

Confiram os vídeos e tentem não cair de amores :o)

Mindfuck em forma de cartazes cinematográficos

Existe uma história originada em uma visita de Julio Cortázar ao Brasil. Durante um diálogo, Cortázar pergunta para um conhecido(a) se ele já havia presenciado Maria Bethânia e Caetano Veloso dividindo o mesmo palco. Perante a resposta negativa, ele explica: “É mesmo impossível, pois se trata de uma mesma pessoa”. Conversando com amigos, chegamos à conclusão de que, caso Cortázar os visse no mesmo palco, teria um mindfuck.

“Mindfuck” não é algo facilmente explicável, mas bem, depois desse episódio, soube descrever a sensação com perfeição. Entrou no meu repertório monotemático, como não poderia deixar de ser. Sempre tento encontrar alguma definição secundária, sem muito sucesso. Até porque a expressão aparece de forma espontânea. Não estamos preparados e, de repente, presenciamos algo e a palavra mindfuck parece explodir boca afora.

Para não me limitar a exemplos que remetem a escritores, músicos e cineastas, encontrei uma explicação ilustrada. Genial. Não preciso abrir a boca, basta jogar algumas fotos e tudo estará dito. Parece óbvio, mas o inconsciente nos faz perder alguns minutos tentando ententer o que acontece.

A primeira impressão, ao olhar para os cartazes abaixo, é de que há algo errado. Não adianta negar. Você vê “Drive”, em uma fonte clássica, típica de filmes antigos. Os olhos correm para a direita e lá está James Dean, com a mesmíssima expressão de Ryan Gosling no pôster de Drive. Pode não ser intencional, mas é bem semelhante.

A série, intitulada “Movies from an alternate universe” tem essa ideia – jogar títulos antigos em uma máquina do tempo e transformá-los em longas de décadas anteriores. As criações são de Sean Hartter, e podem ser conferidas aqui.

The joy of books

Cada visita feita a uma livraria me deixa em estado incomum. Até hoje não consegui definir como gostaria. Em uma explicação simplória, poderia dizer que atinjo um nível exagerado de felicidade. Não que eu saia pelas estantes com um sorriso de Cheshire Cat (devo admitir que já aconteceu no passado, mas não contem para ninguém). É algo tão evidente que dispensa movimentos faciais exagerados.

Intencionalmente ou não, o vídeo abaixo acaba falando sobre essa sensação. E ainda me deixa com saudades de Toronto…

‘till your well is gone

Quer ouvir uma canção repleta de tristeza, capaz de traduzir todos os problemas decorrentes da frustração amorosa? Que também pode ser aplicado a outros conflitos cotidianos? Tá de mal com o mundo? Não quer saber de gente te dizendo que vai ficar tudo bem?

É simples! Basta ouvir o Moonpix inteiro. Pelo menos duas vezes seguidas. Se possível, acrescente algumas taças de vinho para deixar o ambiente propício.

Não, não é um trabalho novo da Adele. Falo de Cat Power. Ela não é novidade por aqui, mas retomei o assunto porque um novo trabalho deu as caras no youtube essa semana. Em uma definição bem piegas, posso dizer que as músicas dela são uma bomba de sentimentos.

Até quando a letra é, na medida do possível, feliz, o ritmo continua te arrastando para baixo. Melodia de contemplação letárgica, da maior qualidade.

Kings ride by tem uma pegada mais otimista, e ainda assim combina com o clima chuvoso de hoje. Escutem e tirem suas próprias conclusões.

O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

Foi como pisar em um território desconhecido. Era arriscado e eu não fazia idéia do que poderia esperar. Até então, meu conhecimento sobre literatura africana limitava-se à leitura de Desonra, de J. M. Coetzee. Não me ocupei com leituras prévias. Preferi a surpresa e, acreditem, minha opção foi extremamente vantajosa. Em O Último Voo do Flamingo, Mia Couto cria uma fictícia Tizangara, em Moçambique. Um lugar que abriga uma constante mistura entre o fantasioso e a realidade – uma característica evidenciada, logo no primeiro contato, por estar contida em cada personagem presente no romance.

A narrativa possui um toque poético. Um artifício bem utilizado – diversas passagens incitam, de modo envolvente, o questionamento com relação aos limites do real. Em certo ponto, a noção desses limites é perturbada. Pois o próprio narrador anuncia – em Tizangara “todos os factos são sobrenaturais”. Diversas passagens nos levam a interromper a leitura para levantar esse questionamento – o autor conduz a história de uma forma tão natural que um fato absurdo passa aos olhos do leitor como uma coisa normal.

E então um acontecimento estranho passa a perturbar o cotidiano do local. Soldados estrangeiros, sem uma explicação plausível, começam a explodir. Massimo Risi, italiano e oficial das Nações Unidas é solicitado a investigar o incidente. Com a sua chegada, um morador local – narrador da história – é requisitado a acompanhá-lo, desempenhando o papel de tradutor.

No início, todos os indícios levavam a crer que a história se desenvolveria sobre o perpspectiva da investigação de Risi. Entretanto, com o desenrolar do enredo , o narrador parece inserido em uma conversa informal com o leitor, na qual relata a situação atual de sua cidade e rememora a trajetória de seus pais. Esse contato reforça também um fator que enriquece a narrativa – talvez o grande problema não seja a explosão sem explicação dos soldados, mas a dificuldade para encontrar identidade característica de um país que vive marginalizado. Neste ponto é importante destacar o contexto  –  Moçambique passa por um processo de paz, pouco tempo após o fim de uma longa guerra civil. Nessa situação, como já é de se esperar, nem mesmo os administradores locais dão conta dos problemas, mais preocupados com problemas pessoais e alheios às feridas da própria nação.

Aproveitando o lado fantasioso da obra, Mia Couto brinca conscientemente com a língua portuguesa. Brincadeira amparada pelos distintos personagens – numerosos, diga-se de passagem – espalhados pela curta extensão do livro. Há, por exemplo, Temporina, uma mulher com rosto de velha e corpo de moça. Há também Sulplício, pai do narrador, que pendura os ossos do corpo antes de dormir. Um embate constante para Risi, que precisa enviar relatórios à sede da missão da ONU. Todos os relatos por ele acompanhados parecem absurdos, e ele próprio questiona a veracidade dos fatos – se ele acha absurdo, como uma pessoa que não conhece Tizangara pode acreditar em tudo isso?

Por meio de uma metáfora, o autor conclui a obra com um baque. Um toque abrupto que atenta para um olhar mais cuidadoso. Com bom humor e de forma delicada, O Ultimo Voo do Flamingo procura despertar a atenção para os valores de uma nação e todas as suas particularidades. Apesar de todos os empecilhos, é preciso manter e valorizar a essência.

“Viver é fácil. Até os mortos conseguem. Mas a vida é um peso que precisa ser carregado por todos os viventes” 

COUTO, Mia. O Último Voo do Flamingo. Editora Companhia das Letras, 2005. 232 págs. Preço sugerido: R$46,00.

Para começar de forma sutil

É extremamente idiota da minha parte. Ainda assim, estou desde segunda matutando a respeito do primeiro post de 2012. Não queria jogar um tema solto e sem nexo neste pontapé inicial (como se o blog estivesse começando hoje), mas não houve alternativa. Vai ver faltou um esforço maior impulsionado pelo clima simpático de férias acadêmicas, que me deixa acomodada sem muita culpa.

Na dúvida, optei por começar de forma sutil. Divulgo, então, o trabalho de Bett Noris. Gosto particularmente das tonalidades presentes nas ilustrações. A opção pelos tons pasteis remete à coisas antigas – um toque de nostalgia ao conjunto da obra. Para mim, o traço tortuoso transparece leveza.

Por ser pouco extenso, compensa conferir o trabalho completo. Recomendo, para começar, a série Treasure. Quem gosta de fotografia deve lembrar daqueles projetos clássicos do Flickr para mostrar todos os objetos contidos nas nossas bolsas. Noris aproximou-se dessa ideia reunindo em um desenho vários objetos que lembram – ou mesmo que poderiam pertencer a – personalidades como Frida Kahlo e Sylvia Plath.

Para uma exposição, o tema proposto foi “Joining the Dots” (ligando os pontos). Ela se inspirou em pontos espalhados em mapas para criar uma imagem sobre a cultura do chá pelo mundo. Sou levemente viciada em chá e adorei o resultado:

Para mais detalhes: site oficial e blog de Bett Noris.