Migrei!

Caros seguidores,

é com pesar que anuncio a mudança deste blog. Tenho muito amor pelo DMA, que me acompanhou nos últimos anos apesar das atualizações esporádicas. E não quero ir lá e apagar tudo como se ele nunca tivesse existido. É parte de mim e da minha história, então vai ficar aí para reler quando der saudades e, claro, para quem quiser conferir posts antigos.

Quem gosta dos textos e quer continuar me lendo, poode seguir no endereço novo. Espero que gostem! Bem-vindos ao Lidy com isso <3 Entrem lá, tirem os calçados e sintam-se em casa. Podem assinar também porque tenho coisas legais em vista.

Ah! Minha newsletter também continua ativa e vocês podem assinar aqui. Também entrei para a equipe da Revista Pólen, meus textos devem sair em breve.

Beijos a todos, obrigada por me acompanharem, e boa leitura!

Algumas palavras sobre ser mulher no mundo de hoje

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“Porque assim, eu não me arrependo de ter nascido mulher”. Há atos falhos que vem para o bem. Esse aí pipocou em algum momento da análise, quando discutia questões do corpo e feminilidade. Porque quando se é criança, quando a pessoa não contesta, segue-se a cartilha. Usamos as roupas e sapatos que nossos pais compram e optamos por atividades escolhidas por eles. Quando cheguei na adolescência, virei rebelde e rasguei a cartilha em pedacinhos. Minhas prioridades eram ler, ver filmes e assistir ao Disk MTV no fim da tarde. Com tantas ocupações, quem ousou pensar que sobraria tempo para escolher roupas, acessórios, sapatos? Nunca vou me esquecer do dia em que uma colega de sala virou para mim, às 7h da manhã, e perguntou por que eu não usava maquiagem – com expressão de choque, como se fosse algo muito fora do comum para uma menina de 12/13 anos. Para mim, o mundo ideal consistia em calça jeans, camiseta larga e tênis confortáveis. Não fazia sobrancelha, nem as unhas, e os cabelos… bem, são um caso à parte.

Vale dizer que menstruei muito cedo, então sempre houve dificuldade em lidar com a explosão de hormônios. Hoje acredito que o fato de sangrar desde muito cedo endossou minha rejeição com todas essas obrigações femininas. Menstruar, para ser sincera, foi um grande inferno. Embora fosse pirralha, aquele sangue foi minha primeira chave à vida adulta. Um alô de consciência corporal – era a hora de ver meu corpo mudar e preparar os ouvidos para o tão insuportável “agora você é uma mocinha”. Uma carga de obrigações que me parecia deveras ruim. Para uma pessoa que mal se conhecia, era muito difícil ter que abandonar o mundo ideal de brincar da rua e ser criança para “virar mocinha”.

Depois de quatro anos lutando contra mim mesma, resolvi pedir bandeira branca por um tempo. Pouco depois de completar 14 anos, decidi ir a uma nutricionista. O fato de passar a cuidar do corpo fez com que eu tivesse mais carinho por ele – foi quando comecei a me preocupar mais com questões estéticas, roupas e afins. Não que tenha ficado obcecada, só passei a prestar mais atenção, a querer comprar coisas e não só usar o que ganhava.

Contar uma experiência do passado assim passa a impressão de que o processo foi rápido. Tudo isso levou um ano inteiro, essa transição dos 14 para os 15 – e olha, foi só a primeira etapa. Na cabeça oca da adolescente seria uma forma de enfim me sentir parte de algo – uma noção horrorosa de tão tola. Sem ter dimensão que isso só pioraria as cobranças sociais. Porque você não pode levar tempo para se conhecer – tem que ser aquela mudança brusca, da água para o vinho. Na minha cabeça seguia aquela guerra – porque preciso acelerar um processo que pertence a mim e a mais ninguém?

Até hoje é uma batalha, e toda essa questão desencadeou outros tantos problemas na minha vida. Custei a dar ouvido ao meu próprio corpo, o que me gerou uma gastrite. Mas o fato de escolher o caminho mais longo e demorado me fez enxergar muitas coisas sobre ser mulher. Minha maior aquisição dessa experiência foi o respeito. Cada uma tem seu ritmo, seu jeito (ah, isso vale para qualquer gênero) – se existisse um padrão, provavelmente estaríamos vivendo uma realidade de Admirável Mundo Novo, e isso não seria nem um pouco agradável.

Sempre odiei o fato de ser branca demais. Odiava tanto que ao colocar um vestido ou uma saia queria chorar, sentia muita vergonha das minhas pernas. Pode parecer bobo, mas precisei começar a fazer academia para enfim me desligar disso. Por mais insuportável que esse ambiente possa ser, ele nos mostra uma gama bem variada de mulheres: aquelas bem magras, meio termo, mais cheinhas. Mais do que isso, são biotipos tão distintos que poderia passar um dia inteiro só falando sobre cada um. Passei a enxergar melhor as mulheres, sem raiva. São justamente essas diferenças que nos tornam tão especiais. Não existe unidade, e aqui vale bandar um abraço para todas as revistas femininas que querem nos impor um padrão de mulher magra (quase seca), mas que parece muito saudável graças à diversas técnicas de fotografia e photoshop. Tendo essa percepção, passei a incluir vestidos e shorts no meu vestuário. Foi preciso lidar com pessoas dizendo “nossa, parece que você tá com uma meia-calça branca”. Por mais chato que fosse, fiquei surpresa com o quanto as pessoas elogiavam.

O mesmo serviu para os cabelos. Foram muitas progressivas, alinhamentos, e cabelos lisos que pareciam esconder minha essência. Nesse nível. Falei sobre isso uma vez no blog, não tem nada mais libertador que ter assumido meus cabelos e conseguir gostar dele mesmo nos dias em que acorda todo desordenado.

Como se todas essas questões de aparente trivialidade não fossem importantes, temos o adendo homem. Porque na idade em que todas dão lá seus primeiros beijos, quem não pega ninguém é uma encalhada mal amada. Quem fica com um por semana é fácil e vagabunda. Ainda não inventaram meio termo, porém haverá sempre um rótulo pronto para suas atitudes. O homem, quando arruma um cardápio de mulheres, é garanhão. É estimulado a bater punheta desde cedo – afinal, isso testa a virilidade do cara, faz dele mais macho. Comer geral é só extensão disso. Aí me aparecem amigas que NUNCA se masturbaram. Porque é nojento, é coisa de mulher descontrolada que tá subindo pelas paredes. A pessoa cresce com essa noia de que masturbação é um monstro e em uma dessas deixa de conhecer o próprio corpo – o suficiente para, por vezes, não conseguir atingir um orgasmo quando faz sexo. Óbvio, quem vai conseguir gozar com outro quando nunca gozou sozinha?

Não sendo da categoria encalhada, existe ainda aquela obrigação de casar. A coitada vai lá, casa mais para agradar a família – pois convenhamos, a imposição de outrora deu uma dissipada considerável, ainda mais na atualidade, quando qualquer um pode juntar os trapinhos sem a obrigação de formalizar a união. Então começam a perguntar quando é que o filho chega. Como se fosse barato e fácil colocar mais um ser humano no mundo. Aliás, sobre isso, vale conferir o vídeo da sempre maravilhosa JoutJout. E as “encalhadas” precisam correr, pois é feio ficar para titia.

Cereja do bolo (e todos achando que já estava de bom tamanho até aqui): além de ser magra, esbelta, manter a pele sempre bem cuidada, casar e ter filhos e continuar maravilhosa, tem ser bem sucedida. Pois virou moda ser empreendedora desde cedo. Aqui vale fazer um adendo – fico feliz ao ver mulheres conquistando espaço no mercado de trabalho, mas bem, ainda ganhamos menos que os homens e isso precisa mudar.

Em resumo, temos fardos pesados demais para carregar. É tanta cobrança da família, dos amigos, da sociedade como um todo, que por vezes esquecemos de nos cuidar, negligenciamos tudo que nos é tão caro para tentar fazer parte do padrão – que mesmo parecendo muito correto e aceitável, ainda é contestado. Impossível agradar, por mais que a gente se esforce.

Essas são só algumas das construções sociais que engolimos todos os dias. Felizmente, somos livres para contestar tudo e seguir nosso caminho. Escrever e assinar nossa própria história, sem influência dos outros. Toda vez que vejo qualquer menina/mulher confrontada com tudo isso, ofereço meu apoio, e todas deveríamos ser assim. O feminismo é lindo e está longe de ser coisa de “mulher mal comida” (aliás, vamos parar de dizer que uma mulher estressada precisa de uma boa trepada?). Devemos unir forças e lutar pelos nossos direitos como mulher todos os dias.

things i have loved i’m allowed to keep

Fui visitar os jardins de Monet em Giverny, na França. Digam o que quiserem, sou chegada aos passeios turísticos obrigatórios em todo lugar. Detesto guias que não me dão liberdade para conduzir minha própria experiência, mas não consigo fugir do óbvio quando vou a um lugar novo. Valeu a demora para chegar, os trechos abarrotados de gente, tudo. Conheci um cantinho diferente da França, uma cidade que concentra o fluxo de pessoas alí, na Fundação Claude Monet, e que me mostrou as flores mais lindas de todos os tempos.

Eu, que nunca me interessei muito por flores, saí de lá querendo cuidar de algumas no fundo do meu apartamento – por mais imbecil que isso possa parecer. Houve uma flor específica que chamou minha atenção, pois misturava vermelho e amarelo de um jeito meio psicodélico. Era tão linda que despertou o desejo maluco de arrancá-la para levar comigo (por incrível que pareça ainda trabalho com um pouco de autocontrole nessa vida). Me limitei a tirar algumas fotos, já com a ideia aleatória de transformar aquilo em algo ainda mais simbólico para mim.

Criei afeto por esses lugares meio nada, resquícios das minhas marcas de interior, essas que me foram atribuídas não só no nascimento, mas também ao longo da primeira década de existência. Desses pontos que não te oferecem muitas opções, mas abrigam algum refúgio bonito, desses em que você se sente à vontade para sentar num canto e perder a noção das horas apenas observando. Sem pensar na vida – só confabulando sobre tudo o que se passou na mente de quem criou tudo aquilo e quais foram as impressões de quem deixou suas marcas posteriormente. Não fosse o horário e a correria para visitar o maior número de lugares possíveis em poucas horas, teria perdido um bom tempo sentada em um canto dos jardins só para cuidar da movimentação com os olhos. Foi semelhante ao meu desejo de sentar naqueles imensos gramados de Canterbury, tomados por árvores secas – e nunca concretizado, visto que fazia frio demais para matar tempo em qualquer ambiente externo. Sem falar nas chuvas.

A visita me levou até mesmo aos primeiros dias morando em São Paulo, quando não conhecia uma única pessoa e tinha os estudos como única obrigação. Ia ao cinema, sentava em cafés atrás dos meus livros e de tempos em tempos parava um pouco só para olhar para os arredores e pensar sobre a vida nessa cidade nova.

Levo comigo pedaços de cada lugar. Acumulei sensações, experiências, essas coisas não-físicas que acumulamos na bagagem toda vez que acenamos de longe para a zona de conforto. Nas minhas poucas horas em Giverny, tive tudo isso ao mesmo tempo. Aquele “lugar meio nada”, tão discreto e perdido num canto da França, me deu um abraço caloroso. E como a moça Regina Spektor já cantou tanto por aqui, things I have loved I’m allowed to keep. Não arrancaria a flor. Se a tirasse, mesmo com aquele tanto de flores, não seria mais a mesma coisa. Faltaria algo na paisagem, lamentaria pelos futuros visitantes. Ela provavelmente apodreceria, não suportaria o clima do Brasil, uma lembrança que logo viraria inexistência. Em nada condizente com aquilo que me provocou.

Então pedi pra transformarem a foto que fiz dela em desenho. Pedi pra deixá-la marcada na minha pele.

E agora levo um pedacinho de Giverny comigo para onde vou.

Dissolve me

Sabe aquele dia em que a realidade te dá um choque mais intenso que o normal? Karma Police. Quando você quer bater em qualquer ser humano que cruza o seu caminho? Fox in the snow. Quando você acha que a coisas não tem mais solução e nem adianta se esforçar para mudar? Beach Baby. E quando você está prestes a explodir ao sentir tudo isso ao mesmo tempo? Dissolve me.

No meu hall de bandas do coração, encontro Radiohead, Belle & Sebastian, Bon Iver e, há algum tempo, Alt-J. Sem desmerecer todo o resto, mas eles merecem menção honrosa por voltarem sempre para mim – e justo em momentos cruciais. Não há situação que passe sem que me lembre de alguma coisa deles.

Não pretendo discursar sobre isso, mas sempre tive vontade de manter um registro das quatro faixas que procuro em momentos de muita angústia (agora, por exemplo). Não falo de minhas músicas favoritas, mas sim daquelas que conseguem me acalmar em poucos minutos – e, acredito, deve dar trégua aos desesperos de muita gente ansiosa como eu.

I’m moving past the feeling

Em alguns momentos de 2011 tentei me dedicar de corpo e alma ao curso de francês, apesar das circunstâncias pouco favoráveis. Ano difícil aquele, parecia insanidade ter boas expectativas naquele momento. Ia me desprendendo cada vez mais de mim e nessa loucura toda consegui meu primeiro emprego, o que me forçou a trocar as aulas para o sábado. Desde os tempos de escola sei que essas amizades para vida toda são furadas e fazer amigos em um sábado de manhã era algo improvável demais para ser verdade. Só que aconteceu.

Tem todo aquele drama de saber que uma hora o curso vai acabar e nunca mais nos veremos, mas oras, qual é a necessidade de se desesperar por algo que mal começou, era melhor aproveitar o momento sem pesar as futuras despedidas. Tanta coisa aconteceu nesses escassos (quase três anos). Parecia que estávamos fortalecendo nossos laços de 10, 15 anos de amizade. Tudo tão intenso e ao mesmo tempo tão inesperado que olho o calendário e é estranhíssimo saber que dois deles debandaram, juntos, para os cantos mais frios do Canadá. Começar uma vida nova, tudo do zero, abandonar a rotina da qual reclamávamos juntos e que talvez venha a ser motivo de saudade para eles em pouco tempo. Nem parece que abandonamos o curso há cinco meses e os encontros de sábado da turma já não acontecem há um tempo considerável.

No início do mês passado, durante o show do Arcade Fire, Win Butler disse que a próxima música “é sobre saudade”. Ia dizer que The Suburbs nunca mais foi a mesma, só que nenhuma música do Arcade Fire foi a mesma depois daquele dia. Um desses amigos gosta muito da banda, e oras, ele vai para a terra deles. E ainda assim gastou uns tostões só para me acompanhar nesse show que, me desculpem, era imperdível. Afora toda a saga até Interlagos, roubaram o celular dele durante o show do Pixies e ainda assim ele teve ânimo para se enfiar no meio do povão comigo para ver Arcade Fire.

A banda sempre teve um feeling gostoso para lidar com todos os tipos de angústias cotidianas. Sempre foi uma delícia colocar Rebellion (Lies) no último volume e sair fazendo dancinhas estranhas pelos cantos. Sabe, no fundo eu estava puta da vida, querendo meter um murro na cara de cada pessoa mentirosa que andava me incomodando. Só que era ótimo pensar nisso acompanhada por uma música animada, no maior estilo dançando com a própria desgraça. E eles fazem isso de uma forma tão delicada que nunca me ocorreu chorar com nenhuma composição, mesmo que estivesse soçobrando em angústia. Para minha surpresa (em dia de show pode tudo), levei pouco tempo me emocionar. Era como se todas as sensações do mundo tivessem me devorado naquela hora: uma banda que eu adoro, um show super cuidadoso e cheio de detalhes encantadores, a despedida de um grande amigo. Confesso minha fragilidade para canções tipo Wake Up, acompanhada por chuva de papel picado e até fogos de artifício, que talvez nem fossem parte do show, mas prefiro pensar que eram. Chorei com um sorriso que me rasgava a face, naquela expressão de decadência e alívio. Também teve dancinha, toda desengonçada e pisando nos pés de quem estivesse por perto.

Sou tão acostumada a essa ideia de fazer as coisas sozinha que quando vem a calhar de ter companhia tudo fica muito estranho. E no fim das contas correu tudo bem, e essas coisas me fazem valorizar muito mais esses casos raros de partilhar momentos – principalmente em shows, justo comigo que vi tantos sem a menor expectativa de companhias. Para alguns talvez não passe de um dramalhão exagerado, mas aquela foi a nossa despedida e eu nunca imaginei que algo que costuma ser tão doloroso poderia me marcar sem provocar dor alguma. É surreal juntar memórias desse dia querendo voltar, mas sem sentir um pingo de tristeza. Isso não se deve exclusivamente ao jeito Arcade Fire de fazer shows, pelo contrário. É o conjunto. Uma pessoa positiva consegue te trazer isso. Em meio a todo o meu pessimismo contumaz é até esquisito aceitar algo positivo com tanta naturalidade, mas abraço a causa de bom grado.

Raffa, espero que a vida me dê pelo menos uma parcela da sua sabedoria para um dia observar as situações da vida com um olhar mais brando. Queria aprender um pouco sobre ser uma pessoa otimista sem soar pedante, sem parecer que fui cuspida direto de um comercial de margarina. Sem essa de encarar cada etapa da vida como um monstro, um fardo insuportável a ser sustentado em nossas costas. Espero que essa sua essência não mude nunca, que mesmo tendo que se adaptar a uma cultura distinta você não deixe que isso se perca. Você sobreviveu a frieza da (insana) sociedade paulistana, não vá ceder ao clima frio! Ale, o mesmo serve pra você. Somos assim, de natureza ranzinza, o que naturalmente nos deixa mais forte. Se um dia alguém te disse isso como crítica negativa, está mais que permitido rir alto na cara da pessoa. Veja bem, um dia quero ser tão dedicado quanto você para assustar todos os colegas em sala de aula (a gente corre, mas sempre acaba voltando aos estudos. Taurinos teimosos que somos).

Sei que não é uma mudança definitiva, nem vocês sabem quanto tempo vão ficar por lá. Visita-los não é tão simples quanto ir ao Mato Grosso do Sul e é óbvio que será difícil, mas queria reforçar que vejo um futuro lindo para vocês. Já me pego ansiosa esperando pelas inúmeras histórias malucas que vocês vão me contar daqui alguns meses. Vai ser uma experiência incrível, disso tenho certeza.

Embora esse texto possa parecer um amontoado sem sentido de palavras, seria horrível demais chegar ao dia de hoje sem ter algum registro “físico” de pessoas que me marcaram tanto e, mesmo sem perceber, me deram uma força absurda nos momentos em que só queria abaixar a minha cabeça na mesa e chorar a manhã de sábado inteira. Vou guardar esses meses de curso com um carinho imenso. Não vou me esquecer das nossas brincadeiras em sala da aula, das referências cheias de requintes (ken lee jamais será esquecido), do humor negro, nosso imbatível mauvaise conscience e sim, nossos ocasionais almoços e cervejas.

Engraçado isso, não é mesmo? Surgimos com a ideia de estudar uma língua estrangeira, de repente o estudo passa a ser algo prazeroso e quando menos se espera você começa a chamar aquilo de “terapia”, a única parte da semana em que mesmo tentando entender o discours indirect você consegue relaxar e esquecer um pouco dos problemas. O francês deixou de ser uma obrigação e passou a ser a hora da semana para encontrar um monte de gente querida e de quebra estudar um pouquinho.

Que essa nova fase seja linda, de coração. Naquela frase clichê que todos conhecem de Os Famosos e os Duendes da Morte, “estar perto não é físico”. Mesmo de longe, saibam que estou aqui para o que precisarem – e nunca vou deixar de torcer por vocês. E sim, vai rolar uma bronca bem feia se eu não tiver notícias sempre que possível.

No alarms and no surprises (please)

Foi quase na esquina, uma quadra depois do metrô, perto de uma das únicas bancas que permanecia com as luzes acessas. Dois moços fazendo música – um com uma flauta e outro com um violino. Não tocavam uma música específica. Ou até tocassem, não tive tempo para apurar. Mesmo baixo o som parecia me acompanhar e nunca saberei o que me comoveu tanto. Quiçá fosse efeito da simplicidade dos acordes, tudo tão discreto e ao mesmo tempo denso, e todo aquele acúmulo de dias inteiros, semanas, meses de agonia pura. Uma bola de neve. Aquela que vivem me dizendo para não alimentar. Ignorando toda a vergonha sentida ao encher os olhos de lágrimas em público, chorei. De soluçar. Aproveitei a escuridão do caminho seguinte, aquele trecho curto que me leva até a Praça Dom José Gaspar, parei por alguns minutos e me entreguei copiosamente ao pranto. Não demorei, é verdade. Bem poderia ter sentado no canteiro e degradado ainda mais minha condição de vulnerabilidade, exceto que nessas horas a gente tem o impulso de fingir que é forte depois de uma recaída. Engoli o choro e guardei para dali uns 10 minutos, quando entraria em casa. É como se esse movimento se repetisse todos os dias, minha explosão de desconforto diária. É saber que há algo errado e procrastinar uma busca para solucionar o problema, pois somos vítimas da capital monstruosa e não sobra tempo para cuidar do psicológico.

Boa parte da luta parece em vão e habituar-se à dor, cedo ou tarde, torna-se um fardo pesado demais a ser carregado. Então tentamos dissipá-lo em música, citações de livros, a projeção que traduz tudo isso sem dificuldade. E a falha insignificante segue ali, em formato embrionária, em suposto silêncio. Não quero colocar pompa nas palavras, desculpo-me pela falta de tato e desleixo, só ando assustada demais com esse despertencimento todo, esse descaso pessoal. Abri mão de mim, fui me deixando levar por tanta bobagem achando que não era relevante. Até me dar conta de que aos poucos alimentava essa falha, atribuía-lhe proporções absurdas até virar um buraco no estômago, desse que arde toda vez que me submeto a alguma situação de risco.

Confesso (contrariada) minha fragilidade e apesar de uma possível humilhação, imploro por um pouco de compreensão. Adoraria lidar com naturalidade, saber driblar toda e qualquer situação complicada. Não consigo. Presa a uma cidade que parecia me engolir mais e mais a cada dia, acabei me agarrando com muita força à minha insegurança. Não consegui fugir. Logo eu, que tenho essa urgência para correr quando dou de cara com um perrengue. Hoje até entendo o porquê do incômodo sentido com o bom e velho Creep, aquela música que ninguém suporta (e que admito meu amor velado), I want a perfect body, I want a perfect soul. Só que nasci meio estragadinha, longe de ter uma aparência socialmente aceitável, teimosa, e com essa mania insuportável de me diminuir sempre que possível. Não aceito elogio, tenho medo de qualquer ato ousado, confesso. Não é preguiça, não é corpo mole. É a insegurança – que mais parece uma bola de ferro de no mínimo 100kg. Doloroso constatar que são anos e anos assim. Alimentando essa essência meio errada. Minhas vontades são maiores que o meu corpo e meus temores, bem, não preciso comentar. Sigo com uma vida que está mais para a heart that’s full up like a landfill, no alarms and no surprises.

É bobagem, mas a passagem diária pela quadra que um dia me afagou nunca mais será a mesma. Talvez não esbarre mais nos moços que faziam música. O caminho segue sendo difícil, embora conhecido, e dos mais tortuosos. Espero que nele pare de me reconhecer e possa enfim me encontrar e superar tudo isso. Chegar a essa fé toda que você encontrou, mas que nunca senti.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=eqkgpHnp7Tg]

Be nice, 2011.


“May your coming year be filled with magic and dreams and good madness. I hope you read some fine books and kiss someone who thinks you’re wonderful, and don’t forget to make some art — write or draw or build or sing or live as only you can. And I hope, somewhere in the next year, you surprise yourself.”
[Neil Gaiman]

Mais algumas horas e 2010 poderá finalmente se despedir. De muita gente que mal podia esperar pelo seu fim, de fato. Assim como muitos outros que lembrarão deste ano com saudades. Fico no meio termo, mas pensando com calma, poderia ter sido melhor. Minhas escolhas proporcionaram dias mais difíceis. Mudar de cidade, me adaptar a uma nova faculdade com turmas já formadas e, com isso, aprender a tomar conta das coisas por conta própria.

Cresci bastante. Apesar das dificuldades, aprendi muita coisa e conheci pessoas incríveis. Citar nomes é injusto, pelo receio de deixar alguém de fora. Tive boas surpresas ao perceber que algumas pessoas continuaram ao meu lado e me deram forças, apesar da distância. Fiz reportagens, tomei gosto pelas colaborações no site de cultura geral. E isso não dependeu unicamente da faculdade. Contei com ajuda de pessoas maravilhosas, essenciais na nova fase que iniciei – aprendi a valorizar minha futura profissão, e me apaixonei mais uma vez pela escrita. Consegui me organizar para realizar um dos meus sonhos: estudar francês. E lógico, ir a lugares e eventos que antes só lamentava por não poder ir. Minha lista de shows cresceu (bastante, diga-se de passagem) e ainda me presenteou com amizades maravilhosas.

2010 foi um ano mais “música”. Embora goste muito mais de literatura e cinema, a música marcou presença com maior intensidade. E se fosse possível resumir o ano em uma música, a tarefa ficaria com The Sound of Silence, do Simon & Garfunkel:

Para o próximo ano, desejo a todos muita felicidade. Que 2011 seja agradável, com menos tombos e mais realizações (se não for pedir demais)! Happy New Year for everyone! :)

[So this is the new year
And I have no resolutions
For self-assigned penance
For problems with easy solutions

So everybody put your best suit or dress on
Let’s make believe that we are wealthy for just this once
Lighting firecrackers off on the front lawn
As thirty dialogues bleed into one]