Mostra Internacional de Cinema de SP #2

4) O Garoto que Come Alpiste, de Ektoras Lygizos

É um retrato fiel e bem rico da crise econômica que atingiu a Grécia. Embora seja jovem, Yorkos, o personagem central, é afetado pela situação do país em que vive. Desempregado e sem perspectivas, vive em condições cada vez mais precárias. Ele encara uma colherada de açúcar puro, restos de comida encontrada no lixo e até mesmo o alpiste que alimenta seu canário. O sofrimento de Yorkos é exibido essencialmente pelo prisma da fome, por meio de todas as suas tentativas desesperadas para obter qualquer migalha que lhe preencha o estômago.

Como um todo, é um filme pesado pela agonia que atinge o espectador com facilidade. Mas dois momentos em especial chamaram atenção nesse quesito. Em uma das cenas, o personagem – que possui pouquíssimos acompanhantes em cena e aparece sozinho na maior parte do filme – se masturba e prova do próprio sêmen, como se fosse o suficiente para suprir suas necessidades. Em outra passagem, perto do desfecho, ele mostra a dificuldade para se adequar a outras instâncias da vida. Tenta se relacionar com uma garota e, enquanto se beijam, ela percebe que os cabelos de Yorkos estão caindo. O desabafo da parte dele é objetivo, tão incômodo quanto toda a projeção, e suficiente para afastá-la de imediato.

De certa forma, Yorkos acaba desenvolvendo um lado meio “bicho”. Tudo pela lei de sobrevivência. Assim como aceita qualquer coisa para enganar a fome, improvisa a limpeza da casa e os banhos com um pouco de água que consegue na casa de um vizinho (ou mesmo de suas últimas garrafas de água potável), ele parece definhar e paulatinamente perder suas aptidões como um ser humano. Atenção para os planos sempre focados em Yorkos e para a câmera inquieta, que tenta nos passar um pouco do desconforto do personagem. Esse longa é ideal para quem não tem dimensão do estado da Grécia durante a crise.

5) A Morte Passou por Perto, de Stanley Kubrick

A sessão fez uma compilação, para dizer a verdade. Exibiu os três primeiros curtas de Kubrick e o longa A Morte Passou por Perto. Todos os curtas foram feitos por encomenda: Flying Padre, Day of the Fight e The Seafarers. Flying Padre é hilário, embora não tenha sido essa a intenção do diretor. A culpa é toda do personagem. Day of the Fight é um ótimo trabalho para prestar atenção às primeiras marcas de Kubrick que perduraram por todos os seus filmes. O diretor adorava boxe e, caso alguém não saiba, iniciou sua trajetória profissional como fotógrafo. A fotografia é o recurso mais digno de nota desse curta, que parece até um prequell para A Morte Passou por Perto. The Seafarers, que me desculpem, é uma chatice sem tamanho. Dica marota para o fim da Mostra: a exposição de Stanley Kubrick no Museu da Imagem e Som (MIS) segue até janeiro. E dá para conferir esses curtas por lá.

Em A Morte Passou por Perto, não foram precisos muitos minutos para mostrar que o jovem Kubrick tinha potencial. Conta a história de um lutador meio fracassado que se interessa pela vizinha, uma dançarina, que mora no apartamento da frente (ele a observa em uma cena linda que mais tarde chegou a ser vista como referência ao clássico Janela Indiscreta, de Hitchcock, que foi lançado um ano antes). Claro que esse interesse vem cheio de complicações. Cada tomada renderia um filme à parte, e só mesmo o diretor consegue conectá-las com tamanha maestria. Destaque para a cena final, que exibe uma “luta” em meio a um depósito de manequins.

6) Confissão de Assassinato, de Jung Byung-Gil

O título do longa é o mesmo do livro recém-lançado de Lee Du-seok, um homem relativamente jovem que se diz culpado pela morte de dez mulheres há 17 anos. Choi, desde o início da investigação e muito antes da história de publicação de uma obra sobre as peripécias do suposto serial killer, é o detetive responsável pelo caso. Existe a possibilidade de ser legalmente perdoado por bom comportamento, e Lee consegue.

É legal constatar a quantas anda o cinema coreano. Eles investem pesado em efeitos especiais (mas capricham na hora da zoeira – não sei se é proposital – em momentos significativos do filme) e, não sei em outras produções, mas em Confissão de Assassinato temos uma ótima reprodução da cultura do país. Gosto de observar a forma como as pessoas se comportam. Lee possui inúmeras fãs enlouquecidas e, bem, ele é um assassino. Quando começam a contestar sua condição, explorando a possibilidade de existir um outro serial killer responsável pela morte das moças, as admiradoras ficam indignadas. Elas fazem questão que ele seja esse assassino com cara de bom moço.

Byung-Gil que me perdoe. O longa é bem feito, mas não me convenceu. Além de umas tantas falhas no roteiro, dá para perder a conta da quantidade de cenas desnecessárias. De qualquer forma, acabou sendo válido como “experiência de mundo”. Um retrato básico do tipo de atração feita aos cinéfilos coreanos.

O Garoto que Come Alpiste

A Morte Passou por Perto

Confissão de Assassinato

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Minha curta passagem pela Mostra

Não obtive sucesso na dedicação total à 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo por motivos de vida. Nunca é fácil conciliá-la com a rotina de trabalho e o dinheiro que nem sempre sobra na carteira – ainda mais no fim do mês. Meus poucos filmes foram suficientes para deixar aquela vontade de escrever algumas linhas sobre eles. Vai que eles entram em cartaz ou aparecem em algum festival ao longo do ano que vem?

Dividi as postagens para evitar fadiga.

1) Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, de Ethan Coen e Joel Coen

Antes de qualquer análise, fui fisgada de imediato pela fotografia desse filme. A imagem parece meio borrada e aparece em tons de saturação que intensificam o clima frio (a história se passa durante o inverno de 1961). Os Coen foram bem espertos ao escolher fazer um filme sobre música folk sem apelar para a referência mais imediata – no caso, Bob Dylan. Criaram, com um olhar próprio, um Llewyn Davis que não existe fora da ficção. Oscar Isaac interpreta um músico que enfrenta toda sorte de desafios. Poucos trocados nos bolsos, muita vontade de espalhar seu conhecimento em música pelo mundo, oportunidades cada vez mais escassas e um futuro cada vez mais incerto.

Ele vive de casa em casa, dorme onde tiverem a boa vontade de recebê-lo. Para tanto, vale até partir pela estrada com um desconhecido – Johnny Five (Garrett Hedlund) mal abre a boca e Roland Turner (John Goodman) testa a paciência de Llewyn a cada segundo. No destino, o personagem central tenta negociar com mais um dono de estúdio, sem sucesso. O casal Jean (Carey Mulligan) e Jim (Justin Timberlake) aparece no papel das amizades mais sólidas. Um fato deveras irônico, visto que Jim mais parece um bon vivant indiferente aos atos de Llewyn e Jean vive uma constante frustração pelo caso que teve com o músico. Alex Karpovsky e Adam Driver, ambos da série Girls, despertam a atenção dos fãs com rápidas participações. A de Karpovsky não é lá muito expressiva, mas a de Driver, no papel de Al Cody, desponta como uma das cenas mais divertidas do longa, em que contracena com Timberlake e Isaac durante a gravação de uma composição de qualidade duvidosa.

É um trabalho completamente diferente do esperado para um filme dos Coen. O humor negro, marca expressiva de seus trabalhos, pouco aparece. Não adianta procurar por violência, muito menos por personagens complexos. Talvez não seja tão bem recepcionado pelos fãs, mas é um trabalho marcante independente das mudanças. Para assistir sem fazer grandes comparações com outras produções da dupla.

2) Somente em Nova Iorque, de Bandar Albuliwi e Ghazi Albuliwi

É o primeiro longa de Bandar Albuliwi. Conta a história de um jovem palestino-americano, Arafat (vivido por Ghazi), que é viciado em pornografia devido às suas frustrações com as mulheres: ele não pega nem gripe. Ao procurar ajuda, ele aceita a proposta de um amigo – casar-se com uma israelense que precisa de um green card para permanecer nos Estados Unidos. Começa aquela clássica saga de choque cultural e do casal que se detesta, mas aos poucos vai descobrindo suas semelhanças.

Um clichê ambulante? De fato, a fórmula não proporciona novidade alguma. Ainda assim, não deixa de ser um bom filme. O diretor se inspira claramente em Woody Allen ao realizar as piadas do enredo. Seus personagens não são nada complexos, mas conquistam pelo carisma. Por vezes, se digo que um longa é bom para passar o tempo, aplica-se como um elogio. É o caso de Somente em Nova Iorque. Nada pretensioso, bom para dar umas boas gargalhadas, e arrisco dizer que é um bom começo para o diretor.

3) Como descrever uma nuvem, de David Verbeek

Peguei pelo horário e localização, confesso. Não li sinopse, não tinha a menor ideia do que se tratava. O diretor é holandês, mas a história é ambientada em Taipei e falada em mandarim. Liling é jovem e trabalha com música – não na execução propriamente dita, mas com mixagem. Ela estabelece uma forte amizade um desenhista mais velho e, no mesmo período, recebe a notícia de que sua mãe, que mora em uma ilha com seu irmão mais velho, ficou cega. Ela fica dividida ao encarar a necessidade de estar perto da mãe enferma e ter que dar conta de todas as suas responsabilidades em Taipei.

Com a cegueira, a mãe acredita ter desenvolvido um sexto sentido. A filha, intrigada com essa condição, passa a explorar as diferentes formas de se descrever os arredores para uma pessoa com os sentidos limitados. O filme utiliza uma linguagem bem poética, amparada pela fotografia que constroi verdadeiros quadros na tela. Creio que faltou um toque para finalizar a trama. Fora isso, a montagem é interessante e só pela composição já vale a pena conferi-lo.

(Posto o restante durante a semana)

Como Descrever uma Nuvem

Somente em Nova Iorque

Sobre a brevidade das coisas e o seu efeito devastador

Nunca se engane pela brevidade. Ao ser objetivo, por vezes, um autor engana com suas frases curtas – um toque sutil que pode ser mais mais doloroso que um discurso longo e cheio de pompa. Se há um escritor contemporâneo entendedor desse recurso, é o chileno Alejandro Zambra. Seus dois livros traduzidos e publicados no Brasil, Bonsai e A Vida Privada das Árvores, são bem curtos. Daquelas leituras que você finaliza tranquilamente em uma tarde. Isso, claro, se você tiver o psicológico forte o suficiente para encarar todas as páginas em uma única tomada.

Bonsai, por sinal, rendeu um projeto gráfico bem interessante da CosacNaify, que dialoga com o título e com a tradição japonesa de dobraduras. Não se sintam mal com a vontade de cortar essas margens e deixar a obra mais minimalista. Parece até um recurso para reduzir a carga emocional da trama.

O livro conta a história de Julio e Emilia. Na sinopse, um aviso – não existe um desfecho feliz. “No final ela morre e ele fica sozinho”. A curiosidade do leitor não morre aí. Resta saber como o caminho deles se cruzou, o que os tirou da mesma rota e quais foram os acontecimentos que os mantiveram juntos nesse meio tempo. Eles estudam Letras, motivo que permeia o texto com diversas referências literárias. Entre elas, um lugar-comum entre os amantes da literatura. Ambos mentem que já leram Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust – e sustentam a mentira como ninguém. Para um relacionamento que mantinha tudo às claras, talvez fosse essa a única mentira entre eles. Tudo parecia promissor a ponto de entregar destino do relacionamento a uma planta – o bendito Bonsai.

Em meio ao interesse pelos livros, antes do sexo eles compartilham passagens de diversas obras. Entre elas, um conto de Macedonio Fernández. Intitulado “Tantalia”, o enredo apresenta um casal que compra uma planta para representar o sentimento que os une. Um dia, percebem que se ela morrer, morrerá também o amor que os une. Em uma metáfora bem direta aos descaminhos dos relacionamentos, eles resolvem misturar a planta em meio a uma multidão de plantinhas semelhantes – que acaba desviando suas intenções, tornando-os infelizes ao perceberem que jamais a encontrarão novamente.

A leitura é tão forte que a realidade torna-se insustentável. Emilio segue seu rumo com as letras, Julia vai embora para Madri. Em uma circunstância comum, cada um segue seu rumo. As marcas do passado os perseguem de certa forma, mas a vida segue seu fluxo de uma forma tão natural que chega a provocar certo desconforto no leitor. Aquela constatação de que a vida nos pesa com coisas mínimas, que parecem superficiais, mas são essenciais à nossa construção como ser humano maduro.

Em A Vida Privada das Árvores, é como se observássemos uma extensão do tema abordado em Bonsai. Até o personagem central leva um nome parecido. Aqui, quem protagoniza a história é Júlian. Casado com Verónica, o escritor passa um dia em casa à espera da esposa. Entre os afazeres domésticos e seu trabalho, cuida de Daniela, sua enteada. A garota é novinha e pede uma história ao padrasto antes de dormir. Daí o título. Júlian improvisa diálogos entre duas árvores – o álamo e o baobá. Ambas se veem confrontados por questões existenciais e refletem as angústias de seu narrador.

Preso à espera, ele encara a passividade de quem alimenta uma expectativa já sem grandes esperanças. Ele trabalha em um romance, no qual cria a história de um homem jovem que se dedica a cuidar de um bonsai – quiçá uma coincidência, visto que a obra não é extensa.

Esse “marasmo” caseiro o leva a rememorar passagens marcantes e confabular sobre o futuro. Ele se lembra de seu relacionamento anterior, com Karla, e de todos os seus descaminhos. Ele ainda não compreende os motivos do término. Da mesma forma, pensa no primeiro – e rápido – casamento de Verónica. Chega até a imaginar o comportamento de Daniela ao se deparar com o padrasto já na vida adulta.

Júlian preenche o vazio de suas expectativas com experiências inconclusas, como se não conseguisse manter o controle sobre suas próprias ações e tivesse certo temor pelo porvir. Em uma avaliação geral, seu posicionamento não é nada extraordinário. É justamente esse o ponto da ficção de Zambra nesses dois livros: uma história inventada, porém impregnada de realidade a ponto de provocar inquietações nos leitores.

Em dada medida, ele nos convida a experimentar a sensação de ser uma árvore – um estado de mobilidade momentânea, de permanecer em um local sem perspectivas de mudanças, apenas fincando suas raízes. A realidade de Zambra trata do desconforto de estar na própria pele sem saber ao menos por onde começar para escapar ou mesmo se livrar dessa sensação.

Com sua objetividade, torna tudo ainda mais pontual e agudo. Daquelas coisas que nos incomodam, mas ficam terrivelmente interessantes quando retratadas na literatura.

ZAMBRA, Alejandro. Bonsai. Editora CosacNaify, 2012. Tradução: Josely Vianna Baptista. 64 págs. Preço sugerido: R$27,00.

ZAMBRA, Alejandro. A Vida Privada das Árvores. Editora CosacNaify, 2013. Tradução: Josely Vianna Baptista. 96 págs. Preço sugerido: R$27,00.