Arte com sal de cozinha

Há algum tempo me indignei com a criatividade encontrada por pessoas em momentos de tédio. Ou mesmo aqueles seres que interrompem o trabalho não para curtir o ócio, mas para inventar bobeiras minimamente interessantes. Digamos que essa revolta com o mundo nunca me abandona. Enquanto perco muitas horas do meu dia descobrindo curiosas formas de artes feitas por desconhecidos na rede, esses indivíduos não param de ter novas ideias, uma mais interessante que a outra.

Criatividade inesgotável, vamos combinar. Vou começar a distribuir anúncios pedindo para doarem ao menos 10% dessa capacidade. Porque olha, tá difícil olhar para as coisas inúteis do dia e ter alguma forma de inspiração.

O título deve causar certo susto. Se eu lesse sem saber do que se trata, já pensaria em uma “arte” (vulgo sujeira) feita por crianças. Mas não. O assunto em questão é o trabalho de Bashir Sultani. Ele usa sal de cozinha para “desenhar” cantores, atores, presidentes, entre outros profissionais bem conhecidos. Sultani também recria logos e até mesmo figurinhas populares da internet, como a troll face.

Ele disponibiliza vários vídeos do processo de criação em um canal do youtube. Selecionei alguns para vocês conferirem:

Amor Geek

Pensava que todos estavam cansados da “moda geek”. Aparentemente, o mundo ainda está cheio de gente disposta a perpetuar o amor nerd. Alguns vão ainda mais longe – buscam retratá-la lado a lado com as dificuldades de expressar aqueles sentimentos ditos inexprimíveis. A designer gráfica Nicole Martinez inspirou-se no amor geek para criar a sérieNerdy Dirty“. Composta por imagens minimalistas, os pôsteres, que também são vendidos no Etsy, mostram pequenas declarações amorosas – cunhadas por referências nerds. Afinal, quem mais se declararia dizendo que vocês tem química utilizando a tabela periódica? Ou dizendo à pessoa amada que ela magnetiza seus polos?

Nem tão infantis

Para não perder o costume, terminarei a série “dia das crianças” falando sobre literatura. Se há um ano recomendei livros de literatura brasileira, este ano escolhi apenas livros de literatura estrangeira. E existem outras particularidades – os livros da lista foram divididos em duas partes (ou quase isso). A primeira é composta por livros escritos para crianças, mas que abordam temáticas mais sérias (de forma sutil, em alguns casos). O que os deixa tão propício para crianças quanto para adultos. A segunda representa uma fase intermediária. São livros para adolescentes, da categoria Young adult, que apresentam enredos interessantes para adultos.

Existe algo nostálgico sobre a primeira parte. São aqueles livros que muitas vezes lemos sem muita atenção durante a infância e, depois de alguns anos, ao realizar uma releitura, pensamos – por que eu li isso tão jovem? Desperta um olhar mais atento, e ao mesmo tempo saudosista.

É bem a minha cara começar com o mais óbvio – e também predileto das modelos mais famosas do mundo, diga-se de passagem. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. O autor aparentemente se inspirou no período em que ficou isolado no Deserto do Saara após a queda de um avião, durante a Segunda Guerra Mundial (ele era piloto). Esse livro representa com riqueza o que descrevi acima – quando reli já mais velha, fiquei pensando nos tipos de reflexão que a leitura me proporcionava quando era criança.

L. Frank Baum, em O Mágico de Oz, conta a história de Dorothy. Um ciclone a leva junto com seu cachorro, Totó, até a Terra de Oz. Existe algo meio nonsense na história, e a leitura exige um nível de devaneio semelhante a de outro clássico escrito para crianças: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. O desfecho de ambos alivia um pouco a sensação de loucura, mas o enredo é insano. Reparem: a garota cai em um buraco que não acaba nunca quando corre atrás de um coelho branco. E, bem, vocês sabem que o que ela encontrará por lá são coisas ainda mais malucas. Para crianças, tudo parece engraçadinho e simpático – intuito seguido pelo aplicativo para Ipad inspirado na obra de Carroll. Alice ganhou uma versão toda interativa, bem interessante para os pequenos. Aos mais velhos, a leitura proporciona incontáveis (e curiosas) interpretações.

No colégio, os professores de português sempre diziam que estava na hora de abandonar os livros “com figurinhas”. Nunca simpatizei muito com essa expressão, pois sempre me lembrava dos livros em quadrinhos – e ficava, ao menos quando criança, com a impressão de que aquilo não era literatura. Felizmente, enchi minha infância com livros e revistas do gênero. Escolhi três dos meus favoritos daqueles saudosos tempos…

Conheci As Aventuras de Asterix, de Réne Goscinny e Albert Uderzo em alguma apostila bem antiga, provavelmente do Ensino Fundamental. Cansada de ler tirinhas soltas, fui atrás dos livros. Na época, li todos publicados em português. E tinha colegas que faziam o mesmo. O que achávamos engraçado e parecia despretensioso estava cheio de referências interessantes – que certamente passavam despercebidas perante nosso desconhecimento. Fatos históricos, trocadilhos nos nomes dos personagens, religiosidade, entre outros.

Sem contar as citações de figuras importantes da cultura pop. Personagens das Aventuras de Tintim, de Hergé, Dupond e Dupont fazem “participação especial” em um dos livros de Asterix. A obra ganhou uma versão cinematográfica há pouco tempo, e, como muitas pessoas da minha idade, conheci inicialmente pela versão em desenho animado. Tintim é um pouco mais sério, se comparado com o trabalho de Uderzo e Goscinny. Tanto que o autor foi acusado de racismo pelo modo como retratava os africanos na história. Embora voltado para o público infantil, ele trazia algumas questões dignas de discussão adulta.

Para finalizar a primeira parte, escolhi o trabalho do britânico Martin Handford. Não há muito texto – apenas ilustrações em páginas imensas. Quando crianças se divertiam com muito pouco, Onde Está Wally? era uma ótima pedida. Dava para passar tardes inteiras atrás do carinha vestindo uma camisa listrada em vermelho e branco e o típico óculos fundo de garrafa. Prefiro não desenvolver muito minha opinião por aqui, mas considero alguns volumes extremamente existencialistas. E se eu não tinha tato para perceber isso antigamente, já notava algumas coisas meio bizarras. Pessoas sendo torturadas, Leões usando o banheiro, para citar alguns Exemplos. O site youpix fez um post destacando algumas destas coisas estranhas.

Os três livros finais da minha pseudolista são young adults. Queria incluir outros, mas o post ficaria gigantesco e ninguém leria (alguém chegou até aqui, por sinal?). No Brasil, assemelham-se ao gênero infanto-juvenil mesmo – livros para adolescentes, com histórias que abordam temas mais sérios que permeiam o universo de jovens prestes a encarar a vida adulta.

O primeiro me leva para terreno desconhecido. Depois de assistir ao filme, descobri que era inspirado em um livro. It’s Kind of a Funny Story, de Ned Vizzini, conta a história de Craig, um jovem de 15 anos. Sobrecarregado com o novo colégio e incapaz de suportar as dificuldades que vão lhe aparecendo aos poucos, ele se interna em uma clinica psiquiátrica. O filme é até simpático – não tem nada de extraordinário. Se o livro seguir a mesma linha, aviso de antemão – não é tão bobo quanto parece. Na clínica, ele encontra pessoas com problemas sérios de verdade – e só assim percebe o quanto seus dilemas parecem pequenos. O longa chegou ao Brasil com um nome bastante ridículo (caso alguém se interesse): Se Enlouquecer, Não Se Apaixone.

Não falarei muito sobre Looking for Alaska, de John Green, pois já o resenhei por aqui. É o típico livro sobre os questionamentos característicos de jovens americanos presos na infernal high school (o nosso ensino médio). É uma obra sutil, e a história é bem envolvente. Um bom livro. Citei a tradução na resenha, mas preferiria não fazê-lo outra vez.

Para finalizar, o primeiro young adult que li – em inglês mesmo, há muito, muito tempo – The Perks of Being a Wallflower, de Stephen Chbosky. Já tem tradução para o português. O personagem central, Charlie, embora não aparente, é bastante complexo. Ele também acaba de entrar no ensino médio e narra seus percalços. O que mais gosto neste livro é a forma como o jovem cresce intelectualmente. Um dos professores lhe apresenta os clássicos da literatura e, a cada contato com esses autores, Charlie parece amadurecer sua escrita.

A obra contempla muito bem a temática em questão neste post. A problemática da obra – que certamente não revelarei – aborda um assunto sério, que não pode ser encarado com muita facilidade por qualquer adolescente.

Dicas finais, a quem interessar possa:

O Meia Palavra fez um ótimo post com os Livros que marcaram nossa infância.

Em maio de 2010, o Guardian fez um especial parecido, com a seleção dos melhores livros infantis.

O dia das crianças pautado por dois extremos

Ano passado fiz um post especial para o dia das crianças, indicando duas coleções de livro (com uma dica “extra”. Vocês podem conferir aqui) e dois filmes. Para não me repetir, resolvi aproveitar a temática ao longo dos dias que antecedem o feriado e, certamente, preparar um especial para o dia 12. Comecei ontem com a resenha de Capitães da Areia. Na véspera do dia das crianças, optei por pautar dois extremos. Os primeiros dias de existência, em contraponto com o jovem curioso e com maturidade superior a indivíduos da mesma idade.

Arrisco dizer que vivemos em uma era pouco sensitiva a surpresas. Toda novidade possui uma roupagem de coisa datada. Os recados são recebidos, usualmente, via e-mails ou simples recados nas redes sociais. Fatos que gostaríamos de relatar com calma para ressaltar a importância, são resumidos em 140 caracteres. Nessa troca de informações ausentes de tempo suficiente para apreensão, pouco sabemos sobre a reação das pessoas.

O britânico Tom Robinson inspirou-se no triste lapso de atenção da sociedade atual, criando a série de fotos I’m going to be a dad que registra a reação dos parentes, amigos e colegas de trabalho ao receber a notícia de que ele seria pai. É interessante a ideia de guardar um estágio importante da paternidade.

As câmeras digitais são ótimas por isso – se antes reuníamos algumas pilhas de fotos de quando éramos crianças, hoje os bebês acumulam mais de 10gb de fotos no computador com apenas dois anos de vida. De certa forma, Robinson guarda o momento desde o traço inicial – a recepção de algo tão importante para ele.

Um ponto ideal para iniciar o álbum – ou, no caso, a pasta no computador – para a criança que está por vir. Selecionei algumas, mas, como de costume, recomendo uma visita completa ao site do fotógrafo.

E eis que aparece um garoto – nem tão criança, porém jovem, apaixonado por cinema. Com apenas 14 anos, Mahdi Chowdhury é designer e realizou um trabalho especial com seus diretores favoritos. E os nerds precoces que me perdoem, mas com a idade desse menino eu estava conhecendo o trabalho desses cineastas – de uma forma bastante singela, vale reforçar.

Frágeis apenas na aparência

A obra é detalhista – em poucas páginas, o leitor sente-se nas ruas de Salvador, como se acompanhasse em tempo real uma história contada por um transeunte. Capitães da Areia não obteve o status de livro mais conhecido de Jorge Amado em vão. Chega a ser redundante falar sobre os problemas ao transportar um trabalho da literatura para o meio cinematográfico, mas seria um erro não destacar um fator tão importante quando o título em questão possui tamanha relevância.

A história apresenta um grupo de meninos de rua abandonados pela família. Realidade muito comum no Brasil, mas que aqui é contada tendo Salvador como pano de fundo. Ao mesmo tempo em que precisam aprender a lidar com as mudanças decorrentes da adolescência, lutam pela sobrevivência nas ruas da cidade.

Os Capitães da Areia são um grupo numeroso de garotos que vivem em um antigo trapiche abandonado. Neste local, eles planejam de tudo – desde pequenos furtos até golpes mais elaborados. Um contraste entre as nuances características da infância e da vontade de assumir uma postura adulta. No mesmo espaço, eles também recebem aulas de capoeira ministradas por Querido-de-Deus (Marinho Gonçalves), um famoso capoeirista da cidade.

As personagens centrais possuem perfis bastante peculiares. O filme concentra a trama em três deles. Pedro Bala (Jean Luis Amorim), apesar de ter apenas 15 anos, é a cabeça do grupo. Ele concilia a fragilidade jovem com a postura adulta para zelar por todos os meninos e organizar os planos. Professor (Robério Lima) é o “intelectual”, que sempre proporciona momentos de descontração ao grupo, contando-lhes histórias e também assume as tarefas de líder na ausência de Pedro Bala. Para fechar o triângulo amoroso, surge Dora (Ana Graciela). Ela perdeu os pais e, desde então, transformou as ruas em lar, acompanhada pelo irmão mais novo. Professor, que se encanta de imediato, leva-a ao Trapiche. O contato inicial com o resto do grupo é conturbado, mas a personalidade forte da garota logo impõe respeito.

No livro, todas essas particularidades são bem exploradas. A obra é dramática, e, embora a leitura seja envolvente, a carga psicológica é pesada. Um personagem como Sem-Pernas, por exemplo, dá conta desta complexidade. Ele é uma das criaturas mais conflitantes – ao mesmo tempo em que tira vantagem do fato de ser aleijado para ajudar o grupo (ele aproveita sua condição para conquistar a piedade de senhoras ricas e, depois, dá passagem para que o grupo realize o roubo), convive com o desejo de ter uma família de verdade.

Cecília Amado e Guy Gonçalves optaram por fazer uma releitura mais amena, sem omitir por completo as passagens desoladoras enfrentadas pelos personagens. Como diretor de fotografia, Guy Gonçalves fez bom uso dos cenários marcados pelas cores quentes de Salvador. A trilha sonora de Carlinhos Brown, bem trabalhada, oferece a ambientação ideal ao enredo.

Na tentativa de criar uma versão mais leve de Capitães da Areia, a cidade e as tradições religiosas características, como o candomblé e a festa da Iemanjá, que apenas pontuam certos trechos da obra, conquistaram papéis maiores na versão cinematográfica.

Capitães da Areia prova-se como um bom filme. Uma homenagem mais “pop” e afim com a celebração do centenário de Jorge Amado, que será comemorado em 2012.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero] 

Emaranhado de palavras 1.0

Bem que as pessoas dizem: o tempo escorre pelos nossos dedos. Sua textura é líquida e é impossível ampará-lo apenas com duas mãos. De forma singela, quando menos se espera, o calendário adquire um formato mais fino após a retirada de tantas folhas. Dar-se conta de maneira súbita, meio no susto, é ruim por passar a impressão de que praticamente nada mudou.

Ledo engano. Seria ousado da minha parte dizer que nada aconteceu depois de um ano. Em 5 de outubro de 2010, escrevi algumas linhas introdutórias para abrir este blog. Da mesma forma despretensiosa com que escrevo até hoje. Não vou pormenorizar para evitar a prolixidade e também os olhos dos leitores.

Limito-me a dizer que estou satisfeita com o resultado final deste espaço. Embora as atualizações não sejam frequentes, adoro preparar posts para o blog. Escrevo sempre com muito cuidado e procuro ser seletiva com relação aos assuntos. A página é plenamente minha. Aborda assuntos que me apetecem e possuem uma ordem que segue meu ritmo de vida – embora de forma bastante indireta.

Ele também continua tão discreto como eu. E apesar deste jeito acanhado, cada comentário é recebido como um presente – minhas doses esporádicas de regozijo, das quais chego a me envergonhar por não responder com a atenção necessária.

É… muita coisa mudou. Agradeço a todos que acompanharam a página desde o início, que caíram aqui por um acaso e que depositam alguma fé no futuro do De Maneira Alguma… Não quero nada muito pomposo. Logo, dispenso imagens, vídeos. Apenas agradeço aqueles que me ajudaram a manter este blog – direta ou indiretamente. Seus lindos <3