Migrei!

Caros seguidores,

é com pesar que anuncio a mudança deste blog. Tenho muito amor pelo DMA, que me acompanhou nos últimos anos apesar das atualizações esporádicas. E não quero ir lá e apagar tudo como se ele nunca tivesse existido. É parte de mim e da minha história, então vai ficar aí para reler quando der saudades e, claro, para quem quiser conferir posts antigos.

Quem gosta dos textos e quer continuar me lendo, poode seguir no endereço novo. Espero que gostem! Bem-vindos ao Lidy com isso <3 Entrem lá, tirem os calçados e sintam-se em casa. Podem assinar também porque tenho coisas legais em vista.

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Beijos a todos, obrigada por me acompanharem, e boa leitura!

Algumas palavras sobre ser mulher no mundo de hoje

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“Porque assim, eu não me arrependo de ter nascido mulher”. Há atos falhos que vem para o bem. Esse aí pipocou em algum momento da análise, quando discutia questões do corpo e feminilidade. Porque quando se é criança, quando a pessoa não contesta, segue-se a cartilha. Usamos as roupas e sapatos que nossos pais compram e optamos por atividades escolhidas por eles. Quando cheguei na adolescência, virei rebelde e rasguei a cartilha em pedacinhos. Minhas prioridades eram ler, ver filmes e assistir ao Disk MTV no fim da tarde. Com tantas ocupações, quem ousou pensar que sobraria tempo para escolher roupas, acessórios, sapatos? Nunca vou me esquecer do dia em que uma colega de sala virou para mim, às 7h da manhã, e perguntou por que eu não usava maquiagem – com expressão de choque, como se fosse algo muito fora do comum para uma menina de 12/13 anos. Para mim, o mundo ideal consistia em calça jeans, camiseta larga e tênis confortáveis. Não fazia sobrancelha, nem as unhas, e os cabelos… bem, são um caso à parte.

Vale dizer que menstruei muito cedo, então sempre houve dificuldade em lidar com a explosão de hormônios. Hoje acredito que o fato de sangrar desde muito cedo endossou minha rejeição com todas essas obrigações femininas. Menstruar, para ser sincera, foi um grande inferno. Embora fosse pirralha, aquele sangue foi minha primeira chave à vida adulta. Um alô de consciência corporal – era a hora de ver meu corpo mudar e preparar os ouvidos para o tão insuportável “agora você é uma mocinha”. Uma carga de obrigações que me parecia deveras ruim. Para uma pessoa que mal se conhecia, era muito difícil ter que abandonar o mundo ideal de brincar da rua e ser criança para “virar mocinha”.

Depois de quatro anos lutando contra mim mesma, resolvi pedir bandeira branca por um tempo. Pouco depois de completar 14 anos, decidi ir a uma nutricionista. O fato de passar a cuidar do corpo fez com que eu tivesse mais carinho por ele – foi quando comecei a me preocupar mais com questões estéticas, roupas e afins. Não que tenha ficado obcecada, só passei a prestar mais atenção, a querer comprar coisas e não só usar o que ganhava.

Contar uma experiência do passado assim passa a impressão de que o processo foi rápido. Tudo isso levou um ano inteiro, essa transição dos 14 para os 15 – e olha, foi só a primeira etapa. Na cabeça oca da adolescente seria uma forma de enfim me sentir parte de algo – uma noção horrorosa de tão tola. Sem ter dimensão que isso só pioraria as cobranças sociais. Porque você não pode levar tempo para se conhecer – tem que ser aquela mudança brusca, da água para o vinho. Na minha cabeça seguia aquela guerra – porque preciso acelerar um processo que pertence a mim e a mais ninguém?

Até hoje é uma batalha, e toda essa questão desencadeou outros tantos problemas na minha vida. Custei a dar ouvido ao meu próprio corpo, o que me gerou uma gastrite. Mas o fato de escolher o caminho mais longo e demorado me fez enxergar muitas coisas sobre ser mulher. Minha maior aquisição dessa experiência foi o respeito. Cada uma tem seu ritmo, seu jeito (ah, isso vale para qualquer gênero) – se existisse um padrão, provavelmente estaríamos vivendo uma realidade de Admirável Mundo Novo, e isso não seria nem um pouco agradável.

Sempre odiei o fato de ser branca demais. Odiava tanto que ao colocar um vestido ou uma saia queria chorar, sentia muita vergonha das minhas pernas. Pode parecer bobo, mas precisei começar a fazer academia para enfim me desligar disso. Por mais insuportável que esse ambiente possa ser, ele nos mostra uma gama bem variada de mulheres: aquelas bem magras, meio termo, mais cheinhas. Mais do que isso, são biotipos tão distintos que poderia passar um dia inteiro só falando sobre cada um. Passei a enxergar melhor as mulheres, sem raiva. São justamente essas diferenças que nos tornam tão especiais. Não existe unidade, e aqui vale bandar um abraço para todas as revistas femininas que querem nos impor um padrão de mulher magra (quase seca), mas que parece muito saudável graças à diversas técnicas de fotografia e photoshop. Tendo essa percepção, passei a incluir vestidos e shorts no meu vestuário. Foi preciso lidar com pessoas dizendo “nossa, parece que você tá com uma meia-calça branca”. Por mais chato que fosse, fiquei surpresa com o quanto as pessoas elogiavam.

O mesmo serviu para os cabelos. Foram muitas progressivas, alinhamentos, e cabelos lisos que pareciam esconder minha essência. Nesse nível. Falei sobre isso uma vez no blog, não tem nada mais libertador que ter assumido meus cabelos e conseguir gostar dele mesmo nos dias em que acorda todo desordenado.

Como se todas essas questões de aparente trivialidade não fossem importantes, temos o adendo homem. Porque na idade em que todas dão lá seus primeiros beijos, quem não pega ninguém é uma encalhada mal amada. Quem fica com um por semana é fácil e vagabunda. Ainda não inventaram meio termo, porém haverá sempre um rótulo pronto para suas atitudes. O homem, quando arruma um cardápio de mulheres, é garanhão. É estimulado a bater punheta desde cedo – afinal, isso testa a virilidade do cara, faz dele mais macho. Comer geral é só extensão disso. Aí me aparecem amigas que NUNCA se masturbaram. Porque é nojento, é coisa de mulher descontrolada que tá subindo pelas paredes. A pessoa cresce com essa noia de que masturbação é um monstro e em uma dessas deixa de conhecer o próprio corpo – o suficiente para, por vezes, não conseguir atingir um orgasmo quando faz sexo. Óbvio, quem vai conseguir gozar com outro quando nunca gozou sozinha?

Não sendo da categoria encalhada, existe ainda aquela obrigação de casar. A coitada vai lá, casa mais para agradar a família – pois convenhamos, a imposição de outrora deu uma dissipada considerável, ainda mais na atualidade, quando qualquer um pode juntar os trapinhos sem a obrigação de formalizar a união. Então começam a perguntar quando é que o filho chega. Como se fosse barato e fácil colocar mais um ser humano no mundo. Aliás, sobre isso, vale conferir o vídeo da sempre maravilhosa JoutJout. E as “encalhadas” precisam correr, pois é feio ficar para titia.

Cereja do bolo (e todos achando que já estava de bom tamanho até aqui): além de ser magra, esbelta, manter a pele sempre bem cuidada, casar e ter filhos e continuar maravilhosa, tem ser bem sucedida. Pois virou moda ser empreendedora desde cedo. Aqui vale fazer um adendo – fico feliz ao ver mulheres conquistando espaço no mercado de trabalho, mas bem, ainda ganhamos menos que os homens e isso precisa mudar.

Em resumo, temos fardos pesados demais para carregar. É tanta cobrança da família, dos amigos, da sociedade como um todo, que por vezes esquecemos de nos cuidar, negligenciamos tudo que nos é tão caro para tentar fazer parte do padrão – que mesmo parecendo muito correto e aceitável, ainda é contestado. Impossível agradar, por mais que a gente se esforce.

Essas são só algumas das construções sociais que engolimos todos os dias. Felizmente, somos livres para contestar tudo e seguir nosso caminho. Escrever e assinar nossa própria história, sem influência dos outros. Toda vez que vejo qualquer menina/mulher confrontada com tudo isso, ofereço meu apoio, e todas deveríamos ser assim. O feminismo é lindo e está longe de ser coisa de “mulher mal comida” (aliás, vamos parar de dizer que uma mulher estressada precisa de uma boa trepada?). Devemos unir forças e lutar pelos nossos direitos como mulher todos os dias.

perder-se também é caminho

“Perder-se também é caminho, dizem. Pouco matutei antes de comprar passagens e efetuar reservas em hostels – mesmo se não houvesse companhia, sentia necessidade de tentar. Se desse errado, paciência. Ao menos tentei dar um passo adiante. O sono neutralizou a ansiedade no caminho de casa até a bem quista estação Besançon Centre-Ville, parecia graça perto do meu desespero enquanto não anunciavam a plataforma do tal TGV-Lyria. E aquela estação toda igual, com corredores que se repetiam e me deixavam um tanto apavorada ante a possibilidade de me perder naquela cidade desconhecida. Nas costas, uma mochila emprestada e um tanto pesada, pessoas estranhas que reclamavam da gripe e as janelas abertas do tram, jovens que bebiam chopes tão gelados quanto o vento cortante às 11h da manhã, um hostel tão acolhedor quanto um hotel.

A sensação de estar sozinha nunca fui tão confortável.

Depois de me perder pelo centro da cidade sem destino marcado, esbarrei no museu de Magritte, um dos meus pintores favoritos. Perambulei em seguida pela Ilha dos Museus, onde pude conferir, sem atropelos, “A Morte de Marat”, de Jacques-Louis David. Tudo parecia tão fluido e agradável. Dava para descansar os pés sentando em uma esquina qualquer – toda cerveja belga é boa e alivia qualquer dor nos pés e nas costas. Deu vontade de chorar quando a fantasia acabou e me perdi no caminho de volta ao hotel, mas o coração ficou mais tranquilo quando um desconhecido tomou meu mapa em suas mãos e andou comigo até avistar o hostel do outro lado do canal.

Teve duas idas ao Delirium Bar sozinha, e ainda tive a ousadia de conversar com um casal de brasileiros que por um acaso pediu cerveja ao meu lado, eu, que estava sentadinha quase abraçada ao balcão (ninguém precisa mencionar o fato de ter conversado com mais gente ainda, inclusive um cara que estava de camisola e peruca da Sia). Teve cara de pastel ao descobrir que a moça fez faculdade – em São Paulo – com um amigo de infância da minha cidade natal. Como era interessante rir de tudo aquilo, encontrar divertimento nessas coincidências loucas da vida. O diálogo só se deu graças ao combustível, aquela sequência aleatória de pedir uma cerveja do cardápio a esmo e ficar atenta aos rótulos servidos aos outros. Escolher pela cor. A textura. Me sentir gloriosa pelo bobo fato de pedir duas cervejas ao mesmo tempo e revezar bicadas. Sozinha.

E voltar no dia seguinte só para dizer tchau. Um até breve, quem sabe. A despedida de quem não quer deixar partir assim tão rápido.

Bruxelas me encantou por não ser nada certinha e mandar um belo dane-se aos padrões. A começar pela Grote Markt, com suas construções monumentais e uma em específico, feita por diferentes arquitetos e apresentando diferentes formas em uma unidade só. Ruas estreitas e abarrotadas de turistas nos distraem com os quadrinhos espalhados pelos muros, os bares e restaurantes com mesas e cadeiras do lado de fora, as lojas de souvenirs que vendem cervejas (afinal, até cerveja é souvenir na Bélgica), os parques cheios de flores e com gramados verdinhos da primavera iminente, quiosques de waffle a cada esquina.

Foi minha primeira incursão rumo ao desprendimento do familiar. Não tinha consciência na época, embora sentisse o efeito penetrando na derme. Um grito tímido de liberdade, a sensação de ousar botar a boca no mundo só pelo gosto de sorrir à reação. Observar o mundo se moldando a um olhar meu. Sem ninguém para dizer onde ir, quando ir. Sem horários, sem compromissos. Tratando a tortuosidade com afeto.

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left alone

Perdi as contas de quantas vezes definiram depressão como frescura, charminho de gente carente por atenção. Ouvi que era falta de ocupação, que o certo seria procurar coisas para me distrair ou fazer uma yoga básica, que deveria agradecer por estar viva e “com saúde”. “Tanta gente morrendo, vítimas de doenças terminais, e você não dão valor ao que tem”. Nós de fato agradecemos por ter saúde física, um emprego que pague as contas, mas ao mesmo tempo imploramos para que tudo pareça uma solução simples com a mesma facilidade com que nos pagam um salário merreca que nos sustenta cada mês.

Nós reconhecemos o que temos, não somos lá tão ingratas. Mas também não sabemos explicar o quão custoso é se movimentar para fora da cama, preparar um lanche e se enfiar dentro de uma roupa que não seja aquela camiseta velha. Isso nos dói nos ossos, falta vontade de viver. Algo tão doloroso que nos sentimos até cruéis ao exprimir, como pode uma pessoa não sentir vontade de viver enquanto tantas outras batalham para continuarem vivas?

Travamos discussões diárias com o próprio cérebro, que definha cada vez mais com o passar dos dias. Nós queremos enfiar todos esses dizeres goela abaixo. No lugar disso, terminamos por sentir repulsa e ódio da figura observada no espelho, pela incapacidade de dar um passo adiante, por ceder com tanta facilidade à fraqueza. Passamos a rejeitar até mesmo passeios com os amigos, porque o simples fato de conversar passa a ser uma tortura. Nada a ver com fazer corpo mole ou não se esforçar pelas pessoas que guardamos afeto. É algo mais forte, que foge do nosso poder – tipo tentar segurar água com as mãos. Você quer fazer um agrado, ver todos que estiveram ao seu lado em momentos de felicidade, mas tem algo lá no fundo que te guia e não dá o menor apoio. Dá vontade de se atirar na frente de um ônibus por puro ódio, porque de repente até o controle dos próprios pensamentos é perdido. Teu corpo para de te obedecer, a mente vira sua pior inimiga.

Seria lindo se fosse frescura e passasse com o simples ato de arranjar uma ocupação ou sair para correr. Por sinal, todas essas mensagens de apoio só nos deixam pior, porque passamos a sentir culpa por sermos tão injustas E ingratas com esse negócio chamado vida, que nos foi oferecido numa bandeja, great opportunity, e rejeitamos sem ao menos dar uma segunda chance. Ouvi relatos de muitas amigas/conhecidas que sentiam vergonha em admitir que começaram a fazer análise ou estão tomando antidepressivo, afinal, é uma vergonha assumir que tem depressão. Fato: há quem use isso como desculpa para ter atenção, nem tudo é perfeito e o mundo é uma zona desde os tempos em que seres humanos nem existiam. Receber um diagnóstico, todavia, é tão ruim quanto saber de uma doença terminal, me desculpe.

Perder as rédeas da própria mente é das coisas mais dolorosas, e a intolerância diária só torna as coisas mais difíceis. Não é tão difícil ter um pouco de tato ao encarar uma pessoa depressiva. Não precisa dar conselho e despejar mensagens motivacionais. Se você não tem paciência para essa “frescura”, corte laços, tome distância. Se está disposto a ajudar a pessoa a sair do buraco, ofereça apenas um abraço e seus ouvidos. Mostre-se disponível caso a gente precise, mas não pressione com soluções práticas.

Li dois textos bem interessantes sobre o tema e tentei colocar em poucas palavras – e sem uma vírgula de subjetividade – a minha experiência pessoal. Espero que o conteúdo sobre depressão não pare de crescer e faça com que as pessoas pensem um pouco mais antes de chamá-la de frescura ou coisa de gente fraca.

how can i ask anyone to love me when all i do is beg to be left alone?

how can I ask anyone to love me when all I do is beg to be left alone?

 

Nunca brinque com os astros

Maldito 21 de março. Dava para chamar de mera coincidência, mas não se deve brincar com os astros. Nem ouso negar minha conexão “”com o universo””, visto que sou uma pessoa sensitiva demais e sempre encontrei respostas ligadas a sensações. Agora vai lá brincar de enfiar TRÊS eventos astronômicos no mesmo dia, dava para visualizar a treta de longe. Porém tão bonito o eclipse solar com aqueles óculos de papel, tão embasbacada estive, os pensamentos de catástrofe passaram bem longe da minha inocente cabeça oca. O ato de ver o eclipse uma última vez antes de descer as escadas e retomar a vida me deu um choque. Em cinco minutos detectei um turbilhão dentro de mim e foi tão estranho que até agora não sei explicar o que senti. Era pior que TPM, coração partido, notícias ruins em geral. Um desconforto interno sem pé nem cabeça e que não se transformava em nada. Zero vontade de chorar, zero vontade de conversar para explicar – afinal, eu nem entendia o que estava acontecendo. Só lembro-me de querer me enfiar dentro de uma caixa e passar o dia lá mentalizando coisas boas pra ver se conseguia me livrar dessa loucura.

Vale mencionar um mix de resfriado com gripe que me deixou com a garganta zoada, tosses frequentes e um nariz um tanto quanto emotivo. Também havia um dossiê pra terminar e alguns trabalhos do curso, mas a maluca só queria saber de ficar isolada com seus pensamentos imbecis.

Fui pra Dijon no sábado seguinte, 22 de março, e tudo começou com a carona cancelando a viagem quando já estávamos no ponto de encontro. Porque a vida tem dessas, talvez fosse até um sinal. Fiz questão de ignorar teimando na passagem de trem (ainda bem, ainda bem que teimei). Viajar é revigorante e temos a sensação de que tudo se resolve instantaneamente. Risos. Cheguei em casa à noite e tão morta de cansaço que só conseguia pensar na sequência ducha+cama. Dito e feito. Bastaram 5 minutos bem acomodada na minha cama para ser contemplada pela gentileza desse sistema digestivo maravilhoso: diarreia. Se vocês acham horrível ter dia de rainha, imaginem só passar por isso em outro país, sem remédios e sem ter muito pra onde correr.

Há quem interprete como um momento de renovação. A diarreia veio para limpar as energias ruins e levá-las embora, que nem aquela vez pós Heliodora, quando vi a morte de perto em forma de virose. Gosto de acreditar nessa versão escatológica de passar por uma transição forte na vida, mas confesso que após resistir aos eventos estou BEM temerosa com o porvir. Rezem pela minha alma.

Tão linda Dijon, porém tão dolorida a sequência de retorno

Tão linda Dijon, porém tão dolorida a sequência de retorno

Expressionista

Acordei, olhei para o espelho e vi O Grito, de Edvard Munch. Meio distorcida, um pouco cinza, com um colorido psicodélico ao meu redor, e essa expressão maluca de pânico. Não sei como chegou até mim, mas aí está e se acomodou e já se sente dona de casa. Virei chef-d’oeuvre do expressionismo. As pessoas olham para mim e enxergam todas as angústias e ansiedades do ser humano.

Fiz o movimento retrógrado. Sempre fui desconexa e de difícil apreensão – ou aberta a interpretações bem subjetivas. Se fosse necessário rotular, estava mais para o surrealismo. Embora tivesse esse toque de arte contemporânea, que você olha, pensa  “que merda, isso aí não diz nada e até eu conseguiria fazer uma ‘obra de arte’ assim”; enquanto outra pessoa observa e encontra toda uma razão de ser para aquela mistureba aparentemente sem sentido.

E aí fui voltando, fui ganhando uns tons escuros, por vezes achei que fosse obra do Barroco. Depois de muito transitar, é definitivo: estacionei no expressionismo. Devo ter me acomodado, a carapuça serviu, essas coisas. Só me dei conta ao fazer um exame minucioso frente ao espelho. Virei uma cópia fajuta de Munch, céus. E não sinto que valha nem metade dos milhões pelo qual foi arrematado em um leilão.

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