Morte Súbita, de J.K. Rowling

“You must accept the reality of other people. You think that reality is up for negotiation, that we think it’s whatever you say it is. You must accept that we are as real as you are; you must accept that you are not God.”

Por Thais Sawada*

Sou daquelas que cresceu com Harry Potter. Como muitos integrantes da chamada Geração Y, entrei no universo de Hogwarts antes dos meus 11 anos e devorava os livros à medida em que eles eram lançados. Devo dizer que o vício persiste até hoje. Portanto, quando J.K. Rowling anunciou que escreveria uma obra voltada para o público adulto, me animei imediatamente. Afinal, em Morte Súbita poderia conhecer suas habilidades com as palavras no mundo dos trouxas.

Bem longe de toda a magia e feitiços de Harry, o cenário agora é uma pequena cidade chamada Pagford. Daquelas que possui tão poucos habitantes que todos se conhecem – quer se gostem ou não. No caso, é mais provável que todos se odeiem. Entretanto, existe uma figura que parece contar com a simpatia da grande maioria: Barry Fairbrother, membro do Conselho da cidade. Quando ele falece repentinamente, o seu cargo fica em aberto e tem início a corrida pela vaga. Disputa de poder, muitas fofocas e desejos de que os concorrentes sejam destroçados. É assim que as coisas funcionam.

Mas além de Pagford, também existe a cidade vizinha, Yarvill. E, entre elas, uma área denominada Fields, em que moram pessoas pobres – que são vistas como problemas para os mais afortunados. As duas localidades, portanto, tentam jogar a responsabilidade uma para a outra. É principalmente esse assunto que divide os candidatos à vaga do Conselho: há aqueles que pretendem fazer de tudo para que Fields faça parte de Yarvill e aqueles que acreditam que os seus moradores devam ser integrados à sociedade de Pagford. O tema da responsabilidade social é bastante discutido no livro, aliás.

Nessa confusão toda, Barry funciona como um personagem que, mesmo não estando ali, move a trama. Ele mantém-se presente mesmo estando ausente. A história, no entanto, é contada a partir da visão dos moradores de Pagford, que são vários. No núcleo adulto, temos Howard e Shirley Mollison, os primeiros a lutar para que Fields torne-se parte de Yarvill. Compartilhando o sentimento, temos o filho do casal, Miles. Já sua esposa, Samantha, não liga para o assunto. Para ela, o que importa mais são os seus planos da juventude, que agora veem-se frustrados.

Simon Price, casado com Ruth, é outro na disputa pela vaga. Sempre recluso em sua casa, não é muito popular entre os outros cidadãos. Que o diga seus filhos, que precisam suportar seus ataques de fúria. Já Colin Wall, vice-diretor da escola de Pagford, precisa lidar com seus demônios. Para isso, tem o apoio da mulher, Tessa – orientadora na mesma instituição, sempre disposta a ajudar os alunos problemáticos. Sua melhor amiga é a médica e também membro do Conselho, Parminder Jawanda.

Em meio a tudo isso, Mary Fairbrother sofre com a morte do marido e Gavin Hughes se arrepende do relacionamento com Kay Bawden, assistente social que fica encarregada da família de Terri Weedon – desempregada, drogada e perdida na vida, que deveria cuidar de seus filhos, Robbie e Krystal, mas que acaba sendo cuidada pela primogênita. A maioria dos adultos é arrogante e desagradável. Não é fácil desenvolver simpatia por eles – salvo algumas poucas exceções.

É com os personagens adolescentes que Morte Súbita ganha força: Bola, Andrew, Gaia, Sukhvinder e Krystal. Esta última, personagem que liga vários dos núcleos presentes no livro. Rowling consegue realmente tornar a história interessante quando se aventura no mundo teen. Entretanto, não se engane: os jovens não são fáceis de se gostar como os Weasley. Eles são muitas vezes rancorosos e egocêntricos. Mas à medida que os conhecemos melhor e compreendemos os seus pensamentos, medos, inseguranças e segredos, entendemos também seus modos de agir. As dúvidas e necessidades de todo adolescente estão representados ali.

Os personagens, em geral, são bem construídos. Existe uma profundidade com relação às suas personalidades – são bastante tridimensionais. Entretanto, os defeitos tendem a se sobressair, fazendo com que tudo em Pagford tenha um clima um tanto pessimista. Crueldade, miséria e desespero são comuns. Assim como toda a violência, bullying, sexo e drogas.

Morte Súbita é um daqueles livros que não se pode julgar pelas primeiras páginas e capítulos. A narrativa começa devagar, maçante até, enquanto Rowling apresenta os moradores da cidade. Vamos de casa em casa e presenciamos as diferentes reações acerca da morte de Barry. Posteriormente, a trama engrena e passa envolver o leitor. Pode são ser nenhum Harry Potter, mas Morte Súbita mostra que J.K. Rowling tem muito talento fora do mundo mágico, ao fazer um retrato de um pedaço da vida de uma cidade. Ela sabe contar uma história que tem seus momentos de humor, seus flashes de esperança e afeto – mesmo que no final tudo não estivesse exatemente bem.

ROWLING, J.K. Morte Súbita. Editora Nova Fronteira, 2012. Tradução: Maria Helena Rouanet e Izabel Aleixo. 512 págs. Preço sugerido: R$49,90.

*Na última quarta-feira do mês a Thais vai comentar suas impressões sobre algum título literário por aqui :) Acompanhem!

Draw about love

If you're feeling sinister

Quando os escoceses da banda Belle and Sebastian lançaram o disco “Write about love”, eles pediram aos fãs para dar uma de vândalos. Só que de uma forma fofinha, como não poderia deixar de ser. A ideia era escrever o nome do disco – com giz ou qualquer outro material que não causasse danos – pelos lugares e fotografar a arte. Literalmente, escrever sobre amor, da forma mais simples possível. O resultado foi filtrado por uma tag e tem de tudo, desde pessoas que se limitaram a copiar a primeira capa que vazou antes da oficial, até os que aproveitaram a dádiva da criatividade e nos presentearam com resultados bem interessantes.

Não contentes, em território estrangeiro (sendo específica, nos Estados Unidos) eles fizeram mais uma proposta indecente. Na compra do álbum, a pessoa recebia um código que deveria ser utilizado no site oficial para direcionar a uma página onde o participante deveria escrever um texto com até 300 palavras sobre amor – mais uma jogada com o título. Stuart Murdoch passaria um dia na casa do vencedor para inspirar-se e escrever uma canção sobre o indivíduo de sorte.

Nada sei sobre o desenrolar desse concurso. Já faz um tempo, visto que o disco foi lançado em 2011 e, embora seja um álbum legal, é um trabalho esquecível. Por sinal, mesmo gostando da banda, há tempos eles não davam as caras nas minhas playlists. Até o dia em que a Larissa compartilhou um projeto da Aline, dona do 266.

No Draw About Love, ela iniciou um projeto que reúne artes feitas por ela e inspiradas em trechos das canções da banda. Gostei muito do que foi postado até agora e, a julgar pelo trabalho no 266, vem coisa boa por aí. Fica a dica para acompanhar daqui para frente.

Wrapped up in books

She's losing it

Da música que precisa ser vista

O dia 22 de janeiro marca um fato triste para os fãs de um grande ator australiano: Heath Ledger. Há 5 anos ele nos deixou devido ao uso excedente de reméditos controlados. Para relembrar passagens memoráveis de Ledger no cinema, eu, o Rodrigo Oliveira e a Thais Sawada fizemos um especial n’O Bolchevique Analógico com resenhas de alguns filmes nos quais ele atuou. Adorei escrever sobre Não Estou Lá, um de seus últimos trabalhos, por isso resolvi compartilhar o texto com vocês por aqui também.

O especial ainda não acabou – amanhã o Rodrigo sobe o último texto, sobre O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus. Voltem lá para conferir!

Aproveitei para listar todas as resenhas no final do post, para facilitar caso queiram conferir todos os textos.

Não Estou Lá (I’m Not There, 2007, direção de Todd Haynes)

“I accept chaos. I don’t know whether it accepts me”
[Eu aceito o caos. Só não sei se ele me aceita]

imnotthere1Por Lidyanne Aquino

Seis atores, seis personagens – uma única pessoa. O caráter multifacetado de Bob Dylan deu abertura a uma abordagem interessante sobre a carreira do músico. A leitura de Todd Haynes em Não Estou Lá é entregue de forma mastigada, desorganizada, em fragmentos que nos convidam a investigar melhor a criatura e sua personalidade peculiar. Para tanto, agregou artistas bem diferentes entre si – Ben Whishaw, Cate Blanchett, Christian Bale, Heath Ledger, Richard Gere e o jovem Marcus Carl Franklin. A escolha foi proposital. A postura e os nomes são distintos, mas a essência é a mesma. Um amálgama de Dylan. Peças espalhadas com o propósito de serem reunidas na mente de quem assiste. E não pensem em algo organizado, sequencial. O plano é montar o músico de forma disforme, confusa. Uma interrogação mais que bem colocada, se é que vocês querem saber.

É válido lembrar que esse não foi o primeiro flerte de Haynes com a música. Em Velvet Goldmine, ele discorre sobre o Movimento Glam com base na trajetória de artistas como David Bowie e Iggy Pop. Diferente do trabalho anterior, desta vez ele teve autorização do próprio Dylan para reproduzir suas composições no longa. E para obter o resultado pretendido, o diretor valeu-se de todo e qualquer material sobre a vida do músico. Há referências de entrevistas, participações em filmes e documentários como No Direction Home, de Martin Scorsese.

Entre idas e vindas dos seis atores, o primeiro trecho prolongado é dedicado a um garoto com aproximadamente 11 anos de idade que se apresenta como Woody Guthrie. Marcus Carl Franklin expõe o perfil do jovem prodígio, encarando discursos de uma alma vivida. Ele canta, toca, e fala com uma segurança impressionante para a sua faixa etária. Ele representa o lado autodidata de Dylan, que já compunha com desenvoltura apesar da pouca idade. Franklin marca bem a ingenuidade infantil de quem ainda não sabia qual rumo tomar, que fazia da música uma via de escape para falar daquilo que não poderia ser apenas escrito, mas precisava de som para ser compreendido.

É nessa fase que ele ouve um conselho para viver seu próprio tempo e cantar sobre sua época. Uma sequência que viria a despertar o interesse de Joann Sfar mais tarde na cine-biografia de Serge Gainsbourg, quando Woody é engolido por uma baleia. Em meio a esse insight, somos lançados a um novo momento do músico – agora Jack Rollings, que ganha vida com Christian Bale. O ator se desdobra em dois lados de Dylan. O primeiro, ativista, atende à sugestão de cantar seu tempo ganhando o estigma de um intérprete de canções de protesto. É quando Dylan dá seus primeiros passos para tornar-se um expoente da música folk. A cantora Alice Fabian representa Joan Baez, uma presença marcante na vida de Dylan durante essa fase, e é interpretada por Julianne Moore, que fala sobre o período como se estivesse em um documentário sobre a vida do amigo Rollings. Bale também dá vida ao Pastor John, uma fase de transição de Dylan – quando o músico se converte ao cristianismo e dedica-se a composições do gênero gospel, entre 1979 e 1981.

Chegamos a Heath Ledger, com pinta de conquistador na pele do ator Robbie Clarke. Em Não Estou Lá, o personagem é protagonista da biografia cinematográfica de Jack Rollings (nota-se que Haynes não tem medidas para explorar a metalinguagem). Ele exibe as incursões de Bob Dylan – fracassadas, diga-se de passagem – no cinema. Sei que é suspeito glorificar o desempenho de Ledger em um especial dedicado ao ator, mas seria injusto ignorar a performance dele apesar da curta aparição. Afinal, ele precisou disputar espaço nas pouco mais de duas horas de projeção com outros cinco grandes atores. Mas ele aceitou o desafio e fez questão de nos deixar uma participação marcante. É fato – ele incorpora trejeitos de galã que são mais dignos de ator do que do próprio Dylan. Ainda assim, Ledger apresenta o sotaque e os cacoetes do músico com desenvoltura. Ele também é responsável pelo lado caseiro do artista. No longa, são exibidos os altos e baixos do relacionamento de Robbie e Claire (Charlotte Gainsbourg).

Ben Whishaw entra como um prefácio pulverizado ao longo da projeção. Ele solta divagações que podem ser interpretadas como digressões da carreira de Dylan. Para tanto, Haynes atribui ao ator o papel de Arthur Rimbaud, na tentativa de exibir a faceta poeta de Dylan. Responsável, também, por uma das citações mais belas do filme:

“A poem is like a naked person [even the ghost was more than one person], but a song is something that walks by itself”

[O poema é como uma pessoa nua – mesmo o fantasma era mais que uma pessoa – mas a canção é algo que caminha por conta]

Quem ouviu qualquer rumor sobre Não Estou Lá sabe que Cate Blanchett é responsável pela melhor atuação do longa. Ela assumiu a responsabilidade de viver um dos momentos mais controversos da carreira de Dylan e de exibir a maneira indiferente e por vezes sarcástica com a qual o músico lidava com a crítica. Jude Quinn encara a rejeição dos fãs ao abrir mão do folk para acrescentar a guitarra elétrica em suas composições. Ela também protagoniza duas rápidas passagens que mostram o contato de Dylan com os Beatles e com o poeta Allen Ginsberg. Destaque também para a rápida participação de Michelle Williams, que entra em cena com Jude no papel de Coco Rivington, uma representação das “Twiggys” daquele período.

Richard Gere fecha o ciclo no papel de Billy, uma figura facilmente esquecível. Em cena, ele mostra um Dylan recluso, que se isola na pequena cidade de Riddle. Apesar da atuação contida, Billy representa períodos importantes na vida do músico. Mostra o sucesso de Knockin’ on Heaven’s Door; o primeiro sumiço de Dylan após o acidente de moto, em 1967; e fecha um ciclo conectando o segmento Gere com o de Blanchett, quando Billy encontra o jornalista Sr. Jones (Pat Garret), com quem Jude bate de frente em outros momentos do filme.

Para colocar coesão no parágrafo que abre a resenha, explico a genialidade de Haynes. O ser humano, como um todo, é uma criatura confusa e incompreensível. No caso de um artista como Bob Dylan, qualquer tentativa de traçar uma biografia cinematográfica não faria jus à trajetória dele. Tentar explicar e recontar da forma mais prática tiraria toda a complexidade do indivíduo, transformando-o em um mais do mesmo. Ele se ocupa em enaltecer também a música que precisa ser vista e compreendida em sua multiplicidade, e não apenas como uma mera projeção sonora.

Heath Ledger
04/04/1979 – 22/01/2008

Texto de abertura

10 coisas que eu odeio em você

Coração de cavaleiro

Honra e coragem – As quatro plumas

Os irmãos Grimm

Os reis de Dogtown

O segredo de Brokeback Mountain

Candy

Não estou lá

Batman – O cavaleiro das trevas

The nature of ambition

Para pensar um pouco. Em especial para quem também encara problemas de euforia e sempre acaba voltando para o ponto de partida. Esse blog já foi e voltou umas tantas vezes, mas Grant Snider já virou figura carimbada. Que posso fazer se ele sempre entende o meu medo de atropelar as coisas?

Música para acompanhar os pensamentos:

Das vantagens de ser invisível

É como ler O Apanhador no Campo de Centeio depois dos 20. A probabilidade de chegar à última página sem entender o porquê de tantos leitores fissurados é bem alta. Não sei se passa como justificativa para um guilty pleasure, ou se é apenas TOC de leitor. Fato é que sempre teremos aquele livro “amaldiçoado”, incapaz de circular sem um estigma. As Vantagens de Ser Invisível (Perks of Being a Wallflower) guarda um pouco disso. Pouco popular, se comparado com o livro de Salinger; ou, para citar um nome ainda mais conhecido, com a saga Harry Potter.

Embora distintos, guardam muitas semelhanças entre si. Não ouso equipará-los pelo “valor literário”. Até porque Stephen Chbosky chegou mais tarde e certamente surrupiou algumas ideias das outras obras citadas. Na minha humilde opinião, não é uma cópia escancarada. Pelo contrário – ele soube como tirar boas características desses trabalhos para criar uma história com marcas próprias, mesmo que a ideia não seja original.

Quando o livro chegou até mim, eu e o personagem principal passávamos pela mesma (chata) fase de transição para o ensino médio. A identificação foi natural – como tantos adolescentes, também encarava conflitos existenciais bem característicos. Charlie, personagem central, had it a lot worse. Mesmo com as nossas semelhanças, desde a primeira página tive a convicção de que teria muito a aprender com ele. O que de fato aconteceu.

A história se passa na década de 1980. Como válvula de escape para a solidão, Charlie contava com companhias de papel e de fita. Candance, sua irmã, é completamente desapegada dos presentes que ganha do namorado. Acaba doando-as para o irmão mais novo, que aos poucos constroi uma midiateca de fitas k7. Desta forma, toma conhecimentos de preciosidades da música como os Smiths (com a marcante Asleep), Beatles, Fleetwood Mac e XTC – só para citar alguns nomes.

Interessado pela literatura, segunda companheira fiel, Charlie tem todo um potencial para traça. E recebe o maior apoio do novo professor de Língua Inglesa que, ao notar o talento do aluno, solicita algumas leituras complementares. E eu sei, até agora não falei grandes coisas sobre o enredo, mas dei todas essas voltas para explicar o grande trunfo de Chbosky.

A lista progride. Começa com um despretensioso Pinóquio, seguido pelo clássico norte-americano O Grande Gatsby, passando por títulos como On the Road, de Jack Kerouac e Walden, de Thoreau. E não são meras citações, possíveis referências a obras que marcaram a vida do autor. A cada leitura, Bill, o tal professor, pede um relatório. Com o desenrolar da história, Charlie não só adquire reconhecimento do mestre pela evolução textual, como aprimora a escrita.

Também narrador, ele escreve várias cartas para um destinatário anônimo – sim, mais um parceiro “de papel”. Ele não o conhece, não faz questão de fazê-lo e muito menos quer ser descoberto. Cada nova leitura casa com algum acontecimento da vida do garoto, concomitante à escrita, que progride gradativamente.

De 2005 para cá ele ficou assim, pobrezinho.

De 2005 para cá ele ficou assim, pobrezinho

Essa criatura ficcional enraizou em mim e alimentou convicções irreais. Por um bom tempo acreditei nessa possibilidade de evolução literária e segui uma lista de obras semelhantes a dele – não respeitada à risca porque sempre tinha um autor que me prendia tanto a ponto de urgir a necessidade de procurar outros trabalhos de mesma autoria. Depois de ler toda a saga Harry Potter coloquei na cabeça que logo menos encontraria pessoas tão freaks quanto eu E dispostas a agregar mais um elemento ao grupo. Só porque o personagem central conquistou duas grandes amizades e isso lhe bastou. Mesmo tomada pela angústia juvenil, tinha a convicção de que não tardaria para partilhar esses anseios com gente que os compreendessem com naturalidade e sem ficar caçando rótulo para tudo. Fosse por encarar a mesma circunstância, fosse por já ter vivido e estar disposto a ensinar o que aprendeu.

Acontece que eu nunca escrevi cartas para desconhecidos. Meu ritmo de leitura nunca acompanhou o da escrita – o atropelou, na verdade. Tive professores inspiradores e que me motivaram o quanto puderam, mas eu provavelmente não correspondi às expectativas. Minhas músicas ficaram guardadas em alguma instância, com ocasionais intervenções que nunca surtiram um efeito mais denso que um curtir ou retweet. E vamos combinar, a vida é bem mais amarga que todas essas instâncias de irrealidade, o que logo fez com que eu largasse de vez a “ilusão potteriana” e assumisse o papel como melhor amigo, fosse com letras impressas ou em um chamativo branco que implorava para ser manchado.

Se no livro há toda uma valorização à escrita e ao poder da literatura na vida de uma criatura introspectiva, na adaptação o diretor (também autor da obra) preferiu glorificar a música. Nesse ponto, a produção cresce e adquire um valor estimado. Não sei se a tradução do livro está boa, mas caso o longa tenha despertado alguma curiosidade, recomendo a leitura. De preferência no original.

O filme veio mais como um convite para dar uma chance ao livro. O diretor de fato preferiu seguir uma linha mais superficial, produziu para um público mais conservador. Toda a fase de descoberta do Charlie tornou-se um mais do mesmo recorrente em longas adolescentes. Tem lá os seus momentos de glória e um elenco lindo, porém, me desculpem, é raso.

Enfim, se até hoje vejo Perks of being a wallflower com tanto apreço, não foi só por ter servido como porta de entrada para incentivar minhas buscas por música e literatura, mas também por ter me amparado em um momento tão nebuloso. Minha base para conhecer a literatura norte-americana estava ali. E não, eu ainda não conhecia Alta Fidelidade, de Nick Hornby, e a cultura das mixtapes, que para mim também nasceu com Perks.

Com exceção das leituras obrigatórias na escola e na faculdade, sempre escolho minhas leituras meio ao acaso, depois de vasculhar estantes pela cidade ou ler uma resenha. E num esquema meio planta, eles crescem em mim desde a primeira página, seja para me consumir de desgosto ou para render um fruto de inspiração ou de mera admiração.

Sobre o envolvimento com a leitura (nível: extremo).

Sobre o nível de envolvimento com a leitura (nível: extremo)

Sempre digo que mesmo com todo o discernimento do mundo, por vezes é difícil distanciar o lado crítico do envolvimento pessoal. Justo por ser algo tão subjetivo, é quase impossível compreender o que se passa com cada um ao ter contato com uma obra. Por isso que um único trabalho pode causar reações tão adversas – você nunca sabe a que ponto e em quantas instâncias um livro pode tocar um indivíduo.

Para uma geração que encaminhava para um rumo tão vazio, Perks consegue atingir uma média que ultrapassa a função de reunir citações dignas de Tumblr. Até porque se o tumblr existia quando o livro foi lançado, pouca gente conhecia. E a minha geração cresceu carente de algo ao nível de O Apanhador no Campo de Centeio para as gerações que a antecederam.

Com esse livro, Chbosky me ensinou um pouco mais sobre a espera e a ver vantagens em ser inquieta em silêncio. Vai ver as coisas não correram como o planejado porque eu não estou preparada psicologicamente para lidar com isso, talvez não seja para ser assim, enfim. No fim das contas, um pouco de auto-suficiência não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário.

”I don’t know how much longer I can keep going without a friend. I used to be able to do it very easily, but that was before I knew what having a friend was like. It’s much easier not to know things sometimes. And to have French fries with your mom be enough. (…) But because things change. And friends leave. And life doesn’t stop for anybody”

If I was in your shoes

Há pouco mais de um mês fui ao show do Ben Kweller no SESC Vila Mariana. Foi a poucos dias de distância da minha banca de TCC e ele conseguiu me desligar de qualquer assunto acadêmico por algumas horas. Não sei qual foi o milagre praticado, mas aposto nessa loucura de se desdobrar sozinho entre cantor, pianista e guitarrista. É, ele veio sem banda. Mas soube fazer barulho como ninguém.

Não tenho lembranças claras de quando o conheci, mas foi algo entre aquela época graciosa de fotolog.com e a minha mudança de colégio, quando uma amiga veio mostrar algumas músicas dele. É um som descompromissado e com letras nem um pouco profundas, o que acaba se encaixando muito bem em certos momentos da vida. Mesmo as faixas mais lentas e com uma pegada mais melancólica conseguem dar um upgrade naqueles dias meio paradões. Em resumo, é bom para ouvir a qualquer momento.

O show trouxe descontração e saudosismo na medida necessária a uma fase nem um pouco tranquila. Relembrei várias composições dos velhos tempos e passei a simpatizar melhor com o álbum mais recente, Go fly a Kite (2012), visto que Kweller fez as escolhas certas para a setlist.

Não imaginei que um dia veria um show dele no Brasil, então aproveitei a oportunidade para tirar umas fotos. Não, eu não penso que sou fotógrafa e sei que se quisesse trabalhar com isso teria que estudar e praticar horrores. Acontece que me especializei em amadorismo ao longo da vida e fico feliz com as minhas fotos desajeitadas. E para honrar minha genialidade fui com uma a lente EF 50mm f/1.8 e rolou toda uma frescura de ficar na frente do palco. O show foi no teatro do SESC e ainda não estou habituada com a ideia de atrapalhar a visão dos outros.

Trabalhamos com muita naturalidade nessa vida, então rolou até foto com a participação especial da galera que foi tietar a beira do palco na hora do bis. Muita classe e habilidade, obrigada. Para amenizar o estrago, separei 10 faixas para quem ainda não o conhece ou não ouve nada dele há muito tempo.

*O título do post foi gentilmente roubado da música “Walk on me”, que está na pseudomixtape

[Nota: Depois de perder a luta para o wordpress, acabei me rendendo a esse modelo feio e sem grandes opções de galeria do próprio servidor. Vou ver o que posso fazer daqui para frente, mas por enquanto não consigo icorporar o slideshow do Flickr nem a playlist do Grooveshark. Se alguém souber como proceder dentro das limitações do wordpress, agradeço! :) Por enquanto, peço desculpas por apresentar esse conteúdo por meio de links.]

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Para te comer melhor, de Eduardo Gudiño Kieffer

“Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you…”

Há livros cheios de som e fúria. Embora estejam presos ao papel, reproduzem os cinco sentidos. Provocam ruídos por vezes agudos demais aos ouvidos; é possível tocar cada personagem, visualizar as cores emitidas pelas palavras e sentir os cheiros exalados por cada passar de páginas. O argentino Eduardo Gudiño Kieffer compreendia bem tudo isso ao redigir seu primeiro romance, Para te comer melhor. A provocação é suficiente para tocar a curiosidade dos possíveis leitores. Eu, como era de se esperar, acabei me rendendo sem resistência. Bastou encontrá-lo na biblioteca (com um empurrão da Melissa Panteliou, que me indicou por tabela ao falar sobre a obra).

Sebastián tem 25 anos e mora em Buenos Aires. Partidário da incompreensão e do vazio existencial de muitos jovens, ele opta pelo suicídio como via de escape mais viável aos seus anseios. O leitor passa a conhecê-lo melhor pelos capítulos escritos em primeira pessoa e pelas anotações de seus cadernos. Em complemento, tomamos contato com outros personagens que de certa forma ajudam a unir as pontas para entender o protagonista por completo.

Figuras, por sinal, deveras caricatas, com apelo forte, e que não custam a conquistar o leitor. Cada capítulo leva o nome dos personagens envolvidos na ação. Flor de Irupé, que inicia a obra após o prólogo que pode servir de epílogo, é abarcada pela simplicidade e pela inocência. A moça abandona Alto Verde e parte à Buenos Aires “dos rios asfaltados” – pois sua cidade está em estado de calamidade devido às enchentes – com o canário Gardel nos braços e a esperança de cantar em uma rádio local.

Ana, uma amiga acidental que ele conhece em uma festa qualquer, partilha uma característica comum a todos nesta obra – a fragilidade. Esse aspecto, para ela, pende para o amor não correspondido por Sebastián e pelo coração amolecido ao encontrar Flor de Irupé na Plaza Italia e levá-la, sem pensar duas vezes, para casa. Robbie parece o mais seguro de si no grupo de amigos, embora também apresente alguns traços de insegurança. Ele parece insignificante no início, mas ganha força com o passar das páginas conquistando um posto importante na vida de uma personagem em especial.

Não posso deixar de citar as outras vozes de Sebastián. Merdalim e Merdalhão habitam o subconsciente estabelecendo o dualismo corriqueiro entre certo e errado, incrustados em toda grande decisão tomada pelo protagonista. Com Cecília, uma “voz feminina”, dialoga sobre questões existenciais e garante algumas das melhores passagens do livro. Como se apenas essa voz compreendesse sua angústia.

O triunfo da linguagem

A sinestesia está na riqueza das descrições de Kieffer, que praticamente coloca um filme em nossas cabeças e torna a escrita rica e vívida. O autor me parece apaixonado pela linguagem, e faz questão de demonstrar seu amor a cada passagem. A obra é metalinguística e em diversos momentos frisa as amplas possibilidades da escrita. Para tanto, vale-se das tempestades mentais de Sebastián, que também cita diversos autores que ecoam como fontes de inspiração.

O ponto alto de Para te comer melhor é exatamente esse: os jogos com a linguagem são envolventes e respondem a uma pergunta recorrente feita aos leitores: por que vocês gostam tanto de livros? Respondo pegando o primeiro romance de Kieffer na íntegra como resposta. É justo por esse trabalho tão cuidadoso de certos autores ao lidar com a língua. Foi a primeira característica a prender minha atenção, fomentada por um enredo que trata de um tema recorrente e nem assim falha na tarefa de conquistar potenciais leitores. Quem está habituado à escrita de outro autor argentino, Julio Cortázar, sentirá-se em território seguro com esse trabalho de Kieffer.

Quando eu achava que não tinha mais motivos para gostar tanto da obra, ganhei um guia pelas ruas de Buenos Aires. Pois sim, há também uma crise de patriotismo evidente como pano de fundo – por vezes os personagens protestam certos aspectos culturais, por vezes expressam o deslumbramento incontido por tudo o que a cidade tem a oferecer. Saí marcando cada nome de ruas, avenidas, lojas e cafés para checar se são invenções do autor ou se existem mesmo e continuam intactos na capital da Argentina.

É uma pena que pouco se fale sobre a obra e ela não tem o prestígio merecido no Brasil. Já senti um certo estranhamento com o título, visto sabe se lá por quê com maus olhos, toda vez que alguém me perguntava sobre a leitura. Digo apenas uma coisa: aceitem a provocação.

KIEFFER, Eduardo Gudiño. Para te Comer Melhor. Editora Alfa-Omega, 1976. Tradução: Hersch W. Basbaum. 240 págs. Preço sugerido: R$59,00 (Dica: deem uma olhada no site da Estante Virtual caso queiram comprar. Há várias opções de edições usadas por preços acessíveis).