when you grow up, your heart dies

Comecei um texto sobre Maurice Sendak esses dias e fiquei com Onde Vivem os Monstros na cabeça. A infância selvagem e sem amarras do livro exerce um encanto inexprimível sobre mim, essa coisa maluca de please don’t go, I’ll eat you up, I love you so. Porque tenho um fraco para tudo que é colocado com intensidade – não sei mais se isso ainda faz parte da minha essência, mas algo me diz que tenho resquícios. E quer período melhor do que a infância para falar sobre a força com que as coisas acontecem em nossas vidas?

Um período que lida tranquilamente com todo o caos que nos cerca. A ideia de pensar duas vezes parece inexistente: o fluxo de pensamento é imediato, criança nenhuma consegue definir a tênue linha que separa a interpretação da fala. E daí que pode ser entendido de modo errôneo? Não há bagagem suficiente para saber o quanto as consequências dos nossos atos podem pesar sobre os nossos ombros.

Deve ser por isso que a clássica cena de The Breakfast Club sempre me deixa com uma pulga atrás da orelha. Confesso que fico com a visão meio embaçada, quase como a própria Allison enquanto repito, junto com ela: “when you grow up, your heart dies”. Alguma coisa se perde pelo caminho. Em um dado momento da vida, exteriorizar um sentimento é inaceitável e, na maior parte dos casos, é julgado como oversharing. Conheço pessoas que não ligam para esse tipo de mudança, então o fluxo da vida segue normalmente. Se quebram a cara constantemente? Sim. Mas né, gente forte, claro, que leva uma “daquelas” e ainda tem forças para seguir em frente sem muito sofrimento.

Outros preferem se fechar. Pelo simples fato de que é mais cômodo. Sempre gera situações conflituosas e você acaba criando uma segunda personalidade – uma espécie de casca que procura atuar como um escudo. Leva tempo para saber se outras pessoas merecem quebrá-la. Tenho pavor de demonstrar afeto e assustar quem está ao meu redor. Vira um indício de frieza, superficialidade. A vontade real é de dar um abraço forte, sentir a presença física, mas a sua casca permite no máximo um beijo no rosto ou um aperto de mãos. Você quer dirigir uma palavra amiga, quer dar um jeito de explicar que está disponível também para os momentos de dor. E termina compartilhando apenas momentos de descontração que ignoram qualquer conflito interno de ambas as partes.

Nunca é mal intencionado, mas vamos perdendo o controle da situação e de repente vira uma bola de neve. Como saber por onde começar na hora de reorganizar tudo isso? Simplesmente deixamos para lá. Fica para outro dia. E quando você se dá conta perdeu o contato, ou conquistou o repúdio alheio por ter tanta vontade de controlar o próprio impulso.

É como experimentar a sensação de ter se perdido de você mesmo. Há uma noção de que você construiu uma barreira para se proteger, claro, mas por vezes a incerteza e o desconforto sobre essa coisa na qual nos transformamos acaba aparecendo. Mais ou menos como naquele poema de Cecília Meireles:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Tudo isso me deixa com saudades da naturalidade de outrora. Daquele sentimento que ainda durou pelo início da adolescência. Que me levou a pintar os cabelos sem ligar para o que os outros fossem pensar. Que fez com que eu ignorasse o fato de ter só 15 anos ao decidir ir sozinha para Nova Iorque. Da “ousadia” de me aventurar sem medo, ir morar sozinha em outro país onde mal conhecia a língua acompanhada apenas por um leve frio na barriga. De encostar em qualquer ser humano para pedir informações – ser a cara de pau que não consigo mais ser e que hoje me é tão cara para fins profissionais.

E então retomo Sendak. Em diversas entrevistas ele reforçava sua predileção por histórias infantis justamente por essa falta de filtro. Ele não queria encher as crianças com baboseiras inúteis e mentirosas. Inseria a confusão em seus termos, seus personagens centrais sempre foram encrenqueiros ou figuras sofridas por circunstâncias da vida. Apesar dos empecilhos, são sempre desimpedidos, livres de qualquer pré-conceito. Expressão sem medo, sem mesurar as consequências.

When you grow up, your heart dies. E permitir essa morte deve ser um dos nossos maiores erros.

 

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón

“(…) poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho ao seu coração. As primeiras imagens, o eco dessas palavras que pensamos ter deixado para trás, nos acompanham por toda a vida e esculpem um palácio em nossa memória ao qual mais cedo ou mais tarde (…) iremos retornar.”

 Por Thais Sawada*

Altas estantes, que se estendem até o teto e percorrem o interior da sala, formando caminhos inimagináveis. Corredores, escadas, plataformas. Mais do que uma biblioteca, um verdadeiro labirinto que, com sua atmosfera misteriosa, guarda os mais variados livros. Estes poderiam ter caído no esquecimento, mas permanecem protegidos pelas paredes do Cemitério dos Livros Esquecidos, enquanto esperam por alguém que os descubra novamente.

Esse é o cenário que dá início ao quinto romance do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento. O livro, juntamente com O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu, faz parte de um ciclo de romances que se cruzam, tendo como principal ponto de encontro o misterioso local.

A Sombra do Vento tem como protagonista o menino Daniel Sempere e é ambientado na Barcelona de 1945, após o fim da Guerra Civil Espanhola. Uma noite, Daniel é levado pelo seu pai a um lugar que marcará sua vida dali para frente: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Lá, ele descobre a obra de um escritor desaparecido chamado Julián Carax.

O garoto fica tão fascinado pelo enigma que cerca Carax, que decide desvendá-lo. Vai, portanto, atrás de pistas que possam mostrar-lhe a verdade sobre o paradeiro do escritor. Com a ajuda de seus amigos e conhecidos, com destaque para o excêntrico Fermín Romero de Torres, descobre que alguém vem queimando todos os livros de Carax, por um motivo desconhecido, e que o seu exemplar pode ser o último existente.

Com uma narrativa intrigante e uma trama dinâmica e envolvente, capazes de prender a atenção do começo ao fim, Zafón conduz o leitor a um mundo de segredos, ameaças, histórias enterradas e pessoas enigmáticas; ao mesmo tempo em que leva Daniel a um universo até então desconhecido por ele.

À medida que o personagem cresce e descobre tanto o amor quanto a obscuridade que rodeia os seres humanos, duas vidas passam a se entrelaçar. De um lado, o menino que apenas ouviu falar da guerra e que mergulhou na narrativa de um autor desaparecido. De outro, um escritor que viveu plenamente todo o medo proporcionado pela ditadura franquista e que criou e protagonizou histórias ameaçadas de serem esquecidas para sempre.

A Sombra do Vento é um livro de mistério, de suspense e de romance. É um livro que mostra o quanto a literatura pode influenciar na vida de uma pessoa – e vice-versa. Que faz lembrar que por trás de cada história inventada e imaginada existe um escritor com uma vida real.

Ao levar Daniel pela primeira vez ao Cemitério dos Livros Esquecidos, seu pai lhe diz: “Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele”. Assim, A Sombra do Vento é uma homenagem àquelas páginas que se tornaram inesquecíveis para alguém e àquele autor que colocou sua alma nelas.

ZAFÓN, Carlos Ruiz. A Sombra do Vento. Editora Suma de Letras, 2007. Tradução: Marcia Ribas. 400 págs. Preço sugerido: R$46,90.

*Na última quarta-feira de cada mês a Thais comenta suas impressões sobre algum título literário por aqui :) Acompanhem!

Parte integrante

Peguei todo o meu desconforto e escondi atrás de uma lata de lixo. Não consigo me desfazer em uma única leva, deixo em um lugar estratégico pela ilusão de ter me desfeito por completo. Vou deixar empoeirar por ali, fingir que não existe. Pelo posicionamento, não importa a perspectiva, jamais nos olharemos de frente. Como é possível ter tanto apego por algo sem forma física? Quando foi que criei uma dependência tão grande da sensação de estar fora do eixo?

Quando me dizem que as coisas só dão certo ao sairmos da nossa zona de conforto, dou uma risada de desdém. Como se isso um dia houvesse existido na minha vida. Não sei em qual lugar pisar – ou tropeço ou afundo de cara. Fica a meu critério – o quão fundo você consegue ir? Provoca dor física. Você já encara as coisas sabendo que seu fiel companheiro, o desconforto, vai apertar a sua mão com toda a força no momento crucial. E você vai se descompor. Começar a tremer, suar frio e, ainda assim, arranjará um jeito de engolir o seco e fingir que está tudo bem. Deve ser essa a causa da dor física – você luta contra o próprio corpo para combater o desconforto e termina assim, intacta por fora, cheia de escoriações por dentro.

Acabei acomodando, permiti que a dor física fosse uma constante, passei a viver como se fosse parte integrante. Não pode ser vendido separadamente. “Viver é negócio perigoso”, já dizia Guimarães, infinitas vezes, em Grande Sertão: Veredas. E qual seria a graça se não houvesse risco algum? É preciso dar a cara a tapa. Fico cada vez mais do avesso, essa criatura que encaro com repreenda toda vez que olho no espelho ou me impressiono com atos impensados. Em um dado momento perdi o controle da situação e já não tenho mais certeza do que restou da minha essência.

Felizmente, ainda me resta a música. Pequenas doses diárias que funcionam como morfina para o desconforto.

O cotidiano paulistano e o meu vazio existencial casualmente entrando em confluência por meio de uma música. Obrigada, Beck.

there’s too many people you used to know/ they see you coming they see you go/ they know your secrets and you know theirs/ this town is crazy/ nobody cares

I’m tired of fighting/ I’m tired of fighting/ fighting for a lost cause

“Mi consigna interior, mi tantalismo, era buscar las exquisitas condiciones máximas de sufrimiento sin tocar a la vida”

Coração elétrico

Não é bom quando você abstrai a existência de um artista (por motivos de: informações demais e tempo de menos) e, por meio de um link aleatório do twitter o redescobre? E ainda constata que ele continua tão genial como na época em que o conheceu? Parece que foi ontem, mas deve fazer muito tempo pois ele já está até com livro publicado. Ando me prendendo a essas bobeiras para fugir de dias ruins e foi de uma felicidade imensa reencontrá-lo (quase) ao acaso.

Gabriel Pardal me foi apresentado por um amigo. Tomei um susto ao entrar no site oficial depois de tanto tempo. Ao que tudo indica o primeiro contato foi com o texto acima, mas não tenho certeza. Acho que na época não tinha nem domínio, só textos em algum servidor de blogs que se perdeu no meio das zilhões de links nos favoritos.

Agora tem vídeo, imagem, foto, música (!), um monte de coisa. Para revirar o bom e velho “ver postagens mais antigas” até perder a noção do tempo.

sometimes everything seems so oh I don’t know

Nunca achei que minha vida fosse um eterno scrolling da home do tumblr. Há muito tempo desisti de entender as intenções dessa rede social, até descobrir que, voilà, nunca houve propósito algum. Algumas pessoas acham que a vida uma reprodução das imagens bonitas encontradas por lá, que as fotos de meninas magras e bem vestidas são referências essenciais ou que a conexão entre imagens do universo (?) com frases profundas são uma das melhores coisas do mundo.

Para mim, sempre serviu como refúgio. Meu depósito de porcarias propriamente dito. Embora deteste essas imagens que não casam de forma alguma com o texto, confesso que já me rendi a alguns. Rebloguei mesmo. Adquiri uma afeição curiosa pelo limite branco tomado por frases típicas de tumblr – até descobrir que aquilo era, de fato, parte de uma exposição no Kiasma, um Museu de Arte Contemporânea na Finlândia.

Wall Pieces with 200 Letters, de Mikko Kuorinki reaproveitava as letras para jogar frases de autores como Joe Brainard e Mitch Hedberg na parede. Selecionei alguns para postar aqui. O restante, assim como outros trabalhos de Kuorinki, podem ser conferidos na página oficial (ou em uma rápida busca no tumblr).

O mendigo falou francês

Toda vez que trago um novo item à minha caixa de frustrações, ao invés de entregar-me ao sentimento, prefiro rir da própria desgraça. Fica ainda mais fácil quando o contexto favorece o riso. Pois tenho uma tendência a acumular infortúnios que jamais optaram pela banalidade. Tem que ser uma merda caprichada. Dentre esses episódios, houve um que me marcou bastante no início do ano passado.

Era sábado, horas antes da aula de francês. Mero detalhe: tinha prova, pois com a minha turma de malucos iniciei o curso no dia 7 de janeiro (com a escola em obras e tudo mais). Antes do despertador tocar, o primeiro anúncio de uma dia-bomba: alguém cantava Ilariê em alto e bom som na rua. Abri a janela e me deparei com um mendigo feliz e descontraído com esse clássico hit da Xuxa. Se o dia começa com uma música assim, ele está mais para prelúdio de uma tragédia.

Ainda sem saber como interpretar o acontecimento, corri para o ponto de ônibus com o livro em mãos, aproveitando os últimos minutos de “estudo”. Comecei a ouvir um “bonjour” repetitivo. Não era possível. Tanta loucura e tão poucas horas de sono que tinha começado a delirar e estava ouvindo vozes. Fiquei meio tonta, devo ter feito cara de maluca, mas quando olhei para o lado me deparei com mais um mendigo feliz (eles estão sempre em alta na Bela Vista).

Ele tentava uma interação. “Esse livro é de francês, né?”, perante minha resposta afirmativa, ainda meio abismada, ele mandou um “ça va?”. Por um segundo achei que fosse deletar tudo o que havia aprendido no último ano por reação ao susto. Respondi, e quando achei que a festa tinha acabado, ele começou a perguntar como dizia “por favor”, “boa noite” e “café da manhã”. Perante cada resposta, ele repetia com uma pronúncia impecável. De primeira. Para mim, já era extravagância demais para um dia só – e ainda eram 9 horas da manhã.

Provavelmente me tornaria um dicionário ambulante se o ônibus demorasse mais. Antes de embarcar, ele só perguntou se “muito obrigada” era “merci beaucoup” mesmo, confirmei, e ele só proferiu – mais uma vez com uma pronúncia incrível – as palavras, acenando. Naquele momento, “uma mensagem dos infernos” parecia a explicação mais plausível. Ou era uma indireta – eu tinha estudado pouco e ia quebrar a cara.

Dito e feito. Eu gosto é do estrago, principalmente se for feito com afinco. Saí de lá atordoada, sem almoçar, e correndo pra chegar a tempo na estação Tatuapé do metrô. Claro, no mesmo dia tinha que rodar a primeira entrevista do TCC com o meu grupo. Encontrei as meninas e, enquanto aguardava pelo quarto elemento que nos daria uma carona até o local, achei por bem causar na linha vermelha, sentei no chão e comecei a chorar. A semana foi uma sequência caótica de eventos (e no máximo quatro horas de sono por noite) e não houve autocontrole depois do combo matinal. Constrangi as amigas até levarmos bronca de um policial insensível que, mesmo ao se deparar com uma pessoa em prantos, fez um discurso sobre ser proibido sentar no chão das estações de metrô. Fofo.

A entrevista era com uma psicóloga e adivinhem só quem fizemos quase uma terapia em grupo? Afinal, quem nunca enfiou perguntas pessoais na lista de questões obrigatórias? Parecia até uma conclusão para a minha tese de maluquices daquele que parecia ser só mais um sábado despretensioso. E não foi.

it’s sacrilege, you say

Como foi escrito no Posfácio, Karen O transou com um anjo, surtou, achou ótimo mas bateu uma culpa – era sacrilégio. No final ela reza  com direito a coro de igreja e fica tudo bem (!). A ideia obteve um bom retorno, curtimos e até dançamos junto. A exemplo de boa parte dos hits do Yeah Yeah Yeahs, é necessária ajuda médica para tirar essas músicas da cabeça. Grudam mesmo. E te deixam com vontade de rodopiar por aí como se não houvesse dignidade na vida. Adiei minha recepção de Sacrilege porque já desconfiava desse caminho sem volta.

Agora estou comemorando porque é uma música animada e há tempos eu não me empolgava com o gênero. E Summer Camp não conta, pois por algum motivo obscuro eu fico triste com as letras e consigo abstrair o pano de fundo animadinho.

Vocês podem detestar, mas não custa dar uma olhada no videoclipe. Ele mantém o tom esquisito dos outros vídeos da banda e é protagonizado pela modelo e atriz britânica Lily Cole (sim, a moça de O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus). Não me julguem, mas curto muito as expressões demoníacas dos cidadãos dessa cidade de interior maluca no início do vídeo. Bom uso da ideia de contar uma história ao contrário. Funcionou bem com a proposta do enredo.

E sempre pode melhorar: a direção é de Megaforce, que já fez clipes para o Metronomy (A thing for me), Madonna (Give me all you luvin’), Tame Impala (Solitude is bliss, um dos meus favoritos). Deixo a dica para conferirem os trabalhos dele. Coisa de qualidade.

we are the angry mob*

É da minha natureza – e de meio mundo – reclamar. Na mesma medida, embora seja um pouco contraditório, não penso duas vezes antes de fazer o que vem à cabeça. Sem essa de medir as consequências. Mesmo com todas as lamúrias posteriores, não tenho como fugir. Sempre acabo no mesmo buraco. Isso vale tanto para as situações mais banais até para coisas sérias. Em um desses momentos de loucura eu xinguei o site da showcard durante uma manhã inteira e comprei um pacote para os três dias do Lollapalooza. O servidor deve ter caído no mínimo umas 20 vezes, sem exagero. A vontade de bater minha cabeça contra a parede depois de um ato tão ousado e teimoso não custou a aparecer e passei alguns meses no embate entre a vontade de ir e o desejo desesperado de vender os malditos ingressos.

Nessas pequenas metáforas da vida acabei going with the flow, uma das constantes da minha vida. É um hábito que fez muito pela minha gastrite (e provavelmente pela de vocês também) – você fica remoendo até o ponto em que consegue ignorar para, finalmente, desesperar-se na véspera. Não tem suco gástrico que aguente. Você já conhece todo o histórico do festival depois da sua experiência anterior e pensa que um pouco de ousadia não pode te fazer mal. No máximo vai te deixar com umas dores nas costas e um saldo duvidoso na conta bancária. Ano passado foram só dois dias. Neste ano, três. Só para sinalizar a insanidade, que não tem limites.

Acabei na lama do Jockey. Ao que tudo indica fui levada até lá por osmose nos últimos dias deste mês que não cansou de fazer cosplay de agosto. E só para pagar com a língua, compensou por cada segundo. Mesmo com todos os perrengues. Tudo bem que só consegui chegar depois das 15h todos os dias, coisa de gente velha, mas era melhor do que deixar os ingressos na gaveta (=jogar dinheiro no lixo).

Não deu pra fazer uma foto decente do Flaming Lips com o celular, então fica aí minha referência

Não deu para fazer uma foto decente do Flaming Lips com o celular, então fica aí minha referência

O primeiro dia foi meu descanso, acreditem. Teve espaço Redecard, pufes, comidas nada saudáveis, cerveja, essas coisas. O desânimo com a chuva e a garoa limitou minha mobilidade, autorizando apenas Of Monsters and Men e Flaming Lips de uma distância aceitável, Passion Pit e The Killers BEM de longe. Of Monsters and Men foi bonitinho, mas só. Flaming Lips serviu para constatar que se passaram oito anos após o primeiro festival – e consequentemente primeiro show – da minha vida. O Lolla que me desculpe. Mesmo com toda a estrutura e shows incríveis, guardo afeto pela edição do Claro que é Rock em 2005, no Rio de Janeiro. Conheci a banda ali, parecia criança no show (eu era, de fato, quase isso), e ainda tive maravilhas como Nine Inch Nails para ver no mesmo dia. Esperava algo mais 2005, mas gostei mesmo assim. Passion Pit foi ok, talvez tivesse empolgado mais se eu estivesse próxima do palco. Killers também veio com uma carga nostálgica meio pesada. Lembrei daqueles tempos de Hot Fuss e no quão legal era conhecer bandas por conta própria (e assistindo The OC, obrigada, Adam Brody). Confesso que cantei Mr. Brightside a plenos pulmões para honrar o saudosismo.

Fiquei sossegada no primeiro dia porque tinha carnaval indie no dia 30. Precisava de fôlego para pular e dançar até constranger quem estivesse por perto. Two Door Cinema Club e Franz Ferdinand (não, eu ainda não tinha visto a banda ao vivo) cumpriram a tarefa. Uma pena que o Franz e boa parte das bandas que se apresentaram no palco Butantã tenham sido prejudicados pelo som, que entre oscilações sempre acabava baixo demais. Passei mal no Queens of the Stone Age por motivos de: só quem viu ao vivo entenderá. Principalmente nós, mulheres, vítimas de toda a ousadia de Josh Homme. Com Black Keys eu mandei o que me restava de compostura para as cucuias. Meio mundo reclamou que foi morno e etc. Nem tive tempo de constatar tal fato, pois estava ocupada demais pagando de louca no meio dos adolescentes.

The Black Keys

The Black Keys

Um fato curioso, por sinal – a estatura média do público mudou de forma assustadora no show do Pearl Jam. Se no Black Keys eu tinha mil jovens na minha frente que em nada atrapalhavam a vista, no Pearl Jam só tinha gigante e homens cheios de afeto querendo dar demonstrações públicas de amor ao pendurar suas queridas namoradas nas costas. Senti vontade de dar na cara de cada um e juro que não é amargura. Nada pessoal, só queria ver mais ou menos o palco. Ainda assim, vi o último show da noite quietinha, rolaram lágrimas tímidas no final por motivos de nostalgia – sou fraca MESMO com essas coisas sem explicação do passado.

Why can't it be mine morrendo, by Pearl Jam

Why can’t it be mine morrendo, by Pearl Jam

Com exceção dos headliners, o último dia foi totalmente dedicado ao ácido (ou qualquer outra droga de preferência). Estavam todos tomados por uma loucura de fazer inveja. Cheguei para o Kaiser Chiefs e me deparei com um Ricky Wilson alucinado correndo pelo palco, brincando feito um retardado com as câmeras e escalando as grades assim, numa boa, como se não houvesse perigo algum. Um dos shows mais divertidos, apesar do recorrente problema com o som. Vi boa parte do The Hives na fila (valeu, Lolla!), mas me diverti com essa banda gracinha igualmente trabalhada na loucura. Grande show. Recomendo inclusive para quem não os conhece. Há tempos não via uma apresentação com tanta energia no palco. Não entendi o apelo com o Hot Chip. Da primeira vez que os vi estava deitada no chão do playcenter para descansar – no Lolla não dava para sentar na lama, então a experiência não foi das melhores.

As qualidades são facilmente mascaradas pelas bebidas e alimentos com preços absurdos, a lama descomunal, as filas intermináveis, o desconforto de passar tanto tempo em pé, entre tantos outros contratempos. Só que você automaticamente se submete a tudo isso ao pagar pelo ingresso. Está certo, ninguém precisa abaixar a cabeça para as falhas do evento – mas é preciso ter paciência e tentar colocar um pouco dessas coisas de lado também. Caso contrário você só se aborrece e não consegue ao menos aproveitar a programação.

Sim, também existe uma birra com esse público que só vai para fazer uma social e fotografar o look do dia. E a minha teimosia, vem de onde? Não faço a menor ideia. No fim das contas eu devo ser meio masoquista e curtir essa tortura de me espremer no meio de um monte de gente para curtir alguns minutos de música ao vivo. Desculpem-me, mas não dá para comparar o dvd de casa com o fato de fazer parte de algo tão grande. Ninguém gosta de abrir mão do conforto do sofá da sala, a visão é privilegiada e tudo mais. O mesmo se aplica ao público que assiste tudo bem de longe do palco. Não é a mesma coisa. Ainda que seja durante três músicas, se você gosta daquele barulho, é diferente. O dvd é um material extra para relembrar apresentações memoráveis ou ter uma prévia do que pode ser visto ao vivo um dia. Não sou da defesa dos festivais, mas sim da ideia de ver de perto. Confesso que tenho um fraco para apresentações em casas menores e com show único, mas todos deveriam passar pela experiência de um festival pelo menos uma vez na vida.

É difícil evitar o imbróglio ao falar sobre todos os shows vistos nestes três dias – e digo o mesmo com relação ao evento como um todo. São muitas coisas em pouco tempo e a dificuldade em juntar as peças e absorver todas as experiências que o festival pôde oferecer é grande. Só um toque final: numa dessas você pode sair no lucro: conhecer bandas novas ou passar a respeitar outras que você sempre achou que fosse detestar mesmo depois de ver o show.

* we are the angry mob/ we read the papers everyday day/ we like who we like/ we hate who we hate/ but we’re also easily swayed

(o título é uma referência ao momento alegria nível descontrole de Ricky Wilson ilustrado abaixo)

Nota: todas as fotos do post foram tiradas com o Iphone.

Kaiser Chiefs de longe, no palco Butantã

Kaiser Chiefs de longe, no palco Butantã

Queens of the Stone Age de longe, para minha tristeza

Queens of the Stone Age de longe, para minha tristeza

Carnaval do Two Door Cinema Club

Carnaval do Two Door Cinema Club

Franz Ferdinand

Franz Ferdinand

Nível do público

Nível do público