Paulista #120

Se levarmos em conta a ideia de que o ano – ao menos no Brasil – começa após o carnaval, meu réveillon de 2008 para 2009 aconteceu na caótica capital paulista. Vim para o show do Radiohead, mas aproveitei para ficar mais uns dias. O show foi desculpa para visitar vários lugares da cidade. Entre eles, o cartão postal mais óbvio possível. Embora estivesse com uma câmera razoável em mãos, tirei fotos de qualidade duvidosa em uma das escadarias na saída do MASP.

Àquela altura, mal poderia imaginar que aquela região faria parte do meu cotidiano. Algo que não demorou muito para acontecer. Parabéns pelos 120 anos, Avenida Paulista. E por me receber constantemente desde 2010.

Todas as imagens do post foram tiradas por mim nos pontos mais conhecidos da Avenida entre 2008 e 2009. O set completo, com mais fotos (recentes) da região e de outros cantos de São Paulo pode ser visto aqui.

Av. Paulista

Anúncios

A febre lomográfica

Em dia de show, o cenário sempre apresenta elementos que nunca mudam – independente dos músicos que se apresentarão e do respectivo público. Haverá sempre o palco pronto, pessoas ansiosas pelo início e… câmeras. Afinal, não basta estar lá. É preciso guardar um registro, garantir uma evidência de que participou do evento. Quando o show começa, em meio ao alvoroço, há sempre alguém para fotografar ou filmar alguma música.

A novidade da vez é a presença cada vez mais comum de versões analógicas das câmeras. Em especial, de aparelhos que mais parecem de brinquedo – com cara de meros objetos de decoração. As lomos já existem há muito tempo. Surgiram na então União Soviética, em 1982. A origem e desenvolvimento do produto, como já era de se esperar, ganharam tons de romance. Vocês podem conferir a timeline completa no site oficial.

São, basicamente, câmeras de plástico. Com modelos distintos – há desde lentes que imitam o formato do olho de peixe, até aparelhos que tiram fotos panorâmicas. O que chama atenção, na verdade, é o desenvolvimento da febre das câmeras lomográficas com o passar do tempo. Não era mais apenas uma marca – passou a ser uma forma de ver o mundo, adquirindo até mesmo uma espécie de manifesto.

Além dos recursos oferecidos pela própria câmera, há também os filmes especiais – que garantem cores saturadas, contrastes, redscale, entre outros. A loja vende até mesmo filmes vencidos, capazes de proporcionar efeitos ainda mais imprevisíveis – sendo o mais trágico a possibilidade de não conseguir salvar uma mísera foto.

Creio que o maior paradoxo em meio a essa história é a questão da surpresa. Quando surgiram as câmeras digitais, era difícil encontrar quem não estivesse disposto a investir na novidade. Obviamente, era vantajoso em diversos aspectos – as fotos ruins poderiam ser deletadas sem o perigo de perder o filme e dava para obter uma prévia da imagem com o visor.

Curiosamente, muita gente parece voltar-se cada vez mais ao universo das coisas que não viveram. O público que aderiu à febre lomográfica é composto principalmente por jovens – cada vez mais interessados pela surpresa deste processo. Afinal, mesmo com todo o imediatismo e as facilidades dos equipamentos modernos, há um grande atrativo com relação ao ato de fazer um registro sem ao menos imaginar o resultado.

No caso da lomografia, então, pode-se dizer que há um “combo” de surpresas – você pode programar toda a composição fotográfica, mas os recursos da câmera e do filme oferecem um resultado extremamente imprevisível.

A parte chata, como não poderia deixar de ser, são os preços. Que me perdoem os fanáticos por lomos, mas os preços são absurdos pela qualidade do produto. Garante efeitos únicos? Sim. Mas não deixa de ser de plástico – uma qualidade comprometedora, diga-se se passagem.

Fico tão curiosa quanto todos os recém-adeptos ao “movimento”. Àqueles que partilham a curiosidade e moram em São Paulo – ou passarão por aqui durante as férias, a filial brasileira da Lomography inaugurou hoje. Por sinal, a festa acontece neste exato momento. A loja fica no número 2481 da Rua Augusta.

As fotos do post foram tiradas do site oficial (no maior clima nonsense – em nenhum momento tentei casar imagens com textos). Vocês podem conferir muitas outras aqui – bem como enviar seus próprios registros. E uma dica para quem se interessa pelo tema – o canal inglês BBC4 realizou um documentário sobre a lomografia. Está dividido em 7 partes, neste canal do youtube. Vocês podem conferir a primeira parte aqui:

O dia das crianças pautado por dois extremos

Ano passado fiz um post especial para o dia das crianças, indicando duas coleções de livro (com uma dica “extra”. Vocês podem conferir aqui) e dois filmes. Para não me repetir, resolvi aproveitar a temática ao longo dos dias que antecedem o feriado e, certamente, preparar um especial para o dia 12. Comecei ontem com a resenha de Capitães da Areia. Na véspera do dia das crianças, optei por pautar dois extremos. Os primeiros dias de existência, em contraponto com o jovem curioso e com maturidade superior a indivíduos da mesma idade.

Arrisco dizer que vivemos em uma era pouco sensitiva a surpresas. Toda novidade possui uma roupagem de coisa datada. Os recados são recebidos, usualmente, via e-mails ou simples recados nas redes sociais. Fatos que gostaríamos de relatar com calma para ressaltar a importância, são resumidos em 140 caracteres. Nessa troca de informações ausentes de tempo suficiente para apreensão, pouco sabemos sobre a reação das pessoas.

O britânico Tom Robinson inspirou-se no triste lapso de atenção da sociedade atual, criando a série de fotos I’m going to be a dad que registra a reação dos parentes, amigos e colegas de trabalho ao receber a notícia de que ele seria pai. É interessante a ideia de guardar um estágio importante da paternidade.

As câmeras digitais são ótimas por isso – se antes reuníamos algumas pilhas de fotos de quando éramos crianças, hoje os bebês acumulam mais de 10gb de fotos no computador com apenas dois anos de vida. De certa forma, Robinson guarda o momento desde o traço inicial – a recepção de algo tão importante para ele.

Um ponto ideal para iniciar o álbum – ou, no caso, a pasta no computador – para a criança que está por vir. Selecionei algumas, mas, como de costume, recomendo uma visita completa ao site do fotógrafo.

E eis que aparece um garoto – nem tão criança, porém jovem, apaixonado por cinema. Com apenas 14 anos, Mahdi Chowdhury é designer e realizou um trabalho especial com seus diretores favoritos. E os nerds precoces que me perdoem, mas com a idade desse menino eu estava conhecendo o trabalho desses cineastas – de uma forma bastante singela, vale reforçar.

E depois ninguém entende minha paixão por fotografia…

Vamos combinar: esse é o título mais piegas que vocês já viram em vossas digníssimas existências. Admitam, deve ter rolado até um pequeno embrulho no estômago perante algo tão…banal e meloso. Mas digamos que comecei a semana mais ou menos nesse doce modo. Vou fazer o que, esconder? Não valeria o esforço.

Ironia mesmo é dar tamanhas demonstrações de meiguice (meio às avessas) antes de dar início a um texto que fala sobre algo muito mais cru e sem muitos floreios. Sempre comento alguma coisa sobre fotografia por aqui. Não sou fotógrafa – embora quisesse trabalhar com isso – mas independente dos meus surtos de inspiração, sempre procuro trabalhos na internet. Em especial no Flickr.

Coloco desta forma – meu gosto é bastante variado. Caio de amores por uma foto muito elaborada e cheia de edições, e da mesma forma, me encanto com um retrato modesto. Ou mesmo com imagens fortes – como as do projeto citado no último post.

Entre fotógrafos “atuais” – aspas porque ele já está na ativa há muito tempo, mas o considero contemporâneo, adoro o trabalho de Bob Gruen. À despeito de todas as celebridades por ele fotogradas, o ar despojado dos seus registros é fantástico. Gruen possui um olhar cuidadoso, bons posicionamentos, e sempre soube, com maestria, colocar ícones da música em cenários propícios aos seus registros.

É engraçado, pois a cada retrato é possível identificar o cuidado por trás da lente – e ao mesmo tempo a foto passa a impressão de que a pessoa passeava por ali e pediu para algum transeunte cuidar do registro.

Para completar a festa, uma compilação com trabalhos do fotógrafo foi lançada esse mês – no exterior. Rock Seen, além da seleção de fotografias, conta com uma introdução de Debbie Harry – a vocalista da banda Blondie, e uma de suas fotografadas.

Tentarei conter minha vontade de ter esse livro em mãos compartilhando algumas fotos dele com vocês. É o que tem pra hoje.

 



Retratos de uma realidade inquietante

O ditador Muammar Kadhafi, que assume o poder na Líbia há 41 anos, disse em pronunciamentos que só deixará o país morto, “como um mártir”. A população, mobilizada e irredutível, não tomou o discurso como uma ameaça. Em um momento conturbado da história da Líbia, os protestos contra o regime prosseguem.

O resultado da pesada repressão às manifestações foi o registro de milhares de mortes. A situação se agravou a tal ponto que passou a ser retratada como uma guerra civil.

As ocorrências, de tamanha importância ao país, proporcionaram diferentes registros em imagens e textos – todos cada vez mais desoladores. Benjamin Lowy, fotojornalista – com um extenso e belo trabalho, diga-se de passagem -, esteve na Líbia em março. Em meio ao trabalho de reportagem, Lowy aproveitou para capturar algumas imagens com o iPhone.

O resultado foi o projeto iLibya: Upsrising by iPhone. Um registro histórico- fotográfico com um ar despretensioso. São apenas imagens feitas com celular, sem muita elaboração. Ainda assim, o fotojornalista realiza um trabalho interessante – de forma singela, ele guardou um fato histórico por intermédio de um celular com câmera.

Algumas fotos são um tanto pesadas – talvez pela carga psicológica que carregam – mas seria um erro não conferir a série completa. Lowy já havia realizado um projeto semelhante no Afeganistão. Vocês podem conferi-lo aqui. As fotos abaixo integram o iLibya.

Lugares, inspirações, e histórias imaginadas

Um artista belga resolveu atribuir um pouco de vida a algumas locações. Ben Heine, no projeto Pencil Vs. Camera, concilia a habilidade para desenhar com a arte da fotografia. Seu trabalho já circula há algum tempo na internet – até mesmo sem créditos, ou de forma equivocada, creditando outro artista. Com um princípio simples, ele mescla cenários aparentemente imutáveis com desenhos – como se ele procurasse dar vida ao espaço, criando uma espécie de história para o local.

Embora Heine não seja a inspiração, há uma pegada semelhante na página do Dear Photograph. Mas o propósito deste projeto, iniciado recentemente, é um pouco diferente – a pessoa deve ir até o local onde uma antiga fotografia foi obtida e posicioná-la estrategicamente no cenário. É a única informação sobre o site – “tire uma foto de uma foto do passado no presente”. O bacana do projeto é o fato de ser aberto ao público – qualquer um pode enviar suas fotografias para o e-mail dearphotograph@gmail.com. A publicação não é garantida, mas vale a pena “arriscar”.

Mal posso esperar pelo dia em que terei uma longa sequência de páginas para visualizar nesse tumblr. Para mim, é incrível esse ar de nostalgia que acompanha cada registro. Bastante propício para oferecer caminhos à imaginação aos visitantes da página. Tendo o projeto de Heines como base, consigo imaginar a história por trás de cada fotografia.

Mas bem, chega de texto, e vamos às imagens do projeto. E, como é de praxe por aqui – não deixem de visitar o Flickr de Ben Heine e o tumblr do Dear Photograph.

Twitter como inspiração? É possível

O iPad2 foi lançado semana passada no Brasil. A deixa perfeita para retomarem a discussão sobre as vantagens e desvantagens das novas tecnologias. Debate que raramente estaciona na obviedade e acaba dando origem a assuntos mais sérios. Entre eles, a questão recorrente é a ausência de privacidade, sendo a expansão de redes sociais o indício mais imediato.

A partir do momento que se cria uma página no twitter ou no facebook, qualquer usuário poderá ler seus escritos. Claro, existe a opção de “privacidade”, na qual a pessoa pode permitir o acesso somente aos amigos. E aí, claro, vale reforçar que os blogs continuam na ativa. Só não fica exposto quem se limita a ter um endereço eletrônico – e olhe lá.

Na série de fotografias Geolocation, Nathan Larson (professor da Maryland Institute College of Art) e Marni Shindelman (professor da Universidade de Rochester) optaram pela disseminação da criatividade inspirados pelo microblog. Porque se é possível criar algo interessante com base em uma rede social caracterizada pelas mensagens em 140 caracteres, eles se fazem presentes para provar isso. Claro, não são pioneiros. Para citar um exemplo, fiz um post sobre os “tweets na vida real”, projeto que obteve bons resultados.

Mas Nathan e Marni exploraram outras vertentes. Com o advento dos smartphones, não é preciso muito esforço para twittar. Muitos aparelhos indicam as coordenadas geográficas do local onde a pessoa esteve ao escrever aquela mensagem. Com base nessas informações, Nathan e Marni utilizam um GPS para chegar ao local de origem do tweet – que será a legenda da foto tirada no local.

Fiquei surpresa com os resultados. Afinal, já esperava inúmeras fotos em filas de banco. E embora não seja intencional, o projeto rendeu trabalhos bem criativos. Vejam algumas fotografias:

Em Nova Iorque, uma exposição da Jenkins Johnson Gallery – T_XT_RT – segue uma ideia semelhante. Impulsionados, porém, por mensagens ainda mais curtas – no estilo SMS – os artistas participantes fizeram arte com poucas palavras. Aos meros mortais, como eu, que não podem ao menos cogitar a ideia de sair do Brasil no momento, resta conferir pedaços da exposição através de fotos:

Se, ainda assim, você não vê a arte decorrente das novas tecnologias com bons olhos, lembre-se que há pessoas capazes de criar vídeos bem interessantes sobre o assunto. Para oferecer mais uma chance: