Desafio Literário 2011 – Prosa de Gaveta

Esclarecimento: Não resenharei Amostragem Complexa. Ao incluí-lo na minha lista, confundi com outro livro e só depois de lê-lo me dei conta – um pouco tarde – que a autora já havia publicado três livros. Para não deixar o tema do mês em branco, troquei por um livro que li no mesmo mês. Esse, sim, publicado este  ano. Novíssimo. :)

Tomarei a liberdade de mesclar primeira e terceira pessoa na resenha. O contato mais imediato permite, certo? Explico. Não conheço o autor pessoalmente, mas arrisco dizer que o conheço indiretamente via internet. Embora tenha me ausentado, faço questão de dizer que o fórum do Meia Palavra é um presente, desses recebidos em singelas partes a cada dia.

Foi a base para investigar melhor a minha curiosidade perante um livro que pretendia ler. Uma fonte para encontrar blogs que tiveram um início quase despretensioso, mas sempre se mostraram excelentes desde o princípio – e cresceram bastante com o passar do tempo. Logo, não seria surpresa ligar essa caixa responsável pelo armazenamento de tantas maravilhas a um livro escrito por um dos usuários.

Em poucas páginas, Guilherme Tauil consegue agregar um humor sutil e inteligente a todas as crônicas do seu primeiro livro, Prosa de Gaveta. Ele transforma situações banais do cotidiano em episódios curiosos, sempre com muita criatividade.

A dificuldade para remediar um bicho de estimação e para se movimentar pela cidade com um guarda-chuva, por exemplo, foram transformados em manuais. Há até mesmo um guia que indica maneiras rápidas para identificar pseudo-intelectuais. Intelectualóides é um dos muitos textos que evidenciam o humor ácido.

Ocasiões que de tão corriqueiras passam despercebidas e as usuais dúvidas de todo ser humano são ironizadas em contos como Religião de Botequim e Do lado de fora. Mas Tauil também consegue atribuir uma posição honrosa a algo aparentemente ordinário. É o caso de Ode ao miojo, um agradecimento quase poético ao macarrão instantâneo. Para concluir o livro, o autor mostra seu potencial para outras vertentes literárias com a poesia Síntese e no conto O Gato Manchado.

Prosa de Gaveta apresenta o mesmo prazer experimentado por leitores que aguardam um suplemento literário que só acompanha o jornal uma vez por semana. Um fato, aliás, que desperta a atenção é a ausência de pretensão. A narrativa flui bem, desenvolve-se com leveza. Percebe-se de imediato que o autor estava mais preocupado em transmitir uma ideia. Pois tenho percebido, em muitas obras de novos autores, um esforço muito grande em demonstrar o bom conhecimento do português – consequentemente, o enredo perde sua força.

Os grandes autores costumam ignorar a primeira obra escrita, pois sempre a consideram primária – até desprezível, em certos casos – com relação à evolução literária posterior. Espero que não seja o caso de Tauil, por ter começado tão bem e ter um futuro promissor.

Prosa de Gaveta infelizmente não está à venda. Mas vocês podem acompanhar a coluna de Tauil no Artilharia Cultural – e até mesmo ler a primeira crônica do livro, Destino Traçado.

Correspondente ao tema de Julho do Desafio Literário 2011

Anúncios

Especial Paris, parte 5 – Compras

Bouquinistes de Paris

Caminhar pelas ruas de Paris é um perigo. Ao passar na frente de lojas famosas, é necessário autocontrole na maior intensidade possível.  Infelizmente, não podemos ao menos nos animar antes de colocar os pés em alguma loja – os preços não são muito simpáticos. Mas sempre há uma coisa ou outra que sai mais em conta se você comprar na capital da França.

Minha dica é, mais uma vez, fazer uma pesquisa prévia e ver quais são as suas prioridades na hora de fazer compras – roupas, cosméticos, eletrônicos, entre outros. A partir daí, é possível administrar com maior facilidade os gastos. Se você está com pouco dinheiro, reforço ainda mais a recomendação. Melhor garantir algo que você quer muito, certo?

Boulevard Saint-Michel

Sou dessas que tira foto do nome da rua...

 

Para a última parte do Especial, resolvi fazer diferente e começar pela “cereja do bolo”. Mais uma vez, deparei-me com um lugar interessante e próximo a vários pontos bacanas de Paris. É o caso do Jardin du Luxembourg (comentei sobre ele ontem). Uma das saídas da estação Saint-Michel do metrô fica ao lado de uma das entradas do Jardim. E ao atravessar o Boulevard e andar mais um pouco, você chega a Shakespeare and Company e à Catedral de Notre Dame.

O Boulevard Saint-Michel fica no Quartier Latin. Sem dúvidas, um dos meus pedaços favoritos da cidade. E ainda é perfeito para compras. A Sorbonne fica ali. E vocês sabem o que isso significa? Há muitas livrarias – baratas – ao longo do Boulevard. Há uma Fnac perdida ali no meio – mas os preços não são muito atraentes.

Sorbonne

Na livraria Gilbert Joseph, a história é outra. Ela é ótima para comprar não apenas livros – novos e usados – mas também CDs e DVDs. Mas quem gosta muito de cadernos e itens de papelaria em geral, deve andar mais um pouquinho até a Gilbert Jeune. As duas lojas são imensas, e quem gosta de literatura e música precisa reservar boas horas para desvendar o acervo. Compensa muito!

A Shakespeare and Company é um local de visita obrigatória para quem ama literatura. Os preços não são nem um pouco simpáticos, e é tentador entrar na loja e sair sem nada em mãos. Para vocês terem uma ideia, a loja possui até mesmo uma estante só com livros da Geração Beat. Dá vontade de comprar tudo! Os eventos da livraria são bem famosos. Confiram a programação, disponível no site, antes de visitá-la.

Chegando a Shakespeare and Company, versão Polaroid

O Boulevard também é ótimo para comprar roupas. A loja que mais gostei foi a Pimkie. As promoções de lá eram ótimas – consegui algumas blusas muito boas por €8. E fica próxima a uma unidade da MAC, que faço questão de recomendar porque fui muito bem atendida.

E antes que eu me esqueça, no caminho para a Notre Dame, ao longo do Sena, confiram os Bouquinistes de Paris. Como é possível notar na foto ao início do post, eles vendem livros usados e réplicas de pinturas. Alguns vendem outros souvenirs também. Há muito tempo passou a ser uma atração turística da cidade.

Lojas dos Museus

Todo museu possui uma lojinha. Sim, são caras. Mas sempre dá para comprar uma lembrancinha ou outra – um postal ou um marcador de páginas, por exemplo, com uma tela famosa estampada. Recomendo os Guias de Visita. Além de servir como orientação para conhecer o museu, é uma boa recordação pós-visita. E como não me canso de elogiar o Pompidou, reforço mais uma vez a visita. A loja deles é diferente. Há um espaço especial cheio de livros de arte e uma variedade imensa de cadernos e outros itens de papelaria.

Pylones

Vitrine da loja

Quando entrei no site pela primeira vez, achei tudo meio estranho. Parecia espalhafatoso e exagerado demais. Ainda assim, chamou minha atenção e não consegui me controlar até sanar a curiosidade de conhecer uma das unidades da loja. É incrível! Impossível não se impressionar com a criatividade dos designers que transformam coisas simples do cotidiano em obras de arte. Um local muito interessante para compras lembrancinhas diferentes dos clássicos – e muitas vezes repetitivos – souvenirs.

Há uma unidade do Carrousel du Louvre, um shopping-anexo do Louvre e outra perto da estação Abbesses, em Montmartre.

Souvenirs

Claro, não dá pra comprar todas as lembranças da Pylones. Embora seja possível encontrar itens baratinhos, a loja também tem coisas bem caras. E convenhamos, não dá pra ir a Paris e não comprar ao menos um chaveiro da Torre Eiffel. O problema é que muitas lojas abusam da boa vontade do turista e chegam a cobrar €10 em um único chaveiro.

Para comprar itens mais em conta, vale a pena sair de loja em loja na Rue Rivoli e em Montmartre. Procurem lojas mais afastadas dos pontos turísticos, como o Louvre (no caso da Rivoli) e da Sacre Coeur em Montmartre. Quanto mais afastadas, mais caem os preços.

Perfumes e Maquiagens

Para maquiagens, é de praxe fazer aquela visita prolongada na Sephora da Champs-Élysées. Parece um shopping de tão grande! Os preços são os mesmos da Galeries Lafayette, mas às vezes rolam promoções nos dois lugares. É bom fazer uma comparação antes de comprar. Aliás, se forem visitar a Galeries Lafayette, não deixem de visitar a Ópera Garnier. A entrada é gratuita e o lugar é muito bonito.

Para adquirir produtos de marcas como Roche Posay e Vichy, é possível aproveitar o passeio Lafayette-Ópera para entrar na para-farmácia Parashop, na rue Chausée d’Antin. Fica ao lado de uma das unidades da Etam e os preços são ótimos.

Para comprar perfumes baratos de verdade, esqueçam da Sephora. A dica é passar na Le Parfum de l’Opera, na 3 rue Helder 75009 – sim, também fica pertinho da Ópera Garnier. O atendimento é ótimo e eficiente, e se você tiver dificuldades, pode tirar suas dúvidas em português. Os descontos são absurdos, compensa bastante.

Quase cega no Jardin des Tuileries

E é com a carteira palpitante – e muitos caracteres depois – que encerro o Especial Paris. Apesar da simplicidade e de alguns exageros, espero ter feito textos úteis para futuros visitantes – em especial aqueles com pouco tempo – para conhecer essa cidade incrível que é Paris.

Quem quiser mais dicas ou tiver alguma dúvida sobre algum tópico que não ficou bem esclarecido, sintam-se à vontade para entrar em contato. Meu e-mail é lidyanneaquino@gmail.com e estou à disposição para tentar ajudá-los.

Especial Paris, parte 4 – Minha Paris


Parede cheia de "te amo"'s, em várias línguas. Na saída da estação Abbesses do metrô.

Entre tantos guias turísticos e dicas de amigos, conferi de perto e elegi meus lugares prediletos. Não foi uma tarefa fácil. Confrontada com aquela clássica dúvida com relação ao gosto pessoal, tentei selecionar coisas que parecem agradáveis não apenas para mim. Ao invés de jogar o nome de todos os locais, falarei um pouco sobre eles. Tentarei ser breve (com o espaço do blog, nem sempre consigo). Com isso, vocês podem concluir por conta própria se os locais escolhidos os apetecem.

E não se preocupem – há escolhas para todos os gostos. Só ficou um pouco desorganizado. Sejam compreensivos, é muito difícil ser coerente com tantas coisas apaixonantes em mãos. Soar piegas de vez em quando também está permitido, não?

Pontos turísticos

É lamentável ter que apelar aos ônibus de CityTour. Se você tem pouco tempo, tudo bem. Eu perdôo. Mas, como eu disse no texto de ontem, muitos pontos turísticos são próximos. Ainda é possível desfrutar das paisagens ao longo do caminho. Mais saudável, e desta forma você conhece a cidade de verdade.

Nunca entendi a repulsa das pessoas com passeios turísticos. Se aquele ponto tornou-se conhecido – ao menos em boa parte dos casos – é porque tem significado histórico, atribui valor à trajetória da cidade. Desagradável mesmo é não ler nada e tumultuar o lugar só para dizer que foi.

Enfim, gostando ou não, começo indicando os monumentos turísticos. Outros pontos conhecidos aparecerão em categorias posteriores. Em Paris, há muitos locais que oferecem uma vista maravilhosa da cidade. Do alto de vários prédios, você pode observar a cidade inteira. Entre eles, os mais conhecidos são a própria Torre Eiffel, a Torre Montparnasse e o alto da Catedral de Notre Dame. Para todos esses passeios, é preciso pagar para subir. Minha dica, para quem quiser uma prévia, é visitar o terraço das Galerias Lafayette.

Vista da Galeria Lafayette

O melhor local para tirar a clássica foto com a Torre Eiffel ao fundo continua sendo o Champ de Mars. O lugar é lindo e bastante amplo. Dá para aproveitar o passeio, sentar para contemplar a vista e ainda tirar boas fotos. No outro extremo, depois de passar pela Eiffel, fica a Place Du Trocadéro, onde está o Palais de Chaillot. Para chegar até lá, é preciso atravessar uma das pontes sobre o Sena. Por aí já foi possível ter uma noção de como é possível visitar vários lugares sem gastar com transporte e andando bastante.

Museus

Paris possui uma infinidade de museus e não adianta se iludir – é impossível conhecer todos em pouco tempo. Antes da viagem, é bom pesquisar para ter uma ideia dos tipos de obras que você pode encontrar em cada um. De nada adianta ir a um museu só porque todos dizem que a visita é imprescindível se o tipo de arte não te atrai.

Pensando nos apaixonados por todo tipo de arte, criaram o Paris Museum Pass. São três opções – passe para 2, 4 ou 6 dias. Com ele, você não precisa pegar fila e pode entrar em mais de 50 museus. E o melhor – vale não apenas para Paris, mas para outras cidades próximas. Inclusive o Château de Versailles. Pode parecer um pouco caro, mas compensa. E eles não tentam dar uma de espertos – no próprio site você pode consultar informações sobre todos os museus que aceitam o Paris Museum Pass, o que inclui informação sobre dias em que a entrada é gratuita. E não se esqueçam, a entrada é válida apenas para o acervo permanente.

Escolhi os dois que mais gostei para indicar no Especial:

L’Orangerie: Um museu pequeno e relativamente discreto. Há muitas obras de grandes pintores do impressionismo. E, claro, as salas com as belas Nymphéas de Monet. Como o acervo não é tão extenso, dá para apreciar muitas obras sem precisar de muito tempo. E como se não bastasse, a localização é perfeita. Fica em uma das pontas do Jardin des Tuileries, outro lugar muito bonito e que merece ser visitado. O museu também fica ao lado da Place de la Concorde. O local rendeu momentos importantes para a história do país, e ainda possui uma vista maravilhosa.

Pedaço de uma das Nymphéas de Monet (e uma intrusa hehe)

Centre Georges Pompidou: Como o próprio nome já diz, não é apenas um museu. O Pompidou também tem biblioteca, espaço para cinema e teatro, e muito mais. É um imenso paraíso para os amantes de cultura. Uma ótima surpresa. Não imaginei que fosse gostar tanto de lá. Foi maravilhoso ver telas de Vladimir Kandinsky de perto. Tanto no acervo permanente quanto no temporário, a disposição das obras é bem interessante. Se em uma sala um banco é circundado apenas por telas, como em muitos museus, a outra trás obras que interagem de uma forma sensorial com os visitantes. Para completar, a vista no último andar também é bela, como vocês podem notar na foto:

Dá para sentar em um dos bancos para contemplar a vista :)

Jardin du Luxembourg

Se já me encantei com o Jardin des Tuileries, imaginem quando cheguei ao Jardin du Luxembourg. Ambos possuem cadeiras espalhadas por todo o espaço, mas não sei, existe algo diferente no Luxembourg que o deixa muito mais charmoso. Mesmo quando está cheio, é um lugar muito bom para sentar e ler (ou escrever). Ou mesmo para ficar pensando na vida. A localização também é excelente. Uma das entradas é pertinho do Boulevard Saint-Michel (vocês entenderão a vantagem no post de amanhã!) e não fica muito longe de Saint-Germain-des-Prés – o próximo tópico. Mas antes de falar sobre esta região, uma foto de um pedacinho do Luxembourg:

Não é lindo?

Saint-Germain-des-Prés

Todos os arrondissements de Paris possuem algum ponto notável. Acontece que o sexto é um local de visita obrigatória para os amantes da literatura. Grandes figuras intelectuais circulavam por ali com frequência. O Café de Flore, o Café Les Deux Magots e a Brasserie Lipp continuam ali – todavia, não mais frequentados por grandes intelectuais. Mas é bacana visitar e saber que pessoas como François Truffaut e Ernest Hemingway passaram pelo local um dia.

Montmartre

Senti que era importante destacar esta região por ser um local inusitado. Logo na saída do metrô já é possível notar a diferença da região com o resto da cidade – e não é só por ser em uma parte mais afastada. Ao sair do metrô, o caminho até Montmartre é longo. Mas ao chegar ao topo, a vista de tirar o fôlego já compensa todo o sofrimento.

Como uma amiga comentou, é um lugar para ser desvendado. Parece até outra cidade dentro de Paris. Uma das coisas mais bacanas, sem dúvidas, são os pintores e desenhistas trabalhando na rua mesmo, para todos apreciarem. Não deixem de prestar atenção nos arredores – as construções são bem simpáticas.

Ufa! Ficou um pouco extenso, e eu ainda tentei ser breve. Para não ser injusta com pontos que me agradaram bastante, mas ficaram de fora, vou colocá-los como complemento na última parte do Especial. E preparem a carteira, pois o post de amanhã está cheio de dicas para compras!

Especial Paris, parte 3 – Comidas

Impossível falar de Paris sem falar das maravilhas gastronômicas da França. Aliás, acredito ter escolhido a palavra errada para iniciar a parte mais saborosa deste especial. Um fato é inegável – quem se interessa pela alta gastronomia irá, certamente, deleitar-se. Os pequenos pratos bem elaborados enganam os olhos. São saborosos e satisfazem sim!

Porém, vejam bem. São caros. E existem opções mais saudáveis entre os pratos mais em conta. No Brasil, quase não como salada. Deveria, eu sei. Mas não sou muito fã. Na França, para minha surpresa, eu almoçava e jantava saladas e achava uma delícia. O preparo e os temperos são bem selecionados. Confiem na minha palavra. São muito saborosas. E o melhor, são bem mais saudáveis.

E antes que alguém se anime com a ideia de se acabar comendo salada e emagrecer na França, trago más notícias. Os doces franceses não se contentam em ser bonitos – não basta comê-los com os olhos. São muito, muito gostosos. E sabe o pior? Não dá pra resisitir. Tortas, bolinhos, torrones, chocolates e eles, os famosos macarons.

Pratos salgados

Começo pelo tipo de comida que costumamos consumir antes da refeição principal no Brasil – a salada. Nos restaurantes, algumas saladas são servidas com acompanhamentos – peixe ou frango, normalmente. Recomendo as opções mais simples. Os temperos são bem selecionados, é difícil decepcionar-se.

Experimentei alguns pratos com ingredientes simples. O clássico exemplo de coisas que podemos fazer em casa sem muito esforço, mas sempre adiamos por preguiça.  É o caso da salade de Roquefort aux noix, do Restaurante La Bonne Franquette. Altamente recomendada! Para mim, são refeições bem servidas, e não há necessidade de pedir mais alguma coisa para completar. Ainda sobra uma brecha para as deliciosas sobremesas.

Uma surpresa foram as saladas prontas vendidas nos mercados-mercearia, bem comuns na França. O mais próximo do meu hotel, Monop‘ (náo confundam com a Monoprix!), oferecia opções bem variadas. A salada vem em um potinho, e há algumas mesas no local. Na pressa, você pode comer  ali mesmo. Dá para jantar, em especial nos dias mais cansativos – satisfaz, e você dorme sem preocupações com os exageros da última refeição do dia.

Uma das maravilhas da França são aqueles salgados gordurosos que os nutricionistas detestam – as viennoiseries. São salgados típicos de padaria, e muitos são feitos de massa folhada – como os deliciosos croissants. Os mais famosos, na França, não são recheados – só tem manteiga. E ainda assim são mais sequinhos que os brasileiros. Uma delícia, perfeitos para o café da manhã. O pain au chocolat também é gostoso, mas ainda prefiro o croissant.

Para o almoço, além das saladas, recomendo as pizzas. Não é um prato típico da França, mas achei o formato e o sabor bem diferentes do que já havia experimentado. E peçam preparados para comer bastante – o prato individual compreende uma pizza enorme, que ocupa o prato – grande – inteiro.

Outro prato francês bastante conhecido serve tanto de lanche como almoço. O Croque Monsieur é servido, recorrentemente, com salada. E merece toda a fama que possui.

Croque Monsieur

Doces

Não sei por onde começar. Até mesmo uma tortinha cheia de chocolate consegue agradar os paladares mais exigentes na França. Quem não gosta de doces pode passar reto ao se deparar com locais clássicos como a Ladurée  e a Angelina. Como uma amiga disse, são dois lugares essenciais para experimentar os doces franceses. Peçam qualquer coisa,   sem medo.

Não é mito, muito menos exagero dos visitantes – os macarons da Ladurée são muito saborosos. Comparações são inevitáveis – eles são, realmente, os melhores! Mas não é difícil encontrá-los pela cidade, em especial nas padarias. Claro, existem outras lojas que oferecem várias opções de macarons. Gostei muito dos da Pierre Hermé. Os sabores são diferentes, vale a pena experimentar.

Não irei me estender muito no tópico dos doces porque nem é necessário dar muitas dicas. Pois eles pedem uma apreciação prévia com os olhos – e acreditem, como dito acima, é bem difícil se decepcionar. Uma vantagem de Paris é poder se deleitar mesmo com quitutes mais em conta. Nas padarias é fácil encontrá-los, por preços mais baixos e igualmente saborosos.

Para finalizar, a minha dica é uma padaria bastante tradicional: Paul. São inúmeras unidades espalhadas pela cidade e o “cardápio” é vasto – tanto para salgados quanto doces.

E amanhã, a parte mais extensa e difícil de ser preparada – dicas de passeios turísticos e outros locais interessantes de Paris!

Especial Paris, parte 2 – Como se movimentar pela cidade

Paris Métro - estação École Militaire, da linha 8. Movimento atípico - era feriado.

Ao meu ver, este post será interessante, em especial, para pessoas que não moram em cidades grandes. Se nas grandes cidades há opções entre ônibus, metrô e trem, em outras o transporte público se resume ao serviço de ônibus. Em Paris, o transporte público é amplo, bastante eficiente e organizado.

O mais conhecido pode não ter um odor dos mais agradáveis e permanecer lotado em boa parte das estações. Mas funciona bem e é rápido. Quem circula diariamente no metrô de São Paulo não terá muitas dificuldades para entender o funcionamento. Provavelmente, levará um susto ao se deparar com a quantidade de linhas – foi o que aconteceu comigo. No início parece um tanto confuso, mas logo no segundo passeio tudo fica mais simples.

O Paris Métro ou Metropolitain foi inaugurado em 1900, e hoje conta com 16 linhas e 5 conexões com o sistema RER de trens – este aprimorado na década de 60 para um bom desenvolvimento com as conexões com o metrô. O Paris Metró cobre toda a cidade, e boa parte das linhas permite baldiação. Ou seja, ninguém precisa procurar uma única estação para fazer inúmeras conexões. Quem quiser matar as saudades da Sé, em São Paulo, deve passar pela estação Chatêlet, sempre bastante movimentada.

Antes de começar, lembrem-se: Paris é um caracol. A fama não é mero charme. No lugar dos bairros, a cidade tem arrondissements. As regiões da cidade “dão voltas”. Não pensem em um labirinto, pois isso fica melhor visto do que escrito:

Paris Métro – Como faz?

Metrô + Linhas de trem. Pouca coisa, não?

Para transitar, o sistema funciona mais ou menos como o metrô de São Paulo. Você deve se orientar pelo destino final de cada linha. Em um exemplo mais simples, se você está na estação Gare de Lyon e quer descer na Georges V para sair no meio da Champs-Élysées, deve pegar o trem no sentido La Defénse, última estação da linha 1. Em um exemplo um pouco mais complexo, uma das opções para ir a Montmartre é descer na estação Abbesses, na linha 12. Saindo da Gare de Lyon, deve-se pegar o trem com direção à La Défense, na linha 1. Depois, descer na Concorde para fazer a conexão e procurar o destino para a estação Porte de la Chapelle, na linha 12, para descer, enfim, na Abbesses.

E aí é importante ressaltar: ao pedir informações, a resposta sempre será guiada pelo número das estações. Digo isso porque quando pedia informações em São Paulo, as respostas sempre me guiavam pela cor das linhas. E acreditem, em Paris, o ideal é se guiar pelos números mesmo, para não se confundir com as variações das cores.

Os pontos mais conhecidos da capital francesa são identificados abaixo do nome da estação. Por exemplo, na linha 11, ao descer na Rambuteau, o nome Centre Georges Pompidou aparece logo abaixo. Para sair das estações, basta orientar-se pelas placas. As informações costumam ser bem claras, basta seguir sem medo!

Agora preparem as pernas para um pouco de exercício físico. Devido ao tempo de vida do sistema, há muitas escadas, poucas escadas rolantes e bem, nem preciso falar dos elevadores. Felizmente, algumas reformas têm sido feitas, pensando na acessibilidade. As linhas mais novas, como a 14, já apresentam tudo isso.

Mapas

Nos quiosques de informação de muitas estações de metrô, você pode adquirir mapas da cidade, do metrô e das linhas de trem. Existem opções para todos os gostos e dos mais variados tamanhos. Há até uma versão pocket. E não precisa pagar. Também é possível encontrá-los em quiosques de informação espalhados pela cidade. Recomendo um mapa que além das indicações das ruas, mostre o mapa do metrô. Fica mais fácil para localizar a estação mais próxima do seu destino.

Onde adquirir os bilhetes?

O bilhete comum, para circular apenas no Paris Metró, custa  €1,70. Para adquiri-lo, além dos guichês, existem caixas, como estes de bancos que temos no Brasil, onde você pode comprá-los rapidamente. E o melhor – sem incomodar ninguém e ter que pedir informações. O bilhete único (paulistas, não confundam com o cartão de ônibus de São Paulo) aparece na primeira opção. Importante: a máquina só aceita cartões de crédito e moedas.

Existem outras opções, como os cartões Paris Visit e Navigo, a antiga Carte Orange. Eu andava muito a pé, logo, prefiro deixar uma dica aos interessados. Este post do Conexão Paris explica bem como funcionam, como adquiri-los, e também mostra os diferentes preços.

Não se desfaça do seu bilhete

Outra coisa importante é não se desfazer dos bilhetes. Quando você passa pela catraca, a máquina o devolve e você deve mantê-lo guardado até sair do metrô. Ocasionalmente acontece alguma fiscalização dentro dos trens, e os policiais pedirão para apresentar o bilhete. Ele também serve para permitir sua passagem para algumas conexões. É o caso da linha 1 da Gare de Lyon. Para chegar à linha 14, é preciso passar novamente pelas catracas. Se você jogar seu bilhete fora, terá que utilizar um novo. Pensem na despesa.

E acreditem, o transporte público está cheio de pessoas “espertas”. Coloco desta forma porque prefiro maneirar nas palavras. Como em toda cidade grande, é preciso tomar cuidado com os seus pertences. E não é difícil observar pessoas que seguram a catraca e deixam mais 3, quatro pessoas passarem sem pagar. Quem está sozinho, às vezes, pula a catraca.

Existem até mesmo aqueles que empurram a porta da saída, ou pedem para alguém segurá-la, e passam por ali mesmo. Não estou escrevendo isso para dar ideias, apenas para alertá-los caso alguém os peça ajuda para fazer uma das atividades citadas acima. Pois sempre acontece, e a frequência aumenta quando percebem que você é um ingênuo passageiro. Tenham cuidado. Todas as estações são equipadas com câmeras. Não me apetece a ideia de ameaçar o passeio ao cair nas mãos da fiscalização. Fiquem espertos!

Outras opções

É sempre bom olhar o mapa antes de sair de casa e conciliá-lo com o roteiro. Minha dica é baixar o mapa na internet e preparar o roteiro tendo-o como base. Muitos dos pontos turísticos são próximos, e dá para ir a pé sem se perder. Você poupa dinheiro com transporte e ainda pode aproveitar as paisagens durante o caminho. Como expliquei acima, você se localiza pelos arrondissements. Com exceção dos mais afastados, a cidade é plana. Dá para andar bastante sem se fatigar.

Quem gosta de bicicletas pode utilizar as Velibs – um projeto que conheci um pouco tarde e admiro muito. Mais uma vez cito o Conexão Paris. Este post consegue explicar melhor que eu como utilizá-las.

E amanhã, o “pedaço” mais saboroso do especial – a terceira parte é toda sobre comidas!

Especial Paris – Introdução + Parte 1

Pedaço da Rue Rivoli

Como já havia comentado aqui, passei alguns dias em Paris. Para não resumir os relatos do passeio unicamente em fotos, pensei em escrever sobre ele no blog. A parte pessoal, com impressões que beiram quase sempre a divagação, fica reservada aos meus cadernos de viagem. A parte “aproveitável”, se é que posso colocar desta forma, será transformada em um especial em 5 partes.

Publicarei ao longo da semana, com uma parte para cada dia. Na primeira parte – a de hoje – falarei, após a introdução, sobre a cultura francesa. Algumas dicas para a boa convivência neste primeiro contato com o povo francês.

Antes de começar, é preciso apontar o contexto: passei duas semanas em Paris. Estive lá antes, em um passeio no maior estilo sightseeing, durante quatro dias. Logo, é como se fosse meu primeiro passeio para a cidade. Não preparei roteiro, nada. Fui descobrindo a cidade aos poucos, tendo por base dicas soltas de amigos e guias turísticos.

Muito do que estará no especial pode parecer tolo para quem já conhece a cidade há tempos ou mora por lá. O intuito dos textos é dar dicas para quem tem poucos dias na cidade, ou vai visitá-la pela primeira vez. Claro, quem quiser passar mais dicas nos comentários pode ficar à vontade. Ou me enviar por e-mail.

Paris – uma reflexão (banal) sobre a cidade

A capital da França é bela, e esse fato é inegável. É difícil não se encantar, mesmo que por poucos segundos, com as construções antigas e todos os cartões postais que já vimos tantas vezes em filmes. A cidade é mágica, e existe algo especial no ar vintage que permeia cada passagem, em um contraste relativamente harmonioso com os monumentais prédios modernos que tomam conta aos poucos de pontos estratégicos.

Paris é uma cidade caótica durante as férias. Turistas aparecem nos locais mais inusitados, o tempo inteiro. Durante a semana, o local porta-se como toda cidade grande – com trânsito, e muito, muito barulho. Mas são detalhes. Afinal, não faltam opções para fugir do tumulto. Em alguns lugares, é necessária uma forte tendência à imaginação. Perante um monumento ou uma tela, é preciso esquecer que existe mundo e concentrar-se no que está à sua frente. Talvez você leve alguma cotovelada, ou seja surpreendida pelo flash que registra uma criatura sorridente ao seu lado. Não façam cara de surpresa, muito menos de desprezo – isto é Paris durante o verão, em pleno mês de julho.

E não se preocupem, não existem apenas lugares que apelam à fuga unicamente metafórica. Existem jardins e bibliotecas onde você pode se sentar e apenas contemplar a vista – ou mesmo escrever ou ler um pouquinho. Dependendo do local, ainda é possível aproveitar a companhia de um bom café e um croissant – embora em certos horários um chá e um delicioso macaron caiam melhor.

Quem habita na cidade continua em seu ritmo cotidiano, sem se incomodar com a presença dos turistas que a tumultuam. Perfeito à observação dos visitantes, que podem até mesmo estranhar tanta naturalidade perante um movimento atípico.

E quando o assunto é comida, um belo contraste contempla a relação entre as principais iguarias da cidade. Enquanto as pessoas se preocupam tanto com a fama dos docinhos, até se esquecem de destacar o quão boas são as saladas francesas – capazes até mesmo de agradar o paladar das pessoas que pulam a salada na hora do almoço.

Quem tem medo de circular por ruas escuras durante a noite pode deixar o receio no Brasil. Em julho, o sol só se despede depois das 21h. Existem até mesmo passeios “noturnos” em alguns museus. Ideal para desvendar a cidade até mais tarde. É possível aproveitá-la sem alegar sentir medo de sair à noite.

Se a chuva invadir o cenário, não pensem em um dia perdido. Como o Gil Pender de Meia-noite em Paris proferiu, Paris fica ainda mais encantadora com chuva. Basta deixar um casaco e o guarda-chuva a postos. Haverá sempre um programa interessante entre muitas opções para aproveitar a cidade em meio à tempestade.

Não se acanhem – ser turista não é tão vergonhoso quanto parece. Tanto os cartões postais da cidade quanto paisagens pouco exploradas são perfeitos à fotografia. O ideal é aproveitar os belos cenários para criar história em seus registros.

Cheia de romantismo e com seus ares que lembram um passado distante, Paris é uma cidade convidativa. Sempre pronta para ser redescoberta a cada visita.

A cultura francesa

Se você estuda francês e seu professor fala sobre a politesse em quase todas as aulas, não faça careta. É muito importante. Os franceses, em um primeiro contato, são extremamente formais. Sim, em Paris a educação nas conversas existe e é perpetuada. Não importa o ambiente – e nisso reside a maior diferença com a abordagem brasileira – o primeiro contato se dá, obrigatoriamente, pelo vouvoyer. A dica para os estudantes da língua francesa é atentar-se à conjugação dos verbos na segunda pessoa do plural.

Se você não sabe nada de francês, não se desespere. Em restaurantes e lojas, a maioria dos vendedores entende e fala o inglês. Mas nem todos encaram a abordagem em língua estrangeira com bons ouvidos. O fundamental é iniciar o diálogo com educação. Como li em um guia, uma boa sugestão é perguntar “parlez-vous l’anglais?” e torcer para que a resposta seja sim. Se você não for britânico, sua situação já fica consideravelmente melhor.

Para vocês terem uma ideia dos extremos, contarei duas situações pelas quais passei durante a visita. Fui com meus pais. Nós estudamos francês, mas eu comecei antes. Costumava ser a primeira a falar, e quando era necessário, traduzia para eles. Aí estava o problema. Eu queria falar em francês, mas quando ia traduzir para os meus pais, eles notavam e começavam a falar em inglês ou em espanhol.

Em um belo dia, quando fomos para o caixa na Fnac, aconteceu algo chato. Ela pediu algum documento de identificação ao meu pai e, enquanto eu traduzia, ela simplesmente jogou a sacola com os cds do outro lado do balcão – como se não houvesse nada ali dentro. Como ela notou que não éramos nativos, poderia simplesmente pedir o passaporte. Mas não, fechou a cara, começou a dar patada e ainda tratou nossas compras com enoorme delicadeza. A impressão? Alguns franceses não gostam de estrangeiros, em hipótese alguma. Porque conversávamos em francês, mas ela perdeu a paciência quando fui traduzir algo que meu pai não havia entendido.

Por outro lado, no cinema Gaumont Champs-Elysées Marignan, aconteceu algo bem legal. Conversei com a moça da bombonière para pedir informações, e quando meus pais perguntaram “e aí, o que ela disse?”, ela perguntou se éramos do Brasil. Perante a resposta positiva, ela abriu um sorriso. Disse que adorava os brasileiros, nos ajudou e até nos deu um chaveiro de presente na saída. Conversamos apenas em francês, não entramos ali para ver filmes, e ainda assim, fomos muito bem tratados. Viram? Não existe padrão.

De resto, achei a cidade até um pouco parecida com São Paulo. Há muito movimento e as pessoas são bem sérias. Cada um segue com suas obrigações, sem se incomodar (ou até mesmo fingindo não se importar) com o que acontece nos arredores. Em julho, o sol se põe bem tarde – após as 21h30. A vantagem é poder aproveitar até mais tarde. Mas lembrem-se, todos pensarão assim. Logo, a cidade permanece bastante movimentada em todos os horários do dia – o que pode até mesmo ser um atrativo para muitos.

Voilà! Com a primeira parte, apresento uma base introdutória para todos os textos publicados até sexta. Afinal, é complicado dar dicas sobre Paris sem falar sobre a cultura francesa. Na primeira parte só apresento um quadro geral. Mas, claro, também serve como um guia básico para a boa convivência com os franceses neste primeiro contato.

E amanhã, na segunda parte, falarei um pouco sobre como se movimentar na cidade. Embora pareça meio óbvio, é sempre bom ter uma noção prévia do funcionamento dos transportes antes da viagem. Bonne journée à tous e até amanhã!

It all ends…

Vim do interior. Um lugar pequeno de verdade, com poucas ruas, onde todos se conhecem. Posso comprovar – às vezes o vizinho descobria o destino da minha viagem durante o feriado antes de mim. Nasci em uma capital com cara de interior, mas desde meu primeiro mês de vida, habitei em cidades de nomes estranhos no estado do Mato Grosso do Sul. A mudança viria apenas aos 10 anos, em 2001. Pouco antes do fim de maio, já estava com malas e caixas prontas para me mudar para a capital.

Primeiro desafio? Adaptar-me o mais rápido possível à escola em apenas um mês. Julho sempre foi mês de férias, e a quarta série do ensino fundamental seguia normalmente no mês de junho. No primeiro mês de aula, eu conversava pouco. Logo, tinha tempo de sobra para observar o comportamento de todos os meus futuros colegas. Havia um grupo de meninas que circulava sempre com um livro em mãos. A capa era verde, com um menino sorridente na capa.

A memória me falha depois de tantos anos, o que me impede de reproduzir com precisão os momentos seguintes. Acredito que após um pouco de hesitação, perguntei a elas o título daquele livro. “Harry Potter e o Cálice de Fogo”. Parte de uma série, a versão traduzida do quarto título fora publicada recentemente.

Eu já gostava de ler, e precisava de assunto para fazer amigos. Uma velha frase clichê não poderia explicar minha situação com tamanha perfeição – eu precisava unir o útil ao agradável. Torci para que fosse tão interessante quanto parecia e pedi os quatro livros de presente.

Como nem tudo é perfeito, não me bastou arranjar companhia para as férias. No mês de julho de 2011, adquiri um vício. Razoavelmente saudável, arrisco dizer. Pois consistia em leitura – um tanto obsessiva, mas isso era um detalhe. Para uma criança de dez anos, a história criada por J.K. Rowling era perfeita. Possuía todos os detalhes ideais para manter uma pessoa com os olhos grudados nas páginas por horas a fio.

Junto com a minha descoberta, vieram as notícias sobre a adaptação dos livros para o cinema. Imaginem a paixão desmedida (e agravada)! Passei a dar trabalho aos meus pais. Colecionava revistas, álbum de figurinhas…e, além de reler cada título, tentava sanar minha ansiedade por novidades com fanfics. É, sou do tempo dos fóruns de discussão do Yahoo – e também de outros sites, que surgiam aos poucos naquela época.

Com Harry Potter, aprendi – embora de forma singela – sobre valores. Aquelas coisas que você fatalmente aprende com a vida, mas que estavam ali, camufladas em incontáveis passagens das sete obras.  A série define o primeiro esboço do valor da ficção em minha vida. Cada momento com um livro em mãos ou na sala de cinema servia como refúgio. Era hora de se desligar de um mundo e adentrar em outro – mágico, e que provocaria puro deleite até mesmo agora. Sim, agora. Com vinte anos, meus olhos enchem de lágrimas até mesmo o trailer da segunda parte da última adaptação da saga.

Qualquer um pode me dizer que é exatamente esta a graça da ficção, e não necessariamente de Harry Potter. Certamente. Porém, foi assim que tudo começou para mim. Foi a “historinha bobinha de um bruxo” a responsável pelo meu despertar literário. O quinto livro, por exemplo, mostrou que eu poderia encarar um livro com mais que 500 páginas sem medo.

E acrescento – embora muitos desprezem a saga e a considerem demasiado tola, quando procuro afastar meu lado fã, visualizo sim um grande valor literário. Todos os livros são bem escritos, e considero a autora extremamente hábil ao unir todos os pontos da história. Sem contar toda a criação do mundo dos bruxos. É tudo bastante delicado e minucioso.

É doloroso imaginar que não precisarei mais madrugar na porta de uma livraria à espera do próximo livro. Muito menos correr para garantir meu ingresso para a estreia do próximo filme. Cresci, literalmente, com Harry, Hermione, Rony e todos os outros. Acompanhei o amadurecimento de todos enquanto trilhava meu caminho para a vida adulta.

Uma frase resume o que sinto com relação ao fim da saga – “I feel like an old friend died”. Fica uma sensação de luto, como se eu acabasse de me despedir de um grande amigo. E por isso, preciso dizer obrigada à J. K. Rowling e, claro, a todos os diretores e atores envolvidos ao longo de todos esses anos. Pela companhia, pelas preciosas lições, por despertar tantos jovens para a literatura. Por comover sem ser apelativo. Por último, e não menos importante – pela habilidade mágica de unir tantas pessoas.

(* Créditos à Marina por mencionar a frase)