Caráter bem-humorado a um enfadonho cotidiano

A premissa de Scott Pilgrim Contra o Mundo é um mero disfarce. A pacata vida contada como um jogo de videogame parece um tema de interesse somente para jovens nerds e geeks. Lutar com os “sete ex-namorados malvados” da garota – literalmente – de seus sonhos, pode parecer ainda mais absurdo, mas é apenas o artifício ideal utilizado para aplicar, de forma bem humorada e inteligente, inúmeras tiradas sarcásticas ao filme.

Scott Pilgrim, interpretado sem muitas dificuldades por Michael Cera, segue a linha dos exemplos a não serem adotados. Com 23 anos, está desempregado, não faz faculdade, além de ter um amigo gay como roommate. Para completar, mantém uma banda com amigos do Ensino Médio, a Sex Bob-Omb. E “namora” uma  colegial. Tudo muda quando encontra a garota que havia aparecido em seu sonho – Ramona Flowers, papel de Mary Elizabeth Winstead. A moça acaba de chegar à cidade e seu ar misterioso atrai ainda mais a atenção de Scott – o que é muito, para um garoto distraído como ele. Porém, para ficar com Ramona, ele precisa enfrentar a liga dos sete ex-namorados dela.

Através de metáforas bem elaboradas, inicia-se o ‘jogo’ para permanecer com a garota. Ao adaptar a série de quadrinhos de Brian Lee O’Malley, o diretor Edgar Wright faz bom proveito dos recursos do cinema para deixar o enredo ainda mais emocionante. Não descarta elementos do videogame – cada duelo é marcado pelo “VS”, além da clássica barrinha de vida.

Uma das características marcantes do longa são as piadas aplicadas por intermédio dos sete ex-namorados. O terceiro, Todd – vivido pro Brandon Routh – ganhou poderes especiais por ser vegan. Chris Evans interpreta Lucas Lee, um ator que tira proveito da fama de vilão e dos incontáveis dublês, mas não é esperto o suficiente para recusar o desafio proposto por Scott. Como nos games mais conhecidos, a personagem principal precisa conhecer as táticas especiais para combater cada oponente – e, claro, adquire vantagens ao fim de cada disputa. Além das moedinhas adquiridas ao eliminar cada oponente, as conquistas são criativas – como uma “Espada do Amor Próprio”, que dá direito a um bônus pela confiança na própria personalidade.

Caso se tratasse de um filme fraco, o humor ácido presente na maioria das cenas seria suficiente para ofuscar qualquer defeito. A perspicácia de Kim Pine, encarnada por Alison Pill e as falas do divertido Wallace, – papel de Kieran Culkin – amigo gay que divide o quarto com Scott, são dois bons exemplos da presença do gênero comédia.

A escolha das músicas para a trilha sonora também é impecável – inclui canções ‘moderninhas’, como Black Sheep, da banda Metric e clássicas, como Under My Thumb, cover feito pelos Rolling Stones.

Através de diálogos espertos e incontáveis referências à cultura pop, Scott Pilgrim Contra o Mundo diverte sem cair nos clichês das comédias comuns, atribuindo faceta bem-humorada ao ordinário cotidiano.

[Publicado também no site de Cultura Geral da Cásper]

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Tradução do Inexprimível

Léa Seydoux e Arthur Igual

O que esperar do encontro de um alfaiate com uma jovem atriz? O média metragem Aprendiz de Alfaiate traduz esse encontro através da fusão da expressão artística de ambos. Um, portador de uma tristeza indefinível e utilizando a arte cênica como refúgio. O outro, buscando confiança na carreira e tornar-se um profissional da alta costura. O possível relacionamento é deslindado para resultar em uma pequena história de amor tipicamente francesa. É o segundo trabalho de Louis Garrel como diretor, que já havia dirigido o curta Mes Copains em 2008.

A ‘escola’ de Arthur (Arthur Igual), o aprendiz de alfaiate, é o ateliê de Albert, vivido por Albert Igual. Por estimar muito seu aluno, ele o escolhe como sucessor ao se aposentar. Quando esse momento se aproxima, em uma ida ao teatro, o amigo Sylvain, papel de Sylvain Creuzevault, o apresenta à atriz Marie-Julie, interpretada por Léa Seydoux, de A Bela Junie. Embora resista a princípio, acaba cedendo e envolve-se com ela.

Em uma das cenas mais bonitas da produção, Arthur tira as medidas de Marie-Julie enquanto ela dorme – tendo em mente a confecção de um vestido para presenteá-la. O momento marca o conflito da personagem – uma realidade não muito distante do que algumas vezes presenciamos. Valeria a pena abrir mão da formação profissional almejada para viver um romance instável? Afinal, ela vive do teatro, assumindo o compromisso de viajar com a peça. E ele, ao mesmo tempo em que batalha para tornar-se exímio alfaiate, não pode decepcionar Albert, que o vê como um filho.

O diretor elege boas referências – da trilha sonora, com direito a música dos Smiths, até trechos da obra de Tchekhov – citados pelas personagens. Outra boa escolha foi a opção pela filmagem em preto e branco, que atribui um tom clássico e romântico à obra. As tomadas, bem selecionadas, concentram a atenção do espectador nos movimentos e sensações de cada figura em cena.

Embora seja a segunda experiência cinematográfica de Garrel como diretor, o resultado é impecável. Ele consegue sintetizar, em poucos minutos, sentimentos que para muitos parecem inexprimíveis.

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Quando o fantasioso ameniza a realidade

Alicja Bachleda e Colin Farrell

As paisagens irlandesas são ideais para a propagação dos mitos ali existentes. É o caso das selkies, espécie de focas que podem se transformar em humanas – criaturas mitológicas do folclore partilhado pela Irlanda, Islândia e Escócia. Tais seres fantásticos serviram de inspiração para Ondine, novo longa do diretor Neil Jordan, conhecido pelo filme Entrevista com o Vampiro. A escolha do local das filmagens não poderia ser melhor. Christopher Doyle – responsável pela fotografia do filme Paris, Te Amo – teve o cuidado de selecionar os espaços perfeitos para este “conto de fadas moderno” na península Beara, na Irlanda.

Syracuse – personagem que marca a volta de Colin Farrell com bom desempenho nos cinemas – trabalha como pescador, sem muito sucesso, até o dia em que ‘pesca’ uma jovem chamada Ondine – interpretada pela atriz e cantora polonesa Alicja Bachleda. Ao encontrar a filha, Annie, vivida por Alison Barry, transforma o acontecimento em uma história. A garota, embora debilitada por um problema nos rins e presa em uma cadeira de rodas, tem a curiosidade aguçada; o que a leva à casa da falecida avó, onde encontra a moça do conto de fadas contado pelo pai. A inocência infantil, intensificada pelas leituras sobre criaturas mitológicas, leva Annie a aceitar Ondine como uma verdadeira selkie, convencendo o pai do mesmo.

O diretor mistura fantasia e realidade fazendo o espectador questionar-se sobre a veracidade dos fatos. Apesar das descobertas com a nova figura presente na vida de ambos, as personagens vivem realidades conflitantes. Syracuse recorre ao padre para se confessar, e a cada ida à igreja, enfatiza o fato de não beber há dois anos. Argumento insuficiente para ter a guarda da filha, que vive com a mãe, alcoólatra, e o padrasto pouco delicado. A suposta selkie tem sua fantasia abalada pelo receio de ter contato com outras pessoas – e também pela presença de um homem misterioso na cidade.

A premissa remete a um filme típico de “sessão da tarde”, mas diferencia-se por acrescentar o drama a todo momento, delineando a pouca probabilidade de um final feliz. É como se o diretor optasse pela fantasia para amenizar a triste faceta da realidade, unindo um mero mito com as crenças da comunidade local.

[Publicado também no site de Cultura Geral da Cásper]