Em degradado vermelho

Tarde dominga tarde
pacificada como os atos definitivos.
Algumas folhas da amendoeira expiram em degradado vermelho.
Outras estão apenas nascendo,
verde polido onde a luz estala.
O tronco é o mesmo
e todas as folhas são a mesma antiga
folha
a brotar de seu fim
enquanto roazmente
a vida, sem contraste, me destrói.

[Carlos Drummond de Andrade]

Minha contribuição para o dia da poesia é singela. Hoje não é domingo, mas os dias andam tomados pela sensação de tarde, dominga tarde. A letargia não dá brecha para esboçar uma reação adequada. Perde sua condição de adjetivo e vira um estado de espírito. Como acionar um botão no modo automático e distribuir sorrisos ou lamentos como um robô. Não é por mal, mas a vida executa seu trabalho lento e cheio de tortuosidades.  Roazmente destruindo.

Desde um exercício perdido na velha apostila de português do ensino médio, esse poema prendeu minha atenção. Sempre tive uma ligação muito forte com ele, a ponto de reescrevê-lo pelos cantos quase que inconscientemente (e, repetindo o in, incessantemente). Hoje, com mais intensidade do que em qualquer período da minha vida, posso dizer que sou tributária a ele.

Um alívio imediato ao me deparar com uma expressão clara das coisas que não consigo exprimir. Se há motivos para celebrar a poesia, ao menos para mim, esse é o mais importante. Sem mais.