Besançon, França – as primeiras impressões

Coerência não é o meu forte, então antes de contar um pouco sobre a cidade – aquelas informações gerais sobre população, localização, temperatura, etc -, ou sobre o curso, resolvi começar pelas minhas primeiras impressões. Acho que cabe retomar toda a treta que me acompanhou na véspera da viagem, porque se fosse sem emoção não teria graça e eu adoro viver perigosamente (mentira, nem sou tão aventureira assim mas a vida vive mandando indiretinhas pra ver se mudo).

De trem, o percurso de Paris a Besançon leva mais ou menos 2h20. Precisaria estar aqui no dia 26 de janeiro às 8h. Devido a alguns erros de percurso, minha passagem de trem estava marcada para o dia 26 às 14h53. Fofa e deliciosa a vida. Chegaria em Paris no dia 25, às 13h, e até teria um tempo para ser feliz. Por pedidos da escola, abortei os planos e comprei uma nova passagem para sair de Paris no domingo à noite e, claro, chegar a tempo de fazer a prova na segunda de manhã. Então a TAM resolveu dar um toque na sexta-feira à tarde (isso mesmo, dia 23!), dizendo que o meu vôo tinha mudado para o dia 25, às 5h. Ou seja, chegaria em Paris às 19h. Quais as chances de desembarcar, passar pela alfândega, pegas as malas na esteira e conseguir ir do Charles de Gaulle para a Gare de Lyon a tempo? Meu bilhete de trem novo estava marcado para 20h53.

O vôo atrasou quase uma hora. As malas demoraram… e óbvio, perdi uma puta grana pois só cheguei perto da Gare de Lyon depois das 21h. Suficiente para dormir zero de preocupação e não conseguir dar uma voltinha por Paris por medo de perder o outro trem (lembram-se do que comentei ontem? Seria minha primeira viagem de trem sozinha E com duas malas pesadas). Por sorte já tinha outra passagem e não precisei ficar louca tentando conseguir uma barata de última hora. E sim, deu tempo, isso é assunto para outro post. Já estou em Besançon e por enquanto as tretas estão suspensas (também consegui mudar minhas provas para a terça-feira).

Voilà, contexto fornecido, falemos sobre as primeiras impressões:

Ser brasileira tem suas vantagens, principalmente no quesito paranoia. Imaginem minha cara ao descobrir que as malas ficam encaixadas no corredor do trem, por onde todos passam – seja para desembarcar ou ir ao banheiro. Pesado, não? Mas as pessoas não encostam. Foi surreal, toda hora eu dava aquela olhada de rabo de olho pra ver se continuavam lá e faltei chorar quando vi ambas intactas no destino final. Fiquei tão emocionada que nem me incomodei com a chuva fria que caía quando desci.

Franceses são deveras 8 ou 80: ou faltam te pegar no colo ou simplesmente cagam para a sua existência. Sem julgamentos com o termo, é isso mesmo. Percebo que não é uma questão de grosseria, o desprezo parece inerente e na cabeça deles deve ser um jeito natural de agir. Por exemplo, quando perguntei em um pub se tinham um menu de comidas ou só serviam bebidas, o cara respondeu naturalmente que se quisesse poderia comer um sanduíche no restaurante ao lado. Quando me atrapalhei com as moedas e sem querer dei um peso para pagar o café, o cara reagiu como se fosse o fim do mundo, dizendo até que aquilo nem era dinheiro de verdade. Respondi com a mesma candura dizendo que sim, só era dinheiro de outro país que ele não conhecia (vou voltar simpática). Não sei se é coisa minha, mas não encarei como óóó, que povo grosso, vou chorar e ir embora. No fundo achei engraçado, só lamento pela amargura. Ao mesmo tempo, estive em uma lojinha que vende comidas italianas – em especial para levar, mas eles servem comida no local também – onde até uma criança desejava bom apetite antes de sair do ambiente. Em vários lugares foram extremamente atenciosos, perguntam várias vezes se precisamos de ajuda, tudo isso. Já percebi que eles acham legal quando a pessoa se empenha em falar a língua mesmo com dificuldade e são super compreensivos. Não existe isso de ficar revoltado por você ser “lerdo”. E olha que delícia poder ser lerda sem culpa e sem me sentir ruim por isso! Tô me sentindo em casa.

Isso é de conhecimento de quem já veio para a Europa: nos restaurantes e cafés ninguém liga para a sua presença. Se quiser ficar 5 minutos ou duas horas, não vão te pedir pra andar logo nem perguntar se você quer mais alguma coisa. Quando você se senta eles trazem o cardápio, anotam o pedido e só voltam para entregar os pratos/bebidas. Para pedir mais coisas você precisa chamar. Aliás, você precisa realizar uma performance de dança contemporânea digna de Pina Bausch. Não é fácil conquistar a atenção dos atendentes. Ademais, em especial nos bares e pubs, eles já trazem as bebidas com a nota fiscal. Prepare os trocados, pois alguns exigem que você pague na hora. Ah, vale frisar: não é uma indireta pra você andar logo. Pode pagar e ficar lá mais duas horas.

Não se reprima! Menudos ficariam orgulhosos e se sentiriam em casa. Tenho rinite alérgica e quando ataca sofro bastante, porque as pessoas olham feio toda vez que limpo o nariz no meio da sala ou do restaurante. Como se fosse mais ok deixar o ranho à vontade ao invés de escondê-lo. Aqui não tem isso, inclusive os franceses ficam tranquilos para pegar um guardanapo e assoar o nariz no meio do restaurante. O mesmo serve para espirros barulhentos no meio da rua.

– As crianças aqui andam com coleira! Isso mesmo, é comum ver uma mulher com um bebê no colo e o outro à tiracolo, controlado por uma espécie de coleira. Para eles é tão tranquilo que chegam a estranhar quando os gringos olham com cara de what the fuck.

– Os horários de Besançon são BIZARROS, não tenho outras palavras para definir. Também rola aquele esquema de siesta como na Espanha. Aí tem lugar que fecha às 14h reabre às 17h, outros às 18h, outros permanecem fechados. Então dica da Lidy: se for fazer supermercado, por exemplo, faça cedo. Porque não costumam reabrir. Se for a algum local específico, consulte o horário de funcionamento antes. Quem tem o hábito de almoçar deve fazê-lo até as 14h, porque nem todo lugar serve almoço depois desse horário. Tem isso também, há locais bem específicos quando o assunto é comida. Então se o café da manhã é servido até as 11h, nem adianta insistir e pedir com jeitinho pra conseguir essa refeição às 11h05.

Falando nisso, sabe a rixa entre britânicos e franceses? Mega coerente, claro. Não sei qual é o nível exato de ódio, mas pontualidade não é forte da nação francesa. Eles são bem fiéis aos horários propostos. Se a secretaria da escola fica fechada das 14h às 15h, não adianta tentar falar com a pessoa às 14h30. Se ela estiver dentro da sala vai até fingir que não te vê. Agora se você tem uma prova marcada às 8h, sente e espere com paciência, pode ser que ela comece só depois de uns 15 minutos.

Amigas mulheres, dica: o Chopp é mais barato que um pacote de absorventes. Sem zoeira. Ok, sendo sincera, varia entre €2 e €5, depende da qualidade de cerveja. Mas o de 2 é uma delícia, tá? Então vá na fé. O mesmo vale para itens de higiene pessoal, em especial escovas de dente e fio dental. Se for passar uma temporada por aqui, como eu, não se incomode em encher a mala com essas coisas.

Sim, teremos mais “curiosidades francesas”, isso é só um menu degustação. Me aguardem.

À bientôt!

Vedett, uma das minhas belgas favoritas, por míseros 4 euros perto da escola <3

Vedett, uma das minhas belgas favoritas, por míseros 4 euros perto da escola <3

Besan…quoi?

Ouvi dizer que 2014 virou 2015, rápido, sutil a ponto de nem me dar conta da mudança. Quando sinto a testa franzindo ao sentir o vento congelante, me pergunto se de fato cheguei ou se estou num limbo ou espécie de universo paralelo. Esse negócio de cair a ficha e tudo mais, vocês sabem. Ainda não tive o estalo, deve chegar em breve. Em dado momento do ano passado decidi fazer um breve intercâmbio. Respirar novos ares, melhorar meu francês preguiçoso. Escolhi uma cidade do interior, mandei alguns (tantos) e-mails, juntei documentação de uma vida inteira, dei um beijo nos meus pais e abraços nos amigos, preparei as malas na véspera e fui. Meio reckless: nem conhecia a cidade, que não tem aeroporto e fica relativamente distante de Paris (isso mesmo, para tristeza dos amigos que de imediato associaram França a Paris). Vale lembrar que nunca tinha andado sozinha de trem. Muito menos empurrando duas malas.

Por que raios Besançon?

Foi o curso mais acolhedor a distancia. Respondiam meus e-mails sempre em tempo, tinham um preço honesto, e sim, como no Brasil, o interior tende a ser mais em conta para mortais que não recebem em euros. Praticidade também é tudo nessa vida. Não queria gastar horrores com transporte e moradia. Tenho uma teoria de que cidades pequenas são mais apropriadas para melhorar a aptidão com a língua: os moradores não têm tantos vícios de linguagem e é mais difícil encontrar brasileiros a cada esquina. A possibilidade de conhecer o cotidiano em uma pequena cidade do interior também foi um atrativo.

Ok, agora me conta: como você descobriu essa cidade e o curso?

Na verdade a culpa foi toda do Caio, que um dia comentou sobre um curso que havia encontrado jogando no google. Besançon? Desconhecia. Curso de francês, universidades nessa cidade? Nada, minha gente. Aí veio o papo de olha, perto da Suiça, meio frio. O discurso do frio sempre funciona comigo e pareceu uma boa desculpa para também brincar de search, ver preços e virar o site ao avesso. Pensei pouco, troquei uma ideia com os meus pais – podem dizer qualquer coisa, a palavra deles ainda é forte e eles são bem mais sensatos que eu na hora de tomar uma decisão súbita como essa-, e logo comecei a me movimentar para as coisas acontecerem.

Nossaaaa, cara! Mas você não enjoa da França?

A questão é simples e eu poderia me limitar a responder não, não enjoo. Mas seria francês demais da minha parte e não quero me contaminar nesse aspecto. Posso não ser perfeccionista com a vida, mas sou BEM chata com o aprendizado da língua. Gosto de aprimorar ao máximo. Se eu tivesse grana daria uma volta ao mundo, largaria emprego só para viajar. Nessa vida não deu. Então aproveito o gosto pelos estudos para conhecer outros lugares.

Ótimo. Fica na Europa, dá pra fazer mochilão!!!

Dá! Eba, que délice, vou preparar a mochilinha e me jogar no mundo. Só que não. Minha prioridade é honrar a grana investida no curso e isso mesmo, estudar. Se der pra viajar, legal, se não, paciência. Adeus aos posts motivacionais de gente que passou um ano viajando sem gastar um centavo. Sou metódica demais para permitir algo ao nível em minha vida. Minha mãe costuma dizer que sou nova e ainda tenho muito tempo para conhecer o mundo. Confio nas palavras dela e não tenho mais pressa.

Ok, e agora?

Oras, teremos alguns textos pela frente sobre as impressões de uma brasileira perdida sobre uma cidade – desconhecida SIM, nem venham me dizer que já ouviram falar – no interior da França [aqui vale inserir uma rápida nota para dizer que ninguém conhece a rua na qual vou morar. Ou talvez eu não tenha aprendido a pronunciar bem o nome da rua]. Fiquem livres para perguntar coisas sobre o lugar (ou a experiência propriamente dita), providenciarei no meu ritmo devagar quase parando, mas uma hora a resposta chega, prometo.

À bientôt!