Páginas amareladas de viagens #1

Minha visão ao trancar a porta antes de sair todos os dias, em Canterbury

Minha visão ao trancar a porta antes de sair todos os dias, em Canterbury

Sinto um pouco de tristeza toda vez que olho para o RG na carteira e penso sobre quantos lugares poderia conhecer agora. Creio que de todas as pressões da sociedade essa é a que mais me dói: essa ladainha de aproveitar a disposição da juventude para dar a volta ao mundo e encarar essas aventuras para as quais não teremos estrutura psicológica depois dos 60. Fico ainda mais apavorada quando me lembro do quão cara de pau eu era quando tinha 16 anos. Quisera ter aproveitado ainda mais essa “ousadia” toda. Na minha cabeça, todavia, tinha a maior esperança de juntar uma grana e fazer uma tour maluca por diversos países.

Então recebi postais da Isa e passei acompanhar a coluna dela no Posfácio. Quem ficou com coceira de retomar os planos de mochileira feliz? Enquanto não acontece, resolvi retomar algumas memórias antigas. Apego ao passado é doença, eu sei, mas cada viagem me fez crescer tanto como ser humano que é difícil abrir mão de boas lembranças. Na verdade não chega a ser um apego ao passado, apenas um saudosismo indolor.

Pouco antes de 2007 virar 2008 entrei em um avião da Swiss Air com destino à Europa, que na época me era desconhecida. Disfarcei a ansiedade comendo todos os chocolates suíços que me foram oferecidos naquela aeronave. Já tinha “morado” em Toronto ao longo de quase dois meses, a experiência de morar na casa de desconhecidos não era novidade. A cultura, por sua vez, era distinta. Mesmo tendo lido uma monstruosidade de coisas sobre cada lugar que visitaria era difícil saber o que me esperava. Pela minha perspectiva, essa é a parte mais instigante de preparar as malas rumo a um local desconhecido. Você pode ler ficções, aqueles guias da Lonely Planet, tudo – por mais que eles te deem dicas e coordenadas, o que realmente traz algum peso à sua vida são as coisas que acontecem quando você coloca os pés no lugar.

O choque cultural passou a ser uma das melhores sensações para mim. Invisto em viagens justo pelas surpresas que elas me reservam. Nessa ocasião, o pacote incluía um dia na Suiça, entre Lucerna e Zurich, e quatro em Paris. De lá, iríamos a Canterbury para ter três semanas de curso de inglês. Válido reforçar que por motivos de 17 anos, mesmo já tendo viajado sozinha umas tantas vezes, não poderia sair por aí desbravando cidades a bordo de um trem aos fins de semana. Tudo precisava de autorização do “group leader”, o que considero até hoje palhaçada pura. Uma autorização resolveria as coisas, é claro, mas isso é assunto para outro texto. E apesar desse detalhe, foi um dos passeios em que mais conheci as cidades. Estando com um adulto me vigiando ou não, a cada deixa que me era dada andava até o solado do sapato ficar gasto, apenas observando cada detalhe. Não fazia questão de entrar em lojas nem de saber do contexto histórico dos imóveis pelos quais passava, só queria ter essa experiência de guardar todas aquelas imagens bem fixas na memória.

Eram tempos de segurança com a língua inglesa, com uma curiosidade para habituar os ouvidos ao sotaque britânico; e uma ameaça de poucos meses de francês, coisa suficiente para colocar alguns “pardon”, “excusez-moi” e “bonjour” nos meus escassos discursos. Sobre o alemão nada sabia, por sorte os suiços são especialistas em entender mímica. Estudara espanhol durante o Ensino Fundamental. Ter abandonado os estudos depois disso me fez esquecer até o básico da língua, e é curioso que ainda compreendesse alguma coisa quando descobri que dividiria quarto com duas argentinas – uma que se empenhava muito para aprender inglês, outra que tagarelava aos quatro ventos em língua espanhola. Em uma semana ouvi tudo que é tipo de língua, me misturei a essências distintas e garanto a vocês, como se fosse uma grande surpresa: nada disso constava nos guias. Nunca senti tanto amor pela confusão, nunca senti tanta vontade de continuar me perdendo sem interrupções. Cada soco que levava no cérebro me fazia ansiar ainda mais por novas pancadas. Já dizia Clarice que saudade é um pouco como fome, e a distância doía muito em dados momentos. Mas atravessar o oceano me ajudou a encarar a saudade como uma extensão, a cultivar minha autossuficiência como se isso me fosse imprescindível.

Comecei a semana vendo uns fogos de artifício pingados no céu de Lucerna, disfarçados onde mais cedo conseguia ver os montes cobertos de neve. Abracei uma das minhas melhores amigas, abstraí o frio e a última refeição do ano que consistiu em uma iguaria do Mc Donalds local (sim, logo eu que tenho horror aos lanches deles), abri meu coração para receber o ano que chegava sem a menor noção do que me esperava. Caminhei pelas ruas de Paris pouco tempo depois para terminar a minha semana na estrada, enfurnada em um ônibus que me tirou daquela cidade linda rumo a um porto no meio do nada, no norte da França, rumo a um Ferry Boat em crise de identidade. Ele era gigantesco e mais parecia um navio, embora sua condição precária o condenasse a ser um simples ferry boat. Saí de Paris com destino a La Manche, o famoso Canal da Mancha. Onde seria apresentada pela primeira vez ao Oceano Atlântico, no estreito que separava a semana descontraída da rápida experiência chamando Canterbury de lar.

Mesmo com a imensidão e beleza daquele azul, não estive apta a curtir a experiência por motivos de enjoo. Nunca imaginei que um ferry boat com cara de navio pudesse balançar tanto. O estranhamento se aplicava também ao primeiro spoiler da viagem: seria sofrido encarar a comida da Inglaterra. Estava lá, casualmente mareando, para descer em Dover, no condado de Kent, ainda meio desnorteada. Lembro até hoje do escuro, embora ainda fosse fim de tarde, do frio intenso e as nossas caras que condenavam um misto de expectativa e medo. Lembro da van, da empolgação de ver cada amigo ser deixado em uma casa diferente e ser a última “despejada”.

Poucas vezes chorei tanto, copiosamente, a ponto da host mother achar que havia acontecido algo. Superei o drama daquele dia hoje, quando soube que meu cachorro morreria, embora essa dor seja racional. Acomodei em Canterbury temendo qualquer traço de felicidade, e sem explicação aparente, chorei.

Tanta coisa a ser vivida, tanto a se explorar, uma fase nova pronta para começar, ter condições de estar naquele lugar. Quantas pessoas não gostariam de estar lá, não é verdade? E mesmo assim a gente se desestabiliza. Distance makes the heart grow fonder, é isso. Às vezes a dor vira souvenir. Estar longe traz uma sorte de reações físicas e psicológicas sem explicações, e deve ser por isso que sigo investindo nesses pedaços de papel que me levam para longe da zona de conforto.