La vie à Besançon – teaser

Adoro contexto, e me sinto mais confortável com a escrita. Fazer textão é amor – não nas redes sociais, por aqui mesmo. Algumas pessoas sugeriram que eu fizesse vídeos durante o intercâmbio, o que considerei uma afronta no início. Falta vocação, me sinto estranha olhando para a câmera, a ideia me parecia bem absurda. Então pensei, poxa, vivemos em uma era de tecnologia exacerbada, em outros tempos me restariam apenas fotos analógicas – com o risco de perder um filme, um registro específico. Considero lindo, adoro coisas antigas. Tanto que tenho mantido um diário todo escrito desde que cheguei – isso mesmo, caderninho, caneta e lápis. Por quê não sair por aí fazendo vídeos e guardar lembranças em movimento da minha passagem por aqui?

Na brincadeira, o Caio topou filmar o que seria um embrião do vlog. Sem roteiro, sem planejamento, nada. Acabamos filmando os colegas de sala dele tomando um shot no bar que frequentamos (o nome é Bar de l’U, e eles não tem site nem fanpage).

Dois fatos curiosos sobre este sábado: a última semana – de 22 de fevereiro à primeiro de março – foi de “férias” no curso. Fiquei em Besançon mesmo, o Caio viajou. E no meio do percurso uma das meninas que está no vídeo encontrou com ele. Antes de ir para o bar (ontem), comentei que meu roomie era estranho demais, muito tímido, por vezes meio creepy. Já no bar, eis que surge o moço, nos convida para jogar sinuca, senta na mesa e começa a trocar ideia. Quando digo “cerveja: connecting people” é só para enfatizar o efeito mágico do álcool nessas horas. As pessoas ficam mais soltinhas de fato. Minutos depois, os colegas de classe do Caio surgiram no Bar – inclusive a chinesa que viajou com ele.

Estou na França, mas a vida aqui me lembra muito Campo Grande, minha cidade natal. Esse jeitinho de interior bem característico: você sai de casa para ver um amigo e tomar um chopp e acaba encontrando meio mundo.

Contexto dado (e vários spoilers porque ainda não aprendi a brincar de vlog), aí está o vídeo. Assinem o canal para acompanhar nossas próximas empreitadas por aqui :)

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=CKwzoGoY_HU&feature=youtu.be]

 

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Besançon em linhas gerais

Árvores secas e a típica paisagem de inverno

Árvores secas e a típica paisagem de inverno

Se vocês jogarem “Besançon” no Google, não vão encontrar muitas informações. Se você não fala francês, então, um abraço. O site oficial da cidade é bem completo, mas para os gringos pouco familiarizados com a língua local deve ser uma tortura. Vou fazer um post falando sobre a cidade em tópicos, com aquelas informações básicas dos guias.

Para começo de conversa, a França tem 26 regiões administrativas (se alguém se interessar posso fazer um post só explicando as divisões administrativas do país). Cada região é dividida em departamentos. No momento estou em Franche-Comté, região dividida em quatro departamentos: Doubs, Jura, Haute-Saône e Territoire de Belfort. Besançon fica no Doubs, que por sinal é um rio que passa pela cidade e é lindo. Até dá para dizer que seria o nosso Rio Sena, mas ele é mais limpinho. A água é de um verde lindo, não me canso de olhar toda vez que passo por lá (a escola fica pertinho da margem).

Pôr-do-sol da minha janela

Pôr-do-sol da minha janela

Em tópicos, vamos comentar alguns fatos interessantes sobre a cidade:

– A cidade tem 245 092 habitantes. Isso mesmo, Lidyanne de volta às origens de vida ao interior! Quem nasce aqui é chamado de bisontin. Ou bisontine, caso seja mulher.

– Besançon é uma senhora de idade. A primeira pessoa a escrever sobre sua existência foi Julio César, que a batizou, no período (1058), de Vesontio. No século IV, o nome foi adaptado para Bisontion. Besançon só foi oficializado em 1243 (só, risos).

– Ao longo do século XVI e até o início do século XVII, O local esteve sob domínio da Espanha.

– Seis pontes cortam o rio Doubs. O que é mais interessante sobre isso? Bom, tem vários bancos espalhados pela margem para quem quiser aproveitar um dia de sol. Também tem várias pistas para corrida. E mesmo fora dessas pistas é possível ver pessoas correndo em diferentes horários do dia, seja bem cedinho, na hora do almoço, ou de noite. Há várias ciclovias sinalizadas. Ciclistas vivem em harmonia com carros e com o transporte público por aqui.

Patos no Doubs (curtindo a água gelada)

Patos no Doubs (curtindo a água gelada)

– Um ponto a se destacar: além dos ônibus, existe um sistema de tramway, que seria uma espécia de metrô de superfície. Muita gente, ainda assim, opta pelas bikes, mesmo quando está nevando. A cidade tem uns horários de trânsito carregado também.

– O destaque entre os turistas é a Citadelle de Besançon. Uma espécie de fortificação construída em torno da cidade. É uma construção bem antiga, então vale a visita!

– A região como um todo é conhecida pelos queijos – falarei sobre eles em breve – alguns são produzidos apenas na região de Franche-Comté. O Mont d’or, por exemplo, só pode ser comercializado em um determinado período do ano. Falarei sobre eles em breve – são tantos queijos que eles merecem um post só para eles, juro.

– Também vai ter um post só para falar sobre os vinhos. A região de Jura produz um vinho que só é vendido por aqui, de gosto bem particular. Classificado, principalmente segundo os locais, como aquele tipo de bebida que ou você ama ou odeia. Não tem meio termo.

Minha casa :)

Minha casa :)

– No comecinho de “O Vermelho e o Negro”, de Standhal, o jovem Julien Sorel mora em Besançon, onde faz seu seminário.

– Ainda aos apreciadores de literatura: aqui é a cidade natal de Victor Hugo. Isso mesmo, autor de Os Miseráveis. A casa da família foi transformada em museu.

– Como toda boa cidade de interior europeia, tem catedral pra mais de metro. Se você não é uma pessoa religiosa, vale conhecer mesmo pela arquitetura. Estruturas antigas foram preservadas e é tudo monumental, merecedor de um olhar mais aprofundado.

O famoso rio Doubs

O famoso rio Doubs

– Besançon possui um relógio bem famoso, localizado na Catedral Saint-Jean. Aproveitando a deixa, vale dizer que temos aqui o Museu do Tempo. Garantia de perspectivas muitas bonitas da cidade por ali.

– Aos fanáticos por Paris, a viagem de carro até a “cidade luz” leva 3h44. Ou seja, dá para visitar outros lugares mais próximos e tão interessantes quanto Paris, como Dole, Colmar, Dijon, Lyon e Strasbourg.

– Não tem aeroporto. Mas possui duas estações de trem. Quem preferir uma opção mais cômoda deve escolher como destino final “Besançon-Viotte”, localizada no centro da cidade.

Aqui também tem carros com cílios. Poisé.

Aqui também tem carros com cílios. Poisé.

– Amigos da imprensa: o jornal local se chama L’Est républicain. A linguagem dele é BEM popular, é uma espécie de folhetim nada formal. O canal televisivo local mais conhecido é o France 3 Franche-Comté, que também guarda suas semelhanças com o Brasil: tem noticiários o dia todo e novelas no começo da noite. Ah, por aqui o público infantil ainda tem força e as emissoras costumam exibir desenhos animados pela manhã.

– Na França, ser uma cidade do interior não é desculpa para falta de cinemas. Besançon tem três. O Pathé-Gaumont (uma rede bem famosa no país, o equivalente ao nosso cinemark) e o Mégarama, que recebem o circuito comercial, e o Victor Hugo, que seria um cinema “indie”, voltado à produções independentes.

– Como já comentei em outros posts, eles são bem fiéis aos horários de funcionamento. Normalmente nada abre no domingo. Quando abre, assim permanece por 4 horas – horários que normalmente são picados, então vale confirmar antes de ir. Na segunda, boa parte dos estabelecimentos só funciona a partir das 14h.

Velocité - bikes que você pode alugar em diferentes pontos da cidade. Os primeiros 30 minutos são de graça. Só paga se usar por mais tempo.

Velocité – bikes que você pode alugar em diferentes pontos da cidade. Os primeiros 30 minutos são de graça. Só paga se usar por mais tempo.

– Franche-Comté fica coladinho na Suíça. De carro, a viagem de Besançon à Genebra leva por volta de 2h15.

– As estações aqui são bem acentuadas – verão muito quente, inverno rigoroso. Dizem que não costuma nevar, mas peguei alguns dias de neve constante no fim de janeiro e comecinho de fevereiro.

Neve me recebendo na primeira semana

Neve me recebendo na primeira semana

Je fais rien que des bêtises

Você começa um curso em um prédio então desconhecido. A primeira semana é tempestuosa e cheia de mudanças. Você abre a porta da sala que pensa ser a da sua aula e descobre que se enganou, visto que um homem está à frente e sua professora é mulher. O que fazer? Fechar a porta e cavar um buraco no chão, certo? Não! Tem que fazer aquela cara de trouxa, perguntar se a aula de Littérature Francophone não é lá, esperar o professor perguntar o nome da responsável pela matéria (obviamente não deu tempo de decorar porque pelas suas contas são 5 professores diferentes), responder, ouvir as risadas dos alunos e sair como se nada tivesse acontecido. Modo Lidyanne de lidar com as coisas.

Lembre-se de não prestar atenção nos próprios passos – afinal, sempre dá pra dar aquela tropeçada épica e quase torcer o pé em um pedacinho de calçada. E por quê não entrar no refeitório do restaurante universitário pela porta de saída? E tem aquele chocolate quente mega tentador, feito com chocolate Milka. Inserir dois euros na máquina chega a dar felicidade, mas é tão intensa que dá pra esquecer-se de colocar o copo e perder metade do conteúdo.

Aliás, o café. Sempre um dilema. A abstinência pode te deixar desnorteada a ponto de querer pagar o expresso em pesos, afinal, moedas são todas iguais. Encontrar um café decente nessa terra de cafés ruins é tão emocionante que você ousa pagar o dobro por ele – mas o dono do estabelecimento é honesto e logo avisa que houve uma confusão com os valores.

Por sinal, voltemos ao Restaurante Universitário. Como é legal apontar para um prato, perguntar o que é e não entender a resposta! é interessante encarar a experiência no exterior como uma caixinha de surpresas. Estabeleci uma bela frase “de efeito” com meu amigo desde que chegamos aqui: não sei o que é, mas é muito gostoso! Nossa técnica consiste em procurar o nome de algum queijo gostoso e voilà, prato escolhido. Dificilmente sabemos explicar o que é, mas nunca é ruim. Seja para salgados ou doces.

Só não dá para esquecer-se do detalhe principal: franceses são fitness, pouco chegados à comida. Por outro lado, são chegados em bebidas alcoólicas. Então não cometa o erro de pedir um cardápio de comidinhas em um pub ou bar na França: isso não existe. Passe no Brioche Dorée ou no Paul para garantir o rango porque vai por mim, no bar só tem bebidas. E nem adianta chorar pra ver se consegue pelo menos um croque monsieur.

Por que você deveria largar tudo e viajar?

Ao contar sobre meus planos de estudar em Besançon era recorrente a pergunta: mas e o emprego? E a família? E os amigos? Para começo de conversa, me mudei para São Paulo em 2010, com 18 anos (prestes a fazer 19). Estava no meio termo, a idade em que muita gente costuma sair da casa dos pais. Dividi apartamento com a minha irmã e depois de um tempo passei a morar sozinha, então a “questão família” sempre foi contornável. São pessoas que não deixo de ver apesar da mudança. Quanto aos amigos, já escrevi sobre distância aqui. Minhas amizades mais fortes não se desfizeram por bobeira, muito menos por estar em outro continente. Inclusive adoro ter uma desculpa para mandar postais, meus lados old fashion fala mais alto nessas horas.

Sobre emprego, gente, o óbvio: dá pra conseguir outro depois, oras. Foi uma decisão muito fácil, embora entenda o lado de quem tem dificuldades em desapegar nessas horas. Quando você cria raiz em um lugar, fica difícil se desfazer. E isso vale para todas as outras coisas. Dói deixar tudo para trás: o emprego estável e com um belo salário, aquele relacionamento duradouro e perfeito, o seu cotidiano facilitado, tudo isso. Bastante cômodo e conveniente já ter tudo em mente. Sabemos onde encontrar comidas mais baratas, elegemos nossos bares e restaurantes favoritos, nos matriculamos em escolas de dança acessíveis e na academia mais próxima de casa, tem aquele delivery maroto do supermercado que te poupa de carregar mil sacolas… é uma delícia ter essa segurança. Mas é ainda mais gostoso largar tudo e encarar uma experiência em um lugar desconhecido.

Sabia bem pouco sobre Besançon ao escolhê-la. Nunca tinha visitado a cidade. O máximo que conhecia da França até então era Paris, Versalhes e Giverny. Nunca tinha andado de TGV. Aqui é tudo bem diferente. Não tem visita dos meus pais uma vez por mês, não tem as minhas coisas pra limpar a casa e cozinhar, minha máquina de lavar, preciso dividir o meu espaço, tudo isso. Ou seja, é complicado. Com certeza. E ainda assim sigo encarando tudo como aprendizado, sei que muito passaria batido caso ainda estivesse em São Paulo.

Em duas semanas, conheci pessoas que nasceram aqui, gente da China, da Malásia, do Kwait, dos Estados Unidos e de outros tantos lugares. Já falei francês, inglês, português, e até um ocasional espanhol BEM enferrujado. Me divirto tentando explicar as coisas com a minha bagagem ainda limitada de francês, invento palavras até mesmo no meio da aula, porque o importante é não se intimidar. Experimentei a comida típica da região (deliciosa!), matei a saudade das minhas cervejas belgas favoritas e ainda fui apresentada ao famoso vin jaune (típico da região, vai ter post para falar dele!). Já saí para correr e me apaixonei ainda mais pela atividade ao ar livre. Aqui todo mundo corre e anda bastante de bicicleta, mesmo com o frio – e juro, já vi pessoas se exercitando mesmo com chuva e neve! As pessoas respeitam quem corre ou anda de bike, então aproveito a deixa para mudar um pouco os percursos a cada dia e ver a cidade por outra perspectiva.

A ideia nem é de menosprezar minhas experiências no Brasil, muito pelo contrário. Sabe o que acontece? Em São Paulo havia estagnado. Precisava sair um pouco e ter essa experiência de começar do zero. E olha, você pode estudar qualquer língua por 10 anos no Brasil. Ao chegar no país vai ter aquele choque de realidade, porque o que nos ensinam sobre a cultura por trás de cada língua é insuficiente. Vão ter coisas que você só vai descobrir estando no lugar, convivendo com pessoas que nasceram e viveram aqui desde sempre. E trocando suas impressões com quem acabou de chegar para ficar meses (por vezes anos) ou só está de passagem. São os aspectos que fazem valer cada centavo investido nessa mudança.

Se tivesse relutado em “largar tudo”, evitaria uma série de experiências ótimas que esse intercâmbio tem proporcionado. Isso desde o início, por sinal. Foi a primeira vez que arrumei tudo por conta. Sim, meus pais ajudaram! Afinal, minha documentação está, em boa parte, em Campo Grande. Mas quem mandou mil e-mails para a escola e arranjou tudo fui eu. Estava em minhas mãos e assim continuará até o fim de maio. Tive a sorte de vir com o Caio, que me ajudou muito a me localizar na cidade. Ainda me perco, mesmo sendo um lugar pequeno e fácil de andar, mas nada que um mapa ou o google maps não ajudassem a resolver.

Minha ideia também não é transformar o incentivo em autoajuda. Dois intercâmbios mostraram o quanto é importante abandonar um pouco a zona de conforto e ter contato com culturas completamente distintas da sua. Sim, isso é bem válido para quem pensa em viajar por um/dois meses e vive adiando os planos por medo de ir sozinho, por exemplo.

Por isso, mesmo se a grana estiver curta, junte uma quantia legal para passar uma temporada fora, compre as passagens, prepare as malas e despeça-se dos amigos. Vocês vão ver como cada minuto será recompensador!

Essa é a minha cara de "feliz feito pinto no lixo", que diz muito sobre minhas duas semanas por aqui

Essa é a minha cara de “feliz feito pinto no lixo”, que diz muito sobre minhas duas semanas por aqui

Besançon, França – as primeiras impressões

Coerência não é o meu forte, então antes de contar um pouco sobre a cidade – aquelas informações gerais sobre população, localização, temperatura, etc -, ou sobre o curso, resolvi começar pelas minhas primeiras impressões. Acho que cabe retomar toda a treta que me acompanhou na véspera da viagem, porque se fosse sem emoção não teria graça e eu adoro viver perigosamente (mentira, nem sou tão aventureira assim mas a vida vive mandando indiretinhas pra ver se mudo).

De trem, o percurso de Paris a Besançon leva mais ou menos 2h20. Precisaria estar aqui no dia 26 de janeiro às 8h. Devido a alguns erros de percurso, minha passagem de trem estava marcada para o dia 26 às 14h53. Fofa e deliciosa a vida. Chegaria em Paris no dia 25, às 13h, e até teria um tempo para ser feliz. Por pedidos da escola, abortei os planos e comprei uma nova passagem para sair de Paris no domingo à noite e, claro, chegar a tempo de fazer a prova na segunda de manhã. Então a TAM resolveu dar um toque na sexta-feira à tarde (isso mesmo, dia 23!), dizendo que o meu vôo tinha mudado para o dia 25, às 5h. Ou seja, chegaria em Paris às 19h. Quais as chances de desembarcar, passar pela alfândega, pegas as malas na esteira e conseguir ir do Charles de Gaulle para a Gare de Lyon a tempo? Meu bilhete de trem novo estava marcado para 20h53.

O vôo atrasou quase uma hora. As malas demoraram… e óbvio, perdi uma puta grana pois só cheguei perto da Gare de Lyon depois das 21h. Suficiente para dormir zero de preocupação e não conseguir dar uma voltinha por Paris por medo de perder o outro trem (lembram-se do que comentei ontem? Seria minha primeira viagem de trem sozinha E com duas malas pesadas). Por sorte já tinha outra passagem e não precisei ficar louca tentando conseguir uma barata de última hora. E sim, deu tempo, isso é assunto para outro post. Já estou em Besançon e por enquanto as tretas estão suspensas (também consegui mudar minhas provas para a terça-feira).

Voilà, contexto fornecido, falemos sobre as primeiras impressões:

Ser brasileira tem suas vantagens, principalmente no quesito paranoia. Imaginem minha cara ao descobrir que as malas ficam encaixadas no corredor do trem, por onde todos passam – seja para desembarcar ou ir ao banheiro. Pesado, não? Mas as pessoas não encostam. Foi surreal, toda hora eu dava aquela olhada de rabo de olho pra ver se continuavam lá e faltei chorar quando vi ambas intactas no destino final. Fiquei tão emocionada que nem me incomodei com a chuva fria que caía quando desci.

Franceses são deveras 8 ou 80: ou faltam te pegar no colo ou simplesmente cagam para a sua existência. Sem julgamentos com o termo, é isso mesmo. Percebo que não é uma questão de grosseria, o desprezo parece inerente e na cabeça deles deve ser um jeito natural de agir. Por exemplo, quando perguntei em um pub se tinham um menu de comidas ou só serviam bebidas, o cara respondeu naturalmente que se quisesse poderia comer um sanduíche no restaurante ao lado. Quando me atrapalhei com as moedas e sem querer dei um peso para pagar o café, o cara reagiu como se fosse o fim do mundo, dizendo até que aquilo nem era dinheiro de verdade. Respondi com a mesma candura dizendo que sim, só era dinheiro de outro país que ele não conhecia (vou voltar simpática). Não sei se é coisa minha, mas não encarei como óóó, que povo grosso, vou chorar e ir embora. No fundo achei engraçado, só lamento pela amargura. Ao mesmo tempo, estive em uma lojinha que vende comidas italianas – em especial para levar, mas eles servem comida no local também – onde até uma criança desejava bom apetite antes de sair do ambiente. Em vários lugares foram extremamente atenciosos, perguntam várias vezes se precisamos de ajuda, tudo isso. Já percebi que eles acham legal quando a pessoa se empenha em falar a língua mesmo com dificuldade e são super compreensivos. Não existe isso de ficar revoltado por você ser “lerdo”. E olha que delícia poder ser lerda sem culpa e sem me sentir ruim por isso! Tô me sentindo em casa.

Isso é de conhecimento de quem já veio para a Europa: nos restaurantes e cafés ninguém liga para a sua presença. Se quiser ficar 5 minutos ou duas horas, não vão te pedir pra andar logo nem perguntar se você quer mais alguma coisa. Quando você se senta eles trazem o cardápio, anotam o pedido e só voltam para entregar os pratos/bebidas. Para pedir mais coisas você precisa chamar. Aliás, você precisa realizar uma performance de dança contemporânea digna de Pina Bausch. Não é fácil conquistar a atenção dos atendentes. Ademais, em especial nos bares e pubs, eles já trazem as bebidas com a nota fiscal. Prepare os trocados, pois alguns exigem que você pague na hora. Ah, vale frisar: não é uma indireta pra você andar logo. Pode pagar e ficar lá mais duas horas.

Não se reprima! Menudos ficariam orgulhosos e se sentiriam em casa. Tenho rinite alérgica e quando ataca sofro bastante, porque as pessoas olham feio toda vez que limpo o nariz no meio da sala ou do restaurante. Como se fosse mais ok deixar o ranho à vontade ao invés de escondê-lo. Aqui não tem isso, inclusive os franceses ficam tranquilos para pegar um guardanapo e assoar o nariz no meio do restaurante. O mesmo serve para espirros barulhentos no meio da rua.

– As crianças aqui andam com coleira! Isso mesmo, é comum ver uma mulher com um bebê no colo e o outro à tiracolo, controlado por uma espécie de coleira. Para eles é tão tranquilo que chegam a estranhar quando os gringos olham com cara de what the fuck.

– Os horários de Besançon são BIZARROS, não tenho outras palavras para definir. Também rola aquele esquema de siesta como na Espanha. Aí tem lugar que fecha às 14h reabre às 17h, outros às 18h, outros permanecem fechados. Então dica da Lidy: se for fazer supermercado, por exemplo, faça cedo. Porque não costumam reabrir. Se for a algum local específico, consulte o horário de funcionamento antes. Quem tem o hábito de almoçar deve fazê-lo até as 14h, porque nem todo lugar serve almoço depois desse horário. Tem isso também, há locais bem específicos quando o assunto é comida. Então se o café da manhã é servido até as 11h, nem adianta insistir e pedir com jeitinho pra conseguir essa refeição às 11h05.

Falando nisso, sabe a rixa entre britânicos e franceses? Mega coerente, claro. Não sei qual é o nível exato de ódio, mas pontualidade não é forte da nação francesa. Eles são bem fiéis aos horários propostos. Se a secretaria da escola fica fechada das 14h às 15h, não adianta tentar falar com a pessoa às 14h30. Se ela estiver dentro da sala vai até fingir que não te vê. Agora se você tem uma prova marcada às 8h, sente e espere com paciência, pode ser que ela comece só depois de uns 15 minutos.

Amigas mulheres, dica: o Chopp é mais barato que um pacote de absorventes. Sem zoeira. Ok, sendo sincera, varia entre €2 e €5, depende da qualidade de cerveja. Mas o de 2 é uma delícia, tá? Então vá na fé. O mesmo vale para itens de higiene pessoal, em especial escovas de dente e fio dental. Se for passar uma temporada por aqui, como eu, não se incomode em encher a mala com essas coisas.

Sim, teremos mais “curiosidades francesas”, isso é só um menu degustação. Me aguardem.

À bientôt!

Vedett, uma das minhas belgas favoritas, por míseros 4 euros perto da escola <3

Vedett, uma das minhas belgas favoritas, por míseros 4 euros perto da escola <3

Besan…quoi?

Ouvi dizer que 2014 virou 2015, rápido, sutil a ponto de nem me dar conta da mudança. Quando sinto a testa franzindo ao sentir o vento congelante, me pergunto se de fato cheguei ou se estou num limbo ou espécie de universo paralelo. Esse negócio de cair a ficha e tudo mais, vocês sabem. Ainda não tive o estalo, deve chegar em breve. Em dado momento do ano passado decidi fazer um breve intercâmbio. Respirar novos ares, melhorar meu francês preguiçoso. Escolhi uma cidade do interior, mandei alguns (tantos) e-mails, juntei documentação de uma vida inteira, dei um beijo nos meus pais e abraços nos amigos, preparei as malas na véspera e fui. Meio reckless: nem conhecia a cidade, que não tem aeroporto e fica relativamente distante de Paris (isso mesmo, para tristeza dos amigos que de imediato associaram França a Paris). Vale lembrar que nunca tinha andado sozinha de trem. Muito menos empurrando duas malas.

Por que raios Besançon?

Foi o curso mais acolhedor a distancia. Respondiam meus e-mails sempre em tempo, tinham um preço honesto, e sim, como no Brasil, o interior tende a ser mais em conta para mortais que não recebem em euros. Praticidade também é tudo nessa vida. Não queria gastar horrores com transporte e moradia. Tenho uma teoria de que cidades pequenas são mais apropriadas para melhorar a aptidão com a língua: os moradores não têm tantos vícios de linguagem e é mais difícil encontrar brasileiros a cada esquina. A possibilidade de conhecer o cotidiano em uma pequena cidade do interior também foi um atrativo.

Ok, agora me conta: como você descobriu essa cidade e o curso?

Na verdade a culpa foi toda do Caio, que um dia comentou sobre um curso que havia encontrado jogando no google. Besançon? Desconhecia. Curso de francês, universidades nessa cidade? Nada, minha gente. Aí veio o papo de olha, perto da Suiça, meio frio. O discurso do frio sempre funciona comigo e pareceu uma boa desculpa para também brincar de search, ver preços e virar o site ao avesso. Pensei pouco, troquei uma ideia com os meus pais – podem dizer qualquer coisa, a palavra deles ainda é forte e eles são bem mais sensatos que eu na hora de tomar uma decisão súbita como essa-, e logo comecei a me movimentar para as coisas acontecerem.

Nossaaaa, cara! Mas você não enjoa da França?

A questão é simples e eu poderia me limitar a responder não, não enjoo. Mas seria francês demais da minha parte e não quero me contaminar nesse aspecto. Posso não ser perfeccionista com a vida, mas sou BEM chata com o aprendizado da língua. Gosto de aprimorar ao máximo. Se eu tivesse grana daria uma volta ao mundo, largaria emprego só para viajar. Nessa vida não deu. Então aproveito o gosto pelos estudos para conhecer outros lugares.

Ótimo. Fica na Europa, dá pra fazer mochilão!!!

Dá! Eba, que délice, vou preparar a mochilinha e me jogar no mundo. Só que não. Minha prioridade é honrar a grana investida no curso e isso mesmo, estudar. Se der pra viajar, legal, se não, paciência. Adeus aos posts motivacionais de gente que passou um ano viajando sem gastar um centavo. Sou metódica demais para permitir algo ao nível em minha vida. Minha mãe costuma dizer que sou nova e ainda tenho muito tempo para conhecer o mundo. Confio nas palavras dela e não tenho mais pressa.

Ok, e agora?

Oras, teremos alguns textos pela frente sobre as impressões de uma brasileira perdida sobre uma cidade – desconhecida SIM, nem venham me dizer que já ouviram falar – no interior da França [aqui vale inserir uma rápida nota para dizer que ninguém conhece a rua na qual vou morar. Ou talvez eu não tenha aprendido a pronunciar bem o nome da rua]. Fiquem livres para perguntar coisas sobre o lugar (ou a experiência propriamente dita), providenciarei no meu ritmo devagar quase parando, mas uma hora a resposta chega, prometo.

À bientôt!

5 pratos para quebrar em 2014

Proposta do Rotaroots: 5 pratos para quebrar em 2014: quais sentimentos você quer deixar em 2014? O que mais te incomodou no ano de 2014 e que você pretende deixar neste ano e entrar em 2015 com tudo novo? Escolha 5 sentimentos ou situações, conte o porque e “quebre” os pratos:

Cinema

Começo pelo menos óbvio da lista. Basta uma olhada rápida neste blog para saber que gosto de cinema. Paguei mico em um vídeo sobre isso. Fazia resenhas feliz da vida. Então alguém poderia me explicar essa preguiça para filmes que brotou de repente? Algo me diz que foi culpa do meu projeto fracassado de pós-graduação, que tinha relações com cinema. Frustração acumulada, motivo suficiente para abandonar uma das poucas coisas que ainda gostava de fazer. No segundo semestre deste ano me peguei desistindo de cabines de imprensa em cima da hora, trocando a ida ao cinema por uma tarde no sofá e, pior ainda: trocando a escolha de um filme no Netflix por alguma procrastinação idiota em casa. Para 2015 quero tirar essa amargura do peito, esquecer meu projeto fail e voltar a ver pelo menos um filme por semana.

Consumismo

Clássico “tentei escapar não consegui”, esse pagodão da minha vida. Embora tivesse uma tendência ao consumismo, sempre fiz o possível para manter o controle. Em especial quando virei estagiária e ganhava pouco – era tudo controlado, anotava os gastos, algo bonito de se ver. Surtei aos poucos e comecei a gastar com coisas desnecessárias, meu jeitinho. Ainda tenho uma tendência a ser acumuladora que não ajuda nem um pouco. Um prato que quebro com gosto, já pensando em voltar a ser uma pessoa que cuida da própria grana de modo consciente.

Não se estressar por pouca bobagem

Esse serve para coisas, pessoas, situações, tudo. Tempestade em copo d’água: this is how I roll, infelizmente. Vou tentar configurar algum gadget e apanho: estresso a ponto de querer matar um. Chamo as pessoas para saírem e elas desistem no dia com alguma desculpa esfarrapada: fico extremamente decepcionada e remoendo isso por dias. Momento gente, qual a necessidade disso? Foi o que mais fiz em 2014 e só serviu pra me dar cabelos brancos. Ou seja, desnecessário. Em 2015 quero voltar a praticar o desapego intenso e zerar toda forma de nervoso por besteiras.

Ansiedade

Companheira de longa data. Consiste em uma luta diária que já teve seus altos e baixos e sempre atacou de formas distintas. Disfarço bem, já aconteceu umas tantas vezes de dizerem que eu aparentava estar tranquila em momentos tensos, como apresentação do TCC e do jazz. Sou uma pilha de nervos e desconto tudo (sem querer) no corpo. Exagero na preocupação, e o corpo costuma responder com dores nas costas e gastrite. É incontrolável e sempre acabo dando o braço a torcer, mesmo quando insisto na minha cabeça que não é motivo pra se desesperar tanto assim. Já quebrei esse prato inúmeras vezes, mas ele parece regenerar a cada ano. Vamos ver se desta vez quebro com mais força, provoco um impacto maior e aprendo a me preocupar menos. Quem sabe não consigo incluir mais uma modalidade de dança ou yoga para ajudar nesse processo?

Autoestima baixa/Insegurança

Essa também me acompanha há bastante tempo. Passei anos alimentando o ódio próprio (isso mesmo, o oposto extremo de amor próprio). Me sinto desconfortável em admitir minha insegurança, mas essa segue sendo uma das minhas características mais fortes. Não me sinto à vontade ao encarar o espelho, sinto dificuldades em me sentir parte de alguma coisa. Para qualquer acontecimento passo dias a fio me culpando, nunca passa pela minha cabeça que os erros podem ter sido dos outros. Qualquer comportamento/atitude estranha de amigos eu já interpreto como consequência de alguma burrada minha. Ainda vejo a ansiedade como uma missão tensa de ser combatida, mas a autoestima baixa+insegurança (uma é consequência da outra para mim) eram coisas que eu queria eliminar por completo da minha vida em 2015.

E que 2015 seja mais suave

E que 2015 seja mais suave