TAG: Louca por filmes

Creio que já deu pra perceber: sou PÉSSIMA com vídeos. Ainda por cima não me falta preguiça, então gravei tudo de uma vez só e subi o vídeo sem edição. Meu jeitinho.

Vi a tag Louca por filmes quase ao mesmo tempo no Nambarices e no Sooo Contagious e me pareceu tão bacana que, mesmo pagando de ridícula na frente da câmera, me pareceu ok fazer o meu. Já peço desculpas pelas repetições e pelos momentos em que “deu branco” (muito evidente), mas é isso, é o que tem pra hoje. Ah, preparem os corações pois temos a participação especial de um helicóptero barulhento no meio do vídeo.

Também não houve muito filtro na hora de escolher os filmes, acabei me baseando em coisas que vi nos últimos dois anos (com algumas exceções). O meme é velho, mas se alguém quiser fazer, sinta-se à vontade :)

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Filmes de Dezembro – 2013

Fiz a lista dos filmes assistidos em agosto e abandonei a brincadeira. Tentarei retomar aos poucos!

Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013, direção de Francis Lawrence)

Entre todas as porcarias feitas para o público jovem, Jogos Vorazes chamou minha atenção. A primeira adaptação da saga não me empolgou muito, mas queria saber qual era a da sequência e uau, que bela surpresa. Passa longe daquela coisa mastigada e preguiçosa que foi seu antecessor. Fiquei tão presa ao filme que terminei ansiosa para saber o que vai acontecer no próximo. Em Chamas é um filme maduro, bem finalizado, e com críticas bem definidas. Não simpatizo nem um pouco com a personagem central, Katniss, mas confesso que perdi um pouco da minha noia com ela. E fiz as pazes com a Jennifer Lawrence, que estava detestando depois daquela palhaçada de O Lado Bom da Vida.

A Música Nunca Parou (The Music Never Stopped, 2011, direção de Jim Kohlberg)

É triste quando ignoram um filme tão sensível e bacana. Foi estrear só agora, dois anos depois de seu lançamento, e não deve ficar muito tempo em cartaz. É inspirado no livro “O Último Hippie”, de Oliver Sacks. Conta a história de um homem que fugiu de casa e é encontrado depois de 20 anos, debilitado e com um tumor cerebral. Filho único de um casal bem simples, o que parece ser um caso irrecuperável transforma-se em um conto sobre esperança quando o pai descobre um artigo sobre musicoterapia. Uma forma bacana de explorar a relação entre pai e filho, com uma trilha sonora que vale cada segundo do filme.

O Menino e o Mundo (idem, 2013, direção de Alê Abreu)

Não se engane com a explosão de cores em tela. Embora seja uma história para confortar o coração, passei parte considerável da projeção com o coração meio angustiado ao perceber do que se tratava. É uma animação sobre a vida – e ela provoca esse desconforto natural, mesmo quando não tem essa intenção. Não há falas, só imagens e música – aliás, que trilha! Pegando carona no longa comentado anteriormente, creio que foi um dos principais destaques deste mês em termos de uso de música. O Menino é encantador em todos os seus momentos, em poucos segundos você se envolve em sua saga de descobertas pelo mundo. As ilustrações parecem feitas de giz de cera e gosto particularmente das representações da sociedade e dos lugares por meio de diversas colagens desconexas. Me chamem de piegas, mas deu vontade de mergulhar na tela.

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d’Adèle, 2013, direção de Abdellatif Kechiche) 

Sou sensível? Sim. Assisti durante a TPM? Também. Vocês podem até dizer que isso não existe, mas sou influenciável pelo meu estado de espírito. Já detestei filmes e precisei rever porque não estava de bom humor quando assisti. Apliquei distanciamento crítico para concluir que afora toda a polêmica, gostei bastante. Kechiche abusa dos closes mesmo, talvez o filme se prolongue mais que o necessário (embora eu não tenha considerado tão extenso assim), mas não tiro da cabeça que o seu primor está no ato de exibir a transição de Adèle. Sua tentativa de crescer como pessoa é dolorosa, ela não sabe bem como lidar com suas inseguranças e incertezas. Não menos importante, as duas atrizes centrais merecem todos os créditos por sustentarem tão bem a personalidade de suas personagens.

Depois de Lúcia (Después de Lucía, 2012, direção de Michel Franco)

Nunca antes na história deste país senti tanto ódio enquanto assistia a um filme. Sei bem que não há limites para a maldade humana, mas em Depois de Lúcia ela atinge níveis absurdos. Alejandra acaba de mudar de cidade com o pai, na tentativa de iniciar uma nova vida após a morte de sua mãe. O pai sofre horrores com a perda, ela tenta sustentar a angústia para dar forças a ele. Na escola ela tenta se enturmar, até o dia em que viaja com um grupo de colegas e transa com um dos meninos. Ele filma a cena e vocês já imaginam o que acontece. Estamos o tempo todo falando sobre casos de bullying e de revenge porn, o que aumenta a importância desse longa. Tem que ter estômago para encarar as maldades desses “colegas” de Alejandra, e o final é surpreendente.

Amor Bandido (Mud, 2012, direção de Jeff Nichols)

Gostaria de declarar aqui todo o meu amor por Jeff Nichols. Dentro da minha humilde lista (vi pouca coisa em 2013), ele entrou no hall dos favoritos. Amor Bandido começa com ares de suspense e aos poucos desenvolve um drama delicado. O enredo é de teor denso e fala de problemas do coração, mas o faz com sutileza. Eu, que gosto dessas coisas exageradas que fazem chorar, acabei me envolvendo com essa abordagem. Matthew McConaughey está maravilhoso e só reforça o fato de que é um grande ator. Fiquei apaixonada por Tye Sheridan, que menino gracioso! Não dá para não se encantar ao vê-lo tomando as dores de Mud com uma naturalidade inesperada para alguém tão jovem. Uma pena que esse filme também tenha passado despercebido em meio a tantas estreias de fim de ano.

Muito Barulho por Nada (Much Ado About Nothing, 2012, direção de Joss Whedon)

Confesso que não estava muito animada com a proposta, mas tenho uma queda por filmes em preto e branco. É adaptação de um texto de Shakespeare e sim, o diretor adota o texto original. Entrei em pânico pensando que seria um amontoado de frases decoradas, mas felizmente isso não acontece. Gosto do tom teatral da adaptação, mas creio que teria funcionado melhor se não trouxessem a história para tempos atuais. A Anica já comentou sobre ele e destacou esse ponto. Ademais, deu saudade das madrugadas assistindo Buffy e Angel (me deixem, já fui jovem). E vocês vão me matar se eu destacar a trilha sonora mais uma vez?

Álbum de Família (August: Osage County, 2013, direção de John Wells)

Tenho uma irmã que nunca vai ao cinema e nem procura filmes “alternativos”, mas se você fala em filme de Oscar, ela até corre atrás. Por outro lado, eu tenho a maior preguiça do mundo para o gênero. A galera entendida de cinema que me perdoe. Sorte que nunca é tarde para se surpreender, e Álbum de Família entrou na lista de produções que merecem atenção. Meryl Streep continua maravilhosa. Ao mesmo tempo que eu me sentia condoída pelo seu desgosto com a vida, sentia vontade de meter a mão na cara da personagem. Aliás, esses mixed feelings são a melhor coisa do filme – o humor negro te faz rir e chorar na mesma sequência.

O Amor Não Tira Férias (The Holiday, 2006, direção de Nancy Meyers)

Assumo o atraso, nunca tinha assistido. Maior filme de sessão da tarde não há, mas estava ali dando sopa na minha animada última noite de 2013 e resolvi dar uma chance. Você já sabe como vai acabar nos primeiros minutos (sem contar que essa prática pôster-spoiler já virou moda), é bobinho, mas é uma boa pedida para passar o tempo. E tem o Jude Law, me desculpem, ainda gosto muito dele :P

Tonight I’m feeling blue

Não peça a uma pessoa cética para acreditar em qualquer coisa. Muito menos no amor, esse negócio que flutua em uma instância desconhecida. Na contramão de toda essa falta de crença, a vida me fez deveras bisbilhoteira, com um gosto irritante para explorar tudo aquilo que não parece compreensível. Saí de uma cabine de imprensa no meio da semana e um grupo de jornalistas discutia sobre Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche. Enalteciam a questão do sentimento, abstraindo toda a polêmica que o cerca. Tentação pontual ao meu eterno estudo de caso pelas coisas que não me descem com facilidade.

Em meio a carga emocional que acumulo a cada fim de ano, saí do cinema com o corpo pesado, como se tivesse sofrido uma agressão tão profunda que mal restava vontade de olhar as pessoas no olho. Medo de desmontar minha composição e começar a chorar no meio da rua. Talvez seja coisa do momento, a fragilidade da alma nos deixa assim, meio sem jeito e sensível a qualquer manifestação artística. Acontece quando vejo alguns espetáculos de dança. Não vou dissecar o filme, até porque ele possui alguns problemas em seu desenvolvimento (não deixa de ser um bom trabalho apesar desse detalhe). E mesmo com sua duração um tanto longa, eu o vejo como um ponto de partida para refletir sobre diversos pontos da vida. Abstraindo toda a polêmica que ofuscado partes essenciais do longa, é válido dizer que Adèle e Emma poderiam ser Pedro e Maria. Ou João e Luiz. O sexo não importa tanto assim.

Porque acima de tudo, Azul é a Cor Mais Quente é um filme sobre amadurecimento. A vida adulta nunca chega com delicadeza – tudo acontece de forma abrupta. As responsabilidades sentem um impulso absurdo de nos estapear a cada segundo, testando nossa capacidade de construir uma personalidade forte em meio aos acontecimentos que tentam nos destruir. Você chega ao fim do ensino médio meio sem norte, baseia suas escolhas no impulso e/ou nas coisas que te encantam naquele momento. Adèle teve o azar – ou sorte, a depender do ponto de vista – de experimentar o amor justo nessa fase. E o diretor nos convida a mergulhar na confusão dessa garota que tenta definir sua personalidade e não possui uma única certeza em mãos.

Ela se entrega de uma forma tão incômoda que o meu impulso, como espectadora, era de correr para dentro da tela e dizer “menina, sossega, vai com calma, isso ainda vai te fazer mal”. Mas quem somos nós para ditar o ritmo da vida alheia? Nesse ponto Kechiche é bem feliz ao subtrair longos diálogos e deixar o visual fazer todo o serviço de comunicação. Acho linda a troca de olhares, os trejeitos de Adèle ao arrumar (desarrumando) os cabelos, o sol que parece atravessar as personagens centrais, a ausência de maquiagem e todas as marcas que as tornam tão humanas. Isso me doía aos poucos – ver toda aquela estrutura bem montada definhar, embora fosse um desfecho já esperado, era de partir um coração que mal se manifesta.

Ela se envolve com Emma, o relacionamento vai longe e nos deparamos com Adèle seguindo seu plano inicial – mal esboçado a princípio, quando ainda estava na escola – ser professora. Sua trajetória começa com um bando de pirralhos sem a menor noção da vida. Se resisti até esse ponto, aqui já não me aguentava mais. Foi o contraponto mais pesado do longa. A inocência das crianças é antagônica a toda a inquietude experimentada pela personagem central no início do filme. Afora sua confusão interna, ela precisava lidar com jovens tão inseguras quanto ela. Quem já passou por esse período sabe que adolescentes não perdoam nada. E então me aparece esse choque de realidade justo quando o casal começa a desenhar a crise que culmina com o fim.

Que dizer então dos minutos finais do longa? O reencontro após tanto tempo sem se verem amarra um fio de esperança a Adèle – fio este que se desfaz perante cada segundo de confirmação da superação de Emma. Não era só sobre amor. Adèle em prantos me dava agonia porque era como observar todo um acúmulo de crenças se desintegrando em um excesso de humanidade absurdo. Como Caio costumava dizer, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? A cena afirma o efeito devastador daquilo que nos é mais íntimo. Kechiche é até exagerado nessa insistência em deixar suas personagens tão expostas à sua própria fragilidade. Aquela dor, o desconforto de estar na própria pele e desconhecer o caminho ideal de fuga, essas coisas que nos levam a práticas completamente tolas e sem sentido. Exibir isso que lutamos tanto para esconder tem seu preço, e ele não é nada confortável aos nossos bolsos.

Não são só os cabelos de Emma nos afastam daquele surreal (e impossível, diga-se de passagem) final feliz. Temos a blusa puída de sua parceira, seu quarto com as paredes azuladas, o lençol no mesmo tom, o mar que parece acariciar o rosto de Adèle boiando. O fim melancólico era iminente. Azul, como é válido lembrar daquela batida expressão da língua inglesa, é a cor da melancolia. A cor mais quente, a causa do fulgor que nos faz explodir em meio a tanta incompreensão.

Mostra Internacional de Cinema de SP #4

11) The Wind Rises, de Hayo Miyazaki

Essa é a despedida de Hayo Miyazaki como diretor. Ele, que criou aquela coisa linda chamada A Viagem de Chihiro. Seu último trabalho é um filme mais sério, com criaturas estranhas que habitam apenas no imaginário de Jiro Horikoshi, aparecendo apenas quando ele sonha. Por sinal, momentos importantes na construção da história – embora inconsciente, essa hora é dedicada a reflexões. Quando, em meio a situações inusitadas, ele pensa com calma sobre as questões que o inquietam. O longa é sobre a história de Jiro, designer responsável pelo modelo do avião Zero Fighter (utilizado durante a 2ª Guerra Mundial).

É todo voltado ao público adulto e não tem os devaneios tão característicos de outras produções do diretor, mas isso não desmerece The Wind Rises. É um formato diferente, porém igualmente bem sucedido. Não vi a filmografia completa de Miyazaki e ainda assim acredito que seja um de seus filmes mais tristes. Ele mostra a infância de Jiro e o seu desejo incansável de criar belas aeronaves. Embora monte algo perfeito em sua mente enquanto sonha(desenhos belíssimos, por sinal), no fim observa os aviões se despedaçando, como se fossem feitos de papel. Demonstra, em certa medida, o seu medo de construir instrumentos que posteriormente seriam utilizados para destruição.

Você assiste achando a história bem bonita – Jiro é uma pessoa super empenhada, um grande trabalhador que preza pelo seu ofício – contextualizado com a relação que levava com a família e como conheceu a futura esposa. Ao mesmo tempo, é preciso aceitar a condição de que ele está construindo armas de guerra. É preciso saber dosar esses sentimentos para apreciar esse filme, um belo adeus de Miyazaki.

“Le vent se lève! Il faut tenter de vivre!”

12) Pais e Filhos, de Hirokazu Koreeda

Koreeda possui uma pegada meio Miyazaki no jeito como coloca suas histórias em cena. Há beleza demais para um pequeno espaço – fotografia apurada, atores com os quais você simpatiza logo de cara e um clima de serenidade extrema. Alguns minutos de filme e ele já te instala um aperto no coração, aquele estranhamento de quem não quer aceitar que haja tragédia em uma paisagem tão delicada.

Em Pais e Filhos ele nos mostra o cotidiano de um casal aparentemente rico com um filho pequeno. Enquanto a mãe se mostra afetuosa o tempo inteiro, o pai demonstra uma exigência um tanto exagerada para uma criança tão nova. Quando o garoto atinge a idade escolar, o hospital onde nasceu entra em contato com a família para dizer que os bebês foram trocados na ocasião do parto. Inicia-se uma longa saga: o casal pensa se é o caso de “destrocar” as crianças e passa a medir as consequências desse ato tanto para os pais quanto para os pequenos.

Parecia um tema óbvio e batido a princípio, não fosse um longa contado pela perspectiva de Koreeda. Para ele, é proibido ter falhas no roteiro e nenhum minuto da projeção é desperdiçado. A trama é desenvolvida a partir dos encontros das duas famílias, completamente distintas. Além de mostrar um pouco sobre a cultura local (fui enfática ao destacar essa característica nos outros filmes da mostra), ele aponta o contraste e a diferença de valores entre as duas famílias sem ser tendencioso – ele não quer nos levar a concordar com um personagem ou outro. Seu plano é nos colocar na pele de cada um, experimentar as sensações de todos. Para sair do cinema com o coração do tamanho de uma ervilha (e sim, isso vale para pessoas insensíveis).

The Wind Rises

Pais e Filhos

Mostra Internacional de Cinema de SP #3

7) El Gran Circo de Timoteo, de Lorena Gianchino

A peculiaridade do tema foi o que chamou atenção. É um documentário sobre um circo de drag queens que viaja pelo Chile há quarenta anos. As apresentações acontecem em grandes cidades e também em lugares do país que mais parecem o fim do mundo. O responsável pela criação do circo é Timoteo, um senhor tranquilo que trata sua empreitada como se fosse um filho. O longa fala dos obstáculos enfrentados pelo do comediante – embora queira dar continuidade ao seu projeto, sente que é a hora de parar devido a alguns problemas de saúde.

Tem lá seus momentos de humor, mas por algum motivo há um clima de melancolia que percorre todo o filme. Talvez seja uma consequência das reflexões de Timoteo e sua dificuldade em dar fim ao circo. A montagem é bem interessante, pois em poucos minutos nos mostra a trajetória do grupo por diversas perspectivas. São poucas as cenas que mostram o show propriamente dito – Gianchino prefere mostrar os rostos por trás de toda produção, os problemas enfrentados ao instalar a tenda, as diferentes reações do público. Um retrato bonito e cuidadoso para registrar o histórico do circo.

8) Uma Casa com Torre, de Eva Neymann

Já aviso que é um filme do mal. Porque todo filme que coloca uma criança sofrendo como personagem central é solicitação para o sofrimento. E convenhamos que os russos possuem um humor nada peculiar para lidar com as coisas. A diretora foi bem feliz em seu retrato da Rússia soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Nem parece que foi rodado em 2012, fato intensificado pela filmagem em preto e branco. Foi inspirado no conto autobiográfico (que leva o mesmo nome do filme) de Friedrich Gorenstein, que trabalhou como roteirista em Solaris, de Andrei Tarkóvski.

O menino tem oito anos e acaba se perdendo da mãe, enferma, que é encaminhada ao hospital durante a viagem que faziam. A cidade aparenta ser minúscula, mas imaginem bem uma criança sozinha tendo que se virar e perambular até encontrar o local onde sua mãe segue em tratamento. Tem um toque de O Menino do Pijama listrada (o livro, pois não vi o filme) no ponto de observarmos tudo pela perspectiva de uma criatura inocente que não tem muita dimensão dos acontecimentos. Infelizmente acaba com aquela sensação de “filme nada”, aquelas produções que se propõem a alguma coisa mas não demoram para perder o sentido próximo ao desfecho.

9) Les Garçons et Guillaume, à Table!, de Guillaume Galienne

Critério questionável de escolha: parecia um filme bobo, e eu queria algo mais leve porque sentia que Child’s Pose seria mais sofrido. Também procurava uma produção falada em francês. Então lá estava, conhecendo a história de Guillaume, um homem que sempre foi tratado como mulher, em especial pela mãe. Ele está destinado – ao menos acredita estar – à delicadeza, por gostar tanto de atividades consideradas femininas. Sem sorte para os esportes e interessado por arte, ele parece

mesmo seguir um rumo contrário. E o filme discute isso – suas incertezas sobre a própria sexualidade. Guillaume não tem problemas com a forma como é tratado, mas receia arriscar “o outro lado” e sair da zona de conforto. Não entro em detalhes para não dar spoilers.

O diretor também não demonstra qualquer intenção em explorar essa temática. Ele não quer questionamentos profundos, pelo contrário. Mais parece rir da própria desgraça – e encara tudo com tanta naturalidade que mesmo suas descobertas não o assustam tanto. Esse é o ponto alto do longa – uma comédia bem feita que tira proveito de uma situação que bem poderia acontecer nas nossas famílias.

10) Child’s Pose, de Calin Peter Netzer

Enquanto escrevia essas notas me dei conta que peguei uns tantos filmes que abordam temas familiares. Mesmo tendo feito escolhas com base em horários e locais, esses temais acabaram me atraindo de certa forma. Child’s Pose (Luminita Gheorghiu) foi, sem dúvidas, um dos mais densos da lista. Uma das características que mais me chamou atenção foi o fato de ser bastante verborrágico e nem por isso complexo. A agonia surge mesmo na composição das cenas e na dificuldade de comunicação entre os familiares.

Cornelia, personagem central, comemora seus 60 anos nos minutos iniciais. Tudo parece normal na família. Até o momento em que ela recebe uma ligação dizendo que seu filho, Barbu, acaba de se envolver em um acidente. Ele saiu ileso, mas atropelou um garoto. O instinto materno fala mais alto e ela parte à defesa de seu rebento. Percebemos que Barbu é um tanto tacanho e tenta, com dificuldades, fugir da proteção exacerbada de sua mãe. Luminita se destaca em cena, encarando uma personagem complicada. Ao mesmo tempo em que tentamos entender o lado dela, sentimos vontade de obrigá-la a largar mão de uma vez por todas de Barbu.

Se meus argumentos não são suficientes, Child’s Pose ganhou o Urso de Ouro em Berlim (na edição deste ano). É da Romênia, o que oferece uma boa oportunidade para conhecer um pouco das nuances da sociedade atual do país.

El Gran Circo de Timoteo

Uma Casa com Torre

Les Garçons et Guillaume, à Table!

Child's Pose

Mostra Internacional de Cinema de SP #2

4) O Garoto que Come Alpiste, de Ektoras Lygizos

É um retrato fiel e bem rico da crise econômica que atingiu a Grécia. Embora seja jovem, Yorkos, o personagem central, é afetado pela situação do país em que vive. Desempregado e sem perspectivas, vive em condições cada vez mais precárias. Ele encara uma colherada de açúcar puro, restos de comida encontrada no lixo e até mesmo o alpiste que alimenta seu canário. O sofrimento de Yorkos é exibido essencialmente pelo prisma da fome, por meio de todas as suas tentativas desesperadas para obter qualquer migalha que lhe preencha o estômago.

Como um todo, é um filme pesado pela agonia que atinge o espectador com facilidade. Mas dois momentos em especial chamaram atenção nesse quesito. Em uma das cenas, o personagem – que possui pouquíssimos acompanhantes em cena e aparece sozinho na maior parte do filme – se masturba e prova do próprio sêmen, como se fosse o suficiente para suprir suas necessidades. Em outra passagem, perto do desfecho, ele mostra a dificuldade para se adequar a outras instâncias da vida. Tenta se relacionar com uma garota e, enquanto se beijam, ela percebe que os cabelos de Yorkos estão caindo. O desabafo da parte dele é objetivo, tão incômodo quanto toda a projeção, e suficiente para afastá-la de imediato.

De certa forma, Yorkos acaba desenvolvendo um lado meio “bicho”. Tudo pela lei de sobrevivência. Assim como aceita qualquer coisa para enganar a fome, improvisa a limpeza da casa e os banhos com um pouco de água que consegue na casa de um vizinho (ou mesmo de suas últimas garrafas de água potável), ele parece definhar e paulatinamente perder suas aptidões como um ser humano. Atenção para os planos sempre focados em Yorkos e para a câmera inquieta, que tenta nos passar um pouco do desconforto do personagem. Esse longa é ideal para quem não tem dimensão do estado da Grécia durante a crise.

5) A Morte Passou por Perto, de Stanley Kubrick

A sessão fez uma compilação, para dizer a verdade. Exibiu os três primeiros curtas de Kubrick e o longa A Morte Passou por Perto. Todos os curtas foram feitos por encomenda: Flying Padre, Day of the Fight e The Seafarers. Flying Padre é hilário, embora não tenha sido essa a intenção do diretor. A culpa é toda do personagem. Day of the Fight é um ótimo trabalho para prestar atenção às primeiras marcas de Kubrick que perduraram por todos os seus filmes. O diretor adorava boxe e, caso alguém não saiba, iniciou sua trajetória profissional como fotógrafo. A fotografia é o recurso mais digno de nota desse curta, que parece até um prequell para A Morte Passou por Perto. The Seafarers, que me desculpem, é uma chatice sem tamanho. Dica marota para o fim da Mostra: a exposição de Stanley Kubrick no Museu da Imagem e Som (MIS) segue até janeiro. E dá para conferir esses curtas por lá.

Em A Morte Passou por Perto, não foram precisos muitos minutos para mostrar que o jovem Kubrick tinha potencial. Conta a história de um lutador meio fracassado que se interessa pela vizinha, uma dançarina, que mora no apartamento da frente (ele a observa em uma cena linda que mais tarde chegou a ser vista como referência ao clássico Janela Indiscreta, de Hitchcock, que foi lançado um ano antes). Claro que esse interesse vem cheio de complicações. Cada tomada renderia um filme à parte, e só mesmo o diretor consegue conectá-las com tamanha maestria. Destaque para a cena final, que exibe uma “luta” em meio a um depósito de manequins.

6) Confissão de Assassinato, de Jung Byung-Gil

O título do longa é o mesmo do livro recém-lançado de Lee Du-seok, um homem relativamente jovem que se diz culpado pela morte de dez mulheres há 17 anos. Choi, desde o início da investigação e muito antes da história de publicação de uma obra sobre as peripécias do suposto serial killer, é o detetive responsável pelo caso. Existe a possibilidade de ser legalmente perdoado por bom comportamento, e Lee consegue.

É legal constatar a quantas anda o cinema coreano. Eles investem pesado em efeitos especiais (mas capricham na hora da zoeira – não sei se é proposital – em momentos significativos do filme) e, não sei em outras produções, mas em Confissão de Assassinato temos uma ótima reprodução da cultura do país. Gosto de observar a forma como as pessoas se comportam. Lee possui inúmeras fãs enlouquecidas e, bem, ele é um assassino. Quando começam a contestar sua condição, explorando a possibilidade de existir um outro serial killer responsável pela morte das moças, as admiradoras ficam indignadas. Elas fazem questão que ele seja esse assassino com cara de bom moço.

Byung-Gil que me perdoe. O longa é bem feito, mas não me convenceu. Além de umas tantas falhas no roteiro, dá para perder a conta da quantidade de cenas desnecessárias. De qualquer forma, acabou sendo válido como “experiência de mundo”. Um retrato básico do tipo de atração feita aos cinéfilos coreanos.

O Garoto que Come Alpiste

A Morte Passou por Perto

Confissão de Assassinato

Minha curta passagem pela Mostra

Não obtive sucesso na dedicação total à 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo por motivos de vida. Nunca é fácil conciliá-la com a rotina de trabalho e o dinheiro que nem sempre sobra na carteira – ainda mais no fim do mês. Meus poucos filmes foram suficientes para deixar aquela vontade de escrever algumas linhas sobre eles. Vai que eles entram em cartaz ou aparecem em algum festival ao longo do ano que vem?

Dividi as postagens para evitar fadiga.

1) Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, de Ethan Coen e Joel Coen

Antes de qualquer análise, fui fisgada de imediato pela fotografia desse filme. A imagem parece meio borrada e aparece em tons de saturação que intensificam o clima frio (a história se passa durante o inverno de 1961). Os Coen foram bem espertos ao escolher fazer um filme sobre música folk sem apelar para a referência mais imediata – no caso, Bob Dylan. Criaram, com um olhar próprio, um Llewyn Davis que não existe fora da ficção. Oscar Isaac interpreta um músico que enfrenta toda sorte de desafios. Poucos trocados nos bolsos, muita vontade de espalhar seu conhecimento em música pelo mundo, oportunidades cada vez mais escassas e um futuro cada vez mais incerto.

Ele vive de casa em casa, dorme onde tiverem a boa vontade de recebê-lo. Para tanto, vale até partir pela estrada com um desconhecido – Johnny Five (Garrett Hedlund) mal abre a boca e Roland Turner (John Goodman) testa a paciência de Llewyn a cada segundo. No destino, o personagem central tenta negociar com mais um dono de estúdio, sem sucesso. O casal Jean (Carey Mulligan) e Jim (Justin Timberlake) aparece no papel das amizades mais sólidas. Um fato deveras irônico, visto que Jim mais parece um bon vivant indiferente aos atos de Llewyn e Jean vive uma constante frustração pelo caso que teve com o músico. Alex Karpovsky e Adam Driver, ambos da série Girls, despertam a atenção dos fãs com rápidas participações. A de Karpovsky não é lá muito expressiva, mas a de Driver, no papel de Al Cody, desponta como uma das cenas mais divertidas do longa, em que contracena com Timberlake e Isaac durante a gravação de uma composição de qualidade duvidosa.

É um trabalho completamente diferente do esperado para um filme dos Coen. O humor negro, marca expressiva de seus trabalhos, pouco aparece. Não adianta procurar por violência, muito menos por personagens complexos. Talvez não seja tão bem recepcionado pelos fãs, mas é um trabalho marcante independente das mudanças. Para assistir sem fazer grandes comparações com outras produções da dupla.

2) Somente em Nova Iorque, de Bandar Albuliwi e Ghazi Albuliwi

É o primeiro longa de Bandar Albuliwi. Conta a história de um jovem palestino-americano, Arafat (vivido por Ghazi), que é viciado em pornografia devido às suas frustrações com as mulheres: ele não pega nem gripe. Ao procurar ajuda, ele aceita a proposta de um amigo – casar-se com uma israelense que precisa de um green card para permanecer nos Estados Unidos. Começa aquela clássica saga de choque cultural e do casal que se detesta, mas aos poucos vai descobrindo suas semelhanças.

Um clichê ambulante? De fato, a fórmula não proporciona novidade alguma. Ainda assim, não deixa de ser um bom filme. O diretor se inspira claramente em Woody Allen ao realizar as piadas do enredo. Seus personagens não são nada complexos, mas conquistam pelo carisma. Por vezes, se digo que um longa é bom para passar o tempo, aplica-se como um elogio. É o caso de Somente em Nova Iorque. Nada pretensioso, bom para dar umas boas gargalhadas, e arrisco dizer que é um bom começo para o diretor.

3) Como descrever uma nuvem, de David Verbeek

Peguei pelo horário e localização, confesso. Não li sinopse, não tinha a menor ideia do que se tratava. O diretor é holandês, mas a história é ambientada em Taipei e falada em mandarim. Liling é jovem e trabalha com música – não na execução propriamente dita, mas com mixagem. Ela estabelece uma forte amizade um desenhista mais velho e, no mesmo período, recebe a notícia de que sua mãe, que mora em uma ilha com seu irmão mais velho, ficou cega. Ela fica dividida ao encarar a necessidade de estar perto da mãe enferma e ter que dar conta de todas as suas responsabilidades em Taipei.

Com a cegueira, a mãe acredita ter desenvolvido um sexto sentido. A filha, intrigada com essa condição, passa a explorar as diferentes formas de se descrever os arredores para uma pessoa com os sentidos limitados. O filme utiliza uma linguagem bem poética, amparada pela fotografia que constroi verdadeiros quadros na tela. Creio que faltou um toque para finalizar a trama. Fora isso, a montagem é interessante e só pela composição já vale a pena conferi-lo.

(Posto o restante durante a semana)

Como Descrever uma Nuvem

Somente em Nova Iorque