Em linhas tortas

Eu tenho tanto medo de te perder. Não tenho sido solícita como nos velhos tempos. Ignorei suas regras, que, para falar a verdade, nunca foram muito opressoras. Mas abandonei também todas as possibilidades por você oferecidas para partir a outras instâncias sem a necessidade de grandes recursos. Escolhi e me comprometi com o seu formato pragmático, aquela versão sem vida, quadrada, incapaz de provocar uma mínima alteração na expressão facial de terceiros.

Abracei a causa vendida pela preguiça. No fim do dia, não tinha a menor vontade de te encarar. Te troquei sem pensar duas vezes pelo travesseiro, uma atitude um tanto rude e grosseira. Da mesma forma, me desfiz da irresponsabilidade ousada de escolher você no lugar de numerosos trabalhos acadêmicos que se acumulavam a cada semana.

Estava sempre disposto a me ajudar, pronto para me amparar por diversos suportes. Indelicada, resistia às suas investidas. Por vezes te arranquei da cama abruptamente, fiz graça dos seus limites, perdi o zelo, deixei que sua estrutura externa se deteriorasse por puro desgosto.

Por vezes nos desentendíamos, e eu descontava a minha raiva por meio de discursos redundantes e enfadonhos. Encarava seu desprezo com ironia, como se fosse mais um de seus muitos testes. Havia um esforço evidente para provocar em mim certo impacto. Ao fim das nossas longas discussões, era você quem recuperava o clima de serenidade. Sempre compreensivo, era incapaz de sustentar o esboço de cólera, respeitando minha vulnerabilidade e insegurança.

E nossas aventuras? Quando nos arriscávamos em língua estrangeira, um tanto tímidos, com certos equívocos, mas isentos de medo. Nunca fomos agressivos, muito menos perdemos as estribeiras por pouco – todo erro nos era recuperável, pois bastava uma boa borracha ou a clássica tecla backspace.

Poucos meses se passaram desde então, com a sensação de que cada semana equivalia a um mês. Como se todos os nossos descaminhos fossem meros fatos do passado, quiçá ficção, fruto de uma mente fértil.

Agora partilhamos a certeza de que nossas diferenças cresceram. É provável que elas entrem em conflito um sem número de vezes, mas encontraremos a forma ideal para reparar cada erro. Vamos aprender com as falhas, certo?

Optei pelo suporte mais superficial para reatar nossa relação. Transgredindo minhas próprias regras, me aventurando em território perigoso pelo simples gosto de desconforto que antecipa experiências grandiosas. Como nos velhos tempos.

Forçar sua ausência foi um erro. Peço desculpas por expor nossa tentativa de reconciliação desta forma. Ao mesmo tempo, agradeço por nunca ter me abandonado. Seja com grafite, caneta, um tenebroso teclado touch-screen ou mesmo o usual, com as letras já apagadas; em sulfite, caderno com pauta, guardanapo, word, bloco de notas… o importante agora será me arriscar.

Soe piegas, pareça meia boca, ou engane como uma produção digna de publicação. Quem sabe, depois de muito esforço, não conseguimos chegar a um resultado primoroso?

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