Desafio Literário 2011 – O Pagador de Promessas

Há um ditado recorrente no discurso cotidiano do brasileiro – “promessa é dívida”. Se ela é seguida à risca ou não, poucos sabem. Mas José Dias Gomes soube aproveitar para mostrar, por meio de um personagem, os níveis extremos encarados por um indivíduo para cumprir a promessa feita. Em O Pagador de Promessas, a dívida é levada a sério. E Zé do Burro, religioso casto, enfrenta o que for possível para agradecer pela graça concedida por Santa Bárbara.

A tarefa de Zé do Burro consistia em carregar uma cruz de sua cidade no interior da Bahia até a capital, Salvador. Um trajeto a ser percorrido a pé – o que consistia em mais ou menos 24 horas de caminhada. E ao chegar, depositaria a cruz no altar da Igreja de Santa Bárbara. Todavia, sua chegada estaria envolta por muitos percalços.

Acompanhado pela esposa e exausto, apesar de todo o esforço, o padre não permite que ele entre na igreja, pois a promessa foi feita em um terreno de Candomblé. Afinal, para Zé do Burro, a Iansã do Candomblé era a mesma Santa Bárbara, apenas com outra representação.

Por ser uma peça teatral, a história se apresenta com uma linguagem simples – em conjunto com a modesta extensão do texto. Em três atos, apesar de proporcionar uma leitura rápida, o autor faz críticas pesadas a preconceitos e estereótipos recorrentes na cultura brasileira.

Apesar do cunho religioso como norteador, a religião não é o tema central. Cada crítica não se apresenta de forma mordaz, mas sim concentrados em um campo de pura ironia. Algo que lembra, em muitos momentos, o “jeitinho brasileiro” de contornar todos os tipos de situações.

O autor concentra inúmeras tensões sociais em um único núcleo de personagens. É possível mesmo dizer que ele concentra as divergências em uma praça pública ao longo de um dia.

A obra apresenta um grande valor tanto para a literatura quanto para o cinema brasileiro. Para se ter uma ideia, basta lembrar que a versão cinematográfica ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro em Cannes, no ano de 1962.

Esta resenha corresponde ao tema de junho do Desafio Literário 2011.

Música de Terça – Bon Iver

É bem complicado escrever sobre qualquer coisas que esteja na sua lista de “5 melhores”. Porque é (quase) lógico – quando gostamos muito de alguma coisa, descartamos nosso lado racional. Quando se trata de música, as dificuldades são ainda maiores. Como explicar que “aquela” música é maravilhosa, resume um monte de coisas pelas quais você passou, e ainda tem uma melodia agradável? Parece simples, não? Mas tente fazer isso com uma pessoa que ultrapassa as barreiras da paixão pela música – estuda, entende um monte sobre o assunto. “Mas e essa guitarra? Que voz é essa?” são os comentários mais recorrentes e delicados.

Bon Iver entrou na minha vida sem querer, escondido na trilha sonora de dois seriados. E acabou ficando por livre e espontânea vontade. É quase impossível analisar o projeto de Justin Vernon com um olhar crítico. Para mim, é genial. Mexe com o meu emocional de uma forma inexprimível.

A minha relação com a banda sempre foi acompanhada por uma névoa de subjetividade. Caso sério – ultrapassa qualquer entendimento. A primeira música que ouvi, Woods, nem é tão boa – pelo menos em comparação com todo o resto. Mas tinha algo estranho, porque eu não conseguia parar de ouvi-la. De fato, relutei muito antes de encarar, na íntegra, o primeiro álbum.

Mas veja bem, vamos ignorar esse lado historiado e cheio de floreios. O projeto da banda foi idealizado por Justin Vernon. Ele é o responsável por tudo – arranjos, letras, melodia, voz (para citar apenas algumas características). Em um momento conturbado, Vernon se isolou em Wisconsin por alguns meses. Apesar de todas as adversidades – o que incluía o frio intenso do local – o momento parecia certo para produzir um disco inteiro. Sozinho e sem muitos recursos.

Intitulado For Emma, Forever Ago, o primeiro álbum quase não foi lançado. Após algum tempo, estimulado por amigos, acabou cedendo. E com o selo Jagjaguwar, o primeiro trabalho de Bon Iver chegou ao mercado em 2007. É provável que Vernon não tenha imaginado as proporções daquilo que produziu. Não demorou muito para suas músicas integrarem episódios de séries famosas, como House, Skins, The United States of Tara e Grey’s Anatomy.

O EP Blood Bank foi lançado algum tempo depois. E apesar da qualidade dos dois CDs, seria triste imaginar uma banda tão promissora acabando em pouco tempo. Após uma temporada sem shows – ou melhor, sem dar muitas notícias, sugiram os primeiros burburinhos sobre um possível disco em produção.

Em junho deste ano (sim, há uma semana!), os fãs foram agraciados com um álbum homônimo. A banda cresceu, e agora Justin Vernon circula nas turnês acompanhado por Sean Carey, Michael Noyce e Matthew McCaughan. O trabalho amadureceu – tanto as letras quanto as melodias ganharam um tom mais sério, mas com uma pegada otimista.

Eu poderia preparar uma dissertação com muitas páginas para falar sobre as nuances da cada canção. Mas esse não é o intuito do Música de Terça – de fato, até empolguei escrevendo demais. Antes de indicar algumas músicas, deixarei recomendações prévias:

– Há poucas músicas do novo CD disponíveis no youtube. Recomendo as minhas duas prediletas no momento – Towers e Holocene;

– Eles já participaram do La Blogothèque (um projeto que pretendo abordar por aqui daqui um tempo). A Take Away Show, com Bon Iver é belíssimo. Deixarei uma prévia por aqui, com o vídeo de Skinny Love.

The Wolves (Act I and II) – minha faixa predileta. É do primeiro álbum:


Skinny Love – também está no disco For Emma, Forever Ago:


Blood Bank – faixa-título do único EP lançado por eles até agora:


Calgary – primeira música de trabalho do novo CD:

Lugares, inspirações, e histórias imaginadas

Um artista belga resolveu atribuir um pouco de vida a algumas locações. Ben Heine, no projeto Pencil Vs. Camera, concilia a habilidade para desenhar com a arte da fotografia. Seu trabalho já circula há algum tempo na internet – até mesmo sem créditos, ou de forma equivocada, creditando outro artista. Com um princípio simples, ele mescla cenários aparentemente imutáveis com desenhos – como se ele procurasse dar vida ao espaço, criando uma espécie de história para o local.

Embora Heine não seja a inspiração, há uma pegada semelhante na página do Dear Photograph. Mas o propósito deste projeto, iniciado recentemente, é um pouco diferente – a pessoa deve ir até o local onde uma antiga fotografia foi obtida e posicioná-la estrategicamente no cenário. É a única informação sobre o site – “tire uma foto de uma foto do passado no presente”. O bacana do projeto é o fato de ser aberto ao público – qualquer um pode enviar suas fotografias para o e-mail dearphotograph@gmail.com. A publicação não é garantida, mas vale a pena “arriscar”.

Mal posso esperar pelo dia em que terei uma longa sequência de páginas para visualizar nesse tumblr. Para mim, é incrível esse ar de nostalgia que acompanha cada registro. Bastante propício para oferecer caminhos à imaginação aos visitantes da página. Tendo o projeto de Heines como base, consigo imaginar a história por trás de cada fotografia.

Mas bem, chega de texto, e vamos às imagens do projeto. E, como é de praxe por aqui – não deixem de visitar o Flickr de Ben Heine e o tumblr do Dear Photograph.

Ode à imaginação

“Let’’s do it/Let’’s fall in love””. A música de Ella Fitzgerald não poderia ser mais apropriada para pontuar incontáveis cenas de Meia-Noite em Paris, novo longa de Woody Allen. Afinal, estamos em Paris – a cidade Luz, estigmatizada como a capital do amor. Clichês à parte, um fato é inegável – o lugar foi berço de artistas consagrados em todos os campos das artes. Fator aproveitado de forma peculiar pelo diretor.

Gil (Owen Wilson), como um bom personagem central das películas de Woody Allen, está em crise. Ele precisa concluir um romance e está dividido entre a perspectiva pós-lançamento do livro e o trabalho quase frustrante de roteirista de comédias razoáveis. Durante uma viagem de negócios dos pais de Inez (Rachel McAdams), sua namorada, o casal aproveita para conhecer Paris.

O circunstancial encontro com um casal de amigos de Inez parece mais oportuno que o previsto ao “isolamento” inicial de Gil. Pois é após a meia-noite que a cidade se revela de forma deslumbrante, permitindo até mesmo um bate-papo sem compromisso com Hemingway. Ou mesmo uma troca de ideias sobre o romance em produção com Gertrude Stein.

Como não poderia deixar de ser, há sempre um espaço para críticas “suaves” do diretor. A mais irônica, sem dúvidas, é a reprodução do pedantismo do pseudo-intelectual Paul, interpretado por Michael Sheen, que entra em cena expondo todo o seu conhecimento sobre artes.

Meia-Noite em Paris apresenta um Woody Allen mais distante, repleto de elementos que procuram camuflar características recorrentes em suas produções. Os marcantes offs narrativos não aparecem, colaborando assim com a atmosfera de mundo surreal tão bem empregada. O leque de figuras conhecidas, mesmo em papeis secundários, abstrai essa ausência. Um ator como Adrien Brody, por exemplo, dispensa qualquer narração em uma hilária interpretação de Salvador Dali.

E mesmo com a propriedade ao selecionar papeis menores para grandes atores, o diretor também peca pelo excesso. Carla Bruni, apesar da beleza e da voz doce – atrativos para muitos – faz uma participação plenamente dispensável como guia turística.

O filme faz uma ode à imaginação. Inclui-se na lista de obras onde personagens se agarram às amarras de um mundo inexistente como fuga a qualquer forma de conflito.

O diferencial está na abordagem, capaz de conciliar a beleza e a riqueza cultural de uma cidade em um enredo envolvente. Felizmente, quando a circunstância está prestes a cair em mesmice, o diretor apela às suas clássicas quebras de perspectiva. A felicidade falha, sempre quando está prestes a ser obtida. Mas o tombo se dá com humor – afinal, para quê lamentar se é possível rir dos próprios infortúnios?

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

Não se engane pelo título

Se fosse possível resumir Namorados Para Sempre, de Derek Cianfrance, em uma palavra, esta seria angústia. A narrativa não linear desenvolve aos poucos os pontos principais da história de dois jovens. O primeiro contato visual, sem muitos movimentos, passa a impressão de uma realidade comum. Os perfis denotam estabilidade – um casal, uma filha e boas condições de vida.

Quem se prender à primeira impressão assistirá o esfacelamento desta. Paulatinamente, são apresentadas criaturas presas no anseio pela saída, amargurados e perdidos em meio à tentativa de abrir as portas e permitir a entrada da felicidade. Cindy (Michelle Williams) é médica – divide-se entre o trabalho e a família. Dean (Ryan Gosling), por sua vez, não possui a mesma estabilidade da parceira. Mas guarda em si um amor incomensurável, e com todo esse cuidado procura alentar a esposa e a pequena Frankie, filha do casal, vivida por Faith Wladyka.

Em Namorados Para Sempre, nada é entregue de forma objetiva, desviando-se ao máximo de possíveis obviedades. No meio do caminho, há inúmeros pontos controversos na história de ambos, oferecidos como pequenas peças de um imenso quebra-cabeça, a ser montado ao longo dos 112 minutos de filme.

No decorrer do longa, passado e presente são intercalados – o futuro permanece como extensão, reservado à imaginação de um público mais atento. Tanto Dean quanto Cindy saíram de círculos familiares conflitantes. A todo momento, apresenta-se o contraposto entre as profissões. Cindy tem uma carreira séria, com compromissos diários. Ela vê em Dean um grande potencial para tornar-se um bom profissional, mas ele não se enxerga desta maneira e permanece em um trabalho que lhe oferece certo comodismo.

Michelle Williams – indicada ao Oscar por este papel – e Ryan Gosling, dão vida aos personagens em uma interpretação munida de naturalismo, como se aquela realidade fosse-lhes comum. Há uma forma bastante espontânea de conduzir o enredo – mesmo com o contraponto, tão evidenciado pelos momentos de felicidade e de extrema tristeza, eles encontraram uma fórmula ideal, tornando a atuação convincente.

Mas não se deve enganar pelo título atribuído ao longa no Brasil. Batizado de Blue Valentine no exterior, o nome traduz perfeitamente a melancolia, fio condutor da obra, bem como a fotografia, responsável pela presença constante da cor azul na maioria dos cenários.

O título Namorados Para Sempre passa a impressão de um conto de fadas, uma história com final feliz. Mas o que se vê foge bastante a essa premissa. Derek Cianfrance faz questão de pontuar a não existência do relacionamento ausente de conflitos. Cindy, por exemplo, representa uma constante do amor – o ser humano não possui estrutura psicológica para suportá-lo em seu sentido mais verdadeiro e profundo.

O longa reproduz a dificuldade de lidar com a efemeridade de todas as formas de sentimento, cada vez mais frequente em tempos modernos. Para assistir Namorados Para Sempre, é necessário uma preparação prévia – esteja pronto para ser abrigado pela consternação.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

Desavenças cotidianas em meio ao caos

Desalento. Em meio ao caos, não é surpresa recorrer às amarras invisíveis do inconsciente para ter forças perante desafios cotidianos. É esse o ponto de partida para o novo longa do diretor Toni Venturi, Estamos Juntos.
Algo que pode ser constatado logo nos minutos iniciais – São Paulo vista de cima, em uma filmagem turva, que desloca os prédios e provoca certa vertigem. Dessa forma, o espectador já se sente angustiado e em busca de algo em que possa se segurar. Sensação rapidamente rebatida pelo primeiro contato com a protagonista.

De passo firme, Carmem (Leandra Leal) tem a possibilidade de um futuro brilhante em mãos. Acaba de sair do interior do Rio de Janeiro para a metrópole paulista. Médica residente, tem a sua vida dividida entre o hospital e os estudos. Apenas quando sobra tempo, acompanha o amigo Murilo (Cauã Reymond) às baladas. O ator abandona aqui o constante papel de galã e mostra uma interpretação um pouco mais sólida no papel de um homossexual que também veio do interior do Rio de Janeiro e trabalha como DJ.

A trajetória pouco problemática é interrompida por uma grave doença que afeta Carmem. Posta em confronto interno, ela deve adaptar os pormenores cotidianos com a iminência da morte. Para encontrar forças entre a abstração e a realidade, inicia um relacionamento com o argentino Juan (Nazareno Casero) e passa a ser assistente em uma comunidade carente localizada próxima à bela Estação da Luz.

A fotografia de Lula Carvalho conduz uma delicada abordagem poética da capital paulista, a começar pela escolha de locais da cidade pouco exibidos em filmes. Oferece, assim, o cenário ideal para a ambientação do drama urbano.

A direção de Venturi e o roteiro de Hilton Lacerta (Amarelo Manga) evitam um desfecho previsível. Em diversos momentos são colocadas situações nebulosas, uma forma de não entregar a solução de imediato ao espectador. A começar pela presença de um misterioso homem na vida de Carmen, interpretado por Lee Taylor.

O enredo se desenvolve de forma clara e completa, mas sem se prender à obviedade do início ao fim. Há claramente temas recorrentes em todo filme nacional, como a sexualidade e a injustiça com os menos favorecidos. Mas a abordagem não é tão incisiva sobre esses temas – demonstram apenas traços comuns à realidade brasileira.

Elementos agregados de forma consciente e na dose certa, mesclados com bons profissionais envolvidos, tornam Estamos Juntos uma obra que não passará em brancas nuvens diante de público já acostumado às constantes falácias do cinema nacional.

[Publicado também no site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

Por que são as coisas tão irritantes?

Você mal acordou (se é que dormiu), acomoda-se já meio sem jeito no único banco livre da condução. Ao seu lado, alguém dorme com a boca aberta. Mas não se preocupe, não há tempo para se esquivar de uma braçada acidental ou ser tomado pelo susto de um súbito ronco. Afinal, você está semi-consciente.

E tenta absorver, sem muito esforço, os primeiros contatos com a humanidade, enclausurado em um ônibus cheio e com as janelas cerradas. Faz frio, e há uma tiragem ilimitada de pessoas que não sabem lidar com insinuações de vento enquanto se transportam de um lugar a outro.

Quando você se encontra em estado de completa serenidade (leia-se sonolência), ele começa. Não, não é o motorista em sua primeira descoberta do uso do freio. É aquela coisa inexprimível. Aquele barulho agudo, que é estridente sem ao menos elevar o tom. A situação se agrava a cada segundo. Pois sim, existe uma tentativa de sequência. Por um momento o som desaparece. De imediato, interrompe o esboço de alívio da nação busófola e continua. Livre, leve, solto, desafinado, irritante.

O seu âmago sempre alentado pela maior tranquilidade do mundo sofre leves perturbações. O instinto assassino que até então havia sido presenciado apenas em filmes de caráter duvidoso (ou mesmo assustador) começa a fazer ronda em seu corpo. Nas mãos, corre o suor frio. Em êxtase, a agonia passa a ser evidente pelo seu olhar de desconsolo. Você não consegue pensar em mais nada: apenas no anseio pela chegada ao destino, o momento em que enfim se verá livre do barulho infernal.

O farol sorri verde na última quadra. O coletivo faz seu último trajeto e você faz questão de descer alheio ao seu redor. Não é possível lidar imediatamente com outra surpresinha desagradável.

Eu odeio assobios no período matutino.

…assim como unhas arranhando o quadro negro, batucadas repetidas à exaustão – sim, não contente em ficar bastante irritada com assobios, também faço cara feia para passageiros que gostam de compartilhar aquela batida clássica do funk às oito da manhã.

Joe Palca e Flora Lichtman escreveram um livro com o intuito de explorar as origens e motivos dessas irritações todas. Annoying: The Science of What Bugs Us foi lançado recentemente. Não li, mas encontrei o vídeo de divulgação por acaso. E é interessante como, em poucos minutos, eles fazem uma brincadeira bem interessante com esses pormenores que nos tiram do sério.

Se você não quer começar o dia rememorando as coisas que te aporrinham, não aperte o play.