Não seria eu

Não fossem os cadernos e os livros espalhados pelos cantos, as roupas frouxas nos quadris, os sapatos amontoados no quarto dos fundos e a velha caixa desgastada cheia de cartas e fotos, não seria eu. Não fossem os discos nunca ouvidos, as séries abandonadas, a habilidade para preparar doces e o amontoado de filmes bobos, não seria eu. Não fosse a insegurança, as palavras atropeladas, as cervejas em excesso e esse jeito tão sem cuidado de lidar com as coisas, não seria eu. Não fosse o receio constante, a cara de arrogante, o amor contido e o medo de tentar uma aproximação, não seria eu.

Se o fato é que eu pareço perdida, que vivo com preguiça e que falo mais que a boca; vou ser honesta, faz parte do que sou. Você pode até tentar me mudar, mas vai dar errado já que foram todos esses anos de melancolia acumulada que me fizeram assim.

Se não fosse o pôr-do-sol laranjado da minha cidade natal, não fosse a dor, e essa mania de transformar todo acontecimento em evento textual. Se não fosse a chipa no fim da tarde, os VHs esquecidos no armário, os feriados em Goiânia, a Mafalda, o edredom listrado, o cacto que dá flor e todo esse imbróglio, não seria eu.

Meme criado pela Analu, “Capitão Ganho”, inspirado na música da Clarice Falcão. Recebi a indicação da querida Natália Nambara. Mais uma vez, deixo em aberto a quem se interessar em participar :)

“Baby, you’re gonna miss that plane”

“Não sei se você vai gostar, porque é praticamente uma sequência de diálogos. Duas pessoas conversando por 80 minutos. Acontece que eles discutem sobre coisas da vida, e é tudo tão verdadeiro…”. Foi assim que uma amiga me apresentou Antes do Pôr-do-Sol quando pedi indicações de filmes. Pouco curiosa, me preparei para assisti-lo sem pensar muito no que ela havia dito para não perturbar a experiência. De fato, não dava para tratá-lo como um amontoado de baboseiras ditas por duas pessoas aleatórias. Era um filme sobre a vida e os efeitos do tempo.

Escolher Paris como locação já ajudava – e muito – mas Linklater mostrou que dava para fazer um grande filme sem grandes recursos. Até então, eu não sabia da existência de um predecessor. No caso, Antes do Amanhecer. Encarei assim mesmo, o que não chegou a ser um problema. Desta vez prefiro fazer diferente e falar sobre ambos de acordo com o lançamento.

Lançado em 1995, Antes do Amanhecer marca o primeiro encontro de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy). Ele é americano, ela, francesa. Em comum, partilham um passeio de trem pela Europa. Começam a conversar ali mesmo – algumas horas de viagem pela frente, nada para fazer, por quê não? Em um dado momento, Jesse resolve arriscar e convida Celine a descer com ele em Viena para conhecerem a cidade. Alegando, para tanto, a existência de uma espécie de conexão, dessas coisas inexplicáveis, entre ambos. Ele mesmo admite que parece loucura. Ela hesita, mas acaba aceitando. Assim como levou adiante, a princípio, o papo descompromissado durante o percurso inicial.

Já disseram que isso só acontece na ficção, mas Linklater coloca tudo de uma forma tão realista que você passa a encarar aquilo como uma situação possível. Celine e Jesse retratam o que há de mais puro e bonito na juventude. Não há tempo para pensar nos agouros da vida adulta, não há tanto receio. Existe o impulso, o desejo de agir sem pensar duas vezes, arriscar. Esse modo de viver sem medo permite o deslumbre imediato, é uma deixa para encarar tudo o que acontece pelos arredores da forma mais pura possível. Assim, o magnetismo entre os dois como casal é compreensível. Eles aproveitam o momento como lhes é de direito e passam vinte e quatro horas como se fossem um casal de longa data.

A manhã do dia seguinte marca o fim do encontro. O tempo deixa aqui a sua primeira marca – as horas disponíveis se esgotaram e, mesmo que ambos prometessem um reencontro, eles não viviam em tempos de facebook. Ninguém poderia garantir nada. Eles de fato se veem mais uma vez, só que em circunstâncias inesperadas, em Antes do Pôr-do-Sol (e sim, omiti algumas informações de propósito para não dar tantos spoilers). Por uma coincidência, já em 2004, Jesse viaja a Paris para o lançamento de seu livro. Depois de nove anos desde o primeiro encontro, ele se tornou escritor. Celine passa pela livraria e mal pode acreditar que o autor em questão é o moço que conheceu outrora.

Mais uma vez o cronômetro os acompanha – Jesse já está com o voo marcado para a volta, ao fim do dia. Desta vez, encaramos duas pessoas desgastadas pelas circunstâncias do cotidiano. Algo do encanto daquele primeiro encontro faz questão de dizer que está ali, mas agora os personagens não são mais os jovens destemidos de nove anos atrás. Jesse, por exemplo, está casado. O teor dos diálogos é mais cru, e agora há espaço até mesmo para um surto de Celine no táxi – uma das melhores cenas do filme, por sinal. A insegurança dá brecha para um discurso do fundo da alma. O desgaste emocional fica à flor da pele.

O que transforma a sequência em um trabalho tão primoroso é a presença dessas cenas que destoam do encanto tão presente em Antes do Amanhecer. Embora estejam em uma cidade ainda mais bela (Paris), encaram um contexto mais maduro. Mesmo a troca de palavras afetuosas provoca arrepios e nos faz temer um súbito surto quando um dos personagens notar que a realidade não é tão doce assim. Quando Celine pede um abraço só para verificar se não irá “dissolver em moléculas” pelo contato, Linklater monta a cena de um modo que não te leva a achar a atitude “fofa”, mas sim a estranhar a inquietude que ela provoca no espectador.

O longa termina de forma satisfatória e consegue, ao mesmo tempo, apresentar uma deixa para uma possível continuação. Celine canta “A Waltz For a Night” em seu apartamento. Interrompe a cantoria só para emitir um rápido “baby, you’re gonna miss that plane”, ao qual Jesse replica com um despreocupado “I know”. O tom de voz indica que poderia ser uma brincadeira ou mesmo uma confirmação. Circunstancial, incerto. Como toda decisão que precisamos tomar.

A vida é feita de imprevisibilidades. E difícil medir as consequências de cada uma com o passar dos tempos. Com a nossa essência, vamos nos moldando. No fim das contas, buscamos aquela parte que nos ampare com compreensão, e nada mais. Você não precisa abaixar a cabeça, concordar com cada vírgula, pensar igual. Basta entender.

Linklater achou por bem encerrar o caso de Celine e Jesse com Antes da Meia Noite. Ainda não assisti e não li nada sobre ele. Conferi apenas o trailer (um grande spoiler, a depender do ponto de vista), que me ofereceu preparo suficiente para encarar o filme como mais um acontecimento na vida de duas pessoas comuns.

O amor do casal é coisa de cinema? Pode até ser. Genuíno, “eterno enquanto dure”, não interessa. O bacana do trabalho de Linklater com essa trilogia é a segurança no que está sendo feito. Ele tinha consciência da condição de seus personagens e em nenhum momento deixou pontas soltas. Se o final será feliz ou não, tanto faz. É certo que o diretor deixará, como uma espécie de conclusão, a necessidade de humanidade. O fato de que a forma como nossos impulsos ganham ranhuras com o passar do tempo é tão natural quanto o ato de sair para ir ao supermercado.

“Maybe what I’m saying is, is the world might be evolving the way a person evolves. Right? Like, I mean, me for example. Am I getting worse? Am I improving? I don’t know. When I was younger, I was healthier, but I was, uh, whacked with insecurity, you know? Now I’m older and my problems are deeper, but I’m more equipped to handle them.” (Jesse)

“Memory is a wonderful thing if you don’t have to deal with the past.” (Celine)

 

Where are your friends tonight?

A relação estabelecida entre música e vídeo é sempre complexa. Sem entrar em detalhes sobre o caso dos videoclipes, sempre me pego pensando em como essa ligação se estabelece em filmes e séries. Ambos representam, por sinal, uma boa opção para conhecer novas bandas ou relembrar hits já esquecidos. Quando é novidade, porém, você já ganha uma canção que traz consigo a experiência alheia. Por mais que tente ignorar, você vai passar um bom tempo relembrando uma cena específica ao ouvir a música. Isso aconteceu comigo ao longo de todas as temporadas de Skins.

O curioso foi a passagem de LCD Soundsystem. Em algum momento da segunda temporada toca “North American Scum”, que até foi para a minha playlist, mas nunca dei muita atenção. Até o fim da temporada, quando o penúltimo episódio acaba com a Cassie toda melancólica ao som de “New York I Love You, but You’re Bringing me Down” (se você não assistiu e tem interesse, não clique no link. Spoiler alert e etc). Já estabeleci meus próprios laços com cada acorde e, até hoje, lembro desse momento da série quando a escuto. E ela acaba descrevendo bem o que viria a ser minha relação com o LCD Soundsystem.

É uma daquelas bandas que dança sobre a própria dor. No esquema “preste atenção, você tá aí se desmanchando na pista ao som de uma música que fala sobre o fato de você ser uma pessoa sozinha, sem amigos”. Só que você demora a perceber. Sem pensar muito, o grupo cai facilmente naquela categoria de bandas que escutamos para esquecer dos problemas (menos “New York I Love You, But You’re Bringing Me Down” que é para os momentos difíceis).

Só que não. Para reforçar esse lado reflexivo da banda, Will Lovelace e Dylan Southern documentaram o fim do LCD Soundsystem. Acompanharam James Murphy antes, durante e depois do último show, realizado no Madison Square Garden, em Nova Iorque. A dupla já havia produzido um documentário sobre o Blur. Gostar da banda não é pré-requisito para apreciar esse trabalho, direcionado ao público fã de música como um todo.

Poderia ser só mais um vídeo homérico reproduzindo o show na íntegra. Lovelace e Southern, todavia, preferiram abrir espaço para um chorôrô coletivo e se esforçaram para deixar os últimos minutos de vida do LCD mais tristes do que realmente eram.

Uma das melhores coisas do filme são os plongées que se complementam. No início, eles exibem a montagem do palco por essa perspectiva. Mais adiante, já durante o show, valem-se da mesma técnica para mostrar o espaço anteriormente desocupado transformado em um mar de gente. A sequência intercala entrevistas com Murphy com os preparos para a apresentação final – que como o próprio título já indica (Shut up and play the hits), determinou o recorte das faixas apresentadas no vídeo. As participações do Arcade Fire e de Reggie Watts são suficientes para suprir as músicas que ficaram de fora do resultado final. “New York I Love You, But You’re Bringing Me Down” fecha a setlist com uma chuva de balões brancos e uma imagem inesquecível – e me desculpem pelo termo piegas, mas não consigo pensar em algo melhor – do fã chorão e imóvel ao constatar que nunca mais ouvirá uma música nova da sua banda predileta.

E dá para experimentar certo ar de derrota quando a verdade é reforçada por meio de um cover. Como se a cena da Cassie e o documentário não fossem suficientes para me convencer que LCD Soundsystem não é uma banda tão feliz assim. Conheci Kodaline há pouco tempo. Esses infelizes irlandeses pensaram que seria ok fazer uma versão dolorosa de “All my friends”. Sim, eles desconstruiram a música, praticamente a despiram.

Agora estou nessas, sem saber se os culpo ou agradeço pela sensação de vazio no fim da canção.

Meme: conhecendo seu blog

Após um longo sumiço, seria até feio não postar depois de ser taggeada DUAS vezes pela querida Natália Nambara (adorei as indicações, por sinal!). Então vamos aproveitar o momento mais tranquilo no trabalho e esse mundo de ideias em convulsão pela minha mente para melhorar a frequência de atualizações disso aqui.

Bom, começo pelo primeiro meme: conhecendo seu blog.

1. Como escolheu o nome do seu blog?

Vou roubar do about: A culpa é toda do filme “Uma Noite em 67″. Com créditos para a minha falta de criatividade para nomes e títulos. Eu queria um blog e estava prestes a apelar para o óbvio “blog da lidyanne” ou qualquer baboseira do tipo, quando fui ao cinema conferir o filme de Renato Terra e Ricardo Calil. Em um dado momento um dos depoentes soltava um “de maneira alguma” corriqueiro, que bem poderia ter saído da boca de qualquer transeunte tagarela. Era isso ou nada. Essa expressão foi parar no meu bloco já com folhas gastas e coroou minha incapacidade para achar um título melhor.

2. Há quanto tempo tem seu blog? 

Desde outubro de 2010 (com diversas pausas haha).

3. Como você divulga seu blog?

Posto links no facebook e no twitter (e às vezes não divulgo mesmo).

4. Quais os assuntos que tem mais visualizações no seu blog?

Os posts do Especial Paris. Pelo menos um dos textos da série é visitado a cada dia, principalmente a parte 2 (“como se movimentar pela cidade”).

5. O que motivou você a criar um blog?

Desde o primeiro blog que criei, provavelmente quando tinha uns 13 anos, tinha como motivação a simples vontade de escrever. Queria um espaço onde pudesse jogar meus textos e compartilhá-los com quem tivesse interesse em lê-los.

6. Você mora onde?

São Paulo.

7. Quais os seus objetivos com o blog?

Falar sobre as coisas que eu gosto e sobre as circunstâncias (nem sempre cômicas) da vida.

8. Quais blogs você visita frequentemente?

Vale dar uma conferida caprichada no meu blogroll. Só acompanho gente bacana :)

9. O que te inspira a criar posts?

Essa trollagem que eu chamo carinhosamente de vida (como já citei anteriormente) e coisas interessantes que vejo perdidas pela internet. Existe uma preferência gritante por assuntos despretensiosos. De séria já basta a vida.

10. Qual a sua idade?

22.

11. Além do blog, tem outra ocupação? Se sim, quais?

Trabalho na assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura e escrevo sobre cinema n’O Bolchevique Analógico.

12. O que mais gosta de fazer nos finais de semana?

Preparar um doce a passar o dia lendo ou assistindo a algum filme ou série. Quando dá vontade, gosto de sair para bater perna por aí.

13. Gosta de café?

Inclusive sofro com o vício.

14. Pretende fazer algo em 2014 para o blog?

Levá-lo mais a sério, talvez. Promessa de anos!

Os indicados ganham esse selo! E eu teria que indicar mais 15 blogs, mas deixo em aberto àqueles que quiserem participar :)