23

o tempo se transforma em nada quando posto em nossas mãos e nem nos damos conta disso. impossível discordar, principalmente quando a gente se contradiz dizendo que não o temos. nem chegamos a experimentá-lo. um belo dia o sol te toma a face pela manhã e bum, 23 anos. e não há nada a se gabar, nenhuma grande conquista. com essa idade já tem gente empresária, bem sucedida, abrindo start-ups, com uma saúde de dar gosto, mil amigos, namorando, uns até casaram e tiveram filhos. e você aí, que junta poeira em um diploma só, mal consegue pagar as contas, arrancando cutículas com os dentes e tomando whisky como se fosse rivotril. até se esforça, tenta fazer uma social, disfarça sua condição e até ignora o fato de estar sucumbindo paulatinamente. nada tem valor e quiçá o seu maior presente seja essa indiferença que você adora ostentar, mas que te dói mais que aquela azia nervosa de gastrite.

parece mesmo que há uma preferência pela autodestruição, amor próprio é uma lenda. e do que valeria se esforçar para ser diferente? vamos todos morrer de qualquer forma. então tudo bem se te ajudarem a se destruir mais um pouco. nunca abra mão da falta de tato do próximo. 23 parece bastante, já dá para sentir a intensidade da vida adulta sob os ombros. tendo conhecimento disso nem pense em se iludir. o mundo é um moinho, já dizia cartola, vai triturar teus sonhos, tão mesquinho, vai reduzir as ilusões a pó. nunca há idade suficiente, e você ainda vai cair muito, vai se ralar no asfalto, vai acumular cicatrizes imensas e acariciar outras bem profundas na alma.

não falamos em pessimismo, é só mais uma overdose de realidade, e venho a vomitando já há alguns meses. cheguei até aqui sem grandes conquistas, mas posso me gabar da força. venho trabalhando para ser mais forte a cada dia. feito escudo. intransponível.

23 anos. mais bruta, talvez até mais seca. a cada dia mais pedra, dessas meio desgastadas, porém longe de desintegrar.

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