Mostra Internacional de Cinema – A Primeira Semana

CineSESC, 27/10/2010. Foto tirada por mim.

Como relatado na postagem anterior, a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começou no dia 22. Meu primeiro contato com o evento aconteceu na 30ª edição, mas não pude assistir nada. Essse ano tive a oportunidade de acompanhar de perto. Comprei um pacote que permite a retirada de ingressos (perante disponibilidade) durante no período vespertino, do meio-dia às 17h55. Para fazer bom uso, tentei assistir pelo menos dois filmes por dia. E descartei as possibilidades de arrumar uma programação para os finais de semana, pois o pacote só vale de segunda a sexta.

Não posso negar – para mim, é lindo ver pessoas pela Avenida Paulista com a sacola da Mostra ou mesmo a programação em mãos. Sem contar os crachás daqueles que compraram pacotes – a corrida de um cinema a outro não deixa tempo para guardá-lo. Apesar do serviço de bicicletas oferecido nesta edição, preferi correr de um cinema a outro. O momento é oportuno para matar a saudade de alguns cinemas ou conhecê-los, para quem participa da Mostra pela primeira vez.

Na primeira semana, assisti 11 filmes. Fiz minhas escolhas na tentativa de conciliar horários – o que acabou me prejudicando em algumas sessões, por dar pouca atenção às sinopses. Farei um breve comentário sobre cada filme e a sessão em si (estrutura da sala e público). As resenhas de cada um serão publicadas ao longo da semana. Para os cinéfilos presentes no evento até o dia 4, deixo minhas dicas.  Segue a lista:

Retornos [22/10, no Reserva Cultural]: O tema é batido – conta a experiência de Álvaro ao voltar para sua cidade natal após 10 anos, para o enterro do pai. Como é de praxe, a volta do personagem interpretado por Xavier Estévez desencadeia uma série de acontecimentos que não o deixam sair de lá tão cedo. É o primeiro longa-metragem do diretor colombiano Luis Avilés. Talvez por medo de inovar em seu primeiro trabalho, ele optou por um filme “certinho”. E por certinho, entenda – com começo, meio, fim – tudo bem explicado, para não deixar dúvidas ao espectator. Tal formato quebra expectativas e deixa o filme um pouco óbvio. [Foi uma das primeiras sessões da Mostra. Não houve problema com a exibição.]

Revolução da Luz Vermelha [25/10, Espaço Unibanco]: Shunzi é expulso da casa de sua mulher ao perder  o emprego. Ao voltar para a casa dos pais, sem esperanças, acaba encontrando um velho amigo que lhe propõe algo para “recomeçar”: abrir um sex shop para não ter mais problemas com dinheiro.  O filme procura mostrar uma China bem humorada. De fato, é um filme bem engraçado. Mas parece se perder em certo ponto – tanto que acaba sem acabar. Recomendo apenas para quem não exige seriedade e precisa rir um pouco. [Não houve problema com a exibição. O diretor estava presente.]

Cópia Fiel [25/10, Cine Livraria Cultura]: Duas pessoas se encontram na Toscana – ele, escritor; ela, dona de uma galeria de arte. Parece familiar? A sinopse lembra um dos filmes de Richard LinklaterBefore Sunset. Mas, além do local não ser o mesmo, já imaginei algo diferente por abordar personagens mais velhos.  A princípio, o filme é muito bom. Os diálogos são interessantes. Mas a história não se desenvolve bem. Seria um pouco absurdo, porém, perder tempo falando sobre direção e roteiro, por exemplo, quando se tem tamanha atuação de Juliette Binoche. Além do excelente desempenho, ela se desdobra, falando francês, inglês e italiano – com pronúncias impecáveis. Para ninguém colocar defeito. [O cinema mudou de nome, mas tudo continua igual. Só uma ressalva: a sala lotou e algumas pessoas ficaram sentadas no chão.]

Bróder [26/10, Espaço Unibanco]: Macu, Jaiminho e Pibe passaram a infância no bairro Capão Redondo, em São Paulo. O filme mostra o reencontro dos três amigos. O primeiro longa-metragem dirigido por Jeferson De é só mais uma prova da existência de bons filmes brasileiros. Poisé, integro o grupo de pessoas que dá atenção a trabalhos nacionais – e costumo gostar dos resultados. Logo, sou suspeita para elogiar Bróder. Independente da minha opinião pessoal, é uma película bem feita. Vale a pena assistir. [Sem problemas com a exibição. O diretor estava presente.]

Modra [26/10, Unibanco Arteplex, Shopping Frei Caneca]: Lina mora no Canadá e resolve viajar durante as férias. O local de destino é Modra, na Eslováquia, onde será recepcionada por familiares que vivem lá. É preciso ser muito insensível para sair da sessão sem um sorriso no rosto. A simplicidade da história serve como base para despertar a sensação de felicidade a cada cena. Um filme delicado, com lindas paisagens de um país que até então eu não havia visto em obras cinematográficas. [Sem problemas com a exibição. A diretora Ingrid Veninger e a atriz Hallie Switzer, muito queridas por sinal, estavam presentes.]

Não Me Deixe Jamais [27/10, CineSESC]: Ruth, Kathy e Tommy cresceram juntos em um internato. Local que os preparava para um triste destino. É difícil falar sobre ele sem dar spoilers, embora o trailer já conte uma das partes mais dramáticas do filme. Para mim, foi uma tortura psicológica. Como se alguém pegasse meu emocional e fizesse graça com a sua fragilidade. Sou fraca para filmes assim, o que me ajudou a detectar um dos objetivos de Não Me Deixe Jamais – deixar de lado a parte “técnica” e cheia de explicações para fisgar o público pelo lado mais sensível. E é bem extremo – ou você gosta muito, ou não vê graça. Recomendo, por esse motivo, uma ida ao cinema sem expectativas. E se você chora com facilidade, reserve um estoque de lencinhos para te acompanhar. [Era incrível o silêncio ao fim da sessão – acabou sem muvuca e cheio de gente com os olhos inchados de tanto chorar.]

A Árvore [27/10, Unibanco Arteplex, Shopping Frei Caneca]: Uma família vive em um vilarejo da Austrália. Após a morte do pai, a mãe precisa lidar com a dor da perda e cuidar dos quatro filhos. Para complicar, a pequena Simone acredita conversar com o pai toda vez que sobe na grande árvore presente na frente da casa. Ao que tudo indica, é um dos queridinhos da Mostra. A sessão esgotou e muitas pessoas saíram satisfeitas. Fui assistir pela Charlotte Gainsbourg, mas não considero mais um motivo para conferir este filme. A ideia era boa, e o apego de Simone pela árvore era comovente até certo momento. Mas torna-se cansativo e irritante. [Projeção também sem problemas. Algumas pessoas sentaram no chão, traço típico de exibições com ingressos esgotados.]

Ex Isto [28/10, Unibanco Arteplex, Shopping Frei Caneca]: Uma mistura de Paulo Leminski com René  Descartes. Promissor, não? Mas decepciona. A premissa era bastante interessante, mas a lentidão do filme chega a dar preguiça. Algumas cenas, porém, foram bem trabalhadas e valem pelo resto do filme. [Sem problemas na projeção.]

Comida Fria [28/10, CineSESC]: Christer se lembra do dinheiro deixado no bolso da calça que acaba de colocar para lavar na máquina. Para desligá-la, desativa a chave geral. A pequena “arte” desencadeia uma série de infortúnios para as pessoas da vizinhança. Uma amiga até brincou quando acabou: “É um filme sobre babacas”. De fato. Não consegui enxergar profundidade, muito menos drama, em nenhum personagem. O filme não me deixou nem desesperada com tamanha ignorância: só lamentei. [Sem problemas na projeção.]

Uma Vida, Talvez Duas [29/10, Unibanco Arteplex, Shopping Frei Caneca]: Mais uma para a lista de filmes difíceis de comentar sem dar spoilers. A história conta o desenrolar da noite de Matteo, que corre para o hospital para acudir um amigo. Dirigido por Alessandro Aronadio, procura dialogar com o espectador ao oferecer duas possibilidades para os desdobramentos da história. Tudo parecia perdido após os três últimos filmes assistidos, até Uma Vida, Talvez Duas entrar para minha lista da Mostra. Ótimo enredo, intrigante, e envolvente. [Sem problemas na projeção. Muita gente entrou depois, provavelmente por conta do horário {12h}. Mas nada que tenha atrapalhado.]

William S. Burroughs: Um Retrato Íntimo [29/10, Reserva Cultural]: O título fala por si. Um documentário sobre um dos autores mais conhecidos da geração Beat – William Burroughs. Excelente trabalho do diretor Yony Leyser. Ele soube explorar a relação do escritor com pessoas próximas e a forma como serviu de influência para outras obras, sem ser cansativo. Entre um depoimento e outro, inseriu alguns trechos de entrevistas feitas com Burroughs – muito bem escolhidas, por sinal. [Mantive essa parte sobre a sessão até o fim para criticar o último filme da semana. Uma das melhores películas da minha lista, sem dúvidas. Contraditoriamente, a pior sessão. Por tudo. A legenda era pequena, e o posicionamento abaixo da tela prejudicou a leitura. Muita gente trocou de lugar ao longo do filme para ver melhor. Muitos sentaram no chão. Nunca vi, também, público tão ruim – pessoas que reclamavam só de ouvir o rangido de uma cadeira. O respeito e o bom senso mandaram notícias.]

Anúncios

Começa a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Os cinéfilos que estiverem na capital paulista entre 22 de outubro e 4 de novembro terão quatorze dias para nutrir o vício por filmes. Começa hoje a 34ª Mostra Internacional de Cinema. Com uma imensa lista de títulos – mais de 450 obras, os apreciadores poderão escolher entre 20 locais diferentes da cidade para assisti-los. Esta edição homenageia o diretor alemão Wim Wenders e o centenário do cineasta japonês Akira Kurosawa.

Para “acompanhar” a mostra, Storyboards originais dos filmes Kagemusha (1980), Ran (1985), Dreams (1990), Rhapsody in August, Madadayo (1993) e The Sea Watches (2002), todos dirigidos por Kurosawa, estão expostos no Instituto Tomie Ohtake até 28 de novembro. A editora CosacNaify também presta homenagem ao cineasta, com o lançamento do livro À Espera do Tempo – Filmando com Akira Kurosawa. O resultado da restauração feita com um de seus clássicos, Rashomon, também integra a lista de obras do catálogo. Wenders, por sua vez, ganha exposição no MASP até 9 de janeiro. Intitulada Lugares, Estranhos e Quietos, a série de fotografias será publicada também em livro, pela editora Imprensa Oficial. As películas do diretor alemão, Paris, Texas e Asas do Desejo, também serão exibidas na Mostra.

Entre as novidades da 34ª edição, está a mudança no número de acessos para o streaming da Mostra Online, organizado em parceria com a Mubi – comunidade online patrocinada pela Celluloid Dreams. Diferente do ano passado, o site permitirá 300 acessos para cada um dos 68 títulos escolhidos. Uma forma de levar os filmes até os cinéfilos que não estarão em São Paulo nos próximos dias. A parceria com a Sabesp e a ONG Parada Vital incentiva o uso de bicicletas para se deslocar de um cinema a outro. Basta fazer um cadastro na Central da Mostra, obedecendo às exigências do regulamento, e verificar quais espaços participantes oferecem o serviço.

As principais expectativas para a edição de 2010 são Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de Woody Allen. Destacam-se também Cópia Fiel, protagonizado pela atriz Juliette Binoche – premiada este ano no Festival de Cannes – e Submarino, de Thomas Vinterberg. O cineasta dinamarquês obteve reconhecimento ao lançar o filme Festa de Família, em 1998, a primeira obra do movimento Dogma 95, criado por ele com o diretor Lars Von Trier. Outro filme aguardado é Em um Mundo Melhor, da também dinamarquesa Susanne Bier.

Outro destaque é o livro Os Filmes da Minha Vida, fruto da Mostra Internacional de Cinema, que ganha segunda edição no evento. A primeira película exibida em sessão exclusiva foi O Estranho Caso de Angélica, do diretor Manoel de Oliveira, co-produzido pela Mostra. A 34ª edição inicia a programação com sessões a partir das 11h até a meia-noite.

Site da Mostra

Serviço

O melhor local para se informar sobre a Mostra é a Central, localizada no Conjunto Nacional. Os pacotes só podem ser adquiridos ali, assim como o catálogo e a programação. Camisetas, canecas e outros itens personalizados também estão disponíveis no mesmo local.

Central da Mostra
Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 (ao lado do Cine Livraria Cultura)/ São Paulo-SP
(11) 3251-3374

(11) 3251-3369

[Publicado também no site de Cultura Geral da Cásper]

Quando o Descartável Vira Arte

Não há limites para a criatividade de um artista. Não importa a preferência – pinturas, colagens, desenhos. O interessante é poder explorar as ideias, transformar aquilo que têm em mente em “objeto”. No momento, alguns artistas aproveitam o ideal de sustentabilidade em suas artes. Por que jogar fora um rolo de papel higiênico, por exemplo, se é possível fazer arte contar histórias com eles? Pode parecer inusitado a primeira vista, mas sim: é possível criar cenários em rolos que enganam pela aparência descartável.

Da série Patron Saints

A francesa Anastassia Elias realiza este tipo de arte. Para aproveitar a preferência por colagens, ela recorta silhuetas de papel e cola os pequenos desenhos no interior dos rolos. O uso do papel com a mesma tonalidade passa a impressão de imagens que saíram diretamente do rolo. Com jogos de luz diferentes, é possível criar histórias a partir destas pequenas cenas do cotidiano representadas pela artista. Um homem pescando, mãe e filho visitando um zoológico, lutadores de box e até mesmo uma representação do tango – situações inspiradoras e presentes no trabalho de Anastassia.

Além da criação, ela também explora as habilidades com a fotografia ao conciliar o posicionamento dos recortes de forma estratégica para criar um jogo de sombras. A artista plástica ilustrou também livros infantis, e já havia trabalhado com materiais reciclados anteriormente. Para a coleção , utilizou cds antigos. Os rolos de papel higiênico “personalizados” podem ser obtidos por 100 euros cada no site oficial da parisiense.

Adição de regozijo no indie pop de Belle & Sebastian

Capa do disco Write About Love

A fórmula mágica para ficar bem é simples – “escreva sobre amor, em qualquer tempo verbal”. Basta fazer sentido. Nesse contexto que se desenvolvem as onze faixas do disco Write About Love – a busca por escapatórias para enfadonhas situações enfrentadas diariamente. Após o último lançamento, The Life Persuit, de 2006, a banda Belle & Sebastian mantém a linha do cd anterior.

Um clima mais pessimista figurava nas músicas dos álbuns mais antigos da banda, como Tigermilk (1996) e If you’re feeling sinister (1999), quando Isobel Campbell ainda integrava o grupo. Esta ambientação não abandona por completo o novo disco, mas é deixada de lado para dar espaço à letras e melodias mais animadas. A escolha dos instrumentos mais representativos em cada canção tem a intenção de propiciar uma sensação de bom humor e otimismo. Aspecto evidenciado logo na primeira faixa, escrita e interpretada por Sarah Martin, I didn’t see it coming – apesar dos problemas, a letra diz “nós não precisamos de uma vida inteira, estamos seguindo a linha certa”. Esta música e a quarta faixa do disco, I want the world to stop, integram um vídeo de divulgação disponibilizado no site oficial e organizado pela distribuidora. Além da apresentação das duas canções, inclui algumas entrevistas – um pequeno filme.

A banda não deixou a desejar no projeto de divulgação. Antes mesmo do lançamento, pediram aos fãs que seguissem o exemplo da primeira possível capa do disco – fotografar cenas do cotidiano inspiradas pelo tema do cd. As melhores fotografias fazem parte do vídeo exposto.

Produzido por Tony Hoffer, responsável também pelo álbum anterior, o trabalho tem participação de figuras bastante conhecidas. Uma delas é a atriz britânica Carey Mulligan, que divide os vocais com o vocalista Stuart Murdoch na faixa que dá nome ao disco. A outra participação é reconhecível logo nos primeiros segundos da música Little Lou, Ugly Jack, Prophet John. Apesar da distinção de estilos, a cantora norte-americana Norah Jones realizou ótimo dueto com o vocal da banda. Para fãs mais exigentes, Read the blessed pages, Calculating bimbo e Sunday’s pretty icons – que fecha o disco com a participação de Mick Cooke na composição – remetem às obras mais antigas, por possuírem temas e levadas mais tristes.

O grupo mudou em alguns aspectos, mas obteve bom resultado ao manter o estilo indie pop e mesclar as composições. A maioria delas é de Stuart Murdoch, com exceção de duas faixas compostas e interpretadas por Sarah Martin e da animada I’m not living in the real world, escrita e cantada por Stevie Jackson. Quem acompanha a banda há bastante tempo pode não se satisfazer ao conferir o álbum pela primeira vez. Mas vale oferecer outras chances.

I didn’t see it coming:

I want the world to stop:

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Cásper]

Dia das Crianças – Para não passar em branco

Feriado preguiçoso. Final de semana, segunda e terça foram dias de puro descanso: nada de sair de casa. Só dormir, ler e ‘atualizar’ os seriados. Tempo suficiente para recarregar as energias e ter forças (e disposição, claro) para enfrentar todos os trabalhos da faculdade. E tentar conciliar o tempo para eles com o tempo para a Mostra Internacional de Cinema, que começa no dia 22 de outubro.

Por ser o Dia das Crianças, escolhi duas coleções de livros e dois filmes como recomendações à quem tenha crianças por perto.

Entre os livros, as coleções fizeram parte da minha infância. Antes de tomar gosto por leituras mais sérias, conheci os inúmeros títulos da Coleção Vaga-Lume. Publicados pela Editora Ática, na década de 90 eles estavam nas estantes de muitos colégios. Voltados, logicamente, para o público infanto-juvenil, abordavam histórias de suspense. Eram sempre propícios ao estímulo da curiosidade – impossível não sentir aquela ansiedade para conhecer o desfecho. Todos apresentam uma linguagem mais simples, e os pequenos leitores mais ávidos terminam um volume no mesmo dia. Vários escritores participaram do projeto, e vale notar a presença de autores que ganharam notoriedade entre o público adulto, como Marçal Aquino. A Série Vaga-Lume foi criada há 38 anos. Para os mais nostálgicos, vale relembrar os títulos com a lista feita pela Raquel, no listal.

Pouco tempo depois, tive meu primeiro contato com a Coleção Os Karas, de Pedro Bandeira. Difícil encontrar pessoas da minha geração que não tenham pelo menos iniciado a leitura de um dos cinco livros lançados:
A Droga da Obediênca
Pântano de Sangue
Anjo da Morte
A Droga do Amor
Droga de Americana!

“Os Karas” eram cinco adolescentes habitantes da capital paulista. Em cada livros, envolviam-se com algum mistério. No caso, os livros seguem mais ou menos a mesma linha da série citada anteriormente, por ter sempre um suspense resolvido no final. A diferença é que aqui, o mesmo grupo aparece nos cinco livros. Vale lembrar de outro livro do mesmo autor, A Marca de uma Lágrima. O mistério não fica de lado, mas este título está mais ligado às complicações do primeiro amor.

Quanto aos filmes, embora tenha muito amor pelos clássicos da Disney, escolhi duas películas que fogem um pouco do comum para a categoria. O primeiro, O Estranho Mundo de Jack, pode assustar algumas crianças. Mas não consigo assisti-lo atualmente e não me lembrar de todas animações e desenhos que fizeram parte da minha infância. Com ele, também despertei um interesse maior por animações – em especial, quando envolvem stop motion, para citar a postagem anterior.

O outro escolhido foi Em Busca da Terra do Nunca. Este é mais para adultos nostálgicos mesmo. Uma releitura muito bonita de Peter Pan, com dois atores excelentes: Johnny Depp e Kate Winslet.

Para finalizar, escolhi outro livro. Foi uma das obras de leitura obrigatória em vestibulares como o da UFMS, quando prestei. Aproveito o gancho: é uma leitura recomendada tanto para jovens como para adultos nostálgicos. Em O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, acompanhamos a trajetória de Eduardo Marciano. Com todos os detalhes: da infância ao envelhecimento – para deixar o leitor com a sensação de ter acompanhado a história de um amigo próximo. Aproveitando o envolvimento com a história, o autor propõe reflexões sobre o amadurecimento e a forma como lidamos com as dificuldades da vida. Sabino completaria 87 anos hoje, mas faleceu em 2004. O romance citado anteriormente foi lançado em 1956. Fica aí minha pequena homenagem a um dos meus escritores prediletos.

Ilusão Favorável

É normal assistir a filmes sem saber as técnicas utilizadas na produção. Afinal, na maior parte dos casos, procuramos absorver o conteúdo de uma película, dando pouca atenção a todo trabalho executado pela equipe responsável pelo filme. É comum notarmos essas técnicas ‘inconscientemente’. O que acontece, normalmente, quando a sequência termina e alguém diz “Não sei explicar o motivo, mas tem algo muito legal que faz com que eu goste desse filme!”. O Stop Motion entra nesta categoria.

A técnica tornou-se mais conhecida nos casos em que objetos são utilizados. Em especial, as criaturas inanimadas escolhidas são bonecos. É o caso de filmes como Wallace e Gromit, de Nick Park e A Noiva Cadáver, de Tim Burton. Pegando um exemplo mais recente, temos O Fantástico Senhor Raposo, de Wes Anderson. O trabalho requere calma e tempo. Para criar a ilusão de movimento, são necessários de 12 a 24 quadros (frames) por segundo.

O Stop Motion também caiu no gosto dos músicos. Entre os exemplos mais conhecidos, há o clipe de Strawberry Swing, da banda Coldplay. E um dos principais responsáveis pela difusão da técnica no meio dos videoclipes, Her Morning Elegance, de Oren Lavie. Mas quero destacar vídeos não comerciais. Feito pelas pessoas por simples distração. Por serem vídeos mais curtos – costumam ter de 30 a 60 segundos – criam um certo vício. Dá vontade de rever repetidas vezes. Embora conhecesse a técnica por gostar muito do trabalho de Tim Burton, só busquei mais informações ao encontrar alguns vídeos no Flickr. O primeiro veio da página de Tuane Eggers. Todos os temas escolhidos por ela têm um tom melancólico, e combinam bastante com dias nublados – que eu particularmene adoro. Escolhi o meu predileto:

Embora este outro combine mais com domingos preguiçosos como hoje:

Deixando de lado a melancolia, também gosto bastante dos vídeos da Melina de Souza. A maioria tem o amor como tema, sempre acompanhados por uma música animada e bastante coloridos. O tipo de vídeo que te deixa com um sorriso no canto do rosto quando acaba:

E para combinar com a primavera (que só começou no calendário em São Paulo):

Ordinários Estrangeiros

Após redigir quatro romances, Clarice Lispector selecionou alguns contos a serem publicados em livros. A relação da mulher com a família foi retratada na obra Laços de Família, em 1960. Após quatro anos, mostrou o cotidiano por outra perspectiva em A Legião Estrangeira. À primeira vista, o que soava comum ganhou ali nova interpretação, marcada pelo estilo que foge ao óbvio, típico da escritora.

A solidão e melancolia são esmiuçadas dentro das relações humanas nos treze contos. Logo no primeiro conto, a autora aborda a esperteza das crianças. Os desastres de Sofia mostra uma garota ambiciosa com os próprios escritos. Consequência indireta da relação com o professor, impressionado com as redações da aluna. A infância é pano de fundo também para Evolução de uma miopia. Através de uma metáfora, conta as peripécias de um garoto que graças ao seu problema de visão descobre as belezas do mundo.

Os animais também são figuras recorrentes no livro. A escritora procura humanizá-los, utilizando uma linguagem mais poética na abordagem. É o caso de Tentação, onde uma menina ruiva encontra um cão da raça basset na rua que partilha a mesma condição – “Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária”.

Viagem a Petrópolis, contrapõe a presença de crianças nos contos e opta pela nostalgia, contando a história de uma velhinha rejeitada em busca de um lugar para viver. O livro enfatiza amizade e amor, em especial, nos contos Uma amizade sincera e A mensagem, que abordam a efemeridade das relações e propiciam uma sensação de ansiedade e angústia. O ovo e a galinha, pelo caráter intrigante, parece antecipar uma das obras mais famosas de Lispector, lançada no mesmo ano – A paixão segundo G.H.

O conto responsável pelo título finaliza a publicação, mesclando as duas características mais fortes da compilação – os animais e a infância – ao relatar a relação da narradora com a pequena Ofélia, sua vizinha, e um pintinho que acabou de ganhar.

As personagens cativantes e histórias que prendem a atenção do leitor até o fim são os fatores responsáveis para que essa obra seja indispensável aos que anseiam conhecer a fundo o trabalho de Clarice Lispector.

[Publicado também no site de Cultura Geral da Cásper]