Nunca brinque com os astros

Maldito 21 de março. Dava para chamar de mera coincidência, mas não se deve brincar com os astros. Nem ouso negar minha conexão “”com o universo””, visto que sou uma pessoa sensitiva demais e sempre encontrei respostas ligadas a sensações. Agora vai lá brincar de enfiar TRÊS eventos astronômicos no mesmo dia, dava para visualizar a treta de longe. Porém tão bonito o eclipse solar com aqueles óculos de papel, tão embasbacada estive, os pensamentos de catástrofe passaram bem longe da minha inocente cabeça oca. O ato de ver o eclipse uma última vez antes de descer as escadas e retomar a vida me deu um choque. Em cinco minutos detectei um turbilhão dentro de mim e foi tão estranho que até agora não sei explicar o que senti. Era pior que TPM, coração partido, notícias ruins em geral. Um desconforto interno sem pé nem cabeça e que não se transformava em nada. Zero vontade de chorar, zero vontade de conversar para explicar – afinal, eu nem entendia o que estava acontecendo. Só lembro-me de querer me enfiar dentro de uma caixa e passar o dia lá mentalizando coisas boas pra ver se conseguia me livrar dessa loucura.

Vale mencionar um mix de resfriado com gripe que me deixou com a garganta zoada, tosses frequentes e um nariz um tanto quanto emotivo. Também havia um dossiê pra terminar e alguns trabalhos do curso, mas a maluca só queria saber de ficar isolada com seus pensamentos imbecis.

Fui pra Dijon no sábado seguinte, 22 de março, e tudo começou com a carona cancelando a viagem quando já estávamos no ponto de encontro. Porque a vida tem dessas, talvez fosse até um sinal. Fiz questão de ignorar teimando na passagem de trem (ainda bem, ainda bem que teimei). Viajar é revigorante e temos a sensação de que tudo se resolve instantaneamente. Risos. Cheguei em casa à noite e tão morta de cansaço que só conseguia pensar na sequência ducha+cama. Dito e feito. Bastaram 5 minutos bem acomodada na minha cama para ser contemplada pela gentileza desse sistema digestivo maravilhoso: diarreia. Se vocês acham horrível ter dia de rainha, imaginem só passar por isso em outro país, sem remédios e sem ter muito pra onde correr.

Há quem interprete como um momento de renovação. A diarreia veio para limpar as energias ruins e levá-las embora, que nem aquela vez pós Heliodora, quando vi a morte de perto em forma de virose. Gosto de acreditar nessa versão escatológica de passar por uma transição forte na vida, mas confesso que após resistir aos eventos estou BEM temerosa com o porvir. Rezem pela minha alma.

Tão linda Dijon, porém tão dolorida a sequência de retorno

Tão linda Dijon, porém tão dolorida a sequência de retorno

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No alarms and no surprises (please)

Foi quase na esquina, uma quadra depois do metrô, perto de uma das únicas bancas que permanecia com as luzes acessas. Dois moços fazendo música – um com uma flauta e outro com um violino. Não tocavam uma música específica. Ou até tocassem, não tive tempo para apurar. Mesmo baixo o som parecia me acompanhar e nunca saberei o que me comoveu tanto. Quiçá fosse efeito da simplicidade dos acordes, tudo tão discreto e ao mesmo tempo denso, e todo aquele acúmulo de dias inteiros, semanas, meses de agonia pura. Uma bola de neve. Aquela que vivem me dizendo para não alimentar. Ignorando toda a vergonha sentida ao encher os olhos de lágrimas em público, chorei. De soluçar. Aproveitei a escuridão do caminho seguinte, aquele trecho curto que me leva até a Praça Dom José Gaspar, parei por alguns minutos e me entreguei copiosamente ao pranto. Não demorei, é verdade. Bem poderia ter sentado no canteiro e degradado ainda mais minha condição de vulnerabilidade, exceto que nessas horas a gente tem o impulso de fingir que é forte depois de uma recaída. Engoli o choro e guardei para dali uns 10 minutos, quando entraria em casa. É como se esse movimento se repetisse todos os dias, minha explosão de desconforto diária. É saber que há algo errado e procrastinar uma busca para solucionar o problema, pois somos vítimas da capital monstruosa e não sobra tempo para cuidar do psicológico.

Boa parte da luta parece em vão e habituar-se à dor, cedo ou tarde, torna-se um fardo pesado demais a ser carregado. Então tentamos dissipá-lo em música, citações de livros, a projeção que traduz tudo isso sem dificuldade. E a falha insignificante segue ali, em formato embrionária, em suposto silêncio. Não quero colocar pompa nas palavras, desculpo-me pela falta de tato e desleixo, só ando assustada demais com esse despertencimento todo, esse descaso pessoal. Abri mão de mim, fui me deixando levar por tanta bobagem achando que não era relevante. Até me dar conta de que aos poucos alimentava essa falha, atribuía-lhe proporções absurdas até virar um buraco no estômago, desse que arde toda vez que me submeto a alguma situação de risco.

Confesso (contrariada) minha fragilidade e apesar de uma possível humilhação, imploro por um pouco de compreensão. Adoraria lidar com naturalidade, saber driblar toda e qualquer situação complicada. Não consigo. Presa a uma cidade que parecia me engolir mais e mais a cada dia, acabei me agarrando com muita força à minha insegurança. Não consegui fugir. Logo eu, que tenho essa urgência para correr quando dou de cara com um perrengue. Hoje até entendo o porquê do incômodo sentido com o bom e velho Creep, aquela música que ninguém suporta (e que admito meu amor velado), I want a perfect body, I want a perfect soul. Só que nasci meio estragadinha, longe de ter uma aparência socialmente aceitável, teimosa, e com essa mania insuportável de me diminuir sempre que possível. Não aceito elogio, tenho medo de qualquer ato ousado, confesso. Não é preguiça, não é corpo mole. É a insegurança – que mais parece uma bola de ferro de no mínimo 100kg. Doloroso constatar que são anos e anos assim. Alimentando essa essência meio errada. Minhas vontades são maiores que o meu corpo e meus temores, bem, não preciso comentar. Sigo com uma vida que está mais para a heart that’s full up like a landfill, no alarms and no surprises.

É bobagem, mas a passagem diária pela quadra que um dia me afagou nunca mais será a mesma. Talvez não esbarre mais nos moços que faziam música. O caminho segue sendo difícil, embora conhecido, e dos mais tortuosos. Espero que nele pare de me reconhecer e possa enfim me encontrar e superar tudo isso. Chegar a essa fé toda que você encontrou, mas que nunca senti.

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À beira de um ataque de nervos ou Murphy, seu lindo

Jamais acreditei nesta história (sem fundamento) de que o universo conspira contra um ser humano. Me parece egoísta demais. Se for para encontrar uma desculpa para um acúmulo de infortúnios, é preferível citar Murphy. Convenhamos, manter um caso amoroso com Murphy é bem mais interessante do que dizer que os cosmos estão se movimentando para lhe proporcionar infelicidade. Sua ação peculiar atrai a atenção até mesmo de pessoas pouco curiosas.

Ele é, provavelmente, o cara mais persistente que já passou pela minha vida. E desenvolveu uma capacidade admirável de demonstrar fidelidade enquanto investia em outras pessoas. Se um dia fui sensível a traições, hoje elas não me afetam. Desde que entrei em um relacionamento sério com Murphy, o perfil manipulador desse lindo fez com que eu não me abalasse com a sua infidelidade (não entraremos em detalhes, mas digamos que muitos homens por aí fizeram escola com ele). Afinal, ele sente uma agonia imensa se o impedirem de colaborar para incontáveis desfechos trágicos.

Segundo fontes que já tiveram relacionamentos duradouros, o amor costuma se esvair com o passar dos anos. Como consequência, o casal não se aguenta por muito tempo. Com Murphy, as coisas acontecem ao contrário. Meu amor, um tanto masoquista, se intensifica a cada dia. E digamos que já constituímos uma relação estável, pois estamos juntos há pelo menos 10 anos.

Para nós, as coisas funcionam como um vício. Ele se esforça para que nada dê certo (ou pelo menos tenha um final típico de novela mexicana) e a minha dependência só aumenta. Já rolou até pedido de casamento, da parte dele, claro.

E ele abrange uma gama de atividades cotidianas. Porque não basta prejudicar aquele dia tenso na faculdade ou aquela ligação mal resolvida que vai – sem dúvidas – render uma bronca do chefe. O danado gosta de mandar uma chuva daquelas quando você está sem guarda-chuva e precisa estar impecável para uma reunião dali alguns minutos. Vai te dar uma ajuda especial para queimar a mão na hora de cozinhar; para manchar, sem querer, aquele seu vestido favorito; vai fazer de tudo para o seu chuveiro explodir no dia mais frio do ano (e sim, você mora sozinha); é favorável à sua distração e faz de tudo para que você esqueça o seu pendrive com todas as coisas do trabalho em casa. E só permite que você se lembre no meio do caminho, quando já é tarde para voltar.

Se tudo isso acontecer no mesmo dia, então, Murphy terá seu parque recreativo.

No fim das contas firmamos um pacto. Ele me treinou para esperar o pior e duvidar da veracidade dos fatos quando as coisas derem certo. Por isso peço tanto pra não me olharem torto quando eu duvidar de toda e qualquer afirmação. Não me achem paranoica ou vítima de uma ansiedade fora do comum quando fico embasbacada com um acontecimento favorável à minha pessoa. São tantos anos de convivência que o desapego já deixou de ser um tópico de discussão entre nós.

Vejo que todas essas porradas psicológicas são moldadas no mais puro sentimento de afeto. Ele só apronta essas peripécias para intensificar minha brutalidade com a vida. Um treino diário para me preparar para diferentes modalidades de tombos. Vai dizer que não é a pessoa mais confiável de meu convívio?

for the love you bring won’t mean a thing unless you sing, sing…

Tenho uma vizinha com vocação para artista. E ela tem consciência do fato, tanto que sempre ensaia suas cantorias no conforto do próprio lar. Digamos que meu prédio é acolhedor demais, daqueles que curte a proximidade entre os sons emitidos por cada morador. Sou a plateia mais próxima da dona moça, que canta vários “clássicos” com uma intensidade que olha, não dá pra traduzir em palavras. Há boatos de que a criatura parou no tempo, fato constatado pela presença frequente de “My Heart Will Go On” (sim, da Céline Dion) e “My Immortal” (Evanescence. Sim, há quem ainda goste deles) na setlist. Quem já me visitou em uma tarde de domingo pôde desfrutar do pocketshow e está de prova.

Nem parece a menina acanhada que não abre a boca nem para dizer boa tarde quando passa por você no corredor. Ainda assim, criei respeito pela criatura porque gosto de gente sem filtro, que investe na própria voz como se não tivesse espectadores – ou melhor, há toda uma nova interpretação de plateia. Porque eu imagino a criatura assumindo o controle remoto da tevê como um verdadeiro microfone e cantando para um público imenso, um mundo de pessoas com os olhos marejando de encanto pelos agudos da criatura.

Diferente dela, meu uso de cordas vocais está restrito ao banheiro – como backing vocal, porque a música está sempre alta. É lógico que também me falta muita decência nessa vida e devo causar sofrimento à vida do vizinho do andar de cima. Sou tão intensa quanto a jovem do apartamento da frente, e costumo cantar do mesmo jeitinho, já visualizando meus fãs com plaquinhas e tudo mais. Um dia terei uma explicação decente para o efeito da música sobre a minha falta de noção, que se resume ao vídeo do Travis para Sing. Canto feito desalmada e me sinto dentro desse clipe. É tanta empolgação que dá vontade de sair atirando comida na cara das pessoas.

Nunca me importei com o incômodo que posso provocar, visto que moro no mesmo prédio há quase quatro anos e aprendi com a moça do my immortal que o importante é mostrar a nossa arte. Até o dia em que fiquei com a ópera-chiclete “Carmen”, de Georges Bizet, matutando na cabeça. A mais grudenta é a mais conhecida, Habanera* (do original “L’amour est un oiseau rebelle”, coisa linda de título). Se eu desafino com o tradicional, imaginem o sucesso quando o assunto é ópera. Tenho recompensado os ensaios da vizinha desde então. Canto à plenos pulmões.

Não sei o que é pior – o meu vício repentino pela música ou o fato da moradora do apartamento de cima ser cantora de ópera (dessas que se apresentam no exterior, meus caros). Só me resta lamentar pelos ouvidos dessa pobre alma.

*

O mendigo falou francês

Toda vez que trago um novo item à minha caixa de frustrações, ao invés de entregar-me ao sentimento, prefiro rir da própria desgraça. Fica ainda mais fácil quando o contexto favorece o riso. Pois tenho uma tendência a acumular infortúnios que jamais optaram pela banalidade. Tem que ser uma merda caprichada. Dentre esses episódios, houve um que me marcou bastante no início do ano passado.

Era sábado, horas antes da aula de francês. Mero detalhe: tinha prova, pois com a minha turma de malucos iniciei o curso no dia 7 de janeiro (com a escola em obras e tudo mais). Antes do despertador tocar, o primeiro anúncio de uma dia-bomba: alguém cantava Ilariê em alto e bom som na rua. Abri a janela e me deparei com um mendigo feliz e descontraído com esse clássico hit da Xuxa. Se o dia começa com uma música assim, ele está mais para prelúdio de uma tragédia.

Ainda sem saber como interpretar o acontecimento, corri para o ponto de ônibus com o livro em mãos, aproveitando os últimos minutos de “estudo”. Comecei a ouvir um “bonjour” repetitivo. Não era possível. Tanta loucura e tão poucas horas de sono que tinha começado a delirar e estava ouvindo vozes. Fiquei meio tonta, devo ter feito cara de maluca, mas quando olhei para o lado me deparei com mais um mendigo feliz (eles estão sempre em alta na Bela Vista).

Ele tentava uma interação. “Esse livro é de francês, né?”, perante minha resposta afirmativa, ainda meio abismada, ele mandou um “ça va?”. Por um segundo achei que fosse deletar tudo o que havia aprendido no último ano por reação ao susto. Respondi, e quando achei que a festa tinha acabado, ele começou a perguntar como dizia “por favor”, “boa noite” e “café da manhã”. Perante cada resposta, ele repetia com uma pronúncia impecável. De primeira. Para mim, já era extravagância demais para um dia só – e ainda eram 9 horas da manhã.

Provavelmente me tornaria um dicionário ambulante se o ônibus demorasse mais. Antes de embarcar, ele só perguntou se “muito obrigada” era “merci beaucoup” mesmo, confirmei, e ele só proferiu – mais uma vez com uma pronúncia incrível – as palavras, acenando. Naquele momento, “uma mensagem dos infernos” parecia a explicação mais plausível. Ou era uma indireta – eu tinha estudado pouco e ia quebrar a cara.

Dito e feito. Eu gosto é do estrago, principalmente se for feito com afinco. Saí de lá atordoada, sem almoçar, e correndo pra chegar a tempo na estação Tatuapé do metrô. Claro, no mesmo dia tinha que rodar a primeira entrevista do TCC com o meu grupo. Encontrei as meninas e, enquanto aguardava pelo quarto elemento que nos daria uma carona até o local, achei por bem causar na linha vermelha, sentei no chão e comecei a chorar. A semana foi uma sequência caótica de eventos (e no máximo quatro horas de sono por noite) e não houve autocontrole depois do combo matinal. Constrangi as amigas até levarmos bronca de um policial insensível que, mesmo ao se deparar com uma pessoa em prantos, fez um discurso sobre ser proibido sentar no chão das estações de metrô. Fofo.

A entrevista era com uma psicóloga e adivinhem só quem fizemos quase uma terapia em grupo? Afinal, quem nunca enfiou perguntas pessoais na lista de questões obrigatórias? Parecia até uma conclusão para a minha tese de maluquices daquele que parecia ser só mais um sábado despretensioso. E não foi.