Antônio Xerxenesky e Daniel Pellizzari debatem o mercado editorial brasileiro no CCSP

Nos últimos tempos, tenho notado muitas discussões sobre a dificuldade em transferir os livros impressos para o formato digital. O mesmo acontece com aparecimento de inúmeras editoras independentes. Fico feliz ao perceber que o debate desses tópicos não só evoluiu, como também deixou de se limitar a internet. Parte do Mês da Cultura Independente, o Centro Cultural São Paulo promove um debate sobre o mercado editorial brasileiro. O encontro acontece neste sábado, dia 14 de setembro, às 16h30, e recebe os escritores Antônio Xerxenesky e Daniel Pellizzari.

Fiz uma matéria para a Revista Em Cartaz deste mês, que vocês podem ler aqui, na página 56. Pensei que seria bacana compartilhar as entrevistas na íntegra no blog. Quem for ao evento já pode ter uma ideia do que será colocado em pauta amanhã. Espero que gostem!

1 – O que te impulsionou a criar a Não Editora e, no caso do Daniel, a criar a Livros do Mal? Na época, como você avaliava o mercado editorial? E como conciliou essa avaliação com a criação da sua própria editora?

Antônio Xerxenesky: Não existe um “Criei a Não Editora”, mas um “criamos”. Éramos um grupo de jovens autores que sentia falta de uma editora no sul do país focada em descobrir novos escritores e que desse um tratamento – de revisão, projeto gráfico, divulgação – decente ao livro. Uma editora capaz de “fazer um livro acontecer”, usando uma expressão tão popular no meio editorial.

Daniel Pellizzari: Na verdade, quando criamos a Livros do Mal em 2001 nem pensamos no mercado editorial. Eu, o Daniel Galera e o Guilherme Pilla (artista plástico) queríamos apenas fazer nossos próprios livros. Estávamos com nossos livros de estreia prontos, eu e o Galera, mas nem cogitamos em mandar para alguma editora: queríamos cuidar sozinhos de todas as partes do processo, tanto da criação do objeto livro quanto da divulgação etc, e depois fazer o mesmo por outros autores.

2 – Quais foram os principais desafios enfrentados no período de consolidação da editora? E hoje, como avalia a atuação da editora no mercado?

A. X.: Quando começamos, não sabíamos quase nada do assunto, apenas tínhamos os talentos necessários (Samir Machado era um excelente capista, Rodrigo Rosp um excelente revisor, e assim por diante). Fomos aprendendo sobre mercado editorial ao passo que íamos lançando livros. O maior desafio, no início, foi a questão da distribuição. Lembro de, nos primórdios da editora, colocar caixas de livro no porta-malas do meu Palio 96 (o guerreiro Cerejão) e transportá-las até as livrarias, o que em pouco tempo se tornou inviável. Hoje, nos profissionalizamos completamente nesse sentido, e um editor não precisa mais andar com o porta-malas atrolhado.

D. P.: O principal problema ocorreu quando o catálogo começou a aumentar e tivemos que lidar com distribuição, contabilidade, essas coisas. Foi aí que começamos a ver que, se continuássemos crescendo, teríamos de virar uma empresa, uma editora “de verdade” – porque até então tudo sempre tinha funcionado da forma mais informal possível. Pouco tempo depois nos demos conta de que teríamos de decidir se queríamos ser empresários ou escritores que também trabalham com livros (como tradutores e editores), e optamos pela segunda opção – porque foi justamente essa vontade e essa aptidão que nos levaram à criação da Livros do Mal, não algum ímpeto empreendedor ou administrativo.

3 – A internet tem mudado a forma de recepção dos livros. Você pensa que essa mudança foi favorável? Acredita que as redes sociais foram favoráveis à divulgação dos lançamentos das editoras?

A. X.: Sim, sem dúvida. Os livros da Não Editora conseguiram atingir o território nacional (e não ficar apenas restrito ao minúsculo bairro chamado de Rio Grande do Sul) graças às redes sociais. A internet é a maior amiga dos selos independentes, e só tende a melhorar. Quando começamos, redes como o Skoob e o Goodreads nem existiam (ou, se existiam, não eram muito acessadas).

D. P.: (Ele já respondeu as perguntas 4 e 5) A internet é essencial, até porque não existe mais aquela separação forçada entre “mundo online” e “mundo real”. É tudo uma coisa só. A própria Livros do Mal só foi tão bem-sucedida, imagino, porque eu e o Galera já havíamos construído um público na internet nos anos anteriores – tudo de uma forma ainda rudimentar, antes de existirem blogs e redes sociais. Esse boca-a-boca e as manifestações públicas dos leitores são formidáveis e, quando pegam fogo, valem tanto quanto uma campanha publicitária de alto orçamento. Hoje, além dos comentários espontâneos em redes sociais genéricas, como Facebook e Twitter, existe também todo um sistema que facilita a circulação e divulgação das obras, seja em redes sociais específicas para leitura, como Goodreads e Skoob, quanto na vasta rede de blogs dedicados a resenhas não profissionais. É um envolvimento direto do público na discussão e divulgação de uma obra, numa escala que só a internet permite.

4 – Como editor, quais procedimentos costuma adotar para usar a internet a favor da editora?

A. X.: A internet serve principalmente para divulgar o trabalho. E, logo no início, nos valíamos do fato de que a Livraria Cultura vendia para o mundo todo pela internet. Entregávamos os livros na filial de Porto Alegre e voilá, os livros podiam ser adquiridos por um leitor em Portugal. Hoje avançamos muito no sentido de e-commerce, é claro, mas acho que selos independentes que ainda não conseguem criar e manter uma loja virtual tendem a ganhar muito disponibilizando seus livros em grandes redes que possuem um sistema forte de venda pela internet.

5 – Do seu ponto de vista, como escritor, a internet facilitou o alcance de suas obras ao público?

A. X.: A importância da internet nesse sentido foi inestimável. Muitos leitores descobriram meus livros graças ao twitter (que hoje nem uso mais). E nunca fui um escritor marketeiro, do tipo que só fala das suas obras etc. Muito pelo contrário. E justamente por isso, acredito, muitos acabaram conhecendo o meu trabalho.

6 – Qual é a sua avaliação com relação às novas plataformas de leitura, como o Kindle, por exemplo? O que tem a dizer sobre o mercado de e-books? Como escritor, sente que a inserção dos livros eletrônicos foi favorável ao seu trabalho, facilitando o acesso de possíveis leitores à sua obra?

A. X.: Adoro ler no Kindle e sinto que finalmente o Brasil está acordando para os e-books, embora ainda tenha muito o que crescer nesse sentido. Não obstante, os meus livros ainda não estão disponíveis digitalmente, o que acho uma pena. A maioria do meu público leitor é jovem e sinto que terei mais leitores quando meus livros forem convertidos para e-book, mas enfim, isso não depende de mim (se eu continuasse publicando independentemente, já teria feito a conversão).

D. P.: Acho leitores de ebook formidáveis e acompanho desde o início seu desenvolvimento. É muito prático e facilita a leitura para quem se locomove todos os dias via transporte público, por exemplo. Eu mesmo passei a ler quase o dobro de páginas por ano desde que comprei meu primeiro Kindle. Em termos de alcance, ajuda bastante também numa coisa que é um gargalo crucial para editoras de todos os tamanhos (mas principalmente as pequenas, claro) num país com as dimensões do Brasil: a distribuição. Mandar livros para todos os cantos do país é um pesadelo de logística, e sai muito caro. Com os ebooks isso se resolve automaticamente, até porque a infraestrutura de distribuição eletrônica já está pronta.

7 – Sua avaliação sobre os selos independentes que surgiram recentemente é positiva?

A. X.: Sem dúvida. Há novas editoras muito bacanas surgindo por toda a parte. Gosto muito, por exemplo, da A Bolha, que traz um trabalho gráfico ousado e publica livros no mínimo incomuns. Acho que esse é um caminho para se destacar no cenário: com projetos gráficos radicais, que fogem de modelos comportados adotados pelas grandes editoras.

D. P.: (ele já respondeu as questões 7 e 8) Um país com mercado literário saudável precisa de pequenos selos, sempre, porque é daí que vem a sempre importante renovação. Editoras com um viés mais autoral, tanto na curadoria de publicações quanto na própria cara dos livros (ou ebooks), acabam com o tempo forçando as grandes editoras a avaliarem o que estão fazendo e pensar em outros caminhos, e sem isso o cenário acabaria estagnado. As principais dificuldades continuam as mesmas: lidar com distribuição, pontos de venda etc. É complexo a ponto de se tornar um pesadelo para quem tem uma visão mais romântica de como o mercado do livro funciona.

8 – Quais são, para você, as maiores dificuldades enfrentadas pelos selos independentes na atualidade?

A. X.: O drama, até pouco tempo, ainda era a distribuição, logística etc. O nosso país é imenso geograficamente, e é muito difícil colocar um livro independente publicado no Nordeste à venda numa livraria do Sul. Mas, agora que o Brasil finalmente reconheceu a existência dos e-books, isso vai mudar. A chegada da Amazon ao Brasil, o avanço da Kobo, tudo isso favorece muito as pequenas editoras. Vejo o futuro com muito otimismo.

Filmes de agosto

Roubei a ideia da e pretendo fazer uma agenda dos filmes que assisti todo mês. Confesso, às vezes a lista é curta, mas a ideia é bacana até para passar umas dicas pra quem procura um longa-metragem para assistir no fim de semana.

Continuo colaborando para O Bolchevique Analógico, onde posto resenhas mais longas. Por aqui farei o possível para emitir comentários mais objetivos. Ah, e como a seleção pressupõe, isso também serve de indireta para receber dicas nos comentários :)

A Espuma dos Dias (L’écume des jours, 2013, direção de Michel Gondry)

Vejo qualquer coisa que o Gondry fizer. Sou fã assumida desde Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e, mesmo duvidando que ele faça algo ao alcance, continuo acompanhando seus trabalhos. A Espuma dos Dias é adaptação do livro homônimo de Boris Vian, autor surrealista. Dei uma folheada na obra e, a julgar pelas primeiras páginas, a releitura cinematográfica é bem fiel. Maluco ao extremo, praticamente um playground para Gondry que é todo chegado a esquisitices. Fico triste em admitir que não gostei muito do resultado, mas é interessante a forma como o diretor transformou o amor em uma coisa pavorosa e que deve ser evitada a todo custo. E me julguem, gosto demais do Roman Duris. Não foi tempo desperdiçado.

jOBS (idem, 2013, direção de Joshua Michael Stern)

Ashton Kutcher é o doppelgänger de Steve Jobs, é tudo que tenho a dizer. O desempenho dele é ótimo, mas nossa, que filme mais chato. Senti sono e nunca vi um uso tão ruim de trilha sonora. Um punhado de músicas boas fora de contexto, irritante o suficiente para prejudicar minhas impressões. Creio que nem os obcecados pela Apple vão curtir.

Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, 2010, direção de Edgar Wright)

Lógico que eu já tinha assistido, mas filme revisto entra na lista também! Não sou a pessoa mais indicada para opinar sobre esse trabalho incrível de Edgar Wright. É coisa de nerd? Sim. Mas tem bom humor, boas tiradas, um elenco digno de nota e olha, que dizer dessa trilha sonora que não sai nunca das minhas playlists? Sempre digo, antes de indicá-lo, pra darem uma chance pelo menos para as músicas (que seleção linda, sério). Quem gostou deve dar uma chance aos quadrinhos, de Scott O’Brien.

The Bling Ring (idem, 2013, direção de Sofia Coppola)

É verdade, Sofia perdeu a mão depois de Encontros e Desencontros. Fez dois filmes maravilhosos e depois ficou com preguiça. Gosto de Maria Antonieta e Um Lugar Qualquer, embora não transmitam nem metade das sensações de seus predecessores. Bling Ring segue a mesma linha, indicando que a diretora perdeu a inspiração em um dado momento da produção e deixou por isso mesmo. Foi uma boa sacada chamar atenção para esse tema – essa geração (a minha, por sinal), perde a cabeça com coisas sem fundamento algum e agem como se fosse a coisa mais normal do mundo. Nesse quesito, ela faz uma crítica pesada e tem lá seu mérito. Importante destacar que ela persiste no tema do vazio do ser humano, de um modo que deixa a desejar, mas não deixa de fazê-lo.

Frances Ha (idem, 2012, direção de Noah Baumbach)

Há quem diga que é superestimado. Como ter senso crítico quando me apresentam um filme em preto e branco que fala sobre amizade? O discernimento mandou um abraço. No fim até deu vontade de sair correndo por aí ao som de Modern Love, do David Bowie (mesmo que fosse no fone de ouvido). A fotografia é linda e é difícil não se identificar nem um pouco com a Frances. Ela vive a clássica crise dos 27 e precisa lidar com aqueles problemas comuns da idade – a dificuldade em se estabelecer em um lugar sem depender dos pais, descobrir uma vocação, ter um emprego bom e que pague as contas, lidar com todas as instâncias dos relacionamentos que passam pelo nosso caminho. E Frances é toda desengonçada, não parece levar jeito pra vida, mas sempre encontra uma forma de se virar em situações difíceis. Para sair do cinema com o coração tranquilo.

A Religiosa (La Religieuse, 2013, direção de Guillaume Nicloux)

Estava com preguiça deste filme até assistir ao trailer. Parecia polêmico, e era em francês (sempre vejo nisso uma oportunidade para treinar os ouvidos). Um pouco decepcionante, confesso, mas tem algo bem interessante na fotografia que me chamou atenção. Não é pra qualquer público, mas não chega a ser um “filme cabeça”. Foi inspirado em um livro de Denis Diderot, e já foi adaptado anteriormente por Jacques Rivette, em 1966. Fiquei curiosa porque a escolhida para o papel central foi a musa Anna Karina. Talvez entre para a lista de setembro!

Rush: No Limite da Emoção (Rush, 2013, direção de Ron Howard)

Mais uma vez temos um histórico de preguiça pré-cabine de imprensa. Sério, é um filme sobre Fórmula 1. Não tenho o menor interesse pelo tema (mentira, confessor que quando era mais nova madrugava para assistir corridas). O que me motivou foi o nome de Ron Howard – sim, ele já dirigiu alguns longas toscos, mas seus trabalhos constumam ser bons. Rush recria o período de disputas de Fórmula 1 na década de 1970, com foco na disputa entre James Hunt (Chris Hemsworth) e Niki Lauda (Daniel Brühl). Tenho criado respeito pelo Hemsworth e sou fã de longa data do Brühl. Difícil não gostar. E a sequência é elétrica, saí do cinema parecendo que tinha tomado uma jarra de café. Fiquei surpresa por ter gostado tanto.