Desafio Literário 2011 – Até Mais, E Obrigado Pelos Peixes!

Não é novidade ouvir alguns leitores da série O Guia do Mochileiro das Galáxias dizendo que Douglas Adam deveria estar caído de amores ao escrever o quarto volume da coleção. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes, é o adendo quase perfeito à “trilogia de cinco”. A narrativa é permeada por um tom poético. Até os elementos mais sem sentido são amenizados por descrições delicadas na maior parte do tempo.

Mais uma vez Arthur Dent aparece deslocado e confuso, sensação intensificada ao descobrir as desventuras do amor. Ele aparece na Terra, e aparentemente tudo continua exatamente como no momento que antecedeu a destruição do planeta. O prelúdio da destruição é colocado como mera intervenção do governo para confundir a nação.

Mesmo atrapalhado durante a fase inicial de reconhecimento, ele logo se adapta. Mas passa a dividir o tempo entre a curiosidade para saber o que aconteceu na Terra durante seus oito anos de viagem pelo universo e a sua nova namorada. Até o nome atribuído à personagem parece uma referência ao ridículo do amor: Fenchurch.

A trama se concentra no casal. Não há mais acontecimentos mirabolantes, ação, e o humor inteligente também diminui a frequência nas passagens. Há apenas um ponto a ser desvendado – o motivo do sumiço dos golfinhos do mundo, bem como a presença de um misterioso e belo aquário na casa de Arthur. Sem contar o fato que a cada página deixará o leitor mais curioso – o paradeiro de Marvin, Trillian e Zaphod.

Entre os quatro livros, sem dúvidas este é o responsável pela leitura mais leve. Os acontecimentos não despertam sensações, e parecem moldados para puro entretenimento. O que não é de todo ruim. Afinal, o autor mantém uma boa escrita e consegue estabelecer uma boa ligação entre os fatos. Por outro lado, muitos aspectos deixam a desejar. Se em A Vida, O Universo e Tudo Mais havia uma preocupação em explicar todas as interrogações deixadas pelos volumes anteriores, Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes deixa várias lacunas no enredo. Sem entrar em detalhes do desfecho, que não poderia ser mais triste.

Mas seria maldade não atribuir os devidos créditos à Adams pela montagem do quarto livro da série. Nada mais sensato do que redigir um prólogo curto e inteiramente envolvente como degustação no início da obra. Estratégia de gênio para capturar a concentração e interesse do leitor.

ADAMS, Douglas. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes! Editora Arqueiro, 2009. Tradução: Marcia Heloisa Amarante Gonçales. 142 páginas. Preço sugerido: R$19,90.

Esta resenha corresponde ao tema de Abril do Desafio Literário 2011.

Desafio Literário 2011 – A Vida, O Universo E Tudo Mais

Em A Vida, O Universo e Tudo Mais, a série criada por Douglas Adams completa seu primeiro ciclo. Desta vez, os personagens centrais estão espalhados em diferentes localidades. O encontro se dá aos poucos, quando todos se descobrem envolvidos de alguma forma nos problemas desencadeados pelos habitantes de Krikkit. Mais uma vez, o escritor britânico encontra um modo inteligente de contornar os clichês, dando gás à narrativa.

Os primeiros personagens a se reencontrar são Arthur Dent e Ford Prefect. Em meio a confusão, após tanto tempo sem se verem, são surpreendidos por um sofá Chesterfield que os leva ao centro de um campo de críquete, dois dias antes da destruição da Terra. Ainda atribulados e sem entender o que se passa, se deparam com Slartibartfast. Ele apresenta a problemática – os habitantes de Krikkit estão ensandecidos pela vontade de destruir qualquer forma de vida que não a deles. Os xenófobos precisam reunir cinco “traves”, responsáveis por uma chave que os libertará do aprisionamento. E o pior: não falta muito para concretizaram a reunião dos cinco itens.

O terceiro volume da coleção é mais sério. Conforme a narrativa se desenvolve, desperta ainda mais a sensação de desfecho. Dá para sentir bem a tentativa de Adams para desatar todos os nós decorrentes das obras anteriores. O leitor é confrontado o tempo todo com as loucuras dos habitantes de Krikkit para obter as cinco traves e a falta de disposição de Arthur e Ford para tentar impeli-los. E apesar da grande metáfora sobre os malefícios da xenofobia como pano de fundo, o escritor tenta balancear com momentos de humor – remetendo às constantes piadas bem pontuadas dos outros dois livros.

Arthur Dent é a figura central de A Vida, O Universo e Tudo Mais – a maioria dos fatos ao longo das páginas termina com ele. O personagem não é dos mais agradáveis, mas Adams reservou os poucos momentos que provocam risos para ele. Em uma das passagens, Arthur encontra uma criatura morta por ele diversas vezes – toda vez ele “reencarnava” na forma de algum inseto ou objeto inanimado, sempre destruído por aquele desprezível ser humano! Não dá pra deixar de lado o acontecimento das primeiras páginas do livro, quando um alienígena determina um objetivo para sua vida: insultar todas as pessoas do universo, em ordem alfabética. E, claro, mais uma vez Arthur é uma das primeiras vítimas.

O livro é genial, e o conteúdo é tão rico quanto a primeira obra da série. Mas, como relatado acima, a leitura não é das mais fáceis. A obra exige maior atenção do leitor para não perder pontos importantes, algo que pode cansar e provocar um pouco de tédio por um momento. Mas vale, muito, insistir até o fim e preparar-se para o volume que o procede.

ADAMS, Douglas. A Vida, O Universo E Tudo Mais.  Editora Arqueiro, 2009. Tradução: Carlos Irineu da Costa. 224 págs. Preço sugerido: R$ 19,90.

 Esta resenha corresponde ao tema de Abril do Desafio Literário 2011.

Little (Lovely) Scraps of Paper

Pode soar estranho aos outros, mas sou viciada em cadernos. Vício pode parecer algo forte demais para designar uma paixão, mas só isso explica minha compulsão. Não precisa ser apenas um caderno comum. Quando me dou conta, estou no caixa com variedades da categoria – cadernetas, bloquinhos minúsculos e até mesmo os famosos moleskines. Muitos me dizem que é mal da profissão. Afinal, ainda mais importante que o gravador, todo jornalista deve ter sempre um bloco de papel consigo.

Você nunca sabe quando pode surgir uma pauta, e com papel em mãos é mais fácil armazenar as ideias. A paixão por pedaços de papel, porém, teve sua origem bem antes da escolha da profissão. Além das anotações de pautas, costumo escrever resenhas e anotar citações. Ocasionalmente, até arrisco algumas colagens. É uma pena não ter dotes artísticos para desenhar, pois caso os tivesse, também marcaria as páginas dos cadernos com desenhos.

Esses dias caí em um tumblr bem interessante. No Fuck Yeah Moleskine, os visitantes compartilham artes por eles realizadas nos clássicos caderninhos. Pouco tempo após minha descoberta, e ainda maravilhada com todos os trabalhos ali postados, li uma notícia sobre um novo aplicativo para iPhone e iPad. Os Moleskines ganharam uma versão online. É um conceito bacana, uma forma interessante de conciliar as novas engenhocas tecnológicas com hábitos antigos de anotar as coisas no papel. Entretanto, não vejo isso como uma prática com força semelhante ao bom e velho conjunto de bloco de notas e lápis.

Mas não tive tempo para perder as esperanças e imaginar um mundo sem anotações à moda antiga. O projeto Little Scraps of Paper, idealizado pelo diretor Tomas Leach, me proporcionou alívio imediato. Ele consiste em uma série de pequenos documentários de até dois minutos, que pretende mostrar como algumas pessoas utilizam blocos de papel para guardar e desenvolver pensamentos e ideias. Criatividade, beleza e simplicidade se misturam nas amostras desse projeto.

Selecionei três aleatoriamente, mas vocês podem conferir o restante aqui.

Quem disse que a beleza não está nas coisas mais simples?

Não dá pra praguejar as atuais tecnologias o tempo todo. A reunião de câmera digital e filmadora em um aparelho celular trouxe resultados temíveis, disponíveis a um clique em qualquer site atual. Da mesma forma, ajudou no campo das informações, possibilitando o registro de acontecimentos diversos a partir de qualquer transeunte. São exemplos bem gerais – tudo para mostrar que tirar fotos e fazer vídeos é bem mais fácil e acessível do que há alguns anos.

Eu poderia passar uma tarde listando as vantagens e desvantagens dos avanços tecnológicos. Mas é preferível compartilhar as maravilhas consequentes desse processo. Daquela série de coisas que caem na categoria “eu poderia ter feito isso… mas não, tamanha genialidade não me é alcançável”.

Em meio a tantos fins permitidos por essas engenhocas, há quem ouse – ou pelo menos tente – fazer arte. A produtora Everynone, de Nova Iorque ilustra bem o que tento dizer. E se eles já me encantavam com vídeos que registram cenas comuns – um menino tocando flauta ao lado de uma garotinha, por exemplo – nos últimos dias me conquistaram de vez com uma ideia aparentemente simples.

É fácil ilustrar palavras com imagens e com elas criar uma sequência, certo? E conciliar coisas semelhantes? Pode até ser. Porém, eles encontraram uma maneira belíssima de explorar essa possível simplicidade. É incrível como o conjunto se complementa no vídeo Symmetry, por exemplo. Dos exemplos mais óbvios àqueles que demoram a ser absorvidos pelos nossos olhos mal acostumados. A música, as imagens… um pacote singelo a ser “desvendado” em poucos minutos.

Para ver e rever infinitas vezes.

“She’s got a ticket to ride…”

Parece até brincadeira de mau gosto quando aciono o modo aleatório no iTunes e ele manda justamente esta canção dos Beatles. Independente do sentido pretendido ao compor a canção, só de ouvir ticket to ride, imagino o quão bom seria ter uma passagem em mãos para aproveitar o feriado. Uma vontade bastante abalada pela saudade de casa, para onde não vou desde o início de fevereiro.

Contudo, não me importaria caso tivesse a oportunidade de viajar para qualquer lugar. Sair um pouco do ambiente cotidiano e respirar outros ares – de preferência um ar mais “respirável” que o de São Paulo, para dar trégua à rinite. Infelizmente, só me resta viajar em sonhos. E talvez em livros, filmes… Qualquer coisa que remeta a viagens e me mantenha distante de obrigações acadêmicas.

Com esse intuito, selecionei seis filmes como recomendação para pessoas que, como eu, pretendem distrair a mente com muita ficção – ligada a viagens – durante esses quatro dias de folga.

Amor sem escalas [Up in the air]

Encontros e Desencontros [Lost in Translation]

Viagem a Darjeeling [Darjeeling Limited]

Antes do Amanhecer [Before Sunrise]

Os dois últimos fogem um pouco da temática proposta. São filmes que, com suas ideias malucas, são uma “viagem”:

Mistérios e Paixões [Naked Lunch]


Tokyo! [idem]

Tweets na vida real

O twitter é, no momento, uma das principais plataformas utilizadas para disseminar informações. Boa parte dos jornais e revistas possuem uma conta para divulgar novidades dos respectivos sites. Sem falar nos trending topics, e a forma como os acontecimentos conquistam a atenção das pessoas em poucos segundos. É o mundo ideal, certo?

Nem tanto. Apesar das possíveis vantagens proporcionadas por ele, o twitter sempre foi, em sua essência, um retrato (quase) fiel do cotidiano. O conteúdo se resume, na maior parte do tempo, a atividades diárias – reflexo do tédio ao esperar em uma longa fila, uma forma de conter a ansiedade durante a espera. E, na maior parte do tempo, a válvula de escape para aquela vontade incontrolável de xingar, “protestar”, enfim, reclamar!

Convenhamos, é o local perfeito para lamentar, e ainda levar mais pessoas contigo às lamúrias. Só não o nomeio como o melhor espaço na internet para perceber que você não está só porque o tumblr já roubou esse posto há muito tempo, e de forma ainda mais bonita. Mas é justamente nos maiores momentos de crise com a inutilidade do twitter que coisas interessantes ligadas a ele aparecem.

Em seu último projeto, o norte-americano Ted Mikulski espalhou vários tweets impressos em cantos da cidade – sempre casando os caracteres com o cenário. O conteúdo é voltado para frases relacionadas ao cotidiano, com uma pegada bem humorada. Vejam:

Logo me lembrei do projeto tocado pela Laura Guimarães, intitulado No Passo do Roteiro. Tudo começou com um blog, onde Larissa postava seus roteiros. Pouco tempo depois de criar uma conta no twitter, resolveu aceitar o “desafio” dos 140 caracteres – passou a escrever pequenas cenas que poderiam fazer parte de um roteiro. Ela os batizou como microrroteiros, e no segundo semestre do ano passado espalhou alguns pelas ruas de São Paulo.

Em meio a cidades tomadas por pixações  (não confundam com graffiti) sem sentido, essas pequenas intervenções se destacam. Os tweets distraem transeuntes em meio ao caos, assim com os microrroteiros. E mais que distração, são ótimos pontos de partida, reticências e chaves para as fechaduras da criatividade. Basta observar os registros fotográficos dos tweets do No Passo do Roteiro na cidade para perceber – e até sentir – o que estou falando.

Citações transformadas em autorretratos

Ultimamente tenho encontrado muitos projetos interessantes ligados à literatura. Já mostrei alguns por aqui – os CDs repensados como livros, por exemplo, e as mixtapes hipotéticas de personagens literários. E foi justamente revendo esses trabalhos que me lembrei da época de efervescência do listal. Era difícil encontrar um usuário que não montasse uma lista com suas citações literárias prediletas.

Voltando um pouco mais no tempo, quando ainda não havia listal, goodreads ou skoob para armazenar passagens marcantes dos livros, mantive alguns cadernos de citações. Tudo organizado na medida do possível – sempre fazia uma “capa” para cada nova leitura, mesmo quando marcava poucas frases. Às vezes me inspirava pelos garranchos ao anotar tudo apressadamente, e inventava moda pelas páginas. Repassava algumas frases em forma de espiral, montando uma casa, um coração… tudo o que a imaginação permitisse.

Mas nunca fui muito habilidosa, e meus dotes artísticos sempre foram um tanto limitados. Para agravar a situação, uma das minhas maiores frustrações é não saber desenhar (só perde para o fato de ter abandonado as aulas de piano e não saber fazer tranças). Por aí vocês já podem imaginar os estragos, certo? Eu praticamente sujava um monte de páginas com os meus escritos tortos. Não foi, porém, uma atividade perdida e completamente frustrante – tenho citações especiais guardadas até hoje – além de desenhos estranhos que garantem boas risadas.

Felizmente, há inúmeros artistas criativos que ultrapassam o comum hábito de anotar excertos. O americano John Sokol transformou obras em autorretratos – utilizando passagens de livros como traços para montar imagens de vários escritores. Ao olhar de longe, lembram bastante as típicas fotografias de orelha de livro, adaptadas em traços soltos.

Para identificar aos poucos as palavras, basta se aproximar. Mas tomem cuidado ao tentar ler as frase ou descobrir a sequência de cada uma – é perigoso se perder entre as mechas de cabelo ou nas expressões faciais de alguns autores!

Italo Calvino, em "Se um viajante numa noite de inverno"

Samuel Beckett, em Esperando Godot

Jorge Luis Borges, em The secret miracle (conto)