Mostra Internacional de Cinema de SP #4

11) The Wind Rises, de Hayo Miyazaki

Essa é a despedida de Hayo Miyazaki como diretor. Ele, que criou aquela coisa linda chamada A Viagem de Chihiro. Seu último trabalho é um filme mais sério, com criaturas estranhas que habitam apenas no imaginário de Jiro Horikoshi, aparecendo apenas quando ele sonha. Por sinal, momentos importantes na construção da história – embora inconsciente, essa hora é dedicada a reflexões. Quando, em meio a situações inusitadas, ele pensa com calma sobre as questões que o inquietam. O longa é sobre a história de Jiro, designer responsável pelo modelo do avião Zero Fighter (utilizado durante a 2ª Guerra Mundial).

É todo voltado ao público adulto e não tem os devaneios tão característicos de outras produções do diretor, mas isso não desmerece The Wind Rises. É um formato diferente, porém igualmente bem sucedido. Não vi a filmografia completa de Miyazaki e ainda assim acredito que seja um de seus filmes mais tristes. Ele mostra a infância de Jiro e o seu desejo incansável de criar belas aeronaves. Embora monte algo perfeito em sua mente enquanto sonha(desenhos belíssimos, por sinal), no fim observa os aviões se despedaçando, como se fossem feitos de papel. Demonstra, em certa medida, o seu medo de construir instrumentos que posteriormente seriam utilizados para destruição.

Você assiste achando a história bem bonita – Jiro é uma pessoa super empenhada, um grande trabalhador que preza pelo seu ofício – contextualizado com a relação que levava com a família e como conheceu a futura esposa. Ao mesmo tempo, é preciso aceitar a condição de que ele está construindo armas de guerra. É preciso saber dosar esses sentimentos para apreciar esse filme, um belo adeus de Miyazaki.

“Le vent se lève! Il faut tenter de vivre!”

12) Pais e Filhos, de Hirokazu Koreeda

Koreeda possui uma pegada meio Miyazaki no jeito como coloca suas histórias em cena. Há beleza demais para um pequeno espaço – fotografia apurada, atores com os quais você simpatiza logo de cara e um clima de serenidade extrema. Alguns minutos de filme e ele já te instala um aperto no coração, aquele estranhamento de quem não quer aceitar que haja tragédia em uma paisagem tão delicada.

Em Pais e Filhos ele nos mostra o cotidiano de um casal aparentemente rico com um filho pequeno. Enquanto a mãe se mostra afetuosa o tempo inteiro, o pai demonstra uma exigência um tanto exagerada para uma criança tão nova. Quando o garoto atinge a idade escolar, o hospital onde nasceu entra em contato com a família para dizer que os bebês foram trocados na ocasião do parto. Inicia-se uma longa saga: o casal pensa se é o caso de “destrocar” as crianças e passa a medir as consequências desse ato tanto para os pais quanto para os pequenos.

Parecia um tema óbvio e batido a princípio, não fosse um longa contado pela perspectiva de Koreeda. Para ele, é proibido ter falhas no roteiro e nenhum minuto da projeção é desperdiçado. A trama é desenvolvida a partir dos encontros das duas famílias, completamente distintas. Além de mostrar um pouco sobre a cultura local (fui enfática ao destacar essa característica nos outros filmes da mostra), ele aponta o contraste e a diferença de valores entre as duas famílias sem ser tendencioso – ele não quer nos levar a concordar com um personagem ou outro. Seu plano é nos colocar na pele de cada um, experimentar as sensações de todos. Para sair do cinema com o coração do tamanho de uma ervilha (e sim, isso vale para pessoas insensíveis).

The Wind Rises

Pais e Filhos

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Mostra Internacional de Cinema de SP #3

7) El Gran Circo de Timoteo, de Lorena Gianchino

A peculiaridade do tema foi o que chamou atenção. É um documentário sobre um circo de drag queens que viaja pelo Chile há quarenta anos. As apresentações acontecem em grandes cidades e também em lugares do país que mais parecem o fim do mundo. O responsável pela criação do circo é Timoteo, um senhor tranquilo que trata sua empreitada como se fosse um filho. O longa fala dos obstáculos enfrentados pelo do comediante – embora queira dar continuidade ao seu projeto, sente que é a hora de parar devido a alguns problemas de saúde.

Tem lá seus momentos de humor, mas por algum motivo há um clima de melancolia que percorre todo o filme. Talvez seja uma consequência das reflexões de Timoteo e sua dificuldade em dar fim ao circo. A montagem é bem interessante, pois em poucos minutos nos mostra a trajetória do grupo por diversas perspectivas. São poucas as cenas que mostram o show propriamente dito – Gianchino prefere mostrar os rostos por trás de toda produção, os problemas enfrentados ao instalar a tenda, as diferentes reações do público. Um retrato bonito e cuidadoso para registrar o histórico do circo.

8) Uma Casa com Torre, de Eva Neymann

Já aviso que é um filme do mal. Porque todo filme que coloca uma criança sofrendo como personagem central é solicitação para o sofrimento. E convenhamos que os russos possuem um humor nada peculiar para lidar com as coisas. A diretora foi bem feliz em seu retrato da Rússia soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Nem parece que foi rodado em 2012, fato intensificado pela filmagem em preto e branco. Foi inspirado no conto autobiográfico (que leva o mesmo nome do filme) de Friedrich Gorenstein, que trabalhou como roteirista em Solaris, de Andrei Tarkóvski.

O menino tem oito anos e acaba se perdendo da mãe, enferma, que é encaminhada ao hospital durante a viagem que faziam. A cidade aparenta ser minúscula, mas imaginem bem uma criança sozinha tendo que se virar e perambular até encontrar o local onde sua mãe segue em tratamento. Tem um toque de O Menino do Pijama listrada (o livro, pois não vi o filme) no ponto de observarmos tudo pela perspectiva de uma criatura inocente que não tem muita dimensão dos acontecimentos. Infelizmente acaba com aquela sensação de “filme nada”, aquelas produções que se propõem a alguma coisa mas não demoram para perder o sentido próximo ao desfecho.

9) Les Garçons et Guillaume, à Table!, de Guillaume Galienne

Critério questionável de escolha: parecia um filme bobo, e eu queria algo mais leve porque sentia que Child’s Pose seria mais sofrido. Também procurava uma produção falada em francês. Então lá estava, conhecendo a história de Guillaume, um homem que sempre foi tratado como mulher, em especial pela mãe. Ele está destinado – ao menos acredita estar – à delicadeza, por gostar tanto de atividades consideradas femininas. Sem sorte para os esportes e interessado por arte, ele parece

mesmo seguir um rumo contrário. E o filme discute isso – suas incertezas sobre a própria sexualidade. Guillaume não tem problemas com a forma como é tratado, mas receia arriscar “o outro lado” e sair da zona de conforto. Não entro em detalhes para não dar spoilers.

O diretor também não demonstra qualquer intenção em explorar essa temática. Ele não quer questionamentos profundos, pelo contrário. Mais parece rir da própria desgraça – e encara tudo com tanta naturalidade que mesmo suas descobertas não o assustam tanto. Esse é o ponto alto do longa – uma comédia bem feita que tira proveito de uma situação que bem poderia acontecer nas nossas famílias.

10) Child’s Pose, de Calin Peter Netzer

Enquanto escrevia essas notas me dei conta que peguei uns tantos filmes que abordam temas familiares. Mesmo tendo feito escolhas com base em horários e locais, esses temais acabaram me atraindo de certa forma. Child’s Pose (Luminita Gheorghiu) foi, sem dúvidas, um dos mais densos da lista. Uma das características que mais me chamou atenção foi o fato de ser bastante verborrágico e nem por isso complexo. A agonia surge mesmo na composição das cenas e na dificuldade de comunicação entre os familiares.

Cornelia, personagem central, comemora seus 60 anos nos minutos iniciais. Tudo parece normal na família. Até o momento em que ela recebe uma ligação dizendo que seu filho, Barbu, acaba de se envolver em um acidente. Ele saiu ileso, mas atropelou um garoto. O instinto materno fala mais alto e ela parte à defesa de seu rebento. Percebemos que Barbu é um tanto tacanho e tenta, com dificuldades, fugir da proteção exacerbada de sua mãe. Luminita se destaca em cena, encarando uma personagem complicada. Ao mesmo tempo em que tentamos entender o lado dela, sentimos vontade de obrigá-la a largar mão de uma vez por todas de Barbu.

Se meus argumentos não são suficientes, Child’s Pose ganhou o Urso de Ouro em Berlim (na edição deste ano). É da Romênia, o que oferece uma boa oportunidade para conhecer um pouco das nuances da sociedade atual do país.

El Gran Circo de Timoteo

Uma Casa com Torre

Les Garçons et Guillaume, à Table!

Child's Pose

Mostra Internacional de Cinema de SP #2

4) O Garoto que Come Alpiste, de Ektoras Lygizos

É um retrato fiel e bem rico da crise econômica que atingiu a Grécia. Embora seja jovem, Yorkos, o personagem central, é afetado pela situação do país em que vive. Desempregado e sem perspectivas, vive em condições cada vez mais precárias. Ele encara uma colherada de açúcar puro, restos de comida encontrada no lixo e até mesmo o alpiste que alimenta seu canário. O sofrimento de Yorkos é exibido essencialmente pelo prisma da fome, por meio de todas as suas tentativas desesperadas para obter qualquer migalha que lhe preencha o estômago.

Como um todo, é um filme pesado pela agonia que atinge o espectador com facilidade. Mas dois momentos em especial chamaram atenção nesse quesito. Em uma das cenas, o personagem – que possui pouquíssimos acompanhantes em cena e aparece sozinho na maior parte do filme – se masturba e prova do próprio sêmen, como se fosse o suficiente para suprir suas necessidades. Em outra passagem, perto do desfecho, ele mostra a dificuldade para se adequar a outras instâncias da vida. Tenta se relacionar com uma garota e, enquanto se beijam, ela percebe que os cabelos de Yorkos estão caindo. O desabafo da parte dele é objetivo, tão incômodo quanto toda a projeção, e suficiente para afastá-la de imediato.

De certa forma, Yorkos acaba desenvolvendo um lado meio “bicho”. Tudo pela lei de sobrevivência. Assim como aceita qualquer coisa para enganar a fome, improvisa a limpeza da casa e os banhos com um pouco de água que consegue na casa de um vizinho (ou mesmo de suas últimas garrafas de água potável), ele parece definhar e paulatinamente perder suas aptidões como um ser humano. Atenção para os planos sempre focados em Yorkos e para a câmera inquieta, que tenta nos passar um pouco do desconforto do personagem. Esse longa é ideal para quem não tem dimensão do estado da Grécia durante a crise.

5) A Morte Passou por Perto, de Stanley Kubrick

A sessão fez uma compilação, para dizer a verdade. Exibiu os três primeiros curtas de Kubrick e o longa A Morte Passou por Perto. Todos os curtas foram feitos por encomenda: Flying Padre, Day of the Fight e The Seafarers. Flying Padre é hilário, embora não tenha sido essa a intenção do diretor. A culpa é toda do personagem. Day of the Fight é um ótimo trabalho para prestar atenção às primeiras marcas de Kubrick que perduraram por todos os seus filmes. O diretor adorava boxe e, caso alguém não saiba, iniciou sua trajetória profissional como fotógrafo. A fotografia é o recurso mais digno de nota desse curta, que parece até um prequell para A Morte Passou por Perto. The Seafarers, que me desculpem, é uma chatice sem tamanho. Dica marota para o fim da Mostra: a exposição de Stanley Kubrick no Museu da Imagem e Som (MIS) segue até janeiro. E dá para conferir esses curtas por lá.

Em A Morte Passou por Perto, não foram precisos muitos minutos para mostrar que o jovem Kubrick tinha potencial. Conta a história de um lutador meio fracassado que se interessa pela vizinha, uma dançarina, que mora no apartamento da frente (ele a observa em uma cena linda que mais tarde chegou a ser vista como referência ao clássico Janela Indiscreta, de Hitchcock, que foi lançado um ano antes). Claro que esse interesse vem cheio de complicações. Cada tomada renderia um filme à parte, e só mesmo o diretor consegue conectá-las com tamanha maestria. Destaque para a cena final, que exibe uma “luta” em meio a um depósito de manequins.

6) Confissão de Assassinato, de Jung Byung-Gil

O título do longa é o mesmo do livro recém-lançado de Lee Du-seok, um homem relativamente jovem que se diz culpado pela morte de dez mulheres há 17 anos. Choi, desde o início da investigação e muito antes da história de publicação de uma obra sobre as peripécias do suposto serial killer, é o detetive responsável pelo caso. Existe a possibilidade de ser legalmente perdoado por bom comportamento, e Lee consegue.

É legal constatar a quantas anda o cinema coreano. Eles investem pesado em efeitos especiais (mas capricham na hora da zoeira – não sei se é proposital – em momentos significativos do filme) e, não sei em outras produções, mas em Confissão de Assassinato temos uma ótima reprodução da cultura do país. Gosto de observar a forma como as pessoas se comportam. Lee possui inúmeras fãs enlouquecidas e, bem, ele é um assassino. Quando começam a contestar sua condição, explorando a possibilidade de existir um outro serial killer responsável pela morte das moças, as admiradoras ficam indignadas. Elas fazem questão que ele seja esse assassino com cara de bom moço.

Byung-Gil que me perdoe. O longa é bem feito, mas não me convenceu. Além de umas tantas falhas no roteiro, dá para perder a conta da quantidade de cenas desnecessárias. De qualquer forma, acabou sendo válido como “experiência de mundo”. Um retrato básico do tipo de atração feita aos cinéfilos coreanos.

O Garoto que Come Alpiste

A Morte Passou por Perto

Confissão de Assassinato

Minha curta passagem pela Mostra

Não obtive sucesso na dedicação total à 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo por motivos de vida. Nunca é fácil conciliá-la com a rotina de trabalho e o dinheiro que nem sempre sobra na carteira – ainda mais no fim do mês. Meus poucos filmes foram suficientes para deixar aquela vontade de escrever algumas linhas sobre eles. Vai que eles entram em cartaz ou aparecem em algum festival ao longo do ano que vem?

Dividi as postagens para evitar fadiga.

1) Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, de Ethan Coen e Joel Coen

Antes de qualquer análise, fui fisgada de imediato pela fotografia desse filme. A imagem parece meio borrada e aparece em tons de saturação que intensificam o clima frio (a história se passa durante o inverno de 1961). Os Coen foram bem espertos ao escolher fazer um filme sobre música folk sem apelar para a referência mais imediata – no caso, Bob Dylan. Criaram, com um olhar próprio, um Llewyn Davis que não existe fora da ficção. Oscar Isaac interpreta um músico que enfrenta toda sorte de desafios. Poucos trocados nos bolsos, muita vontade de espalhar seu conhecimento em música pelo mundo, oportunidades cada vez mais escassas e um futuro cada vez mais incerto.

Ele vive de casa em casa, dorme onde tiverem a boa vontade de recebê-lo. Para tanto, vale até partir pela estrada com um desconhecido – Johnny Five (Garrett Hedlund) mal abre a boca e Roland Turner (John Goodman) testa a paciência de Llewyn a cada segundo. No destino, o personagem central tenta negociar com mais um dono de estúdio, sem sucesso. O casal Jean (Carey Mulligan) e Jim (Justin Timberlake) aparece no papel das amizades mais sólidas. Um fato deveras irônico, visto que Jim mais parece um bon vivant indiferente aos atos de Llewyn e Jean vive uma constante frustração pelo caso que teve com o músico. Alex Karpovsky e Adam Driver, ambos da série Girls, despertam a atenção dos fãs com rápidas participações. A de Karpovsky não é lá muito expressiva, mas a de Driver, no papel de Al Cody, desponta como uma das cenas mais divertidas do longa, em que contracena com Timberlake e Isaac durante a gravação de uma composição de qualidade duvidosa.

É um trabalho completamente diferente do esperado para um filme dos Coen. O humor negro, marca expressiva de seus trabalhos, pouco aparece. Não adianta procurar por violência, muito menos por personagens complexos. Talvez não seja tão bem recepcionado pelos fãs, mas é um trabalho marcante independente das mudanças. Para assistir sem fazer grandes comparações com outras produções da dupla.

2) Somente em Nova Iorque, de Bandar Albuliwi e Ghazi Albuliwi

É o primeiro longa de Bandar Albuliwi. Conta a história de um jovem palestino-americano, Arafat (vivido por Ghazi), que é viciado em pornografia devido às suas frustrações com as mulheres: ele não pega nem gripe. Ao procurar ajuda, ele aceita a proposta de um amigo – casar-se com uma israelense que precisa de um green card para permanecer nos Estados Unidos. Começa aquela clássica saga de choque cultural e do casal que se detesta, mas aos poucos vai descobrindo suas semelhanças.

Um clichê ambulante? De fato, a fórmula não proporciona novidade alguma. Ainda assim, não deixa de ser um bom filme. O diretor se inspira claramente em Woody Allen ao realizar as piadas do enredo. Seus personagens não são nada complexos, mas conquistam pelo carisma. Por vezes, se digo que um longa é bom para passar o tempo, aplica-se como um elogio. É o caso de Somente em Nova Iorque. Nada pretensioso, bom para dar umas boas gargalhadas, e arrisco dizer que é um bom começo para o diretor.

3) Como descrever uma nuvem, de David Verbeek

Peguei pelo horário e localização, confesso. Não li sinopse, não tinha a menor ideia do que se tratava. O diretor é holandês, mas a história é ambientada em Taipei e falada em mandarim. Liling é jovem e trabalha com música – não na execução propriamente dita, mas com mixagem. Ela estabelece uma forte amizade um desenhista mais velho e, no mesmo período, recebe a notícia de que sua mãe, que mora em uma ilha com seu irmão mais velho, ficou cega. Ela fica dividida ao encarar a necessidade de estar perto da mãe enferma e ter que dar conta de todas as suas responsabilidades em Taipei.

Com a cegueira, a mãe acredita ter desenvolvido um sexto sentido. A filha, intrigada com essa condição, passa a explorar as diferentes formas de se descrever os arredores para uma pessoa com os sentidos limitados. O filme utiliza uma linguagem bem poética, amparada pela fotografia que constroi verdadeiros quadros na tela. Creio que faltou um toque para finalizar a trama. Fora isso, a montagem é interessante e só pela composição já vale a pena conferi-lo.

(Posto o restante durante a semana)

Como Descrever uma Nuvem

Somente em Nova Iorque

Antônio Xerxenesky e Daniel Pellizzari debatem o mercado editorial brasileiro no CCSP

Nos últimos tempos, tenho notado muitas discussões sobre a dificuldade em transferir os livros impressos para o formato digital. O mesmo acontece com aparecimento de inúmeras editoras independentes. Fico feliz ao perceber que o debate desses tópicos não só evoluiu, como também deixou de se limitar a internet. Parte do Mês da Cultura Independente, o Centro Cultural São Paulo promove um debate sobre o mercado editorial brasileiro. O encontro acontece neste sábado, dia 14 de setembro, às 16h30, e recebe os escritores Antônio Xerxenesky e Daniel Pellizzari.

Fiz uma matéria para a Revista Em Cartaz deste mês, que vocês podem ler aqui, na página 56. Pensei que seria bacana compartilhar as entrevistas na íntegra no blog. Quem for ao evento já pode ter uma ideia do que será colocado em pauta amanhã. Espero que gostem!

1 – O que te impulsionou a criar a Não Editora e, no caso do Daniel, a criar a Livros do Mal? Na época, como você avaliava o mercado editorial? E como conciliou essa avaliação com a criação da sua própria editora?

Antônio Xerxenesky: Não existe um “Criei a Não Editora”, mas um “criamos”. Éramos um grupo de jovens autores que sentia falta de uma editora no sul do país focada em descobrir novos escritores e que desse um tratamento – de revisão, projeto gráfico, divulgação – decente ao livro. Uma editora capaz de “fazer um livro acontecer”, usando uma expressão tão popular no meio editorial.

Daniel Pellizzari: Na verdade, quando criamos a Livros do Mal em 2001 nem pensamos no mercado editorial. Eu, o Daniel Galera e o Guilherme Pilla (artista plástico) queríamos apenas fazer nossos próprios livros. Estávamos com nossos livros de estreia prontos, eu e o Galera, mas nem cogitamos em mandar para alguma editora: queríamos cuidar sozinhos de todas as partes do processo, tanto da criação do objeto livro quanto da divulgação etc, e depois fazer o mesmo por outros autores.

2 – Quais foram os principais desafios enfrentados no período de consolidação da editora? E hoje, como avalia a atuação da editora no mercado?

A. X.: Quando começamos, não sabíamos quase nada do assunto, apenas tínhamos os talentos necessários (Samir Machado era um excelente capista, Rodrigo Rosp um excelente revisor, e assim por diante). Fomos aprendendo sobre mercado editorial ao passo que íamos lançando livros. O maior desafio, no início, foi a questão da distribuição. Lembro de, nos primórdios da editora, colocar caixas de livro no porta-malas do meu Palio 96 (o guerreiro Cerejão) e transportá-las até as livrarias, o que em pouco tempo se tornou inviável. Hoje, nos profissionalizamos completamente nesse sentido, e um editor não precisa mais andar com o porta-malas atrolhado.

D. P.: O principal problema ocorreu quando o catálogo começou a aumentar e tivemos que lidar com distribuição, contabilidade, essas coisas. Foi aí que começamos a ver que, se continuássemos crescendo, teríamos de virar uma empresa, uma editora “de verdade” – porque até então tudo sempre tinha funcionado da forma mais informal possível. Pouco tempo depois nos demos conta de que teríamos de decidir se queríamos ser empresários ou escritores que também trabalham com livros (como tradutores e editores), e optamos pela segunda opção – porque foi justamente essa vontade e essa aptidão que nos levaram à criação da Livros do Mal, não algum ímpeto empreendedor ou administrativo.

3 – A internet tem mudado a forma de recepção dos livros. Você pensa que essa mudança foi favorável? Acredita que as redes sociais foram favoráveis à divulgação dos lançamentos das editoras?

A. X.: Sim, sem dúvida. Os livros da Não Editora conseguiram atingir o território nacional (e não ficar apenas restrito ao minúsculo bairro chamado de Rio Grande do Sul) graças às redes sociais. A internet é a maior amiga dos selos independentes, e só tende a melhorar. Quando começamos, redes como o Skoob e o Goodreads nem existiam (ou, se existiam, não eram muito acessadas).

D. P.: (Ele já respondeu as perguntas 4 e 5) A internet é essencial, até porque não existe mais aquela separação forçada entre “mundo online” e “mundo real”. É tudo uma coisa só. A própria Livros do Mal só foi tão bem-sucedida, imagino, porque eu e o Galera já havíamos construído um público na internet nos anos anteriores – tudo de uma forma ainda rudimentar, antes de existirem blogs e redes sociais. Esse boca-a-boca e as manifestações públicas dos leitores são formidáveis e, quando pegam fogo, valem tanto quanto uma campanha publicitária de alto orçamento. Hoje, além dos comentários espontâneos em redes sociais genéricas, como Facebook e Twitter, existe também todo um sistema que facilita a circulação e divulgação das obras, seja em redes sociais específicas para leitura, como Goodreads e Skoob, quanto na vasta rede de blogs dedicados a resenhas não profissionais. É um envolvimento direto do público na discussão e divulgação de uma obra, numa escala que só a internet permite.

4 – Como editor, quais procedimentos costuma adotar para usar a internet a favor da editora?

A. X.: A internet serve principalmente para divulgar o trabalho. E, logo no início, nos valíamos do fato de que a Livraria Cultura vendia para o mundo todo pela internet. Entregávamos os livros na filial de Porto Alegre e voilá, os livros podiam ser adquiridos por um leitor em Portugal. Hoje avançamos muito no sentido de e-commerce, é claro, mas acho que selos independentes que ainda não conseguem criar e manter uma loja virtual tendem a ganhar muito disponibilizando seus livros em grandes redes que possuem um sistema forte de venda pela internet.

5 – Do seu ponto de vista, como escritor, a internet facilitou o alcance de suas obras ao público?

A. X.: A importância da internet nesse sentido foi inestimável. Muitos leitores descobriram meus livros graças ao twitter (que hoje nem uso mais). E nunca fui um escritor marketeiro, do tipo que só fala das suas obras etc. Muito pelo contrário. E justamente por isso, acredito, muitos acabaram conhecendo o meu trabalho.

6 – Qual é a sua avaliação com relação às novas plataformas de leitura, como o Kindle, por exemplo? O que tem a dizer sobre o mercado de e-books? Como escritor, sente que a inserção dos livros eletrônicos foi favorável ao seu trabalho, facilitando o acesso de possíveis leitores à sua obra?

A. X.: Adoro ler no Kindle e sinto que finalmente o Brasil está acordando para os e-books, embora ainda tenha muito o que crescer nesse sentido. Não obstante, os meus livros ainda não estão disponíveis digitalmente, o que acho uma pena. A maioria do meu público leitor é jovem e sinto que terei mais leitores quando meus livros forem convertidos para e-book, mas enfim, isso não depende de mim (se eu continuasse publicando independentemente, já teria feito a conversão).

D. P.: Acho leitores de ebook formidáveis e acompanho desde o início seu desenvolvimento. É muito prático e facilita a leitura para quem se locomove todos os dias via transporte público, por exemplo. Eu mesmo passei a ler quase o dobro de páginas por ano desde que comprei meu primeiro Kindle. Em termos de alcance, ajuda bastante também numa coisa que é um gargalo crucial para editoras de todos os tamanhos (mas principalmente as pequenas, claro) num país com as dimensões do Brasil: a distribuição. Mandar livros para todos os cantos do país é um pesadelo de logística, e sai muito caro. Com os ebooks isso se resolve automaticamente, até porque a infraestrutura de distribuição eletrônica já está pronta.

7 – Sua avaliação sobre os selos independentes que surgiram recentemente é positiva?

A. X.: Sem dúvida. Há novas editoras muito bacanas surgindo por toda a parte. Gosto muito, por exemplo, da A Bolha, que traz um trabalho gráfico ousado e publica livros no mínimo incomuns. Acho que esse é um caminho para se destacar no cenário: com projetos gráficos radicais, que fogem de modelos comportados adotados pelas grandes editoras.

D. P.: (ele já respondeu as questões 7 e 8) Um país com mercado literário saudável precisa de pequenos selos, sempre, porque é daí que vem a sempre importante renovação. Editoras com um viés mais autoral, tanto na curadoria de publicações quanto na própria cara dos livros (ou ebooks), acabam com o tempo forçando as grandes editoras a avaliarem o que estão fazendo e pensar em outros caminhos, e sem isso o cenário acabaria estagnado. As principais dificuldades continuam as mesmas: lidar com distribuição, pontos de venda etc. É complexo a ponto de se tornar um pesadelo para quem tem uma visão mais romântica de como o mercado do livro funciona.

8 – Quais são, para você, as maiores dificuldades enfrentadas pelos selos independentes na atualidade?

A. X.: O drama, até pouco tempo, ainda era a distribuição, logística etc. O nosso país é imenso geograficamente, e é muito difícil colocar um livro independente publicado no Nordeste à venda numa livraria do Sul. Mas, agora que o Brasil finalmente reconheceu a existência dos e-books, isso vai mudar. A chegada da Amazon ao Brasil, o avanço da Kobo, tudo isso favorece muito as pequenas editoras. Vejo o futuro com muito otimismo.

Filmes de agosto

Roubei a ideia da e pretendo fazer uma agenda dos filmes que assisti todo mês. Confesso, às vezes a lista é curta, mas a ideia é bacana até para passar umas dicas pra quem procura um longa-metragem para assistir no fim de semana.

Continuo colaborando para O Bolchevique Analógico, onde posto resenhas mais longas. Por aqui farei o possível para emitir comentários mais objetivos. Ah, e como a seleção pressupõe, isso também serve de indireta para receber dicas nos comentários :)

A Espuma dos Dias (L’écume des jours, 2013, direção de Michel Gondry)

Vejo qualquer coisa que o Gondry fizer. Sou fã assumida desde Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e, mesmo duvidando que ele faça algo ao alcance, continuo acompanhando seus trabalhos. A Espuma dos Dias é adaptação do livro homônimo de Boris Vian, autor surrealista. Dei uma folheada na obra e, a julgar pelas primeiras páginas, a releitura cinematográfica é bem fiel. Maluco ao extremo, praticamente um playground para Gondry que é todo chegado a esquisitices. Fico triste em admitir que não gostei muito do resultado, mas é interessante a forma como o diretor transformou o amor em uma coisa pavorosa e que deve ser evitada a todo custo. E me julguem, gosto demais do Roman Duris. Não foi tempo desperdiçado.

jOBS (idem, 2013, direção de Joshua Michael Stern)

Ashton Kutcher é o doppelgänger de Steve Jobs, é tudo que tenho a dizer. O desempenho dele é ótimo, mas nossa, que filme mais chato. Senti sono e nunca vi um uso tão ruim de trilha sonora. Um punhado de músicas boas fora de contexto, irritante o suficiente para prejudicar minhas impressões. Creio que nem os obcecados pela Apple vão curtir.

Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, 2010, direção de Edgar Wright)

Lógico que eu já tinha assistido, mas filme revisto entra na lista também! Não sou a pessoa mais indicada para opinar sobre esse trabalho incrível de Edgar Wright. É coisa de nerd? Sim. Mas tem bom humor, boas tiradas, um elenco digno de nota e olha, que dizer dessa trilha sonora que não sai nunca das minhas playlists? Sempre digo, antes de indicá-lo, pra darem uma chance pelo menos para as músicas (que seleção linda, sério). Quem gostou deve dar uma chance aos quadrinhos, de Scott O’Brien.

The Bling Ring (idem, 2013, direção de Sofia Coppola)

É verdade, Sofia perdeu a mão depois de Encontros e Desencontros. Fez dois filmes maravilhosos e depois ficou com preguiça. Gosto de Maria Antonieta e Um Lugar Qualquer, embora não transmitam nem metade das sensações de seus predecessores. Bling Ring segue a mesma linha, indicando que a diretora perdeu a inspiração em um dado momento da produção e deixou por isso mesmo. Foi uma boa sacada chamar atenção para esse tema – essa geração (a minha, por sinal), perde a cabeça com coisas sem fundamento algum e agem como se fosse a coisa mais normal do mundo. Nesse quesito, ela faz uma crítica pesada e tem lá seu mérito. Importante destacar que ela persiste no tema do vazio do ser humano, de um modo que deixa a desejar, mas não deixa de fazê-lo.

Frances Ha (idem, 2012, direção de Noah Baumbach)

Há quem diga que é superestimado. Como ter senso crítico quando me apresentam um filme em preto e branco que fala sobre amizade? O discernimento mandou um abraço. No fim até deu vontade de sair correndo por aí ao som de Modern Love, do David Bowie (mesmo que fosse no fone de ouvido). A fotografia é linda e é difícil não se identificar nem um pouco com a Frances. Ela vive a clássica crise dos 27 e precisa lidar com aqueles problemas comuns da idade – a dificuldade em se estabelecer em um lugar sem depender dos pais, descobrir uma vocação, ter um emprego bom e que pague as contas, lidar com todas as instâncias dos relacionamentos que passam pelo nosso caminho. E Frances é toda desengonçada, não parece levar jeito pra vida, mas sempre encontra uma forma de se virar em situações difíceis. Para sair do cinema com o coração tranquilo.

A Religiosa (La Religieuse, 2013, direção de Guillaume Nicloux)

Estava com preguiça deste filme até assistir ao trailer. Parecia polêmico, e era em francês (sempre vejo nisso uma oportunidade para treinar os ouvidos). Um pouco decepcionante, confesso, mas tem algo bem interessante na fotografia que me chamou atenção. Não é pra qualquer público, mas não chega a ser um “filme cabeça”. Foi inspirado em um livro de Denis Diderot, e já foi adaptado anteriormente por Jacques Rivette, em 1966. Fiquei curiosa porque a escolhida para o papel central foi a musa Anna Karina. Talvez entre para a lista de setembro!

Rush: No Limite da Emoção (Rush, 2013, direção de Ron Howard)

Mais uma vez temos um histórico de preguiça pré-cabine de imprensa. Sério, é um filme sobre Fórmula 1. Não tenho o menor interesse pelo tema (mentira, confessor que quando era mais nova madrugava para assistir corridas). O que me motivou foi o nome de Ron Howard – sim, ele já dirigiu alguns longas toscos, mas seus trabalhos constumam ser bons. Rush recria o período de disputas de Fórmula 1 na década de 1970, com foco na disputa entre James Hunt (Chris Hemsworth) e Niki Lauda (Daniel Brühl). Tenho criado respeito pelo Hemsworth e sou fã de longa data do Brühl. Difícil não gostar. E a sequência é elétrica, saí do cinema parecendo que tinha tomado uma jarra de café. Fiquei surpresa por ter gostado tanto.

Corro só para declarar meu amor pela comida no fim do dia

Dando um pouco de contexto às pessoas que não moram em São Paulo: a Casa Mathilde é uma doçaria tradicional portuguesa. A primeira filial brasileira abriu suas portas na Praça Antônio Prado, ou seja, bem perto do meu local de trabalho. Carrego minha carteirinha de gorda tensa por todos os cantos – às vezes esqueço o Bilhete Único, mas meu atestado de desespero por carboidrato, em hipótese alguma, é esquecido. Tanto que não tive tempo de adiar minha visita. Quando coloco os pés na porta, creio que metade do meu cérebro fica inativa porque perco o discernimento em segundos. Fico parecendo uma criança de cinco anos diante de uma vitrine cheia de Bubbaloo (isso em um contexto 1996, lógico).

Admiro a peculiaridade na escolha dos nomes, criar uma receita é quase como colocar um filho no mundo. Você quer mimar, enfeitar, dar um nome bonito, essas coisas.

E jogar canela. Porque canela está em uma escala evolutiva bem mais avançada que o açúcar e percebam, é só jogar um pouquinho desse pó mágico que qualquer gororoba vira o paraíso.

Nessas eles criaram um tal “Bolinho de Canela e Amor”. Parecia enganação, como quase tudo na vida: tinha cara de biscoito, jamais chamaria aquilo de bolinho.

Confesso a vocês, com o coração carregado, que pela primeira vez na vida, depois de ultrapassar duas décadas nesse planeta maluco, o amor me foi receptivo. Doce, sem ser enjoativo. Cheio de canela. Forte o suficiente para me ajudar a ignorar a pieguice desmedida de seu nome. E ainda me convidou a devorá-lo sem piedade.