O peso do ausente (Desafio Literário 2011 – Nada Me Faltará)

Há um arquétipo bastante característico em todas as obras de Lourenço Mutarelli – indivíduos conturbados em diferentes níveis, sempre colocados frente a frente com algum embate. Usualmente, a personagem principal é utilizada para centrar o objeto criticado pela obra. Eles sempre representam a parcela da humanidade incapaz de se adaptar aos agouros da sociedade. Em Nada Me Faltará, o autor apresenta um personagem apático.

Mas não se trata de uma apatia comum – ela decorre de um acontecimento sem muitas explicações. Paulo desapareceu com a mulher e a filha. Os três saíram para uma viagem e, de forma enigmática, nunca mais retornaram. Paulo reaparece após um ano na porta de seu apartamento, e é surpreendido pela notícia de que o local onde morava foi devolvido ao locador. Ele não se lembra de absolutamente nada. E se ele não consegue entender o que aconteceu, quem dirá as pessoas de seu convívio.

Inicia-se uma viagem intensa e fora do comum em meio à tentativa de compreender o incidente. Amigos e familiares parecem cada vez mais afetados pelo estado impassível de Paulo. Todos passam a cobrar explicações, e ele, a cada dia, compreende menos o que se passou.

Quando a culpa parece pesar-lhe os ombros, ele procura um terapeuta, Dr. Leopoldo, para tentar recuperar o trauma que deveria acometê-lo. Os amigos não aceitam o fato de Paulo ficar indiferente com a ausência da mulher e da filha. Mas ele encara uma situação paradoxal – ao mesmo tempo em que não se lembra ao menos de ter se casado um dia, mantém a lembrança do momento em que saiu para viajar com as duas. O mesmo se aplica com relação às outras pessoas com as quais convive – a saudade e a preocupação de todos não faz sentido, pois, para ele, o tempo não passou.

Como outros livros do autor, a história se desenrola em uma linguagem mais teatral, com poucas descrições e concentrado em diálogos. O tom da obra é sombrio, e o enredo se constrói justamente pelas trocas de palavras entre as personagens. Outra marca bem característica do autor – os dados são colocados de forma sutil. Nada é explicado de forma simples e objetiva. Mutarelli exige a atenção do leitor para decodificar o que realmente aconteceu com Paulo.

Os amigos e familiares parecem mais preocupados em saber o nível de envolvimento de Paulo com o desaparecimento da mulher e da esposa. Os diálogos são sempre fechados, interrompidos por um corte abrupto, decorrente da dificuldade que todos partilham ao se expressar. Assim, Nada Me Faltará agrega algumas críticas. Entre elas, as que mais se destacam são a falta de comunicação e a opressão causada pela necessidade de seguir um padrão aceito pela sociedade. O excesso de preocupação, a exigência para levar uma vida “correta” e a necessidade de manter laços estáveis com familiares.

A leitura não é tão envolvente quanto nos outros trabalhos de Mutarelli. A leitura parece marcada pela necessidade de entender o incidente, o que acaba enfraquecendo o desenrolar da história.

Correspondente ao tema de Setembro do Desafio Literário 2011

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Shakespeare for (really) dummies

No início do belo ano de 2011, eu e meus colegas de curso fomos confrontados pelos dessabores dos clássicos da literatura. Não era novidade quando, durante um almoço, começávamos a fazer alusões aos termos cunhados por essas obras. Todo mundo virou, em algum momento, desditosa, admirável, Aurora de Róseos Dedos, massa branca da barata… Tudo muito engraçadinho. Líamos com atenção, mas ao mesmo tempo adaptando cada passagem paulatinamente ao nosso cotidiano.

É claro que a festa acabava na hora da prova, quando precisávamos conciliar a atenta leitura com interpretações mirabolantes. Mas não há uma forma de fugir – estaremos, para sempre, marcados pelos livros presentes no programa da matéria. Entre muitas apropriações descontraídas, uma amiga propôs a feitura da versão popular da Odisseia, de Homero. Tempos depois, surgiria também o esboço de um projeto para desenvolver a versão lúcida de A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector.

Não tenho propriedade alguma para falar de Shakespeare – afinal, nunca realizei uma leitura crítica, nem li obras suficientes do autor para tanto (uma vergonha, eu sei…podem me julgar sem medo). Ainda assim, é do conhecimento de todos – até mesmo daqueles que nunca leram trabalhos dele – que o enredo não é dos mais fáceis. E, como toda obra bem escrita, os fatos não são oferecidos ao leitor de forma mastigada. É preciso estar atento a todo o momento para encontrar significados ocultos nos pormenores da obra.

Scott Roeben, do site Dribbleglass, inspirado (embora nem desconfie disso) em nossas ideias, fez uma adaptação – um tanto perversa – de Shakespeare para o inglês moderno. O que o autor realmente queria dizer, e camuflava em frases bem elaboradas? Vocês podem conferir a lista aqui.

Aviso: se você é um fã sensível de Shakespeare, nem ouse abrir o arquivo. Existe uma alta dosagem de humor negro nas adaptações de Roeben. E vale reforçar – o Dribbleglass é um site humorístico, meio sem papas na língua. Esperem o pior!

Lirismo inquietante

Poetas possuem fama de eternos incompreendidos. Basta uma biografia sintetizada para conhecer criaturas de alma inquieta, que utilizam a poesia como fuga aos dilemas existenciais que os acometem a todo o momento. Borboletas Negras, o novo filme da diretora Paula van der Oest, reproduz o arquétipo do artista fadado à incompreensão.

O longa relata a história da poetisa sul-africana Ingrid Jonker. Embora sua produção tenha um forte vínculo emocional, a autora imbuía certa crítica social ao seu trabalho, e integrava um grupo de artistas e escritores sul-africanos que enfrentava a censura do governo durante o Apartheid, na década de 1960.

Além do comportamento instável, Jonker viveu da forma mais turbulenta possível. Casou-se pela primeira vez para poder sair de casa, devido à complicada relação com o pai. Chefe do departamento de censura do governo, ele vetou produções de inúmeros amigos da poetisa.

O segundo longa da holandesa Paula van der Oest transmite o lirismo de uma forma intensa e dramática. Os versos inseridos em algumas passagens soam como um respiro perante a inquietude da artista. Carice van Houten coloca sua personagem em cena de uma forma paradoxal – mesmo em momentos conflitantes, ela encara a situação com trejeitos quase serenos. Como se tentasse reproduzir o lirismo característico da poetisa em passagens críticas.

A instabilidade emocional era uma das principais responsáveis por decepcionar pessoas próximas de Jonker. Confrontada por muitos romances, ela se via constantemente desesperada por não encontrar a forma ideal para manter um relacionamento equilibrado. Sendo o mais importante – segundo o longa – a relação com o escritor Jack Cope (Liam Cunningham), responsável pela seleção de poemas publicados em Smoke and Ochre – trabalho realizado enquanto a autora esteve internada em um manicômio.

Apesar de algumas falhas, a fotografia oferece um suporte ideal ao filme. A despeito das belas paisagens de Capetown, é interessante um dos recortes ocasionais, onde é mostrado o quarto de Ingrid – repleto de poesias escritas nas paredes. Além de a fotografia sugerir a sensação de tranquilidade da protagonista, ao mesmo tempo em que seus conflitos gritam de forma  inquietante na tela.

Para não fugir à tradição, a autora só teve sua obra reconhecida anos após sua morte quando Nelson Mandela leu seu poema The Dead Child of Nyanga (A Criança Morta de Nyanga) em seu primeiro discurso, em 1994 (Ingrid cometeu suicídio em 1965), logo ao fim do Apartheid.

Em Borboletas Negras, Paula van der Oest optou por destacar um pouco do ideal de inquietude dos poetas, para agradar aos seus espectadores. Mesmo sem se aprofundar em questões sérias dos cinco últimos anos de vida de Ingrid Jonker, o filme se sustenta devido à abordagem sensível e personagem repleta de conflitos capazes de formatarem uma boa história.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

Au grand jamais

Eu tenho um abismo por artistas discretos. Não se trata de uma declaração de repulsa a músicos amados por todos e todas. É só mais uma dessas tendências bobas presentes na minha vida. Existe uma infinidade de produções musicais excelentes que caem no esquecimento com uma facilidade assustadora. Perante tal situação, nunca consigo pensar em coisas ruins – o conteúdo era razoável, os caras eram preguiçosos e não foram muito longe, e coisas do tipo. Prefiro guardar uma imagem do cantor discreto, que pega o violão e faz música como se ninguém o observasse.

Sabe-se lá se foi assim um dia, porque o conheci um pouco tarde. Mas desde a primeira canção, sempre imaginei Bensé sentado nas margens do Sena cantarolando Au Grand Jamais. Sabe quando você está inquieto, ansioso para descarregar as palavras e aliviar a dor, mas prefere guardar tudo isso e fazer algo que dê prazer para abstrair? Uma espécie de refúgio, uma melancolia com um toque mais poético e sereno. Em um momento paradoxal de quietude desesperada, a cena se aplica com perfeição.

É engraçado. No único disco (na verdade são dois – ele lançou uma versão “atualizada” do primeiro cd em 2009) lançado por ele existe uma conexão entre todas as músicas – como se ele contasse uma história em 13 capítulos. Cada faixa emana tranquilidade – mas da forma paradoxal descrita acima. Os sentimentos impregnados em cada frase, por vezes, são extremamente melancólicos. Mas Bensé canta com tamanha brandura que fica até difícil não sorrir ao acompanhá-lo com meu francês razoável.

Ausente de pretensões, é possível definir a produção do músico com a ajuda de uma de suas músicas mais conhecidas – Quand Je Marche. A canção acaba e “soudain je me sens mieux“. Mais um para minha categoria de remédios naturais.

Potter’s a hipster

Digamos que a semana está um tanto conturbada. Não me apetece nem um pouco a ideia de desenvolver e destacar cada aspecto turbulento dessa segunda, que conseguiu acumular acontecimentos para um mês inteiro em um único dia. Passei o restante do dia lendo para amenizar os efeitos colaterais do dia e tentando me manter distante de qualquer coisa capaz de escrever. É triste, mas é verdade – eu estava doente de vontade de transformar doze de setembro em texto.

Mas soaria tão superficial. Sei lá, dependendo da forma adotada, pareceria irreal. E então, como uma boa imbecil pertencente ao mundo moderno, abri o Google Reader e perdi uma hora do dia sem perceber. Então encontrei algo legal para compartilhar, e, logicamente, precisava de uma introdução toda trabalhada na prolixidade para falar sobre algo que eu poderia resumir em uma linha. Por quê não unir o inútil ao agradável?

Já que estamos em um momento de repúdio coletivo aos hipsters e de mensagens aleatórias enviadas para os primeiros selecionados do Pottermore, nada mais propício que mesclar esses dois universos. Um dos muitos indivíduos que causam inveja por meio de desenhos absurdamente lindos no deviantart adotou a ideia. Rotae criou pequenos cartazes com personagens da série Harry Potter transformados em hipsters.

Eu sei, o traço é simples e não tem nada de muito impressivo. Mas reparem bem nas expressões faciais perfeitamente proporcionais às frases escritas abaixo de cada desenho. Às vezes não preciso de mais que meras banalidades como essas para rir um pouco…

Com as botas pesadas

Considero um tanto macabra esta “celebração” de dez anos do 11 de setembro. A ideia de reviver um acontecimento como esse me incomoda em demasia. Tenho tudo muito vivo nas minhas memórias. Consigo lembrar exatamente da primeira imagem com a fumaça negra tomando conta daquela longa estrutura prateada. Os gritos, as pessoas correndo, o desespero.

Era manhã, e a temperatura era amena. Eu estava deitada na cama dos meus pais, pronta para ir ao colégio – naquela época estudava à tarde – e ao mesmo tempo em que folheava uma revista, acompanhava algum desenho animado na televisão.

A interrupção abrupta não chocou tanto quanto o esperado. Pela pouca idade, mal compreendia o que se passava. E algo me dizia que era melhor ter medo de tentar entender. Ainda assim, aquelas cenas não saíam da minha cabeça.

Tudo aquilo só adquiriu um valor real quando comecei a sentir minhas botas cada vez mais pesadas. Movida pela minha curiosidade infantil, procurava saber cada vez mais conversando com professores e pesquisando na internet. Não havia nada que aliviasse o peso das botas. De certa forma, era como se eu estivesse ali. Conseguia me imaginar exatamente na região do acidente, confusa, sem saber como reagir e sufocada pelo desespero coletivo.

Todo ano, os noticiários faziam questão de exibir incessantemente as mesmas imagens. O mesmo trauma.

Não quero discutir sobre questões políticas ou nada do tipo. Dez anos depois, apesar da lembrança viva de cada detalhe do mesmo dia em 2001, não senti a menor vontade de ler matérias especiais sobre o assunto. Era uma forma de respeito indireto por todas as famílias abaladas pela tragédia – ou mesmo uma mera fuga ao horror que o acontecimento provocava em mim.

Até que não consegui conter o impulso de ler um artigo de Jonathan Safran Foer escrito à New Yorker. Foi imediato – poucos caracteres depois e eu já estava com o bloco de papel aberto, anotando o número de chamada da segunda obra do escritor na biblioteca.

Para alguém que não anda acertando muito na vida, posso dizer que, enfim, acertei. Peguei o livro pensando no atentado terrorista como pano de fundo e no artigo, mas fui enganada – da forma mais positiva possível. A primeira parte do livro mostrou coisas lindas e aplicáveis a incontáveis categorias de acontecimentos da vida.

Não falo como se fosse um livro de autoajuda, daqueles que você lê uma frase, toma como motivação para seguir em frente e provoca uma revolução otimista na vida. Não confio nesse tipo de literatura. Mas há tempos um livro não me comovia com tamanha intensidade – e da forma mais sensata possível.

Como obtive Extremamente Alto & Incrivelmente Perto ontem, ainda não tive a oportunidade de circular com ele. Preciso me policiar com certa urgência. Acontece que toda vez que interrompo a leitura sou surpreendida por um comportamento atípico que foge ao meu controle. Sério, alguma vez vocês já fecharam um livro e o abraçaram com muita força, como se fosse uma pessoa? Não me lembrava de fazer isso há muito tempo.

Para não perder o costume, desviei do assunto. Acontece (com uma freqüência que também foge ao meu controle). Após dez anos, mais forte que a tristeza transmitida pelas cenas, é a sensação de me sentir incrivelmente perto. E todos bem sabem – quando faltam palavras, as citações falam por nós:

“Naquela noite, naquele palco, por trás daquela caveira, me senti incrivelmente perto de tudo no universo, mas ao mesmo tempo extremamente sozinho. Pela primeira vez na vida, me perguntei se a vida valia todo o esforço necessário para se viver. O que, exatamente, fazia a vida valer a pena? O que há de tão horrível em permanecer morto para sempre, não sentindo nada e nem mesmo sonhando? O que há de tão especial em sentir e sonhar?”

“E alguma coisa doce não cairia mal”. Bem dito, Foer.