Pegadas Quase Imperceptíveis

Carlos Drummond de Andrade já dizia no poema: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.  E com muito cuidado e beleza, transformou esses sentimentos em uma série de poesias ao longo do tempo. A trajetória do poeta, por sua vez, era repleta de lacunas. Todas proporcionadas pelo próprio Drummond, em uma tentativa não intencional de dificultar o trabalho dos seus futuros biógrafos.

José Maria Cançado topou o desafio, que resultou na obra Os Sapatos de Orfeu. Ao longo das páginas, fica evidente a dificuldade para encontrar informações sobre a vida pessoal do poeta. Mas Cançado encontrou uma boa saída. Além de consultar obras contemplando diários e cartas de Drummond e entrevistar pessoas que conviveram com ele, teve o cuidado de procurar referências nos próprios poemas. Diferente de muitos biógrafos, ele não afirma nada – só aponta evidências nos poemas daquilo que foi manifestado em cartas. E embora seja uma obra não ficcional, a leitura se desenvolve provocando reflexões. A começar pelo título de cada capítulo – sempre com um toque metafórico.

Logo nas páginas iniciais, entre relatos da relação com os familiares e os primeiros amigos, ficam notáveis os incipientes indícios da habilidade do jovem Drummond com as letras. Após os relatos da infância em Itabira, o leitor toma conhecimento da mudança do poeta para o Rio de Janeiro – do trabalho como funcionário público às primeiras ações como militante de esquerda.

O livro mostra uma pessoa discreta a todo momento. Torna-se perceptível também a diferente abordagem do biógrafo. Não que a vida de Drummond fosse repleta de acontecimentos absurdos – mas tudo aquilo que poderia ser detalhado, leva um toque mais sensato em seu relato. Há tentativas de humanizar a “personagem” central, algo obtido sem muito esforço. Afinal, como muitas pessoas, Drummond também tinha problemas com os irmãos, era bastante apegado à única filha, e sim, também era um tanto namorador.

Para as pessoas ligadas ao mundo das letras, é interessante notar a forma como o autor cresceu dentro da poesia brasileira. Assim como sua relação com escritores importantes como Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Antônio Cândido. As leituras do poeta também lhe ofereceriam uma ótima base. Para citar um exemplo, Drummond seria o responsável pela tradução de obras de grandes escritores franceses, como Marcel Proust e François Mauriac.

Os Sapatos de Orfeu oferece a oportunidade de conhecer um autor que vivenciou experiências tão instigantes quanto sua obra. José Maria Cançado desenvolve a biografia de tal forma que a vida de Drummond assemelha-se a um romance – deixando a leitura ainda mais cativante. Ideal para aqueles que querem entender melhor a aventura de um grande poeta que escolheu ser gauche na vida.

CANÇADO, José Maria. Os Sapatos de Orfeu. Editora Globo, 2006. 367 páginas. Preço sugerido: R$45,00.

Esta resenha corresponde ao tema de Fevereiro do Desafio Literário 2011.

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Sobre o vazio

Há momentos na vida em que o aperto no peito é inevitável. E não é algo tão simples como posto assim, em poucas palavras. Falo sobre aquele tipo de sentimento incômodo que costuma aparecer sem uma explicação plausível. E nos leva rapidamente àquela dúvida: “que sensação estranha é essa?” – como se algo não palpável estivesse em falta.

Isso pode passar em minutos, ou se estender por um tempo indeterminado até dar espaço ao vazio. Sensação esmiuçada por inúmeros artistas no cinema, na música, e na literatura.

E se há alguém capaz de transformar essa sensação em belas sequências cinematográficas, esse alguém é a diretora Sofia Coppola. Ela captura o vazio e oferece-o ao espectador quase de forma inquietante.

Quando o filme termina, é como se absorvêssemos os sentimentos de cada personagem – uma experiência propriamente dita, como se houvéssemos vivido cada um destes seres. E há todo um cuidado – a trilha sonora melancólica, os diálogos inseridos na trama no momento ideal. Tudo para apresentar a ambientação exata para sentir um vazio ao qual não estamos habituados.

A conexão entre as quatro obras da diretora também é digna de nota. A cada criatura de seus filmes é oferecida uma oportunidade para preencher o vazio – mas eles não aceitam nada que seja alcançado com facilidade. E assim relutam até o fim, encarando a oportunidade de mudar ou conformar-se com a atual situação.

Falar sobre as escolhas de cada um ao final renderia outros textos. E a leitura ficaria limitada àqueles que acompanharam todos os trabalhos de Coppola. Por enquanto, deixo um vídeo com trechos dos filmes – para matar as saudades dos fãs ou simplesmente despertar a curiosidade daqueles que desconhecem as obras da diretora.

“oh everybody plays the game, and if you don’t you’re called insane”

Música de Terça – Bárbara Eugênia

Apesar da voz doce, ela não se intimida – no disco de estreia, Journal de BAD, há espaço para os extremos da felicidade e da tristeza. É possível encontrar canções para os momentos em que a vontade maior é deitar no sofá e pensar na vida, assim como faixas que te fazem tirar os pés do chão. Bárbara Eugênia é de Niterói, mas mora em São Paulo desde 2005. Entre tantos artistas ‘novos’, seu trabalho merece atenção. Com participações de músicos já conhecidos, como Edgar Scandura, Tom Zé e Karina Buhr, o trabalho realizado em seu primeiro álbum é ótimo. E vale aproveitar o clima de divulgação do cd, lançado no final do ano passado, para conferir os shows da cantora. Neste sábado (19/02) ela se apresenta na Casa do Mancha, na Rua Filipe de Alcaçova (Vila Madalena), às 20h30. Só R$10 para entrar. Vai perder?

Quando um cinema deixa saudades

Mesmo na época em que não entendia com exatidão as diversas camadas de um filme, já me encantava com eles. Gostava de criar teorias e desenvolver incontáveis interpretações (muitas sem nenhum fundamento). Foi nesse período que viajei pela terceira vez para São Paulo. Por uma coincidência “divina”, dei de cara com o stand oficial da 30ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sem muita dificuldade e com um desenrolar deveras previsível, foram quatro anos de amor platônico. Se não fosse possível ir até São Paulo no final de outubro, pedia que alguém comprasse o catálogo e a programação para passar vontade. E, como boa consequência, guardar alguns títulos para procurar nas locadoras com meses de atraso. Ou torcer para que um deles entrasse em cartaz em um dos poucos  (três, caros leitores) cinemas da cidade – uma probabilidade incrivelmente distante da realidade de muitos campo-grandenses.

Para toda regra, porém, há uma exceção. E é lógico, não era a melhor coisa do mundo, mas tínhamos alguma coisa. Um cinema discreto, assim como o espaço físico ocupado até novembro do ano passado. A programação demorava de duas a três semanas para ser alterada; e com apenas uma sala de projeção, os horários alternavam dois filmes em cartaz. Não é fácil ser cinéfilo em uma cidade onde tal prática não é vista com bons olhos. Motivo que levava a maioria dos apaixonados pela sétima arte a aproveitar a singularidade do local – sem reclamar (muito).

Demorava, é claro. Mas os filmes da Mostra chegavam aos poucos ao CineCultura. Às vezes eram “reaproveitados” pelo Cinemark após alguns meses, ou resgatavam películas de baixa circulação. Mesmo quando preferia assistir aos filmes em casa, tinha aquela sensação de alívio – pelo menos outras pessoas poderiam assistir certas obras na telona, sem precisar sair de Campo Grande. Além de ser uma alternativa ideal para fugir do tumulto do único shopping da capital.

No final do ano passado, o site foi atualizado com a mensagem “O CineCultura está com suas exibições temporariamente suspensas” – e é pouco provável que volte a funcionar. Difícil passar quase dois meses em Campo Grande sem sentir saudades do local. E mais ainda – saber que muita gente perdeu a única opção para conferir filmes fora do circuito comercial.

Este mês, para completar essa espécie de “saudade cinematográfica”, recebo a notícia do fechamento do Belas Artes, em São Paulo. Lembro-me bem, quando o clássico de Alain Resnais me levou ao local pela primeira vez. Medos Privados em Lugares Públicos (no original, Coeurs), está em cartaz até hoje. E não foi difícil me agradar. A começar pela localização, na Rua da Consolação, bem próximo à Avenida Paulista. Os nomes das salas prestam homenagem a figuras conhecidas, como Oscar Nyemeyer, Carmen Miranda e Cândido Portinari. A programação é muito justa – filmes bons ficam por mais tempo em cartaz, mas sempre há espaço para as novidades do mundo dos cinemas. Sem falar das sessões especiais, como as do CineClube e o Noitão.

Muita gente não faz questão. E encaram como se fosse só um cinema a menos – como o Gemini, fechado no final do ao passado. Para Campo Grande, não faz muita diferença. Afinal, eram frequentes as sessões exclusivas – eu, algum amigo e mais dois – no máximo três – desconhecidos. Minha preocupação também ultrapassa a relação nostálgica dos frequentadores com os cinemas – em especial, no caso do Belas Artes.

Não parece, mas perdemos muito com isso. Campo Grande não tem tradição com cinemas de rua. Logo, é pouco provável que tenhamos a oportunidade de conferir obras não comerciais fora dos nossos computadores ou televisões. Em São Paulo, o empecilho fica por conta dos shoppings. É mais fácil – têm estacionamento, lojas aos montes e praça de alimentação (embora eu prefira aproveitar a Av. Paulista, como já comentei anteriormente).

Mas vale reforçar: em cinemas de shoppings, se o filme não é bem explicado – e, em alguns casos, óbvio – as chances de passar mais que duas semanas em cartaz diminui. Nos cinemas de rua, as obras cinematográficas permanecem em cartaz por mais tempo. E há mais espaço para realização de eventos.

Independente do desenrolar e de todos os ‘poréns’ dessas histórias, fica a saudade. O que nos resta é recordar os bons momentos vividos nesses lugares. O Belas Artes ainda não fechou, e quem estiver na capital paulista pode aproveitar a oportunidade e ir ao Noitão – ao que tudo indica, a última edição antes do fechamento. Mais informações no site da Folha.

O Labirinto de John Green

Adolescentes e seus conflitos são assuntos recorrentes em filmes, livros e letras de músicas. Os três anos correspondentes ao Ensino Médio, então, oferecem o território ideal para inúmeras narrativas. Sem se ater aos clichês da categoria na qual se encontra – Young Adult (nas Terras do Tio Sam, representa um nicho de livros infanto-juvenis, mas com temas mais sérios) – Quem é Você, Alasca? relata as dificuldades vividas nessa fase, por meio do cotidiano de jovens em um típico colégio interno dos Estados Unidos.

Miles Halter leva uma vida pacata e sem muitos amigos no Estado da Flórida, onde mora com os pais. Cansado da rotina, opta por uma mudança – estudar no colégio Culver Creek, no Alabama. A personagem gosta de memorizar as últimas palavras ditas por figuras conhecidas antes de falecerem. Característica que o acompanha – e o incentiva – ao relatar a vontade de mudar-se. É a busca pelo “Grande Porém”, uma referência à derradeira mensagem de François Rebelais – “Saio em busca de um Grande Talvez”.

Ao chegar, conhece o garoto com o qual dividirá o quarto, Chip Martin. Com ele, toma conhecimento de algumas particularidades do local – em especial, da divisão entre “populares” e “excluídos”. Os dois grupos tentam se atingir através de trotes. Para organizá-los, Chip conta com a ajuda de Takumi, Lara e, principalmente, de Alasca Young, acomodada em um quarto no final do corredor e a fonte mais próxima para obter cigarros e bebidas – itens proibidos pelo inspetor. Rapidamente, a garota atrai a atenção de Miles. Até então, o romance não expõe nada de diferente de outras narrativas com adolescentes.

O mérito de John Green está na habilidade de construir personagens que são quase uma história à parte. A paixão de Miles por Alasca, por exemplo, é apresentada primeiramente como uma mera atração, transformada em sentimentos mais fortes pelos traços designados pelo autor. Ele os coloca como figuras comuns, mas basta um olhar mais demorado para detectar as particularidades de cada um.

Alasca leva uma vida conturbada e gosta de se arriscar. Em seu quarto, mantém uma biblioteca particular construída ao longo do tempo. A influência da literatura na vida da personagem fica clara pelas referências feitas ao longo da obra. Como no momento em que cita uma frase do livro O General em Seu Labirinto, de Gabriel García Márquez – “Como sairei deste labirinto?” – menção transformada em um questionamento constante até para outras personagens no decorrer da publicação. A poesia também marca presença, quando Alasca pergunta a Miles quais foram as últimas palavras do poeta Auden.

Ao longo da obra, o autor convida o leitor – indiretamente – a sentir cada momento vivido pelo grupo de amigos e assim, encontrar sua própria maneira de sair do labirinto. A história cresce aos poucos, estimulando a curiosidade de quem lê. Embora escrito para o público jovem, Quem é Você, Alasca? captará também a atenção dos mais nostálgicos, por todos os traços que remetem às fases de descoberta da adolescência.

GREEN, John. Quem é Você, Alasca?. WMF Martins Fontes, 2010. Tradução: Rodrigo Neves. 240 págs. Preço sugerido: R$38,00.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

Música de Terça – JJ

we shared a dream of armies marching hand in hand
you heard that before, i know
no finger on the trigger, no leaders no land
you heard that before, i know
forgive me for trying, I know i said I’ll quit
you heard that before, i know
but i’m forced to give my all, when noone gives a shit
you heard that before, i know

baby, we were born for fun
or maybe to sleep in the sun
a place where new waves come in
a place you’ll be here

let go
let the wind blow
back your head tonight