Uma carta para meu eu de 10 anos atrás

Querida Lidy,

Antes de qualquer coisa, desfaça a cara emburrada. Esse seu mau humor desmedido te faz um mal imenso e já digo de antemão – a realidade não é e nunca será fácil. Com o tempo você aprenderá que desfazer a feição de azedume vai deixar tudo um pouco mais fácil. No momento você está bem acima do peso e já deu início a sua saga de observadora. Pois tente habituar-se bem com a sua esquisitice, ela perdura até os dias atuais. Mas não se desespere, sua estrutura física vai deixar de ser um grande problema. Daqui um ano você até vai criar o hábito de fazer as unhas e se cuidar um pouco mais. Vai dar um trato nesses cabelos horrorosos, vai mudar bastante. A essência é que continuará a mesma.

Engraçado me ater tanto aos cabelos. Sei bem que são uma causa de ódio profundo. Você os detesta, não sabe se prende ou se deixa armado. Despreza tanto que já jogou até tinta vermelha nele. Fique tranquila, com o passar dos anos você vai notar que isso é balela. Por sinal, não se prenda tanto às críticas – sejam elas sobre sua aparência ou sobre seu jeito de ser. Você não vai conseguir deixar de ser fiel à sua inquietude, infelizmente – mas vai aprender a lidar bem com uma característica que te é tão cara. Só não deixe que te abalem tanto. Cuide-se para o seu próprio bem e ignore se alguém te disser que isso é egoísta demais. Fique tranquila, é normal gostar mais de livros do que das pessoas. Não se sinta tão freak por não querer ir pra balada aos fins de semana. A literatura, o cinema e a música vão ser os seus melhores amigos, seus laços mais intensos. Nunca sinta vergonha disso. Ao longo dos anos você inclusive conhecerá muitos desses artistas inspiradores. Participará de eventos literários, vai cobrir mostras de cinema e assistir filmes antes de todo mundo, e ainda ficará meio louca em muitos shows. Portanto nem se desespere por morar em uma cidade pequena e que raramente recebe eventos como esses.

Dê mais valor aos seus pais, abrace-os quantas vezes forem necessárias. Vai entender a importância disso mais tarde. Sabe essa sua noia com amizades? Seja mais maleável e não se preocupe tanto assim. Boa parte dessas pessoas nem vão mais fazer parte da sua vida daqui alguns anos. Em contrapartida não vai demorar muito para que muita gente interessante dê as caras. Você nem vai apostar suas fichas nessas pessoas, vai duvidar que vire algum coisa e acabará se surpreendendo de forma positiva. Não será um caminho fácil, mas no fim você terá pessoas que te enchem de orgulho e nas quais você pode confiar para ligar no meio da madrugada quando não se aguentar de angústia.

Você tomará gosto pelos estudos, vai sentir uma paixão imensa pela fotografia (mas vai adiar essa apreciação a todo momento), vai se apaixonar pelo ato de ter uma passagem em mãos e se perder por lugares que nunca imaginou que conheceria. Apesar do medo e da insegurança, vai fazer sua primeira viagem internacional com 14 anos e um ano mais tarde chamará Toronto de lar ao longo de quase dois meses. Terá uma oportunidade muito bacana no interior da Inglaterra também – e até esse ponto você já perderá o controle de vez desse vício por takeoffs and landings. Isso também pode despertar um pouco do seu espírito nômade e o impulso para transferir sua faculdade já iniciada para outra cidade. A agonia de estar no mesmo lugar há mais de quatro anos também aparecerá. Imagine bem, logo você que achava tão ruim ter que mudar sempre de cidade devido à profissão de seu pai.

Escolherá uma profissão um pouco zoada, é verdade. Sua vida acadêmica não será como costumam pregar por aí – lembra o que te disse sobre não gostar de balada? Não haverá mudança alguma. Mas esse período trará experiências significativas em várias instâncias de sua vida – dê valor a cada conquista. Aliás, deixe de se sentir tão incapaz. Com o tempo você ficará mais forte e irá sim conquistar muitas coisas. A passos de tartaruga, é verdade. Mas quem disse que é preciso fazer tudo com pressa? Saiba, inclusive, apreciar os momentos com calma. Não se estresse tanto quando te disserem para não ser tão lerda. Isso te ajudará a executar tarefas difíceis com maior acuidade.

Sabe essa ideia sem noção de fazer um piercing na sobrancelha? Então. De tanto inflamar você acaba desistindo. E verá que é feio de fato. Em compensação o seu medo de escolher suas próprias cicatrizes vai desaparecer e você fará não uma, mas três tatuagens. Você se encantará tanto com isso que não vai se importar ao ver o tamanho do desenho antes de começar a sessão. Aproveitando a deixa para falar sobre mudanças no corpo, me desculpe, mas sua rinite vai piorar bastante e sua ansiedade vai resultar em uma queimação das mais incômodas – e frequente. Mas você descobrirá que adora correr, e essa será uma das únicas formas que você encontrará para abstrair os problemas e se distrair ao longo de alguns minutos. Depois de muito tempo se vangloriando por ser sedentária, até de corrida oficial você vai participar. Pra ver como as coisas mudam.

Você também vai se perder muito. Quebrar a cara tendo consciência disso. Você vai aprender a cultivar a indiferença para o seu próprio bem. Será seu mecanismo de defesa para não se abalar tanto quando a vida te oferecer um belo tapa na cara. Abaixará a cabeça para muitas coisas que te tiram do sério, mas em certos momentos também vai se sentir no direito de colocar tudo pra fora. Você vai magoar muita gente e se sentirá horrível por isso. Mas tenha calma, isso faz parte de toda uma compreensão de que ninguém precisa ser um molde previsto pela sociedade. Quem é você para querer ser perfeita? Aproveite muito esses momentos de liberdade e não seja tão auto-destrutiva só por detectar uma falha ou um defeito grave. Lembre-se sempre que o mais importante é cultivar a sua essência.

E acredite, apesar de toda confusão e dificuldade você vai moldar uma personalidade interessante. Continuará sendo a mais teimosa da turma, vai dar trabalho, fazer cara feia quando te contestarem, beber acima da conta e até passar vergonha por aí. E nunca se arrependerá de nada. Tente desapegar um pouco de sua fragilidade e aproveite os 10 anos que tem pela frente para trabalhar sua força. É isso. Seja forte, persistente, e não desista dos seus poucos sonhos mesmo que tudo pareça impossível.

 

Este post faz parte da blogagem coletiva do Rotaroots, um grupo de blogueiros saudosistas que resgata a velha e verdadeira paixão por manter seus diários virtuais. Quer participar? Então faça parte do nosso grupo no Facebook e inscreva-se no Rotation. Um dos temas desse mês foi baseado na série de posts do Hypeness chamado “Uma Carta”.

No alarms and no surprises (please)

Foi quase na esquina, uma quadra depois do metrô, perto de uma das únicas bancas que permanecia com as luzes acessas. Dois moços fazendo música – um com uma flauta e outro com um violino. Não tocavam uma música específica. Ou até tocassem, não tive tempo para apurar. Mesmo baixo o som parecia me acompanhar e nunca saberei o que me comoveu tanto. Quiçá fosse efeito da simplicidade dos acordes, tudo tão discreto e ao mesmo tempo denso, e todo aquele acúmulo de dias inteiros, semanas, meses de agonia pura. Uma bola de neve. Aquela que vivem me dizendo para não alimentar. Ignorando toda a vergonha sentida ao encher os olhos de lágrimas em público, chorei. De soluçar. Aproveitei a escuridão do caminho seguinte, aquele trecho curto que me leva até a Praça Dom José Gaspar, parei por alguns minutos e me entreguei copiosamente ao pranto. Não demorei, é verdade. Bem poderia ter sentado no canteiro e degradado ainda mais minha condição de vulnerabilidade, exceto que nessas horas a gente tem o impulso de fingir que é forte depois de uma recaída. Engoli o choro e guardei para dali uns 10 minutos, quando entraria em casa. É como se esse movimento se repetisse todos os dias, minha explosão de desconforto diária. É saber que há algo errado e procrastinar uma busca para solucionar o problema, pois somos vítimas da capital monstruosa e não sobra tempo para cuidar do psicológico.

Boa parte da luta parece em vão e habituar-se à dor, cedo ou tarde, torna-se um fardo pesado demais a ser carregado. Então tentamos dissipá-lo em música, citações de livros, a projeção que traduz tudo isso sem dificuldade. E a falha insignificante segue ali, em formato embrionária, em suposto silêncio. Não quero colocar pompa nas palavras, desculpo-me pela falta de tato e desleixo, só ando assustada demais com esse despertencimento todo, esse descaso pessoal. Abri mão de mim, fui me deixando levar por tanta bobagem achando que não era relevante. Até me dar conta de que aos poucos alimentava essa falha, atribuía-lhe proporções absurdas até virar um buraco no estômago, desse que arde toda vez que me submeto a alguma situação de risco.

Confesso (contrariada) minha fragilidade e apesar de uma possível humilhação, imploro por um pouco de compreensão. Adoraria lidar com naturalidade, saber driblar toda e qualquer situação complicada. Não consigo. Presa a uma cidade que parecia me engolir mais e mais a cada dia, acabei me agarrando com muita força à minha insegurança. Não consegui fugir. Logo eu, que tenho essa urgência para correr quando dou de cara com um perrengue. Hoje até entendo o porquê do incômodo sentido com o bom e velho Creep, aquela música que ninguém suporta (e que admito meu amor velado), I want a perfect body, I want a perfect soul. Só que nasci meio estragadinha, longe de ter uma aparência socialmente aceitável, teimosa, e com essa mania insuportável de me diminuir sempre que possível. Não aceito elogio, tenho medo de qualquer ato ousado, confesso. Não é preguiça, não é corpo mole. É a insegurança – que mais parece uma bola de ferro de no mínimo 100kg. Doloroso constatar que são anos e anos assim. Alimentando essa essência meio errada. Minhas vontades são maiores que o meu corpo e meus temores, bem, não preciso comentar. Sigo com uma vida que está mais para a heart that’s full up like a landfill, no alarms and no surprises.

É bobagem, mas a passagem diária pela quadra que um dia me afagou nunca mais será a mesma. Talvez não esbarre mais nos moços que faziam música. O caminho segue sendo difícil, embora conhecido, e dos mais tortuosos. Espero que nele pare de me reconhecer e possa enfim me encontrar e superar tudo isso. Chegar a essa fé toda que você encontrou, mas que nunca senti.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=eqkgpHnp7Tg]

Abrindo mão

(e sem a menor vontade de fazer sentido)

Então você chega naquele ponto da vida em que a indiferença é uma dádiva. É como atingir o cume, chegar a um estágio em que nada parece acrescentar. Você se basta, atinge o limite e qualquer passo fora do eixo pode fazer soçobrar todo esse conteúdo acumulado. Liberdade para abrir mão de tudo e apenas aceitar que oras, é isso, seus pés alcançaram a linha final e você não precisa mais se desdobrar para agradar os outros. Aliás, não há necessidade alguma nem de adular a si próprio – não vale o esforço. É a forma de conformismo mais agradável que já inventaram. O alívio de dizer um belo “não” sem culpa. De fazer uma burrada tendo pleno conhecimento dos riscos, mas sem dar a mínima para as consequências.

Estranho ser tão apegada a dois filmes tão distintos, mas tenho nutrido uma sensação que mistura um pouco de Encontros e Desencontros com Clube da Luta. Quando Charlotte diz “I just don’t know what I’m supposed to be” e Bob responde “You’ll figure that out. The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you”. Sigo uma linha semelhante. A cada dia me conheço mais e aprendo a lidar com meu próprio desconforto. Não sei como me livrar dele e nem busco meios para isso, apenas tento me moldar a ele como parte integrante dessa coisa amorfa na qual me transformei. Aceitando os erros, dificuldades e imperfeições como construção. Nunca tive muita paciência para quem ostenta o fato de não carregar defeitos.

De Tyler Durden levo aquele “it’s only after we’ve lost everything that we’re free to do anything”, entre os muitos tapas na cara adquiridos ao longo do filme. Quando você não tem nada, o que há a temer? Não se prender às amarras da sociedade e não ter nada em mãos serve de desfrute para aquela liberdade que nem chega a te confundir, que em momento algum parece dúbia.

Aceitar-se nunca foi tarefa fácil. Há sempre quem venha dizer que “você precisa mudar isso”, sem nem pensar que talvez não exista a menor vontade de mudar sua essência, aquela característica específica que te acompanha desde a infância. E então a idade chega e traz a constatação de que não, isso não pode e nem precisa ser o fim do mundo. Qual a necessidade de ser modelo de capa de revista e levar uma vida típica de ficção engana-trouxa?

Sair da zona de conforto desencadeia situações desagradáveis na maior parte do tempo. Acontece que é tudo bem enriquecedor – você leva uma bordoada administrada com maestria, para te mostrar que as coisas não são fáceis de propósito. O tipo de aprendizado que ninguém vai te impor, dependendo exclusivamente da vontade própria. Desapegar de tudo que nos faz bem pode parecer uma atividade traiçoeira, mas proporciona experiências maravilhosas para você tomar força e encarar perrengues sem uma gota de medo.

Não é autoajuda: estou mandando todos vocês se foderem. Isso mesmo. Quebrem a cara e daqui alguns anos venham me dizer se não valeu o risco. Viver sob imposições disparadas de todos os cantos não pode tornar-se um fardo. Não sou autoridade, mas peço a todos que chutem o balde com a maior vontade do mundo. Uma overdose de ousadia tão intensa e vantajosa que nem haverá vontade de procurar uma clínica de reabilitação mais tarde.