The Art of Living

Grant Snider, sempre muito sensato e encarando a vida com bom humor (e ótimas ilustrações, diga-se de passagem). Declarado Digno de Nota #3.

Tem mais Incidental Comics no Flickr e no Tumblr.

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the desperate kingdom of love


Em Medianeras, Mariana e Martín abrem um buraco em suas paredes – não pelo simples gosto de destruir seus respectivos apartamentos, mas com o intuito de ter uma via para respirar e amenizar a sensação de isolamento em meio a prédios cada vez mais numerosos, fechados e, por quê não, um tanto sombrios. Por uma coincidência, eles resolvem “estrear” a janela recém-adquirida ao som de True Love Will Find You in The End, de Daniel Johnston.

Eles eram quase vizinhos. As semelhanças entre ambos, mesmo sem se conhecerem, parecem tolas – apenas artifícios para construir uma ficção com ares de conto de fadas moderno. O momento do longa é decisivo. Depois de tantos embates colocados em seus caminhos, eles parecem encontrar afago na voz rouca e tortuosa de Johnston. A agonia dos afazeres domésticos se esvai. Basta aumentar o som e acompanhar cada frase para reduzir toda a impaciência típica das frustrações amorosas.

Não sei, sempre preferi encostar-me ao limiar de grandes cômodos – ou ficar de pé mesmo, caso a ocasião não me proporcionasse o deleite de me acomodar no canto. Antes que alguém tente entender a falta de noção do limiar, explico – em todo caso, há sempre aquela elevação comum, uma espécie de barreira ideal para batucar quando passo horas matutando a respeito das usuais coisas que custam a fazer sentido…

Retomando, passei a ser uma observadora atenta à busca insaciável pelo amor – dos outros, que fique claro. Não é de se achar absurdo. As pessoas são afoitas por natureza. Qualquer período sem alguém é uma desculpa para se desesperar ante a possibilidade de passar muito tempo sozinho.

Passo horas tranquilamente dando ouvidos aos relatos daquelas histórias bonitas de casais que já estão juntos há tantos anos. Ainda é difícil, porém, manter-me afastada de paradoxos. Logo, a atenção dedicada tem um encanto característico de ficção. É, eu ainda escuto tudo como se fosse o enredo de um livro ou filme.

Sinto mais desespero ainda ao observar uma pessoa que não deposita muita fé sobre o amor do que ao analisar minha situação com relação a presença e ausência desse sentimento em minha vida. Dessa forma me apego a versos surreais e, como já é de hábito, sou tomada por uma vontade insana de ver todo mundo seguindo meus conselhos (apoiados por essas músicas). Aqueles que nem eu mesma consigo seguir.

Não sei inserir propósito em assuntos abstratos, mas vamos lá. Eu só queria deixar um registro aos desanimados: já está na hora de adotar true love will find you in the end como mantra. Dou várias opções – com o próprio Johnston, com Wilco ou Beck. Se nenhuma das versões for do agrado, dá pra encontrar, sem muito esforço, um hino semelhante.

Nem tudo está perdido. Pode ser que a sorte não seja tão palpável a ponto de abrir a janela e dar de cara com o Wally na cidade que você custou a encontrar no livro. Mas dá pra dispensar floreios, certo? Talvez o grande erro seja a ansiedade, bastante característica, decorrente do medo de ver-se só (já citado acima).

Não deveria ser tão ruim. Há amor pronto para ser encontrado em doses homeopáticas – um processo, que para alguns pode ser bem lento. Mas representa uma aprendizagem. Basta ter paciência. As compensações, no momento propício, certamente serão postas no caminho.

“This is a promise with a catch
Only if you’re looking will it find you
‘Cause true love is searching too
But how can it recognize you
Unless you step out into the light?”

Dance like no one’s watching

Quinta-feira começou tão bem que fui forçada a roubar o título de uma comunidade do falecido orkut. Se a sequência de catástrofes começa logo pela manhã, é preciso sair em busca de coisas capazes de afastar temporariamente o azar e proporcionar alguma forma de divertimento. Tudo para suportar o dia até o fim da forma mais descontraída possível.

Em casa, coloco o player no shuffle e desafino junto. É um alívio cantarolar aquelas frases representativas como se elas fizessem milagres e acabassem com os problemas. Vez ou outra, também rola uma busca por videoclipes e trechos de filmes com músicas características.

Varia desde o clássico Singin’ in the Rain, do longa homônimo; até o adorado “Time Warp” do musical Rocky Horror Picture Show.

Como meu esforço para tentar animar uma pessoa hoje seria em vão, deixo-os com alguns cartazes da série Dancing Plague of 1518, de Niege Borges Alves. Basta seguir os passos (como se ninguém estivesse observando) e abstrair as coisas ruins por alguns minutos :)

Cartas e o registro do atemporal

“Ainda há pouco recebi sua carta. Ponto número um: claro que lhe farei uma visita quando você quiser. Ponto número dois: o que significa o aviso de que durante algum tempo não vou receber notícias suas? Quero esclarecer que você não tem a menor obrigação de me escrever com data fixa, que não tem a menor obrigação de responder a minhas cartas na volta do correio nem nada parecido. Em minha opinião, não se trata de jogar uma carta depois da outra, como no truco. Não se trata de confundir correspondência com uma dívida bancária, embora de fato haja alguma ligação entre as duas coisas: as cartas são como letras que se recebem e se devem. Sempre se fica com um pouco de remorso por causa de um amigo a quem se deve uma carta, e nem sempre a alegria de recebê-las compensa a obrigação de respondê-las. Por outro lado, a correspondência é um gênero perverso: tem necessidade de distância e ausência para prosperar(Ricardo Piglia – do livro “Respiração Artificial”)

Existe algo fascinante sobre as cartas. Podem até me chamar de velha. O encanto ao ver o esforço da letra cursiva sobre uma folha de papel é, todavia, inevitável. Outro atrativo é a relação atemporal estabelecida. Não importa se a resposta é redigida rapidamente, pois estamos sujeitos aos fatais atrasos dos correios. Serviço que, por sinal, só me trouxe contas bancárias ou ingressos de cinema obtidos em sorteios online nos últimos tempos.

Não tiro os créditos do habitual e-mail. É legal ter itens novos na caixa de entrada – como diria Martín, no filme Medianeras, não há nada mais deprimente que não ter e-mails novos para ler em pleno século XXI. A apropriação é, todavia, tão diferente. Não vejo tanto esforço nesse tipo de mensagem.

Durante a leitura de Respiração Artificial, de Ricardo Piglia, tive uma espécie de “insight” ao me deparar com a citação que abre o texto. No livro, as coisas acontecem em um tempo distante, um período em que, provavelmente, os e-mails nem existiam. Ou não tinham a representatividade que possuem hoje. O romance, por sinal, é alimentado por um conjunto de cartas.

O livro de Piglia é tributário a essa forma de comunicação, mas no formato ficcional. E não é composto unicamente por cartas. De imediato, lembrei-me dos muitos livros com correspondências que já foram lançados. Tenho curiosidade para lê-los para observar se autores por mim conhecidos diferem muito ao escreverem em um gênero mais pessoal.

Claro, é preciso evidenciar minha predileção por ficcionistas. O que torna a leitura das correspondências ainda mais interessante. Tamanho foi o susto, por exemplo, ao ler duas obras que contemplavam cartas escritas por Clarice Lispector. Não é ficção, mas a subjetividade fica impregnada nos escritos. Só para provar que alguns autores são bons até para escrever bilhetes.

Parte desse processo e não menos importantes, temos os envelopes. É bem mais prático colocar o conteúdo em um envelope qualquer, adereçar e enviar. Mas algumas pessoas preferem fazer arte mesmo tendo consciência de que o papel pode ser rasgado e descartado em poucos segundos.

Como as obras que reúnem correspondências, há livros com diversas ilustrações feitas em envelopes. É o caso de Floating Worlds: The Letters of Edward Gorey and Peter F. Neumeyer, lançado no ano passado. Outro artista que merece uma citação é Mark Powell. Com uma simples caneta Bic, ele desenha retratos bem realistas em envelopes antigos.

E não podemos nos esquecer dos selos. Se antigamente era comum colecioná-los, hoje em dia é preciso encontrar alguma apropriação diferente que os deixe mais interessantes. Molly Rausch que o diga. A artista desenvolveu um projeto que por vezes me lembra o projeto Dear Photograph. Inspirada pelas artes presentes nos selos, ela o imagina com o recorte de um cenário completo.

Não gosto de postagens sem imagens, o que me leva a concluir com algumas ilustrações da série PostageStampPainting, de Rausch.