O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

Foi como pisar em um território desconhecido. Era arriscado e eu não fazia idéia do que poderia esperar. Até então, meu conhecimento sobre literatura africana limitava-se à leitura de Desonra, de J. M. Coetzee. Não me ocupei com leituras prévias. Preferi a surpresa e, acreditem, minha opção foi extremamente vantajosa. Em O Último Voo do Flamingo, Mia Couto cria uma fictícia Tizangara, em Moçambique. Um lugar que abriga uma constante mistura entre o fantasioso e a realidade – uma característica evidenciada, logo no primeiro contato, por estar contida em cada personagem presente no romance.

A narrativa possui um toque poético. Um artifício bem utilizado – diversas passagens incitam, de modo envolvente, o questionamento com relação aos limites do real. Em certo ponto, a noção desses limites é perturbada. Pois o próprio narrador anuncia – em Tizangara “todos os factos são sobrenaturais”. Diversas passagens nos levam a interromper a leitura para levantar esse questionamento – o autor conduz a história de uma forma tão natural que um fato absurdo passa aos olhos do leitor como uma coisa normal.

E então um acontecimento estranho passa a perturbar o cotidiano do local. Soldados estrangeiros, sem uma explicação plausível, começam a explodir. Massimo Risi, italiano e oficial das Nações Unidas é solicitado a investigar o incidente. Com a sua chegada, um morador local – narrador da história – é requisitado a acompanhá-lo, desempenhando o papel de tradutor.

No início, todos os indícios levavam a crer que a história se desenvolveria sobre o perpspectiva da investigação de Risi. Entretanto, com o desenrolar do enredo , o narrador parece inserido em uma conversa informal com o leitor, na qual relata a situação atual de sua cidade e rememora a trajetória de seus pais. Esse contato reforça também um fator que enriquece a narrativa – talvez o grande problema não seja a explosão sem explicação dos soldados, mas a dificuldade para encontrar identidade característica de um país que vive marginalizado. Neste ponto é importante destacar o contexto  –  Moçambique passa por um processo de paz, pouco tempo após o fim de uma longa guerra civil. Nessa situação, como já é de se esperar, nem mesmo os administradores locais dão conta dos problemas, mais preocupados com problemas pessoais e alheios às feridas da própria nação.

Aproveitando o lado fantasioso da obra, Mia Couto brinca conscientemente com a língua portuguesa. Brincadeira amparada pelos distintos personagens – numerosos, diga-se de passagem – espalhados pela curta extensão do livro. Há, por exemplo, Temporina, uma mulher com rosto de velha e corpo de moça. Há também Sulplício, pai do narrador, que pendura os ossos do corpo antes de dormir. Um embate constante para Risi, que precisa enviar relatórios à sede da missão da ONU. Todos os relatos por ele acompanhados parecem absurdos, e ele próprio questiona a veracidade dos fatos – se ele acha absurdo, como uma pessoa que não conhece Tizangara pode acreditar em tudo isso?

Por meio de uma metáfora, o autor conclui a obra com um baque. Um toque abrupto que atenta para um olhar mais cuidadoso. Com bom humor e de forma delicada, O Ultimo Voo do Flamingo procura despertar a atenção para os valores de uma nação e todas as suas particularidades. Apesar de todos os empecilhos, é preciso manter e valorizar a essência.

“Viver é fácil. Até os mortos conseguem. Mas a vida é um peso que precisa ser carregado por todos os viventes” 

COUTO, Mia. O Último Voo do Flamingo. Editora Companhia das Letras, 2005. 232 págs. Preço sugerido: R$46,00.

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