Desafio Literário 2011 – Prosa de Gaveta

Esclarecimento: Não resenharei Amostragem Complexa. Ao incluí-lo na minha lista, confundi com outro livro e só depois de lê-lo me dei conta – um pouco tarde – que a autora já havia publicado três livros. Para não deixar o tema do mês em branco, troquei por um livro que li no mesmo mês. Esse, sim, publicado este  ano. Novíssimo. :)

Tomarei a liberdade de mesclar primeira e terceira pessoa na resenha. O contato mais imediato permite, certo? Explico. Não conheço o autor pessoalmente, mas arrisco dizer que o conheço indiretamente via internet. Embora tenha me ausentado, faço questão de dizer que o fórum do Meia Palavra é um presente, desses recebidos em singelas partes a cada dia.

Foi a base para investigar melhor a minha curiosidade perante um livro que pretendia ler. Uma fonte para encontrar blogs que tiveram um início quase despretensioso, mas sempre se mostraram excelentes desde o princípio – e cresceram bastante com o passar do tempo. Logo, não seria surpresa ligar essa caixa responsável pelo armazenamento de tantas maravilhas a um livro escrito por um dos usuários.

Em poucas páginas, Guilherme Tauil consegue agregar um humor sutil e inteligente a todas as crônicas do seu primeiro livro, Prosa de Gaveta. Ele transforma situações banais do cotidiano em episódios curiosos, sempre com muita criatividade.

A dificuldade para remediar um bicho de estimação e para se movimentar pela cidade com um guarda-chuva, por exemplo, foram transformados em manuais. Há até mesmo um guia que indica maneiras rápidas para identificar pseudo-intelectuais. Intelectualóides é um dos muitos textos que evidenciam o humor ácido.

Ocasiões que de tão corriqueiras passam despercebidas e as usuais dúvidas de todo ser humano são ironizadas em contos como Religião de Botequim e Do lado de fora. Mas Tauil também consegue atribuir uma posição honrosa a algo aparentemente ordinário. É o caso de Ode ao miojo, um agradecimento quase poético ao macarrão instantâneo. Para concluir o livro, o autor mostra seu potencial para outras vertentes literárias com a poesia Síntese e no conto O Gato Manchado.

Prosa de Gaveta apresenta o mesmo prazer experimentado por leitores que aguardam um suplemento literário que só acompanha o jornal uma vez por semana. Um fato, aliás, que desperta a atenção é a ausência de pretensão. A narrativa flui bem, desenvolve-se com leveza. Percebe-se de imediato que o autor estava mais preocupado em transmitir uma ideia. Pois tenho percebido, em muitas obras de novos autores, um esforço muito grande em demonstrar o bom conhecimento do português – consequentemente, o enredo perde sua força.

Os grandes autores costumam ignorar a primeira obra escrita, pois sempre a consideram primária – até desprezível, em certos casos – com relação à evolução literária posterior. Espero que não seja o caso de Tauil, por ter começado tão bem e ter um futuro promissor.

Prosa de Gaveta infelizmente não está à venda. Mas vocês podem acompanhar a coluna de Tauil no Artilharia Cultural – e até mesmo ler a primeira crônica do livro, Destino Traçado.

Correspondente ao tema de Julho do Desafio Literário 2011

Paris e Londres sem glamour

A imagem imediata que se tem quando o assunto são os países europeus remete, para muitos, a uma paisagem interessante e raramente decadente. Difícil, por exemplo, imaginar Paris sem os cenários românticos e os belos monumentos históricos. O que dizer, então, de Londres, com toda sua sofisticação e perante o glamour da Família Real?

Embora não se trate de um cenário atual, o escritor George Orwell, – pseudônimo de Eric Arthur Blair – desconstrói a imagem de perfeição das duas capitais. Ele mostra o lado da pobreza através de relatos do cotidiano e as dificuldades enfrentadas por pessoas com pouco ou nenhum dinheiro. Na Pior em Paris e Londres integra a coleção Jornalismo Literário, da Editora Companhia das Letras. Afora as experiências das pessoas de seu convívio, Orwell viveu todos os escritos.

Em uma narrativa hábil e bem construída, o autor expõe a realidade sem atribuir-lhe caráter ficcional. Certamente, por ser escrito após a experiência por ele vivida, há detalhes que fogem um pouco da situação real. Mas o tom de romance é responsável apenas pelo estímulo – cada etapa desperta a curiosidade para aquela que a sucederá. Mas é importante destacar que não há floreios nas descrições. Apesar do humor sarcástico presente em boa parte das passagens, o escritor relata com crueza todos os agouros de não enxergar uma perspectiva de amparo e ter de lidar diariamente com as incertezas. Ele passa, por exemplo, muitos dias sem se alimentar – ou sobrevivendo apenas com pão seco e chá.

Após a temporada em Paris, onde disputava espaço com percevejos e encarou o temível emprego como plongeur, Orwell partiu para Londres. O plano era iniciar um trabalho arranjado por um amigo. Para o azar do autor, o início não era imediato. Na capital francesa, o trabalho pecaminoso lhe dava poucas horas de sono – o dia era preenchido pelo espaço sujo do restaurante do hotel.

Ao chegar em Londres, sem perspectiva de emprego, foi preciso lidar com um agravante. Há uma lei que proíbe a permanência na rua – não se pode pedir esmola, muito menos se sentar no chão. Fato que o leva a peregrinar ao longo do dia até encontrar um novo albergue. Pois, como se não bastasse lidar com tantos descaminhos, os indivíduos não podem passar pelo mesmo albergue duas vezes.

Felizmente, Orwell conviveu com pessoas de personalidades bastante peculiares. São eles os responsáveis pela tônica do livro – contemplando, sempre, a forma como encontrar forças para a sobrevivência diária.

É curioso notar que, apesar das tentativas de publicação de seus livros falharem na maior parte do tempo, o escritor jamais desistiu. Tanto que hoje é mundialmente conhecido pelas obras A Revolução dos Bichos e 1984Na Pior em Paris e Londres, em um discurso franco, não quer despertar a sensação de comiseração em ninguém. Alerta apenas às dificuldades mais profundas da miséria, muitas vezes invisíveis aos transeuntes. Para pensar duas vezes antes de se fixar aos estereótipos.

ORWELL, George. Na Pior em Paris e Londres.  Editora Companhia das Letras, 2006. Tradução: Pedro Maia Soares. 256 págs. Preço sugerido: R$49,00.

[Publicado também no Site de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero]

Correspondente ao tema de Maio do Desafio Literário 2011

Desafio Literário 2011 – Até Mais, E Obrigado Pelos Peixes!

Não é novidade ouvir alguns leitores da série O Guia do Mochileiro das Galáxias dizendo que Douglas Adam deveria estar caído de amores ao escrever o quarto volume da coleção. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes, é o adendo quase perfeito à “trilogia de cinco”. A narrativa é permeada por um tom poético. Até os elementos mais sem sentido são amenizados por descrições delicadas na maior parte do tempo.

Mais uma vez Arthur Dent aparece deslocado e confuso, sensação intensificada ao descobrir as desventuras do amor. Ele aparece na Terra, e aparentemente tudo continua exatamente como no momento que antecedeu a destruição do planeta. O prelúdio da destruição é colocado como mera intervenção do governo para confundir a nação.

Mesmo atrapalhado durante a fase inicial de reconhecimento, ele logo se adapta. Mas passa a dividir o tempo entre a curiosidade para saber o que aconteceu na Terra durante seus oito anos de viagem pelo universo e a sua nova namorada. Até o nome atribuído à personagem parece uma referência ao ridículo do amor: Fenchurch.

A trama se concentra no casal. Não há mais acontecimentos mirabolantes, ação, e o humor inteligente também diminui a frequência nas passagens. Há apenas um ponto a ser desvendado – o motivo do sumiço dos golfinhos do mundo, bem como a presença de um misterioso e belo aquário na casa de Arthur. Sem contar o fato que a cada página deixará o leitor mais curioso – o paradeiro de Marvin, Trillian e Zaphod.

Entre os quatro livros, sem dúvidas este é o responsável pela leitura mais leve. Os acontecimentos não despertam sensações, e parecem moldados para puro entretenimento. O que não é de todo ruim. Afinal, o autor mantém uma boa escrita e consegue estabelecer uma boa ligação entre os fatos. Por outro lado, muitos aspectos deixam a desejar. Se em A Vida, O Universo e Tudo Mais havia uma preocupação em explicar todas as interrogações deixadas pelos volumes anteriores, Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes deixa várias lacunas no enredo. Sem entrar em detalhes do desfecho, que não poderia ser mais triste.

Mas seria maldade não atribuir os devidos créditos à Adams pela montagem do quarto livro da série. Nada mais sensato do que redigir um prólogo curto e inteiramente envolvente como degustação no início da obra. Estratégia de gênio para capturar a concentração e interesse do leitor.

ADAMS, Douglas. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes! Editora Arqueiro, 2009. Tradução: Marcia Heloisa Amarante Gonçales. 142 páginas. Preço sugerido: R$19,90.

Esta resenha corresponde ao tema de Abril do Desafio Literário 2011.

Desafio Literário 2011 – A Vida, O Universo E Tudo Mais

Em A Vida, O Universo e Tudo Mais, a série criada por Douglas Adams completa seu primeiro ciclo. Desta vez, os personagens centrais estão espalhados em diferentes localidades. O encontro se dá aos poucos, quando todos se descobrem envolvidos de alguma forma nos problemas desencadeados pelos habitantes de Krikkit. Mais uma vez, o escritor britânico encontra um modo inteligente de contornar os clichês, dando gás à narrativa.

Os primeiros personagens a se reencontrar são Arthur Dent e Ford Prefect. Em meio a confusão, após tanto tempo sem se verem, são surpreendidos por um sofá Chesterfield que os leva ao centro de um campo de críquete, dois dias antes da destruição da Terra. Ainda atribulados e sem entender o que se passa, se deparam com Slartibartfast. Ele apresenta a problemática – os habitantes de Krikkit estão ensandecidos pela vontade de destruir qualquer forma de vida que não a deles. Os xenófobos precisam reunir cinco “traves”, responsáveis por uma chave que os libertará do aprisionamento. E o pior: não falta muito para concretizaram a reunião dos cinco itens.

O terceiro volume da coleção é mais sério. Conforme a narrativa se desenvolve, desperta ainda mais a sensação de desfecho. Dá para sentir bem a tentativa de Adams para desatar todos os nós decorrentes das obras anteriores. O leitor é confrontado o tempo todo com as loucuras dos habitantes de Krikkit para obter as cinco traves e a falta de disposição de Arthur e Ford para tentar impeli-los. E apesar da grande metáfora sobre os malefícios da xenofobia como pano de fundo, o escritor tenta balancear com momentos de humor – remetendo às constantes piadas bem pontuadas dos outros dois livros.

Arthur Dent é a figura central de A Vida, O Universo e Tudo Mais – a maioria dos fatos ao longo das páginas termina com ele. O personagem não é dos mais agradáveis, mas Adams reservou os poucos momentos que provocam risos para ele. Em uma das passagens, Arthur encontra uma criatura morta por ele diversas vezes – toda vez ele “reencarnava” na forma de algum inseto ou objeto inanimado, sempre destruído por aquele desprezível ser humano! Não dá pra deixar de lado o acontecimento das primeiras páginas do livro, quando um alienígena determina um objetivo para sua vida: insultar todas as pessoas do universo, em ordem alfabética. E, claro, mais uma vez Arthur é uma das primeiras vítimas.

O livro é genial, e o conteúdo é tão rico quanto a primeira obra da série. Mas, como relatado acima, a leitura não é das mais fáceis. A obra exige maior atenção do leitor para não perder pontos importantes, algo que pode cansar e provocar um pouco de tédio por um momento. Mas vale, muito, insistir até o fim e preparar-se para o volume que o procede.

ADAMS, Douglas. A Vida, O Universo E Tudo Mais.  Editora Arqueiro, 2009. Tradução: Carlos Irineu da Costa. 224 págs. Preço sugerido: R$ 19,90.

 Esta resenha corresponde ao tema de Abril do Desafio Literário 2011.

Desafio Literário 2011 – Odisseia

Odisseia, obra que funda a tradição literária no Ocidente, leva o leitor a um espaço onde a aventura se sustenta pela nostalgia. O livro apresenta a história de um personagem que encara infortúnios aparentemente infindáveis, carregando consigo o desejo de retornar ao lar. Dessa maneira, Homero relata a volta de Odisseu a Ítaca após o fim da Guerra de Troia.

Para regressar ao local onde sua esposa, Penélope, e seu filho Telêmaco o esperam, já sem muitas esperanças, ele terá que enfrentar algumas tribulações. Após 20 anos, os deuses resolvem dar trégua e permitir o retorno definitivo. Telêmaco vai a Pilos em busca de notícias do pai, orientado por Atena. Já Odisseu permanece um tempo na terra dos feácios, onde narra ao rei Alcínoo todos os empecilhos enfrentados antes de chegar ali. Mal poderia imaginar Odisseu que, findada a guerra, acompanharia o perecimento de toda tripulação que o acompanhava até ser resgatado por Calipso, que por ele se apaixona e por esse motivo o aprisiona na ilha.

Ao enfrentar os cícones e os lotófagos, Odisseu perde parte da tripulação. Em seguida, param na terra dos Ciclopes, onde se dá um dos momentos mais conhecidos da Odisseia. Instante essencial à história, por desencadear os principais infortúnios no caminho de volta. Odisseu cega o gigante Polífemo – assim, provoca a ira do ciclope, que ora a Posidão (deus do mar) para impedir a volta do “saqueador de cidades” ao lar – e que caso esteja destinado a reencontrar a família, que sofra humilhações no caminho e depare-se com problemas ao atingir o destino. Para não estragar as surpresas de futuros leitores, é preferível não dar mais detalhes sobre todos os empecilhos dessa trajetória, bem como seu desdobramento e desfecho.

Por ser uma obra épica, Odisseia prevê um público culto. Embora seja um livro repleto de aventuras, exige maior atenção à construção do enredo. A narrativa é fria e bastante direta. Nos momentos de sofrimento dos personagens, recursos fantasiosos se apresentam para “amenizar” a dor. Há sempre a aparição de algum deus, que imediatamente provoca o alívio das tensões – depositando “um doce sono nas pálpebras” do personagem, na maior parte dos casos. É notável também a caracterização da sensatez e dos valores através de Penélope – a esposa fiel, que apesar da demora, não deixa de esperar pelo retorno do marido. Odisseu, por outro lado, reflete também a lealdade e mostra-se persistente e incapaz de abandonar seu desejo de retornar ao lar.

A dificuldade em escrever sobre Odisseia reside na pluralidade da obra. O clássico possui uma gama imensa de personagens, é bastante detalhista e apresenta um habilidoso trabalho de organização. E mesmo com inúmeras tentativas, haverá sempre detalhes importantes que ficarão de fora dos muitos textos sobre o retorno de Odisseu ao lar.

Observação: Não sei se posso chamar isso de resenha, está mais para nota. Acabei lendo MUITO à respeito da obra e não consegui organizar bem as informações essenciais. Tentarei refazer uma resenha mais para frente…

Homero. Odisseia. Editora Cultrix, 2010. Tradução: Jaime Bruna. 296 págs. Preço sugerido: R$ 28,00.

[A imagem da capa pertence ao livro da Abril Coleções, publicado no ano passado e esgotado. Mas, caso tenham interesse, a tradução é a mesma da Editora Cultrix, feita por Jaime Bruna. A coleção da Abril, porém, está dentro da reforma ortográfica.]

Esta resenha corresponde ao tema de Março do Desafio Literário 2011.

Pegadas Quase Imperceptíveis

Carlos Drummond de Andrade já dizia no poema: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.  E com muito cuidado e beleza, transformou esses sentimentos em uma série de poesias ao longo do tempo. A trajetória do poeta, por sua vez, era repleta de lacunas. Todas proporcionadas pelo próprio Drummond, em uma tentativa não intencional de dificultar o trabalho dos seus futuros biógrafos.

José Maria Cançado topou o desafio, que resultou na obra Os Sapatos de Orfeu. Ao longo das páginas, fica evidente a dificuldade para encontrar informações sobre a vida pessoal do poeta. Mas Cançado encontrou uma boa saída. Além de consultar obras contemplando diários e cartas de Drummond e entrevistar pessoas que conviveram com ele, teve o cuidado de procurar referências nos próprios poemas. Diferente de muitos biógrafos, ele não afirma nada – só aponta evidências nos poemas daquilo que foi manifestado em cartas. E embora seja uma obra não ficcional, a leitura se desenvolve provocando reflexões. A começar pelo título de cada capítulo – sempre com um toque metafórico.

Logo nas páginas iniciais, entre relatos da relação com os familiares e os primeiros amigos, ficam notáveis os incipientes indícios da habilidade do jovem Drummond com as letras. Após os relatos da infância em Itabira, o leitor toma conhecimento da mudança do poeta para o Rio de Janeiro – do trabalho como funcionário público às primeiras ações como militante de esquerda.

O livro mostra uma pessoa discreta a todo momento. Torna-se perceptível também a diferente abordagem do biógrafo. Não que a vida de Drummond fosse repleta de acontecimentos absurdos – mas tudo aquilo que poderia ser detalhado, leva um toque mais sensato em seu relato. Há tentativas de humanizar a “personagem” central, algo obtido sem muito esforço. Afinal, como muitas pessoas, Drummond também tinha problemas com os irmãos, era bastante apegado à única filha, e sim, também era um tanto namorador.

Para as pessoas ligadas ao mundo das letras, é interessante notar a forma como o autor cresceu dentro da poesia brasileira. Assim como sua relação com escritores importantes como Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Antônio Cândido. As leituras do poeta também lhe ofereceriam uma ótima base. Para citar um exemplo, Drummond seria o responsável pela tradução de obras de grandes escritores franceses, como Marcel Proust e François Mauriac.

Os Sapatos de Orfeu oferece a oportunidade de conhecer um autor que vivenciou experiências tão instigantes quanto sua obra. José Maria Cançado desenvolve a biografia de tal forma que a vida de Drummond assemelha-se a um romance – deixando a leitura ainda mais cativante. Ideal para aqueles que querem entender melhor a aventura de um grande poeta que escolheu ser gauche na vida.

CANÇADO, José Maria. Os Sapatos de Orfeu. Editora Globo, 2006. 367 páginas. Preço sugerido: R$45,00.

Esta resenha corresponde ao tema de Fevereiro do Desafio Literário 2011.

Desafio Literário 2011 – O Menino do Pijama Listrado

Para os adultos, a inocência é usualmente a característica mais encantadora das crianças. Esse traço é responsável pela capacidade que elas têm de conceber coisas complexas com simplicidade, interpretando-as à sua maneira e construindo, assim, uma visão singela dos acontecimentos cotidianos. É dessa forma que o pequeno Bruno conta sua história na obra de John Boyne, O Menino do Pijama Listrado.

O garoto tem nove anos e possui características comuns às crianças da mesma faixa etária. Gosta de se divertir com os amigos da escola, de brincar de “exploração” na enorme casa onde mora e de provocar Gretel, a irmã mais velha. A infância bem aproveitada é abalada, porém, quando os pais anunciam uma mudança. Por razão do trabalho do pai, a família deverá abandonar Berlim para viver em “Haja-Vista”, onde deverão permanecer por um “futuro previsível”.

Aceitar tamanha transformação não é fácil para ninguém, mas torna-se ainda mais difícil para uma criança. A nova casa é menor e isolada – a família não possui vizinhos e os irmãos têm um professor particular. Há somente um enorme campo de concentração, separado da propriedade por uma cerca de ferro.

Bruno faz o que pode para se distrair, como inventar um balanço com uma roda de pneu, ou brincar de explorar caminhando ao longo da divisa entre o campo e sua casa. Durante tais expedições, ele se depara com Shmuel, criança que vive do outro lado da cerca e traja o mesmo “pijama listrado” utilizado por todos onde vive.

Visitar o novo amigo torna-se, então, uma atividade cotidiana na vida de Bruno e ambos aproveitam as horas de conversa como uma fuga das tardes tediosas. A curiosidade do garoto provoca certa agonia no decorrer da obra – afinal, ele não compreende verdadeiramente os acontecimentos e a família faz o possível para sustentar essa situação.

Boyne faz bom uso dos recursos narrativos, uma vez que, apesar de o contexto do livro ser conhecido, o enredo se desenvolve provocando dúvidas no leitor. Embora não seja a melhor obra sobre a Segunda Guerra Mundial, O Menino do Pijama Listrado oferece uma interessante versão do período. Boyne optou por abordar uma visão pouco usual, com o cuidado de orquestrar personagens que pouco conhecem suas próprias condições.

Apesar de pertencer à categoria de publicações infanto-juvenis, o livro pode ser um tanto pesado para jovens, em especial por seu triste desfecho. Ainda assim, é uma obra delicada, que proporciona uma válida reflexão sobre um período tão conturbado da História Contemporânea.

BOYNE, John. O Menino do Pijama Listrado. Companhia das Letras, 2007. Tradução: Augusto Pacheco Calil. 192 págs. Preço sugerido: R$ 34,50.

[Publicado também no site de Cultura Geral da Cásper]

Esta resenha corresponde ao tema de Janeiro do Desafio Literário 2011.