Por que você deveria largar tudo e viajar?

Ao contar sobre meus planos de estudar em Besançon era recorrente a pergunta: mas e o emprego? E a família? E os amigos? Para começo de conversa, me mudei para São Paulo em 2010, com 18 anos (prestes a fazer 19). Estava no meio termo, a idade em que muita gente costuma sair da casa dos pais. Dividi apartamento com a minha irmã e depois de um tempo passei a morar sozinha, então a “questão família” sempre foi contornável. São pessoas que não deixo de ver apesar da mudança. Quanto aos amigos, já escrevi sobre distância aqui. Minhas amizades mais fortes não se desfizeram por bobeira, muito menos por estar em outro continente. Inclusive adoro ter uma desculpa para mandar postais, meus lados old fashion fala mais alto nessas horas.

Sobre emprego, gente, o óbvio: dá pra conseguir outro depois, oras. Foi uma decisão muito fácil, embora entenda o lado de quem tem dificuldades em desapegar nessas horas. Quando você cria raiz em um lugar, fica difícil se desfazer. E isso vale para todas as outras coisas. Dói deixar tudo para trás: o emprego estável e com um belo salário, aquele relacionamento duradouro e perfeito, o seu cotidiano facilitado, tudo isso. Bastante cômodo e conveniente já ter tudo em mente. Sabemos onde encontrar comidas mais baratas, elegemos nossos bares e restaurantes favoritos, nos matriculamos em escolas de dança acessíveis e na academia mais próxima de casa, tem aquele delivery maroto do supermercado que te poupa de carregar mil sacolas… é uma delícia ter essa segurança. Mas é ainda mais gostoso largar tudo e encarar uma experiência em um lugar desconhecido.

Sabia bem pouco sobre Besançon ao escolhê-la. Nunca tinha visitado a cidade. O máximo que conhecia da França até então era Paris, Versalhes e Giverny. Nunca tinha andado de TGV. Aqui é tudo bem diferente. Não tem visita dos meus pais uma vez por mês, não tem as minhas coisas pra limpar a casa e cozinhar, minha máquina de lavar, preciso dividir o meu espaço, tudo isso. Ou seja, é complicado. Com certeza. E ainda assim sigo encarando tudo como aprendizado, sei que muito passaria batido caso ainda estivesse em São Paulo.

Em duas semanas, conheci pessoas que nasceram aqui, gente da China, da Malásia, do Kwait, dos Estados Unidos e de outros tantos lugares. Já falei francês, inglês, português, e até um ocasional espanhol BEM enferrujado. Me divirto tentando explicar as coisas com a minha bagagem ainda limitada de francês, invento palavras até mesmo no meio da aula, porque o importante é não se intimidar. Experimentei a comida típica da região (deliciosa!), matei a saudade das minhas cervejas belgas favoritas e ainda fui apresentada ao famoso vin jaune (típico da região, vai ter post para falar dele!). Já saí para correr e me apaixonei ainda mais pela atividade ao ar livre. Aqui todo mundo corre e anda bastante de bicicleta, mesmo com o frio – e juro, já vi pessoas se exercitando mesmo com chuva e neve! As pessoas respeitam quem corre ou anda de bike, então aproveito a deixa para mudar um pouco os percursos a cada dia e ver a cidade por outra perspectiva.

A ideia nem é de menosprezar minhas experiências no Brasil, muito pelo contrário. Sabe o que acontece? Em São Paulo havia estagnado. Precisava sair um pouco e ter essa experiência de começar do zero. E olha, você pode estudar qualquer língua por 10 anos no Brasil. Ao chegar no país vai ter aquele choque de realidade, porque o que nos ensinam sobre a cultura por trás de cada língua é insuficiente. Vão ter coisas que você só vai descobrir estando no lugar, convivendo com pessoas que nasceram e viveram aqui desde sempre. E trocando suas impressões com quem acabou de chegar para ficar meses (por vezes anos) ou só está de passagem. São os aspectos que fazem valer cada centavo investido nessa mudança.

Se tivesse relutado em “largar tudo”, evitaria uma série de experiências ótimas que esse intercâmbio tem proporcionado. Isso desde o início, por sinal. Foi a primeira vez que arrumei tudo por conta. Sim, meus pais ajudaram! Afinal, minha documentação está, em boa parte, em Campo Grande. Mas quem mandou mil e-mails para a escola e arranjou tudo fui eu. Estava em minhas mãos e assim continuará até o fim de maio. Tive a sorte de vir com o Caio, que me ajudou muito a me localizar na cidade. Ainda me perco, mesmo sendo um lugar pequeno e fácil de andar, mas nada que um mapa ou o google maps não ajudassem a resolver.

Minha ideia também não é transformar o incentivo em autoajuda. Dois intercâmbios mostraram o quanto é importante abandonar um pouco a zona de conforto e ter contato com culturas completamente distintas da sua. Sim, isso é bem válido para quem pensa em viajar por um/dois meses e vive adiando os planos por medo de ir sozinho, por exemplo.

Por isso, mesmo se a grana estiver curta, junte uma quantia legal para passar uma temporada fora, compre as passagens, prepare as malas e despeça-se dos amigos. Vocês vão ver como cada minuto será recompensador!

Essa é a minha cara de "feliz feito pinto no lixo", que diz muito sobre minhas duas semanas por aqui

Essa é a minha cara de “feliz feito pinto no lixo”, que diz muito sobre minhas duas semanas por aqui

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