É preciso distância para reaprender a sentir

É preciso distância para reaprender a sentir. Saí com intuito de fuga, já não aguentava mais a rotina, os mesmos rostos e mesmos eventos. É uma frescura, nem nego: esse desespero para cair fora toda vez que as repetições se tornam um enfado. Cheguei a um ponto no qual ignorava qualquer indício de nostalgia e sentimentalismo barato. Fui embora sem me despedir e sem me sentir mal por isso. Larguei tudo para trás sem pensar duas vezes, e isso deu uma sensação de alívio, um desapego que não imaginei que conseguiria tomar como meu. Em 2015 completo cinco anos de São Paulo e fico meio assustada com essa constatação: passou rápido, não imaginei que acumularia tanto tempo nessa cidade louca. Era natural que me afastasse – perdi contato com 90% das minhas “amizades” de Campo Grande, o que foi fundamental para entender quais pessoas eram amigas de verdade naquele momento de só visitar minha cidade natal umas três vezes por ano. E isso vem de mim também, nunca houve muita disposição para correr atrás.

A distância sempre me pareceu destruidora, nada piedosa. No fundo ignorava o lugar comum de que ela “nos deixa mais forte”, algo que era de fato bem real. A distância fortalece laços como ninguém. Só se torna avassaladora quando o vínculo é fraco. Doeu quando senti isso de pessoas pelas quais nutria uma consideração enorme. Relutei em aceitar, nunca foi agradável acompanhar o processo de virar nada na vida dos outros. Mas acontece, é o curso da vida.

Nesse caminho surgiram pessoas incríveis, algo que vejo hoje como uma compensação: daqueles que me apagaram e que me vi forçada a esquecer. Fico com boas memórias bem pontuais. Hoje em dia não sinto mais mágoa, não guardo rancor. Nós amadurecemos, aprendemos a reconhecer os próprios erros e a entender as frustrações dos outros. Ainda bem. Pode faltar um pouco de coerência, mas uma hora tudo faz sentido.

Em uma dessas esporádicas visitas à Campo Grande enfim compreendi minha lição sobre pessoas e a distância. Foi importante passar uns poucos dias por perto para entender o peso de alguns na minha vida – gente que posso ficar sem trocar uma palavra por meses, e que quando encontro tenho uma identificação maluca, como se a pessoa fizesse parte do meu cotidiano, me encontrasse todos os dias. Chamo de nostalgia “tranquila”, daquela que causa zero desconforto, e que, contrariando expectativas, parece nos trazer alívio imediato para dores do presente. Aquela carga de outrora, o i’m gonna stay eighteen forever do Brand New, que hoje poderia me parecer tolo. Agora tenho a liberdade de falar dos meus sentimentos, das coisas que me incomodam. E ao mesmo tempo me sinto confortável para compartilhar felicidade, comemorar momentos de satisfação com pessoas que, tenho certeza, me apoiam. Sem uma gota de inveja. Que torcem para me ver bem, que querem me ver forte para aproveitar cada momento em companhia. Nunca sozinha, nunca com o receio que me faz guardar tudo para mim por medo de ser prejudicada por ser um livro aberto e “compartilhar demais”.

Cansei de gritar aos quatro ventos que sou insensível, me falta tato, comoção. Sou fria e quando sinto qualquer ameaça de sentimentalismo falto sair no tapa comigo mesma para derrubar esse lado brega. Não chega a ser uma mudança drástica, também vai levar tempo para me adaptar, mas tá aí, assumo, confesso que larguei mão de ser forte e deixei meu lado molenga aflorar. Tenho muito amor sim, quero cuidar dos meus amigos e tê-los por perto, mesmo que em outro estado, país… nessas horas vejo que envelhecer não é tão ruim assim. Anos atrás não teria como domar minha teimosia. Com a idade ganhei uma dose apropriada de serenidade, para encarar tudo com mais naturalidade e deixar que o sentimentalismo se se manifeste em momentos apropriados.

Meus amigos – os de verdade, claro – de Campo Grande nem devem ler esse blog, e felizmente isso não faz diferença no momento. Quero deixar um registro de agradecimento aberto por terem me libertado desse receio bobo. Por me apoiarem independente das circunstâncias, por me despertarem essa vontade de gostar, ter por perto, zelar por alguma coisa. Meus pais passaram anos tentando me ensinar isso, por sorte tive amigos que sem querer os ajudaram a reforçar a importância de não guardar nada para si. De compartilhar para doer menos, de compartilhar, abstraindo o egoísmo. As pessoas trazem consigo um aprendizado imenso e me sinto madura o suficiente para tirar o melhor disso para a minha vida. Coisas boas e ruins estão aí para serem compartilhadas, precisamos do próximo para aprender a trabalhar tudo isso. E é um alívio assumir isso sem culpa neste momento.

Anúncios

2 comentários sobre “É preciso distância para reaprender a sentir

    • Você entrou nessa lista linda de compensações <3 você, a Ize, todo o pessoal do posfácio, chegaram em um momento ótimo e me ajudaram a resgatar a fé na humanidade, que já tinha perdido há muito tempo. Só tenho a agradecer <3 e estarei sempre por perto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s