Um post fútil sobre cabelos

Sou prova viva de que cabelos mudam por motivos de hormônios. Toda minha revolução interna sempre se refletiu de imediato no mafuá. Por volta dos quatro anos, portava as madeixas dos sonhos: um castanho bem clarinho, liso, com as pontas encaracoladas e loiras – tudo natural, claro. Até aparecer aquela febre maluca de corte chanel. Mamãe mandou embora o que me restava de loirice e descobri ter os cabelos mais lisos do universo. Dava pra fazer qualquer corte maluco, jamais armaria. E assim permaneceu por toda a infância, fase tranquila e sem intervenções bruscas no organismo.

Só que mulher menstrua, e essa santa dádiva nos abençoa com um número meio exagerado de alterações físicas (e psicológicas também, mas isso não vem ao caso agora). Eis que alguns caracóis surgiram na raiz, próximos a nuca, e desde então foi corredeira abaixo. Assim com os hormônios, os meus fios se desordenaram. Nem posso dizer que “encaracolou”. Virou uma coisa amorfa, um meio termo entre o liso e o encaracolado. E é obvio, na faixa dos 11, 12 anos, isso é motivo para um bullying sem fim. Foi uma fase terrível, pois me sentia horrorosa e gorda – e ainda tinha um humor daqueles. Relutei por alguns anos, deixei crescer bastante, e era muito, muito feio. Porque eu não cuidava, nunca tentei domá-lo.

Quando veio a conversinha de escova progressiva, eu corri desesperada. Lá se foram bons anos de muita química. Não pintava, mas alisava assim que a raiz despontava. É óbvio que detonei o cabelo. Me dava uma liberdade imensa de poder fazer cortes radicais, e isso era prioridade. Imagine, um ondulado desses jamais permitiria um corte curto. E isso me perseguiu até o momento em que, já morando em São Paulo, passei a sentir uma preguiça imensa desses processos de alisamento. Demorou para a química sair de vez? Sim. Nesses tempos, metamorfose ambulante definia tudo: ele estava ainda mais disforme. Tinha dia que lavava e ficava maravilhoso, em outros dava vontade de chorar largada. Mais uma vez entrei no dilema do comprimento. Ter que mantê-lo preso nos dias quentes era um dilema porque não ficava bom. E fui levando.

Até chegar no salão, por indicação de uma amiga, e dizer pra cabeleireira que não aguentava mais aquele monte de cabelo, que eu sentia falta de um corte curto e de todas as facilidades que isso proporcionava. Ela foi a primeira pessoa a dizer que eu não precisava alisar. Ouvi isso incansáveis vezes: “quer curtinho? tem que alisar, flor!”. Respondido com um desanimado “então tira só as pontas”. Ela não. Disse que não via motivos para alisar e me prometeu um corte que não deixaria meus cabelos armados.

Apesar de toda aparante falta de propósito, contei essa longa historinha para vocês entenderem o quanto estou bem agora. Me sinto aliviada por não ter mais os cabelos como um problema na minha vida. Nada de secador, nada de horas sentada atirando um monte de produtos estranhos na cabeça. Ganhei tempo E uma praticidade enorme. Tanto que hoje em dia sinto até vontade de cuidar, porque não custa nada. É tão curtinho que uma hidratação vai me levar poucos minutos. Mais importante que tudo isso, o fato de poder olhar no espelho e me sentir bonita. O efeito de ter algo que te agrada é indescritível. Há dias ruins, quando você acorda se sentindo meio lixo – mas aí olho pro cabelo e penso, poxa, está tão legal que consigo abstrair todo o resto! Isso é impagável, ainda mais para uma pessoa que vive um embate eterno com a autoestima. Às adeptas do curto, vale preparar o corpo e a mente porque sim, ainda vivemos em uma sociedade onde tesourar as madeixas que ultrapassam os ombros é sinônimo de cortar de vez sua feminilidade. Risos. Não deixei de me sentir mulher só porque mandei uns tantos fios embora.

Reforço minha recomendação: não desistam de seus cabelos, meninas. Usem-o como acharem melhor e não deem ouvidos a quem discordar. Procure um profissional que te entenda e não dê o braço a torcer. Se criticarem, tentem trabalhar o ato de ignorar. Em tempos de discussão exacerbada sobre feminismo e outros assuntos relacionados, me sinto na obrigação de deixar uma mensagem de força para todas nós. Não é um caso de egoísmo. É preciso se amar mais um pouco, conviver com aquilo que nos faz bem, e não com o que o outro acha que é melhor para nós.

Outros links legais sobre o tema:

Cabelo bom, sim senhor! (Blog da Marjorie Rodrigues)
Cortar o cabelo não te torna menos feminina (Texto da Naira Mattia, do Vida Expressa)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s