things i have loved i’m allowed to keep

Fui visitar os jardins de Monet em Giverny, na França. Digam o que quiserem, sou chegada aos passeios turísticos obrigatórios em todo lugar. Detesto guias que não me dão liberdade para conduzir minha própria experiência, mas não consigo fugir do óbvio quando vou a um lugar novo. Valeu a demora para chegar, os trechos abarrotados de gente, tudo. Conheci um cantinho diferente da França, uma cidade que concentra o fluxo de pessoas alí, na Fundação Claude Monet, e que me mostrou as flores mais lindas de todos os tempos.

Eu, que nunca me interessei muito por flores, saí de lá querendo cuidar de algumas no fundo do meu apartamento – por mais imbecil que isso possa parecer. Houve uma flor específica que chamou minha atenção, pois misturava vermelho e amarelo de um jeito meio psicodélico. Era tão linda que despertou o desejo maluco de arrancá-la para levar comigo (por incrível que pareça ainda trabalho com um pouco de autocontrole nessa vida). Me limitei a tirar algumas fotos, já com a ideia aleatória de transformar aquilo em algo ainda mais simbólico para mim.

Criei afeto por esses lugares meio nada, resquícios das minhas marcas de interior, essas que me foram atribuídas não só no nascimento, mas também ao longo da primeira década de existência. Desses pontos que não te oferecem muitas opções, mas abrigam algum refúgio bonito, desses em que você se sente à vontade para sentar num canto e perder a noção das horas apenas observando. Sem pensar na vida – só confabulando sobre tudo o que se passou na mente de quem criou tudo aquilo e quais foram as impressões de quem deixou suas marcas posteriormente. Não fosse o horário e a correria para visitar o maior número de lugares possíveis em poucas horas, teria perdido um bom tempo sentada em um canto dos jardins só para cuidar da movimentação com os olhos. Foi semelhante ao meu desejo de sentar naqueles imensos gramados de Canterbury, tomados por árvores secas – e nunca concretizado, visto que fazia frio demais para matar tempo em qualquer ambiente externo. Sem falar nas chuvas.

A visita me levou até mesmo aos primeiros dias morando em São Paulo, quando não conhecia uma única pessoa e tinha os estudos como única obrigação. Ia ao cinema, sentava em cafés atrás dos meus livros e de tempos em tempos parava um pouco só para olhar para os arredores e pensar sobre a vida nessa cidade nova.

Levo comigo pedaços de cada lugar. Acumulei sensações, experiências, essas coisas não-físicas que acumulamos na bagagem toda vez que acenamos de longe para a zona de conforto. Nas minhas poucas horas em Giverny, tive tudo isso ao mesmo tempo. Aquele “lugar meio nada”, tão discreto e perdido num canto da França, me deu um abraço caloroso. E como a moça Regina Spektor já cantou tanto por aqui, things I have loved I’m allowed to keep. Não arrancaria a flor. Se a tirasse, mesmo com aquele tanto de flores, não seria mais a mesma coisa. Faltaria algo na paisagem, lamentaria pelos futuros visitantes. Ela provavelmente apodreceria, não suportaria o clima do Brasil, uma lembrança que logo viraria inexistência. Em nada condizente com aquilo que me provocou.

Então pedi pra transformarem a foto que fiz dela em desenho. Pedi pra deixá-la marcada na minha pele.

E agora levo um pedacinho de Giverny comigo para onde vou.

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6 comentários sobre “things i have loved i’m allowed to keep

  1. Oi ! Seu pai me mandou seu texto. Gostar muito do seu pai e da sua mãe já é um bom motivo pra te ler. Porém, mais do que isso, sei da sensibilidade do Jackson e, ademais, a França é um lugar muito particular na minha vida. Então, já vim de coração aberto, sabendo que ia gostar das suas palavras. Não posso dizer que me surpreendi com sua sensibilidade porque filho de peixe … mas ‘viajei’ nas sua poética e me identifiquei bastante com essa sensação paradoxal de solitude e universalidade que o seu texto revela. O Jardim de Monet é algo realmente especial e merece ser visitado a cada estação porque se renova com elas. A França tem mesmo muitos lugares que tocam o coração : que você possa usufruí-los e também tingí-los com a doçura da sua retina. Abraço, Elcione

  2. Enquanto você leva um pedacinho de Giverny com você… levamos um pedacinho do Jardim de Monet no quintal da casa do Thiago, aqui em Goiânia, com as sementes que trouxemos da mesma viagem à França. O Desenho ficou muito bom!

  3. Lidiane, tem lido seus artigos, tão bons que dá vontade que não acabe. Parabéns, seus pais devem orgulharam-se de você. Quando escrever um livro, me avise, quero um ortografado.

  4. todo mundo fala que “odeia explicar o significado da tatuagem”… ta aí uma coisa que não entendo. acho que faz parte e adoro, adoro também conhecer a dos outros. adorei a história! e gosto muito desse traço, claro, puro, das cores. ficou linda, Lidy!

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