I’m moving past the feeling

Em alguns momentos de 2011 tentei me dedicar de corpo e alma ao curso de francês, apesar das circunstâncias pouco favoráveis. Ano difícil aquele, parecia insanidade ter boas expectativas naquele momento. Ia me desprendendo cada vez mais de mim e nessa loucura toda consegui meu primeiro emprego, o que me forçou a trocar as aulas para o sábado. Desde os tempos de escola sei que essas amizades para vida toda são furadas e fazer amigos em um sábado de manhã era algo improvável demais para ser verdade. Só que aconteceu.

Tem todo aquele drama de saber que uma hora o curso vai acabar e nunca mais nos veremos, mas oras, qual é a necessidade de se desesperar por algo que mal começou, era melhor aproveitar o momento sem pesar as futuras despedidas. Tanta coisa aconteceu nesses escassos (quase três anos). Parecia que estávamos fortalecendo nossos laços de 10, 15 anos de amizade. Tudo tão intenso e ao mesmo tempo tão inesperado que olho o calendário e é estranhíssimo saber que dois deles debandaram, juntos, para os cantos mais frios do Canadá. Começar uma vida nova, tudo do zero, abandonar a rotina da qual reclamávamos juntos e que talvez venha a ser motivo de saudade para eles em pouco tempo. Nem parece que abandonamos o curso há cinco meses e os encontros de sábado da turma já não acontecem há um tempo considerável.

No início do mês passado, durante o show do Arcade Fire, Win Butler disse que a próxima música “é sobre saudade”. Ia dizer que The Suburbs nunca mais foi a mesma, só que nenhuma música do Arcade Fire foi a mesma depois daquele dia. Um desses amigos gosta muito da banda, e oras, ele vai para a terra deles. E ainda assim gastou uns tostões só para me acompanhar nesse show que, me desculpem, era imperdível. Afora toda a saga até Interlagos, roubaram o celular dele durante o show do Pixies e ainda assim ele teve ânimo para se enfiar no meio do povão comigo para ver Arcade Fire.

A banda sempre teve um feeling gostoso para lidar com todos os tipos de angústias cotidianas. Sempre foi uma delícia colocar Rebellion (Lies) no último volume e sair fazendo dancinhas estranhas pelos cantos. Sabe, no fundo eu estava puta da vida, querendo meter um murro na cara de cada pessoa mentirosa que andava me incomodando. Só que era ótimo pensar nisso acompanhada por uma música animada, no maior estilo dançando com a própria desgraça. E eles fazem isso de uma forma tão delicada que nunca me ocorreu chorar com nenhuma composição, mesmo que estivesse soçobrando em angústia. Para minha surpresa (em dia de show pode tudo), levei pouco tempo me emocionar. Era como se todas as sensações do mundo tivessem me devorado naquela hora: uma banda que eu adoro, um show super cuidadoso e cheio de detalhes encantadores, a despedida de um grande amigo. Confesso minha fragilidade para canções tipo Wake Up, acompanhada por chuva de papel picado e até fogos de artifício, que talvez nem fossem parte do show, mas prefiro pensar que eram. Chorei com um sorriso que me rasgava a face, naquela expressão de decadência e alívio. Também teve dancinha, toda desengonçada e pisando nos pés de quem estivesse por perto.

Sou tão acostumada a essa ideia de fazer as coisas sozinha que quando vem a calhar de ter companhia tudo fica muito estranho. E no fim das contas correu tudo bem, e essas coisas me fazem valorizar muito mais esses casos raros de partilhar momentos – principalmente em shows, justo comigo que vi tantos sem a menor expectativa de companhias. Para alguns talvez não passe de um dramalhão exagerado, mas aquela foi a nossa despedida e eu nunca imaginei que algo que costuma ser tão doloroso poderia me marcar sem provocar dor alguma. É surreal juntar memórias desse dia querendo voltar, mas sem sentir um pingo de tristeza. Isso não se deve exclusivamente ao jeito Arcade Fire de fazer shows, pelo contrário. É o conjunto. Uma pessoa positiva consegue te trazer isso. Em meio a todo o meu pessimismo contumaz é até esquisito aceitar algo positivo com tanta naturalidade, mas abraço a causa de bom grado.

Raffa, espero que a vida me dê pelo menos uma parcela da sua sabedoria para um dia observar as situações da vida com um olhar mais brando. Queria aprender um pouco sobre ser uma pessoa otimista sem soar pedante, sem parecer que fui cuspida direto de um comercial de margarina. Sem essa de encarar cada etapa da vida como um monstro, um fardo insuportável a ser sustentado em nossas costas. Espero que essa sua essência não mude nunca, que mesmo tendo que se adaptar a uma cultura distinta você não deixe que isso se perca. Você sobreviveu a frieza da (insana) sociedade paulistana, não vá ceder ao clima frio! Ale, o mesmo serve pra você. Somos assim, de natureza ranzinza, o que naturalmente nos deixa mais forte. Se um dia alguém te disse isso como crítica negativa, está mais que permitido rir alto na cara da pessoa. Veja bem, um dia quero ser tão dedicado quanto você para assustar todos os colegas em sala de aula (a gente corre, mas sempre acaba voltando aos estudos. Taurinos teimosos que somos).

Sei que não é uma mudança definitiva, nem vocês sabem quanto tempo vão ficar por lá. Visita-los não é tão simples quanto ir ao Mato Grosso do Sul e é óbvio que será difícil, mas queria reforçar que vejo um futuro lindo para vocês. Já me pego ansiosa esperando pelas inúmeras histórias malucas que vocês vão me contar daqui alguns meses. Vai ser uma experiência incrível, disso tenho certeza.

Embora esse texto possa parecer um amontoado sem sentido de palavras, seria horrível demais chegar ao dia de hoje sem ter algum registro “físico” de pessoas que me marcaram tanto e, mesmo sem perceber, me deram uma força absurda nos momentos em que só queria abaixar a minha cabeça na mesa e chorar a manhã de sábado inteira. Vou guardar esses meses de curso com um carinho imenso. Não vou me esquecer das nossas brincadeiras em sala da aula, das referências cheias de requintes (ken lee jamais será esquecido), do humor negro, nosso imbatível mauvaise conscience e sim, nossos ocasionais almoços e cervejas.

Engraçado isso, não é mesmo? Surgimos com a ideia de estudar uma língua estrangeira, de repente o estudo passa a ser algo prazeroso e quando menos se espera você começa a chamar aquilo de “terapia”, a única parte da semana em que mesmo tentando entender o discours indirect você consegue relaxar e esquecer um pouco dos problemas. O francês deixou de ser uma obrigação e passou a ser a hora da semana para encontrar um monte de gente querida e de quebra estudar um pouquinho.

Que essa nova fase seja linda, de coração. Naquela frase clichê que todos conhecem de Os Famosos e os Duendes da Morte, “estar perto não é físico”. Mesmo de longe, saibam que estou aqui para o que precisarem – e nunca vou deixar de torcer por vocês. E sim, vai rolar uma bronca bem feia se eu não tiver notícias sempre que possível.

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