No alarms and no surprises (please)

Foi quase na esquina, uma quadra depois do metrô, perto de uma das únicas bancas que permanecia com as luzes acessas. Dois moços fazendo música – um com uma flauta e outro com um violino. Não tocavam uma música específica. Ou até tocassem, não tive tempo para apurar. Mesmo baixo o som parecia me acompanhar e nunca saberei o que me comoveu tanto. Quiçá fosse efeito da simplicidade dos acordes, tudo tão discreto e ao mesmo tempo denso, e todo aquele acúmulo de dias inteiros, semanas, meses de agonia pura. Uma bola de neve. Aquela que vivem me dizendo para não alimentar. Ignorando toda a vergonha sentida ao encher os olhos de lágrimas em público, chorei. De soluçar. Aproveitei a escuridão do caminho seguinte, aquele trecho curto que me leva até a Praça Dom José Gaspar, parei por alguns minutos e me entreguei copiosamente ao pranto. Não demorei, é verdade. Bem poderia ter sentado no canteiro e degradado ainda mais minha condição de vulnerabilidade, exceto que nessas horas a gente tem o impulso de fingir que é forte depois de uma recaída. Engoli o choro e guardei para dali uns 10 minutos, quando entraria em casa. É como se esse movimento se repetisse todos os dias, minha explosão de desconforto diária. É saber que há algo errado e procrastinar uma busca para solucionar o problema, pois somos vítimas da capital monstruosa e não sobra tempo para cuidar do psicológico.

Boa parte da luta parece em vão e habituar-se à dor, cedo ou tarde, torna-se um fardo pesado demais a ser carregado. Então tentamos dissipá-lo em música, citações de livros, a projeção que traduz tudo isso sem dificuldade. E a falha insignificante segue ali, em formato embrionária, em suposto silêncio. Não quero colocar pompa nas palavras, desculpo-me pela falta de tato e desleixo, só ando assustada demais com esse despertencimento todo, esse descaso pessoal. Abri mão de mim, fui me deixando levar por tanta bobagem achando que não era relevante. Até me dar conta de que aos poucos alimentava essa falha, atribuía-lhe proporções absurdas até virar um buraco no estômago, desse que arde toda vez que me submeto a alguma situação de risco.

Confesso (contrariada) minha fragilidade e apesar de uma possível humilhação, imploro por um pouco de compreensão. Adoraria lidar com naturalidade, saber driblar toda e qualquer situação complicada. Não consigo. Presa a uma cidade que parecia me engolir mais e mais a cada dia, acabei me agarrando com muita força à minha insegurança. Não consegui fugir. Logo eu, que tenho essa urgência para correr quando dou de cara com um perrengue. Hoje até entendo o porquê do incômodo sentido com o bom e velho Creep, aquela música que ninguém suporta (e que admito meu amor velado), I want a perfect body, I want a perfect soul. Só que nasci meio estragadinha, longe de ter uma aparência socialmente aceitável, teimosa, e com essa mania insuportável de me diminuir sempre que possível. Não aceito elogio, tenho medo de qualquer ato ousado, confesso. Não é preguiça, não é corpo mole. É a insegurança – que mais parece uma bola de ferro de no mínimo 100kg. Doloroso constatar que são anos e anos assim. Alimentando essa essência meio errada. Minhas vontades são maiores que o meu corpo e meus temores, bem, não preciso comentar. Sigo com uma vida que está mais para a heart that’s full up like a landfill, no alarms and no surprises.

É bobagem, mas a passagem diária pela quadra que um dia me afagou nunca mais será a mesma. Talvez não esbarre mais nos moços que faziam música. O caminho segue sendo difícil, embora conhecido, e dos mais tortuosos. Espero que nele pare de me reconhecer e possa enfim me encontrar e superar tudo isso. Chegar a essa fé toda que você encontrou, mas que nunca senti.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=eqkgpHnp7Tg]
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