Abrindo mão

(e sem a menor vontade de fazer sentido)

Então você chega naquele ponto da vida em que a indiferença é uma dádiva. É como atingir o cume, chegar a um estágio em que nada parece acrescentar. Você se basta, atinge o limite e qualquer passo fora do eixo pode fazer soçobrar todo esse conteúdo acumulado. Liberdade para abrir mão de tudo e apenas aceitar que oras, é isso, seus pés alcançaram a linha final e você não precisa mais se desdobrar para agradar os outros. Aliás, não há necessidade alguma nem de adular a si próprio – não vale o esforço. É a forma de conformismo mais agradável que já inventaram. O alívio de dizer um belo “não” sem culpa. De fazer uma burrada tendo pleno conhecimento dos riscos, mas sem dar a mínima para as consequências.

Estranho ser tão apegada a dois filmes tão distintos, mas tenho nutrido uma sensação que mistura um pouco de Encontros e Desencontros com Clube da Luta. Quando Charlotte diz “I just don’t know what I’m supposed to be” e Bob responde “You’ll figure that out. The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you”. Sigo uma linha semelhante. A cada dia me conheço mais e aprendo a lidar com meu próprio desconforto. Não sei como me livrar dele e nem busco meios para isso, apenas tento me moldar a ele como parte integrante dessa coisa amorfa na qual me transformei. Aceitando os erros, dificuldades e imperfeições como construção. Nunca tive muita paciência para quem ostenta o fato de não carregar defeitos.

De Tyler Durden levo aquele “it’s only after we’ve lost everything that we’re free to do anything”, entre os muitos tapas na cara adquiridos ao longo do filme. Quando você não tem nada, o que há a temer? Não se prender às amarras da sociedade e não ter nada em mãos serve de desfrute para aquela liberdade que nem chega a te confundir, que em momento algum parece dúbia.

Aceitar-se nunca foi tarefa fácil. Há sempre quem venha dizer que “você precisa mudar isso”, sem nem pensar que talvez não exista a menor vontade de mudar sua essência, aquela característica específica que te acompanha desde a infância. E então a idade chega e traz a constatação de que não, isso não pode e nem precisa ser o fim do mundo. Qual a necessidade de ser modelo de capa de revista e levar uma vida típica de ficção engana-trouxa?

Sair da zona de conforto desencadeia situações desagradáveis na maior parte do tempo. Acontece que é tudo bem enriquecedor – você leva uma bordoada administrada com maestria, para te mostrar que as coisas não são fáceis de propósito. O tipo de aprendizado que ninguém vai te impor, dependendo exclusivamente da vontade própria. Desapegar de tudo que nos faz bem pode parecer uma atividade traiçoeira, mas proporciona experiências maravilhosas para você tomar força e encarar perrengues sem uma gota de medo.

Não é autoajuda: estou mandando todos vocês se foderem. Isso mesmo. Quebrem a cara e daqui alguns anos venham me dizer se não valeu o risco. Viver sob imposições disparadas de todos os cantos não pode tornar-se um fardo. Não sou autoridade, mas peço a todos que chutem o balde com a maior vontade do mundo. Uma overdose de ousadia tão intensa e vantajosa que nem haverá vontade de procurar uma clínica de reabilitação mais tarde.

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