Nocilla Dream, de Agustín Fernández Mallo

Declarar que há um quê de road movie em Nocilla Dream, romance de Agustín Fernández Mallo, é bem apropriado. Percorrer suas páginas é como fazer uma viagem mundo afora – seus personagens não se limitam a um único lugar, espalhando-se pelos Estados Unidos, Argentina, China, entre tantos outros. Muitos dos microcapítulos que compõem a obra parecem curtas histórias independentes, sem uma conexão aparente. E então vem a pergunta: qual é o sentido de tudo isso? Seu grande trunfo é exatamente esse – não se descabelar em uma busca por coerência.

A depender do ponto de vista, o livro pode ser visto como uma bagunça organizada, a julgar pelo caminho tomado perto de suas páginas finais, quando alguns elementos da história passam a se repetir – em especial o álamo próximo a Carson City, cheio de calçados pendurados em seus galhos, um “objeto” que se transforma em referência para vários personagens.

Mallo quer nos passar, por meio das letras, a sensação de sucumbir em meio ao excesso de informações tão característico dos nossos tempos. É, de fato, como apontado na orelha do livro, semelhante ao ato de abrir múltiplas abas no navegador e perder a noção do que te levou a uma página específica. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em maio de 2013, ele declarou: “Acredito numa arte feita de mistura e de fragmentos, de cenas e de outras artes, porque assim é a vida contemporânea. Não lidamos com a linearidade nem com a homogeneidade em nosso dia a dia. Penso que a arte deve refletir isso”. De certa forma, Nocilla Dream nos leva a explorar a nossa realidade, a avaliá-la com distanciamento crítico. Ao comparar o homem a maquina, suscita também a questão da solidão, que está impregnada em boa parte dos fragmentos.

“Payne gostava de todos os hotéis pelo que cada andar possuía de estrato de solidão; lá no alto, no último estrato, a solidão alcança seu ponto máximo, mas também o alcançam a bela vista e o conforto. Uma solidão narcótica, acolhedora, que jamais te obriga a sair”

Em meio a essa chuva de dados o autor sempre encontra um elemento peculiar para prender a atenção do leitor – personagens esquisitos, situações peculiares e citações colhidas em sites (acrescidas da fonte online, inclusive) que confundem realidade e ficção. Em Nocilla Dream há o conceito de micronações, um homem em conflito ante o seu fascínio por Jorge Luis Borges (ele cria um templo para seu ídolo), um designer de tampas de bueiros (que se diz parte de um seleto grupo pertencente a mesma profissão), Kenny, um homem que após complicações com o passaporte decidiu por bem habitar na extensão de um aeroporto, um trabalhador que cria uma nova atividade esportiva – a Passagem a Ferro Radical. Até Che Guevara vira personagem ficcional ao forjar a própria morte – e aparecer rindo da sua imagem estampada em camisetas.

Para esclarecer a quem não sabe, Nocilla é uma pasta de avelã da Espanha, semelhante a Nutella. Também foi homenageada pelo grupo punk Siniestro Total, e inspirou Mallo a chamar sua trilogia de “Nocilla”. Nocilla Dream inaugura a “série”, composta também por Nocilla Experience – lançada recentemente no Brasil; e Nocilla Lab, ainda sem tradução.

É notável o apuro ao colher referências de outros escritores e de sua própria formação profissional – Mallo é físico e, ao menos até 2008, segundo matéria do El País, seguia seu trabalho conciliando o ofício de escritor como uma ocupação “extra”. Não é um livro que conquista de imediato, muitos podem estranhar o seu formato e torcer o nariz à proposta do autor. Ainda assim, vale como um exemplar digno de apreciação do que tem sido feito em termos de literatura contemporânea em língua espanhola.

MALLO, Agustín Fernández. Nocilla Dream. Editora Companhia das Letras, 2013. Tradução: Joana Angélica d’Avila Melo. 216 págs. Preço sugerido: R$35,00.

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