Tonight I’m feeling blue

Não peça a uma pessoa cética para acreditar em qualquer coisa. Muito menos no amor, esse negócio que flutua em uma instância desconhecida. Na contramão de toda essa falta de crença, a vida me fez deveras bisbilhoteira, com um gosto irritante para explorar tudo aquilo que não parece compreensível. Saí de uma cabine de imprensa no meio da semana e um grupo de jornalistas discutia sobre Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche. Enalteciam a questão do sentimento, abstraindo toda a polêmica que o cerca. Tentação pontual ao meu eterno estudo de caso pelas coisas que não me descem com facilidade.

Em meio a carga emocional que acumulo a cada fim de ano, saí do cinema com o corpo pesado, como se tivesse sofrido uma agressão tão profunda que mal restava vontade de olhar as pessoas no olho. Medo de desmontar minha composição e começar a chorar no meio da rua. Talvez seja coisa do momento, a fragilidade da alma nos deixa assim, meio sem jeito e sensível a qualquer manifestação artística. Acontece quando vejo alguns espetáculos de dança. Não vou dissecar o filme, até porque ele possui alguns problemas em seu desenvolvimento (não deixa de ser um bom trabalho apesar desse detalhe). E mesmo com sua duração um tanto longa, eu o vejo como um ponto de partida para refletir sobre diversos pontos da vida. Abstraindo toda a polêmica que ofuscado partes essenciais do longa, é válido dizer que Adèle e Emma poderiam ser Pedro e Maria. Ou João e Luiz. O sexo não importa tanto assim.

Porque acima de tudo, Azul é a Cor Mais Quente é um filme sobre amadurecimento. A vida adulta nunca chega com delicadeza – tudo acontece de forma abrupta. As responsabilidades sentem um impulso absurdo de nos estapear a cada segundo, testando nossa capacidade de construir uma personalidade forte em meio aos acontecimentos que tentam nos destruir. Você chega ao fim do ensino médio meio sem norte, baseia suas escolhas no impulso e/ou nas coisas que te encantam naquele momento. Adèle teve o azar – ou sorte, a depender do ponto de vista – de experimentar o amor justo nessa fase. E o diretor nos convida a mergulhar na confusão dessa garota que tenta definir sua personalidade e não possui uma única certeza em mãos.

Ela se entrega de uma forma tão incômoda que o meu impulso, como espectadora, era de correr para dentro da tela e dizer “menina, sossega, vai com calma, isso ainda vai te fazer mal”. Mas quem somos nós para ditar o ritmo da vida alheia? Nesse ponto Kechiche é bem feliz ao subtrair longos diálogos e deixar o visual fazer todo o serviço de comunicação. Acho linda a troca de olhares, os trejeitos de Adèle ao arrumar (desarrumando) os cabelos, o sol que parece atravessar as personagens centrais, a ausência de maquiagem e todas as marcas que as tornam tão humanas. Isso me doía aos poucos – ver toda aquela estrutura bem montada definhar, embora fosse um desfecho já esperado, era de partir um coração que mal se manifesta.

Ela se envolve com Emma, o relacionamento vai longe e nos deparamos com Adèle seguindo seu plano inicial – mal esboçado a princípio, quando ainda estava na escola – ser professora. Sua trajetória começa com um bando de pirralhos sem a menor noção da vida. Se resisti até esse ponto, aqui já não me aguentava mais. Foi o contraponto mais pesado do longa. A inocência das crianças é antagônica a toda a inquietude experimentada pela personagem central no início do filme. Afora sua confusão interna, ela precisava lidar com jovens tão inseguras quanto ela. Quem já passou por esse período sabe que adolescentes não perdoam nada. E então me aparece esse choque de realidade justo quando o casal começa a desenhar a crise que culmina com o fim.

Que dizer então dos minutos finais do longa? O reencontro após tanto tempo sem se verem amarra um fio de esperança a Adèle – fio este que se desfaz perante cada segundo de confirmação da superação de Emma. Não era só sobre amor. Adèle em prantos me dava agonia porque era como observar todo um acúmulo de crenças se desintegrando em um excesso de humanidade absurdo. Como Caio costumava dizer, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? A cena afirma o efeito devastador daquilo que nos é mais íntimo. Kechiche é até exagerado nessa insistência em deixar suas personagens tão expostas à sua própria fragilidade. Aquela dor, o desconforto de estar na própria pele e desconhecer o caminho ideal de fuga, essas coisas que nos levam a práticas completamente tolas e sem sentido. Exibir isso que lutamos tanto para esconder tem seu preço, e ele não é nada confortável aos nossos bolsos.

Não são só os cabelos de Emma nos afastam daquele surreal (e impossível, diga-se de passagem) final feliz. Temos a blusa puída de sua parceira, seu quarto com as paredes azuladas, o lençol no mesmo tom, o mar que parece acariciar o rosto de Adèle boiando. O fim melancólico era iminente. Azul, como é válido lembrar daquela batida expressão da língua inglesa, é a cor da melancolia. A cor mais quente, a causa do fulgor que nos faz explodir em meio a tanta incompreensão.

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