La petite fille de Monsieur Linh, de Philippe Claudel

Nas primeiras páginas conhecemos um homem que perdeu tudo – a comunidade da qual fazia parte foi devastada pela guerra, os familiares faleceram, e as lembranças físicas se limitam a uma foto, um saco com um pouco de terra de sua pátria, e uma bebê “mais leve que a mala”. A criança em questão é sua neta, única sobrevivente junto a ele. Ainda desorientado com todas essas circunstâncias, ele é levado, junto a pessoas em situação semelhante, para outro país, na esperança de reconstituir a vida em uma nação que não foi destruída.

Nós não sabemos de onde ele saiu, muito menos para onde se destina. Em nenhum momento essa informação é fornecida de prontidão ao leitor. Há indícios de que Linh saiu de alguma parte da Ásia e foi parar em território Europeu. Em La Petite Fille de Monsieur Linh, Philippe Claudel nos convida a juntar os pontos e descobrir que terras desconhecidas são essas – proposta que parece insana a princípio. Percebemos, no decorrer da obra, que é um recurso sensato do autor para mostrar que sua história poderia acontecer em qualquer parte do mundo.

Recém-chegado em terras estrangeiras, Monsieur Linh é direcionado a um dormitório. Das diversas pessoas ali instaladas, com exceção da assistente do local, ninguém fala a mesma língua – o que intensifica o sentimento de deslocamento. Ele não sai para dar uma volta e pouco fala. Ocupa seu tempo apenas com a neta, uma bebê tranquila que pouco reage aos acontecimentos dos arredores.

Quando Linh resolve dar uma volta, apesar do medo de se perder e não encontrar o caminho de volta, descobre um parque logo a frente do dormitório. Um dia, sentado em um dos bancos, é surpreendido por Monsieur Bark – um senhor falante que executa um verdadeiro monólogo ao seu lado. Ele estranha, não compreende uma palavra, mas sente um crescente conforto na companhia de um desconhecido que lhe dedica atenção. Incomunicabilidade é um problema apenas àqueles que a permitem – inicia-se assim uma verdadeira amizade baseada unicamente em expressões corporais.

Claudel adota um vocabulário de fácil compreensão, mas faz descrições apuradas das sensações experimentadas pelos seus personagens. É um verdadeiro tradutor das coisas não físicas que cremos serem indescritíveis. Colocar-se na pele de Linh é quase uma ação automática durante a leitura – seus medos e anseios não parecem impossíveis e, com o desenrolar da história, deixam o leitor tão angustiado quanto o personagem.

Para quem não sabe, o autor também já trabalhou como diretor e as marcas de um cineasta são bem evidentes nesse livro. Ele esteve na primeira edição da Pauliceia Literária e enfatizou as diferenças mais pontuais dessas duas formas de trabalho. Reforçou a facilidade que a literatura oferece ao dar liberdade à imaginação do autor. No cinema, a dificuldade é redobrada: as imagens entregam tudo sem grandes mistérios – é necessário construir os enigmas da trama por meio de expressões físicas, por exemplo, criar uma ambientação que seja tão desafiadora quanto os cenários criados na escrita.

Pela metade do livro, temos a impressão de que tudo atingiu um nível de estabilidade e paz. Até o momento em que o enredo altera seu rumo por completo com a mudança do velho senhor para outra residência. Indícios mostram um local como um sanatório – pessoas vestidas com as mesmas roupas, nenhuma interação, gente que mal se comunica. Linh fica ainda mais sozinho. Perde o contato com Bark, não possui mais uma única pessoa capaz de compreender sua língua.

Nesse ponto fica complicado desenvolver alguns pontos sem entregar informações cruciais, que podem ser vistas como spoilers. Ao leitor, é o momento em que diversas interrogações começam a ser respondidas e tentar imaginar-se no lugar do personagem central passa a ser uma missão ainda mais dolorosa que nas primeiras páginas.

Sem entregar mais spoilers, digo que a amizade entre Linh e Bark é uma das mais bonitas que já vi na literatura – é impressionante a intensidade dos laços estabelecidos entre ambos embora não saibam uma mísera palavra em comum que lhes permita a comunicação verbal. Uma cumplicidade tão real que valida toda a proposta de Claudel – pouco importa a origem e o destino de cada um. Amizades de verdade destroem qualquer barreira.

CLAUDEL, Philippe. La Petite Fille de Monsieur Linh. Editora Livre de Poche, 2007. 151 págs. Preço sugerido: R$29,70

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