for the love you bring won’t mean a thing unless you sing, sing…

Tenho uma vizinha com vocação para artista. E ela tem consciência do fato, tanto que sempre ensaia suas cantorias no conforto do próprio lar. Digamos que meu prédio é acolhedor demais, daqueles que curte a proximidade entre os sons emitidos por cada morador. Sou a plateia mais próxima da dona moça, que canta vários “clássicos” com uma intensidade que olha, não dá pra traduzir em palavras. Há boatos de que a criatura parou no tempo, fato constatado pela presença frequente de “My Heart Will Go On” (sim, da Céline Dion) e “My Immortal” (Evanescence. Sim, há quem ainda goste deles) na setlist. Quem já me visitou em uma tarde de domingo pôde desfrutar do pocketshow e está de prova.

Nem parece a menina acanhada que não abre a boca nem para dizer boa tarde quando passa por você no corredor. Ainda assim, criei respeito pela criatura porque gosto de gente sem filtro, que investe na própria voz como se não tivesse espectadores – ou melhor, há toda uma nova interpretação de plateia. Porque eu imagino a criatura assumindo o controle remoto da tevê como um verdadeiro microfone e cantando para um público imenso, um mundo de pessoas com os olhos marejando de encanto pelos agudos da criatura.

Diferente dela, meu uso de cordas vocais está restrito ao banheiro – como backing vocal, porque a música está sempre alta. É lógico que também me falta muita decência nessa vida e devo causar sofrimento à vida do vizinho do andar de cima. Sou tão intensa quanto a jovem do apartamento da frente, e costumo cantar do mesmo jeitinho, já visualizando meus fãs com plaquinhas e tudo mais. Um dia terei uma explicação decente para o efeito da música sobre a minha falta de noção, que se resume ao vídeo do Travis para Sing. Canto feito desalmada e me sinto dentro desse clipe. É tanta empolgação que dá vontade de sair atirando comida na cara das pessoas.

Nunca me importei com o incômodo que posso provocar, visto que moro no mesmo prédio há quase quatro anos e aprendi com a moça do my immortal que o importante é mostrar a nossa arte. Até o dia em que fiquei com a ópera-chiclete “Carmen”, de Georges Bizet, matutando na cabeça. A mais grudenta é a mais conhecida, Habanera* (do original “L’amour est un oiseau rebelle”, coisa linda de título). Se eu desafino com o tradicional, imaginem o sucesso quando o assunto é ópera. Tenho recompensado os ensaios da vizinha desde então. Canto à plenos pulmões.

Não sei o que é pior – o meu vício repentino pela música ou o fato da moradora do apartamento de cima ser cantora de ópera (dessas que se apresentam no exterior, meus caros). Só me resta lamentar pelos ouvidos dessa pobre alma.

*

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