Mostra Internacional de Cinema de SP #3

7) El Gran Circo de Timoteo, de Lorena Gianchino

A peculiaridade do tema foi o que chamou atenção. É um documentário sobre um circo de drag queens que viaja pelo Chile há quarenta anos. As apresentações acontecem em grandes cidades e também em lugares do país que mais parecem o fim do mundo. O responsável pela criação do circo é Timoteo, um senhor tranquilo que trata sua empreitada como se fosse um filho. O longa fala dos obstáculos enfrentados pelo do comediante – embora queira dar continuidade ao seu projeto, sente que é a hora de parar devido a alguns problemas de saúde.

Tem lá seus momentos de humor, mas por algum motivo há um clima de melancolia que percorre todo o filme. Talvez seja uma consequência das reflexões de Timoteo e sua dificuldade em dar fim ao circo. A montagem é bem interessante, pois em poucos minutos nos mostra a trajetória do grupo por diversas perspectivas. São poucas as cenas que mostram o show propriamente dito – Gianchino prefere mostrar os rostos por trás de toda produção, os problemas enfrentados ao instalar a tenda, as diferentes reações do público. Um retrato bonito e cuidadoso para registrar o histórico do circo.

8) Uma Casa com Torre, de Eva Neymann

Já aviso que é um filme do mal. Porque todo filme que coloca uma criança sofrendo como personagem central é solicitação para o sofrimento. E convenhamos que os russos possuem um humor nada peculiar para lidar com as coisas. A diretora foi bem feliz em seu retrato da Rússia soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Nem parece que foi rodado em 2012, fato intensificado pela filmagem em preto e branco. Foi inspirado no conto autobiográfico (que leva o mesmo nome do filme) de Friedrich Gorenstein, que trabalhou como roteirista em Solaris, de Andrei Tarkóvski.

O menino tem oito anos e acaba se perdendo da mãe, enferma, que é encaminhada ao hospital durante a viagem que faziam. A cidade aparenta ser minúscula, mas imaginem bem uma criança sozinha tendo que se virar e perambular até encontrar o local onde sua mãe segue em tratamento. Tem um toque de O Menino do Pijama listrada (o livro, pois não vi o filme) no ponto de observarmos tudo pela perspectiva de uma criatura inocente que não tem muita dimensão dos acontecimentos. Infelizmente acaba com aquela sensação de “filme nada”, aquelas produções que se propõem a alguma coisa mas não demoram para perder o sentido próximo ao desfecho.

9) Les Garçons et Guillaume, à Table!, de Guillaume Galienne

Critério questionável de escolha: parecia um filme bobo, e eu queria algo mais leve porque sentia que Child’s Pose seria mais sofrido. Também procurava uma produção falada em francês. Então lá estava, conhecendo a história de Guillaume, um homem que sempre foi tratado como mulher, em especial pela mãe. Ele está destinado – ao menos acredita estar – à delicadeza, por gostar tanto de atividades consideradas femininas. Sem sorte para os esportes e interessado por arte, ele parece

mesmo seguir um rumo contrário. E o filme discute isso – suas incertezas sobre a própria sexualidade. Guillaume não tem problemas com a forma como é tratado, mas receia arriscar “o outro lado” e sair da zona de conforto. Não entro em detalhes para não dar spoilers.

O diretor também não demonstra qualquer intenção em explorar essa temática. Ele não quer questionamentos profundos, pelo contrário. Mais parece rir da própria desgraça – e encara tudo com tanta naturalidade que mesmo suas descobertas não o assustam tanto. Esse é o ponto alto do longa – uma comédia bem feita que tira proveito de uma situação que bem poderia acontecer nas nossas famílias.

10) Child’s Pose, de Calin Peter Netzer

Enquanto escrevia essas notas me dei conta que peguei uns tantos filmes que abordam temas familiares. Mesmo tendo feito escolhas com base em horários e locais, esses temais acabaram me atraindo de certa forma. Child’s Pose (Luminita Gheorghiu) foi, sem dúvidas, um dos mais densos da lista. Uma das características que mais me chamou atenção foi o fato de ser bastante verborrágico e nem por isso complexo. A agonia surge mesmo na composição das cenas e na dificuldade de comunicação entre os familiares.

Cornelia, personagem central, comemora seus 60 anos nos minutos iniciais. Tudo parece normal na família. Até o momento em que ela recebe uma ligação dizendo que seu filho, Barbu, acaba de se envolver em um acidente. Ele saiu ileso, mas atropelou um garoto. O instinto materno fala mais alto e ela parte à defesa de seu rebento. Percebemos que Barbu é um tanto tacanho e tenta, com dificuldades, fugir da proteção exacerbada de sua mãe. Luminita se destaca em cena, encarando uma personagem complicada. Ao mesmo tempo em que tentamos entender o lado dela, sentimos vontade de obrigá-la a largar mão de uma vez por todas de Barbu.

Se meus argumentos não são suficientes, Child’s Pose ganhou o Urso de Ouro em Berlim (na edição deste ano). É da Romênia, o que oferece uma boa oportunidade para conhecer um pouco das nuances da sociedade atual do país.

El Gran Circo de Timoteo

Uma Casa com Torre

Les Garçons et Guillaume, à Table!

Child's Pose

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s