Minha curta passagem pela Mostra

Não obtive sucesso na dedicação total à 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo por motivos de vida. Nunca é fácil conciliá-la com a rotina de trabalho e o dinheiro que nem sempre sobra na carteira – ainda mais no fim do mês. Meus poucos filmes foram suficientes para deixar aquela vontade de escrever algumas linhas sobre eles. Vai que eles entram em cartaz ou aparecem em algum festival ao longo do ano que vem?

Dividi as postagens para evitar fadiga.

1) Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, de Ethan Coen e Joel Coen

Antes de qualquer análise, fui fisgada de imediato pela fotografia desse filme. A imagem parece meio borrada e aparece em tons de saturação que intensificam o clima frio (a história se passa durante o inverno de 1961). Os Coen foram bem espertos ao escolher fazer um filme sobre música folk sem apelar para a referência mais imediata – no caso, Bob Dylan. Criaram, com um olhar próprio, um Llewyn Davis que não existe fora da ficção. Oscar Isaac interpreta um músico que enfrenta toda sorte de desafios. Poucos trocados nos bolsos, muita vontade de espalhar seu conhecimento em música pelo mundo, oportunidades cada vez mais escassas e um futuro cada vez mais incerto.

Ele vive de casa em casa, dorme onde tiverem a boa vontade de recebê-lo. Para tanto, vale até partir pela estrada com um desconhecido – Johnny Five (Garrett Hedlund) mal abre a boca e Roland Turner (John Goodman) testa a paciência de Llewyn a cada segundo. No destino, o personagem central tenta negociar com mais um dono de estúdio, sem sucesso. O casal Jean (Carey Mulligan) e Jim (Justin Timberlake) aparece no papel das amizades mais sólidas. Um fato deveras irônico, visto que Jim mais parece um bon vivant indiferente aos atos de Llewyn e Jean vive uma constante frustração pelo caso que teve com o músico. Alex Karpovsky e Adam Driver, ambos da série Girls, despertam a atenção dos fãs com rápidas participações. A de Karpovsky não é lá muito expressiva, mas a de Driver, no papel de Al Cody, desponta como uma das cenas mais divertidas do longa, em que contracena com Timberlake e Isaac durante a gravação de uma composição de qualidade duvidosa.

É um trabalho completamente diferente do esperado para um filme dos Coen. O humor negro, marca expressiva de seus trabalhos, pouco aparece. Não adianta procurar por violência, muito menos por personagens complexos. Talvez não seja tão bem recepcionado pelos fãs, mas é um trabalho marcante independente das mudanças. Para assistir sem fazer grandes comparações com outras produções da dupla.

2) Somente em Nova Iorque, de Bandar Albuliwi e Ghazi Albuliwi

É o primeiro longa de Bandar Albuliwi. Conta a história de um jovem palestino-americano, Arafat (vivido por Ghazi), que é viciado em pornografia devido às suas frustrações com as mulheres: ele não pega nem gripe. Ao procurar ajuda, ele aceita a proposta de um amigo – casar-se com uma israelense que precisa de um green card para permanecer nos Estados Unidos. Começa aquela clássica saga de choque cultural e do casal que se detesta, mas aos poucos vai descobrindo suas semelhanças.

Um clichê ambulante? De fato, a fórmula não proporciona novidade alguma. Ainda assim, não deixa de ser um bom filme. O diretor se inspira claramente em Woody Allen ao realizar as piadas do enredo. Seus personagens não são nada complexos, mas conquistam pelo carisma. Por vezes, se digo que um longa é bom para passar o tempo, aplica-se como um elogio. É o caso de Somente em Nova Iorque. Nada pretensioso, bom para dar umas boas gargalhadas, e arrisco dizer que é um bom começo para o diretor.

3) Como descrever uma nuvem, de David Verbeek

Peguei pelo horário e localização, confesso. Não li sinopse, não tinha a menor ideia do que se tratava. O diretor é holandês, mas a história é ambientada em Taipei e falada em mandarim. Liling é jovem e trabalha com música – não na execução propriamente dita, mas com mixagem. Ela estabelece uma forte amizade um desenhista mais velho e, no mesmo período, recebe a notícia de que sua mãe, que mora em uma ilha com seu irmão mais velho, ficou cega. Ela fica dividida ao encarar a necessidade de estar perto da mãe enferma e ter que dar conta de todas as suas responsabilidades em Taipei.

Com a cegueira, a mãe acredita ter desenvolvido um sexto sentido. A filha, intrigada com essa condição, passa a explorar as diferentes formas de se descrever os arredores para uma pessoa com os sentidos limitados. O filme utiliza uma linguagem bem poética, amparada pela fotografia que constroi verdadeiros quadros na tela. Creio que faltou um toque para finalizar a trama. Fora isso, a montagem é interessante e só pela composição já vale a pena conferi-lo.

(Posto o restante durante a semana)

Como Descrever uma Nuvem

Somente em Nova Iorque

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