Sobre a brevidade das coisas e o seu efeito devastador

Nunca se engane pela brevidade. Ao ser objetivo, por vezes, um autor engana com suas frases curtas – um toque sutil que pode ser mais mais doloroso que um discurso longo e cheio de pompa. Se há um escritor contemporâneo entendedor desse recurso, é o chileno Alejandro Zambra. Seus dois livros traduzidos e publicados no Brasil, Bonsai e A Vida Privada das Árvores, são bem curtos. Daquelas leituras que você finaliza tranquilamente em uma tarde. Isso, claro, se você tiver o psicológico forte o suficiente para encarar todas as páginas em uma única tomada.

Bonsai, por sinal, rendeu um projeto gráfico bem interessante da CosacNaify, que dialoga com o título e com a tradição japonesa de dobraduras. Não se sintam mal com a vontade de cortar essas margens e deixar a obra mais minimalista. Parece até um recurso para reduzir a carga emocional da trama.

O livro conta a história de Julio e Emilia. Na sinopse, um aviso – não existe um desfecho feliz. “No final ela morre e ele fica sozinho”. A curiosidade do leitor não morre aí. Resta saber como o caminho deles se cruzou, o que os tirou da mesma rota e quais foram os acontecimentos que os mantiveram juntos nesse meio tempo. Eles estudam Letras, motivo que permeia o texto com diversas referências literárias. Entre elas, um lugar-comum entre os amantes da literatura. Ambos mentem que já leram Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust – e sustentam a mentira como ninguém. Para um relacionamento que mantinha tudo às claras, talvez fosse essa a única mentira entre eles. Tudo parecia promissor a ponto de entregar destino do relacionamento a uma planta – o bendito Bonsai.

Em meio ao interesse pelos livros, antes do sexo eles compartilham passagens de diversas obras. Entre elas, um conto de Macedonio Fernández. Intitulado “Tantalia”, o enredo apresenta um casal que compra uma planta para representar o sentimento que os une. Um dia, percebem que se ela morrer, morrerá também o amor que os une. Em uma metáfora bem direta aos descaminhos dos relacionamentos, eles resolvem misturar a planta em meio a uma multidão de plantinhas semelhantes – que acaba desviando suas intenções, tornando-os infelizes ao perceberem que jamais a encontrarão novamente.

A leitura é tão forte que a realidade torna-se insustentável. Emilio segue seu rumo com as letras, Julia vai embora para Madri. Em uma circunstância comum, cada um segue seu rumo. As marcas do passado os perseguem de certa forma, mas a vida segue seu fluxo de uma forma tão natural que chega a provocar certo desconforto no leitor. Aquela constatação de que a vida nos pesa com coisas mínimas, que parecem superficiais, mas são essenciais à nossa construção como ser humano maduro.

Em A Vida Privada das Árvores, é como se observássemos uma extensão do tema abordado em Bonsai. Até o personagem central leva um nome parecido. Aqui, quem protagoniza a história é Júlian. Casado com Verónica, o escritor passa um dia em casa à espera da esposa. Entre os afazeres domésticos e seu trabalho, cuida de Daniela, sua enteada. A garota é novinha e pede uma história ao padrasto antes de dormir. Daí o título. Júlian improvisa diálogos entre duas árvores – o álamo e o baobá. Ambas se veem confrontados por questões existenciais e refletem as angústias de seu narrador.

Preso à espera, ele encara a passividade de quem alimenta uma expectativa já sem grandes esperanças. Ele trabalha em um romance, no qual cria a história de um homem jovem que se dedica a cuidar de um bonsai – quiçá uma coincidência, visto que a obra não é extensa.

Esse “marasmo” caseiro o leva a rememorar passagens marcantes e confabular sobre o futuro. Ele se lembra de seu relacionamento anterior, com Karla, e de todos os seus descaminhos. Ele ainda não compreende os motivos do término. Da mesma forma, pensa no primeiro – e rápido – casamento de Verónica. Chega até a imaginar o comportamento de Daniela ao se deparar com o padrasto já na vida adulta.

Júlian preenche o vazio de suas expectativas com experiências inconclusas, como se não conseguisse manter o controle sobre suas próprias ações e tivesse certo temor pelo porvir. Em uma avaliação geral, seu posicionamento não é nada extraordinário. É justamente esse o ponto da ficção de Zambra nesses dois livros: uma história inventada, porém impregnada de realidade a ponto de provocar inquietações nos leitores.

Em dada medida, ele nos convida a experimentar a sensação de ser uma árvore – um estado de mobilidade momentânea, de permanecer em um local sem perspectivas de mudanças, apenas fincando suas raízes. A realidade de Zambra trata do desconforto de estar na própria pele sem saber ao menos por onde começar para escapar ou mesmo se livrar dessa sensação.

Com sua objetividade, torna tudo ainda mais pontual e agudo. Daquelas coisas que nos incomodam, mas ficam terrivelmente interessantes quando retratadas na literatura.

ZAMBRA, Alejandro. Bonsai. Editora CosacNaify, 2012. Tradução: Josely Vianna Baptista. 64 págs. Preço sugerido: R$27,00.

ZAMBRA, Alejandro. A Vida Privada das Árvores. Editora CosacNaify, 2013. Tradução: Josely Vianna Baptista. 96 págs. Preço sugerido: R$27,00.

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