Das cicatrizes que escolhemos

Quando a coragem dá o ar da graça, pensar duas vezes deixa de ser uma possibilidade. Sentir dor não é bom, lógico, mas sempre tive problema com qualquer coisa que viesse com um aviso para gente com sensibilidade aguçada. Valia para tudo, desde exercícios físicos até exames de sangue. Fazia porque precisava. De uns tempos pra cá, tenho notado uma tolerância à dor que chega a assustar. Daqueles momentos da vida em que você se sente em um universo paralelo, que tem um pouco a ver com o receio de estar fora do movimento da vida. Como se apresentar fisicamente, mas não se sentir propriamente no local. Nessas horas, você precisa da dor para provar que está ali e que ainda está apto a sentir alguma coisa.

Curioso constatar que foi um momento de descoberta do meu próprio corpo. Por vezes, a dor física foi forte a ponto de me desestabilizar – senti tontura, achei que fosse apagar no meio de uma corrida, essas coisas. Mas basta um minuto de delírio para cair de volta na realidade e sentir cada músculo se habituando ao desconforto. Rendeu resistência para exercícios físicos – uma surpresa para essa alma que sempre acabava se perdendo no sedentarismo. Mesmo as inquietudes psicológicas me parecem menos dolorosas agora. Aumentou a dificuldade de acesso ao cume de qualquer sentimento nessa vida.

Pensei que seria representativo transformar essa mudança em cicatriz. Sempre gostei de Matrioshkas e a vontade de colocar uma na minha pele já me acompanhava há muito tempo, então foi apropriado unir esse anseio de uma forma delicada – em contradição com a intensidade da marca – e bonita. Foi tudo por impulso – peguei uma indicação, aproveitei o tempo livre de férias na casa de meus pais, marquei para a mesma semana e, há exatamente um mês, lá estava eu, sentada à espera (ansiosa) da primeira agulhada.

Não houve resistência nesse mundo capaz de conter o meu medo na noite anterior, confesso. Achei que fosse gritar, chorar, pedir para parar a cada dois minutos. No fim das contas, ela apenas validou minha transição. Queria dizer às pessoas que doeu muito, mas seria uma mentira insustentável perto da minha vontade de já fazer mais umas cinco (e registramos aqui uma vitória para quem morria de medo de fazer tatuagem – não pedi para parar nem uma vez).

De certa forma, essa mudança foi marcada pela falta de controle que tenho tratado como característica recém-adquirida desde o início do ano – 2013 ainda não acabou, mas é certo que se tivesse feito uma lista de “nuncas”, já teria zerado tudo no primeiro semestre. Foi o ano de arriscar e fazer um sem número de coisas que nunca tinham sequer passado pela minha cabeça. Minha matrioshka colorida, sem querer, acabou representando também essa fase de loucura desmedida que por vezes me dá pânico, mas no fundo me enche de orgulho.

A graça da tatuagem é essa – melhor do que perder minutos explicando um significado que por vezes é dúbio (ou se limita a uma explicação pessoal que só o tatuado entende), não deixa de ser uma marca. A Isadora Sinay definiu muito bem o que elas representam: não passam de cicatrizes. Entre tantas marcas adquiridas em tombos catastróficos durante minha infância, cheguei à idade adulta e pude escolher uma cicatriz.

Para uma pessoa que enjoa fácil das coisas, um mês pode parecer pouco. E por isso fico surpresa quando me pego olhando para ela e achando linda. Mesmo com essa memória conturbada e podre de ruim, é certo que daqui alguns anos vou repousar os olhos sobre ela e lembrar dessa fase significativa com um tom saudosista.

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4 comentários sobre “Das cicatrizes que escolhemos

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