“Baby, you’re gonna miss that plane”

“Não sei se você vai gostar, porque é praticamente uma sequência de diálogos. Duas pessoas conversando por 80 minutos. Acontece que eles discutem sobre coisas da vida, e é tudo tão verdadeiro…”. Foi assim que uma amiga me apresentou Antes do Pôr-do-Sol quando pedi indicações de filmes. Pouco curiosa, me preparei para assisti-lo sem pensar muito no que ela havia dito para não perturbar a experiência. De fato, não dava para tratá-lo como um amontoado de baboseiras ditas por duas pessoas aleatórias. Era um filme sobre a vida e os efeitos do tempo.

Escolher Paris como locação já ajudava – e muito – mas Linklater mostrou que dava para fazer um grande filme sem grandes recursos. Até então, eu não sabia da existência de um predecessor. No caso, Antes do Amanhecer. Encarei assim mesmo, o que não chegou a ser um problema. Desta vez prefiro fazer diferente e falar sobre ambos de acordo com o lançamento.

Lançado em 1995, Antes do Amanhecer marca o primeiro encontro de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy). Ele é americano, ela, francesa. Em comum, partilham um passeio de trem pela Europa. Começam a conversar ali mesmo – algumas horas de viagem pela frente, nada para fazer, por quê não? Em um dado momento, Jesse resolve arriscar e convida Celine a descer com ele em Viena para conhecerem a cidade. Alegando, para tanto, a existência de uma espécie de conexão, dessas coisas inexplicáveis, entre ambos. Ele mesmo admite que parece loucura. Ela hesita, mas acaba aceitando. Assim como levou adiante, a princípio, o papo descompromissado durante o percurso inicial.

Já disseram que isso só acontece na ficção, mas Linklater coloca tudo de uma forma tão realista que você passa a encarar aquilo como uma situação possível. Celine e Jesse retratam o que há de mais puro e bonito na juventude. Não há tempo para pensar nos agouros da vida adulta, não há tanto receio. Existe o impulso, o desejo de agir sem pensar duas vezes, arriscar. Esse modo de viver sem medo permite o deslumbre imediato, é uma deixa para encarar tudo o que acontece pelos arredores da forma mais pura possível. Assim, o magnetismo entre os dois como casal é compreensível. Eles aproveitam o momento como lhes é de direito e passam vinte e quatro horas como se fossem um casal de longa data.

A manhã do dia seguinte marca o fim do encontro. O tempo deixa aqui a sua primeira marca – as horas disponíveis se esgotaram e, mesmo que ambos prometessem um reencontro, eles não viviam em tempos de facebook. Ninguém poderia garantir nada. Eles de fato se veem mais uma vez, só que em circunstâncias inesperadas, em Antes do Pôr-do-Sol (e sim, omiti algumas informações de propósito para não dar tantos spoilers). Por uma coincidência, já em 2004, Jesse viaja a Paris para o lançamento de seu livro. Depois de nove anos desde o primeiro encontro, ele se tornou escritor. Celine passa pela livraria e mal pode acreditar que o autor em questão é o moço que conheceu outrora.

Mais uma vez o cronômetro os acompanha – Jesse já está com o voo marcado para a volta, ao fim do dia. Desta vez, encaramos duas pessoas desgastadas pelas circunstâncias do cotidiano. Algo do encanto daquele primeiro encontro faz questão de dizer que está ali, mas agora os personagens não são mais os jovens destemidos de nove anos atrás. Jesse, por exemplo, está casado. O teor dos diálogos é mais cru, e agora há espaço até mesmo para um surto de Celine no táxi – uma das melhores cenas do filme, por sinal. A insegurança dá brecha para um discurso do fundo da alma. O desgaste emocional fica à flor da pele.

O que transforma a sequência em um trabalho tão primoroso é a presença dessas cenas que destoam do encanto tão presente em Antes do Amanhecer. Embora estejam em uma cidade ainda mais bela (Paris), encaram um contexto mais maduro. Mesmo a troca de palavras afetuosas provoca arrepios e nos faz temer um súbito surto quando um dos personagens notar que a realidade não é tão doce assim. Quando Celine pede um abraço só para verificar se não irá “dissolver em moléculas” pelo contato, Linklater monta a cena de um modo que não te leva a achar a atitude “fofa”, mas sim a estranhar a inquietude que ela provoca no espectador.

O longa termina de forma satisfatória e consegue, ao mesmo tempo, apresentar uma deixa para uma possível continuação. Celine canta “A Waltz For a Night” em seu apartamento. Interrompe a cantoria só para emitir um rápido “baby, you’re gonna miss that plane”, ao qual Jesse replica com um despreocupado “I know”. O tom de voz indica que poderia ser uma brincadeira ou mesmo uma confirmação. Circunstancial, incerto. Como toda decisão que precisamos tomar.

A vida é feita de imprevisibilidades. E difícil medir as consequências de cada uma com o passar dos tempos. Com a nossa essência, vamos nos moldando. No fim das contas, buscamos aquela parte que nos ampare com compreensão, e nada mais. Você não precisa abaixar a cabeça, concordar com cada vírgula, pensar igual. Basta entender.

Linklater achou por bem encerrar o caso de Celine e Jesse com Antes da Meia Noite. Ainda não assisti e não li nada sobre ele. Conferi apenas o trailer (um grande spoiler, a depender do ponto de vista), que me ofereceu preparo suficiente para encarar o filme como mais um acontecimento na vida de duas pessoas comuns.

O amor do casal é coisa de cinema? Pode até ser. Genuíno, “eterno enquanto dure”, não interessa. O bacana do trabalho de Linklater com essa trilogia é a segurança no que está sendo feito. Ele tinha consciência da condição de seus personagens e em nenhum momento deixou pontas soltas. Se o final será feliz ou não, tanto faz. É certo que o diretor deixará, como uma espécie de conclusão, a necessidade de humanidade. O fato de que a forma como nossos impulsos ganham ranhuras com o passar do tempo é tão natural quanto o ato de sair para ir ao supermercado.

“Maybe what I’m saying is, is the world might be evolving the way a person evolves. Right? Like, I mean, me for example. Am I getting worse? Am I improving? I don’t know. When I was younger, I was healthier, but I was, uh, whacked with insecurity, you know? Now I’m older and my problems are deeper, but I’m more equipped to handle them.” (Jesse)

“Memory is a wonderful thing if you don’t have to deal with the past.” (Celine)

 

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