when you grow up, your heart dies

Comecei um texto sobre Maurice Sendak esses dias e fiquei com Onde Vivem os Monstros na cabeça. A infância selvagem e sem amarras do livro exerce um encanto inexprimível sobre mim, essa coisa maluca de please don’t go, I’ll eat you up, I love you so. Porque tenho um fraco para tudo que é colocado com intensidade – não sei mais se isso ainda faz parte da minha essência, mas algo me diz que tenho resquícios. E quer período melhor do que a infância para falar sobre a força com que as coisas acontecem em nossas vidas?

Um período que lida tranquilamente com todo o caos que nos cerca. A ideia de pensar duas vezes parece inexistente: o fluxo de pensamento é imediato, criança nenhuma consegue definir a tênue linha que separa a interpretação da fala. E daí que pode ser entendido de modo errôneo? Não há bagagem suficiente para saber o quanto as consequências dos nossos atos podem pesar sobre os nossos ombros.

Deve ser por isso que a clássica cena de The Breakfast Club sempre me deixa com uma pulga atrás da orelha. Confesso que fico com a visão meio embaçada, quase como a própria Allison enquanto repito, junto com ela: “when you grow up, your heart dies”. Alguma coisa se perde pelo caminho. Em um dado momento da vida, exteriorizar um sentimento é inaceitável e, na maior parte dos casos, é julgado como oversharing. Conheço pessoas que não ligam para esse tipo de mudança, então o fluxo da vida segue normalmente. Se quebram a cara constantemente? Sim. Mas né, gente forte, claro, que leva uma “daquelas” e ainda tem forças para seguir em frente sem muito sofrimento.

Outros preferem se fechar. Pelo simples fato de que é mais cômodo. Sempre gera situações conflituosas e você acaba criando uma segunda personalidade – uma espécie de casca que procura atuar como um escudo. Leva tempo para saber se outras pessoas merecem quebrá-la. Tenho pavor de demonstrar afeto e assustar quem está ao meu redor. Vira um indício de frieza, superficialidade. A vontade real é de dar um abraço forte, sentir a presença física, mas a sua casca permite no máximo um beijo no rosto ou um aperto de mãos. Você quer dirigir uma palavra amiga, quer dar um jeito de explicar que está disponível também para os momentos de dor. E termina compartilhando apenas momentos de descontração que ignoram qualquer conflito interno de ambas as partes.

Nunca é mal intencionado, mas vamos perdendo o controle da situação e de repente vira uma bola de neve. Como saber por onde começar na hora de reorganizar tudo isso? Simplesmente deixamos para lá. Fica para outro dia. E quando você se dá conta perdeu o contato, ou conquistou o repúdio alheio por ter tanta vontade de controlar o próprio impulso.

É como experimentar a sensação de ter se perdido de você mesmo. Há uma noção de que você construiu uma barreira para se proteger, claro, mas por vezes a incerteza e o desconforto sobre essa coisa na qual nos transformamos acaba aparecendo. Mais ou menos como naquele poema de Cecília Meireles:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Tudo isso me deixa com saudades da naturalidade de outrora. Daquele sentimento que ainda durou pelo início da adolescência. Que me levou a pintar os cabelos sem ligar para o que os outros fossem pensar. Que fez com que eu ignorasse o fato de ter só 15 anos ao decidir ir sozinha para Nova Iorque. Da “ousadia” de me aventurar sem medo, ir morar sozinha em outro país no qual mal conhecia a língua acompanhada apenas por um leve frio na barriga. De encostar em qualquer ser humano para pedir informações – ser a cara de pau que não consigo mais ser e que hoje me é tão cara para fins profissionais.

E então retomo Sendak. Em diversas entrevistas ele reforçava sua predileção por histórias infantis justamente por essa falta de filtro. Ele não queria encher as crianças com baboseiras inúteis e mentirosas. Inseria a confusão em seus termos, seus personagens centrais sempre foram encrenqueiros ou figuras sofridas por circunstâncias da vida. Apesar dos empecilhos, são sempre desimpedidos, livres de qualquer pré-conceito. Expressão sem medo, sem mesurar as consequências.

When you grow up, your heart dies. E permitir essa morte deve ser um dos nossos maiores erros.

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Um comentário sobre “when you grow up, your heart dies

  1. E essa sou eu. Sem tirar, nem pôr.
    Mas sem ser cara de pau e muito menos viajar sozinha para NY, haha.

    É muito estanho mesmo como as coisas acontecem e a gente se deixa levar por elas, nos mudar por causa delas. São coisas que não têm, definitivamente, importância, mas nos afetaram de uma forma talvez irreversível, né?
    Sinto falta de quem eu era há uns 2 anos, olha só. A época da minha vida que eu queria morrer (não literalmente, haha), mas que eu estava disposta a mudar tudo, e eu estava gostando de quem eu estava me tornando. Mas sei lá o que raios aconteceu no meio do caminho, que eu olho pra mim e não me reconheço. É triste e estranho.

    Precisamos tornar o nosso programa de vovózinha uma realidade, pfv.

    Beijos!

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