Parte integrante

Peguei todo o meu desconforto e escondi atrás de uma lata de lixo. Não consigo me desfazer em uma única leva, deixo em um lugar estratégico pela ilusão de ter me desfeito por completo. Vou deixar empoeirar por ali, fingir que não existe. Pelo posicionamento, não importa a perspectiva, jamais nos olharemos de frente. Como é possível ter tanto apego por algo sem forma física? Quando foi que criei uma dependência tão grande da sensação de estar fora do eixo?

Quando me dizem que as coisas só dão certo ao sairmos da nossa zona de conforto, dou uma risada de desdém. Como se isso um dia houvesse existido na minha vida. Não sei em qual lugar pisar – ou tropeço ou afundo de cara. Fica a meu critério – o quão fundo você consegue ir? Provoca dor física. Você já encara as coisas sabendo que seu fiel companheiro, o desconforto, vai apertar a sua mão com toda a força no momento crucial. E você vai se descompor. Começar a tremer, suar frio e, ainda assim, arranjará um jeito de engolir o seco e fingir que está tudo bem. Deve ser essa a causa da dor física – você luta contra o próprio corpo para combater o desconforto e termina assim, intacta por fora, cheia de escoriações por dentro.

Acabei acomodando, permiti que a dor física fosse uma constante, passei a viver como se fosse parte integrante. Não pode ser vendido separadamente. “Viver é negócio perigoso”, já dizia Guimarães, infinitas vezes, em Grande Sertão: Veredas. E qual seria a graça se não houvesse risco algum? É preciso dar a cara a tapa. Fico cada vez mais do avesso, essa criatura que encaro com repreenda toda vez que olho no espelho ou me impressiono com atos impensados. Em um dado momento perdi o controle da situação e já não tenho mais certeza do que restou da minha essência.

Felizmente, ainda me resta a música. Pequenas doses diárias que funcionam como morfina para o desconforto.

O cotidiano paulistano e o meu vazio existencial casualmente entrando em confluência por meio de uma música. Obrigada, Beck.

there’s too many people you used to know/ they see you coming they see you go/ they know your secrets and you know theirs/ this town is crazy/ nobody cares

I’m tired of fighting/ I’m tired of fighting/ fighting for a lost cause

“Mi consigna interior, mi tantalismo, era buscar las exquisitas condiciones máximas de sufrimiento sin tocar a la vida”

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2 comentários sobre “Parte integrante

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