O mendigo falou francês

Toda vez que trago um novo item à minha caixa de frustrações, ao invés de entregar-me ao sentimento, prefiro rir da própria desgraça. Fica ainda mais fácil quando o contexto favorece o riso. Pois tenho uma tendência a acumular infortúnios que jamais optaram pela banalidade. Tem que ser uma merda caprichada. Dentre esses episódios, houve um que me marcou bastante no início do ano passado.

Era sábado, horas antes da aula de francês. Mero detalhe: tinha prova, pois com a minha turma de malucos iniciei o curso no dia 7 de janeiro (com a escola em obras e tudo mais). Antes do despertador tocar, o primeiro anúncio de uma dia-bomba: alguém cantava Ilariê em alto e bom som na rua. Abri a janela e me deparei com um mendigo feliz e descontraído com esse clássico hit da Xuxa. Se o dia começa com uma música assim, ele está mais para prelúdio de uma tragédia.

Ainda sem saber como interpretar o acontecimento, corri para o ponto de ônibus com o livro em mãos, aproveitando os últimos minutos de “estudo”. Comecei a ouvir um “bonjour” repetitivo. Não era possível. Tanta loucura e tão poucas horas de sono que tinha começado a delirar e estava ouvindo vozes. Fiquei meio tonta, devo ter feito cara de maluca, mas quando olhei para o lado me deparei com mais um mendigo feliz (eles estão sempre em alta na Bela Vista).

Ele tentava uma interação. “Esse livro é de francês, né?”, perante minha resposta afirmativa, ainda meio abismada, ele mandou um “ça va?”. Por um segundo achei que fosse deletar tudo o que havia aprendido no último ano por reação ao susto. Respondi, e quando achei que a festa tinha acabado, ele começou a perguntar como dizia “por favor”, “boa noite” e “café da manhã”. Perante cada resposta, ele repetia com uma pronúncia impecável. De primeira. Para mim, já era extravagância demais para um dia só – e ainda eram 9 horas da manhã.

Provavelmente me tornaria um dicionário ambulante se o ônibus demorasse mais. Antes de embarcar, ele só perguntou se “muito obrigada” era “merci beaucoup” mesmo, confirmei, e ele só proferiu – mais uma vez com uma pronúncia incrível – as palavras, acenando. Naquele momento, “uma mensagem dos infernos” parecia a explicação mais plausível. Ou era uma indireta – eu tinha estudado pouco e ia quebrar a cara.

Dito e feito. Eu gosto é do estrago, principalmente se for feito com afinco. Saí de lá atordoada, sem almoçar, e correndo pra chegar a tempo na estação Tatuapé do metrô. Claro, no mesmo dia tinha que rodar a primeira entrevista do TCC com o meu grupo. Encontrei as meninas e, enquanto aguardava pelo quarto elemento que nos daria uma carona até o local, achei por bem causar na linha vermelha, sentei no chão e comecei a chorar. A semana foi uma sequência caótica de eventos (e no máximo quatro horas de sono por noite) e não houve autocontrole depois do combo matinal. Constrangi as amigas até levarmos bronca de um policial insensível que, mesmo ao se deparar com uma pessoa em prantos, fez um discurso sobre ser proibido sentar no chão das estações de metrô. Fofo.

A entrevista era com uma psicóloga e adivinhem só quem fizemos quase uma terapia em grupo? Afinal, quem nunca enfiou perguntas pessoais na lista de questões obrigatórias? Parecia até uma conclusão para a minha tese de maluquices daquele que parecia ser só mais um sábado despretensioso. E não foi.

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3 comentários sobre “O mendigo falou francês

    • Sempre achei que o TCC nunca chegaria ao fim. Quando aconteceu foi meio surreal, confesso. Ainda mais com esse início tempestuoso! Mendigos são uma caixinha de surpresa, ainda mais quando você mora no centro de SP. Um dia farei um livro só com as pérolas acumuladas ao longo dos últimos 3 anos.

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