we are the angry mob*

É da minha natureza – e de meio mundo – reclamar. Na mesma medida, embora seja um pouco contraditório, não penso duas vezes antes de fazer o que vem à cabeça. Sem essa de medir as consequências. Mesmo com todas as lamúrias posteriores, não tenho como fugir. Sempre acabo no mesmo buraco. Isso vale tanto para as situações mais banais até para coisas sérias. Em um desses momentos de loucura eu xinguei o site da showcard durante uma manhã inteira e comprei um pacote para os três dias do Lollapalooza. O servidor deve ter caído no mínimo umas 20 vezes, sem exagero. A vontade de bater minha cabeça contra a parede depois de um ato tão ousado e teimoso não custou a aparecer e passei alguns meses no embate entre a vontade de ir e o desejo desesperado de vender os malditos ingressos.

Nessas pequenas metáforas da vida acabei going with the flow, uma das constantes da minha vida. É um hábito que fez muito pela minha gastrite (e provavelmente pela de vocês também) – você fica remoendo até o ponto em que consegue ignorar para, finalmente, desesperar-se na véspera. Não tem suco gástrico que aguente. Você já conhece todo o histórico do festival depois da sua experiência anterior e pensa que um pouco de ousadia não pode te fazer mal. No máximo vai te deixar com umas dores nas costas e um saldo duvidoso na conta bancária. Ano passado foram só dois dias. Neste ano, três. Só para sinalizar a insanidade, que não tem limites.

Acabei na lama do Jockey. Ao que tudo indica fui levada até lá por osmose nos últimos dias deste mês que não cansou de fazer cosplay de agosto. E só para pagar com a língua, compensou por cada segundo. Mesmo com todos os perrengues. Tudo bem que só consegui chegar depois das 15h todos os dias, coisa de gente velha, mas era melhor do que deixar os ingressos na gaveta (=jogar dinheiro no lixo).

Não deu pra fazer uma foto decente do Flaming Lips com o celular, então fica aí minha referência

Não deu para fazer uma foto decente do Flaming Lips com o celular, então fica aí minha referência

O primeiro dia foi meu descanso, acreditem. Teve espaço Redecard, pufes, comidas nada saudáveis, cerveja, essas coisas. O desânimo com a chuva e a garoa limitou minha mobilidade, autorizando apenas Of Monsters and Men e Flaming Lips de uma distância aceitável, Passion Pit e The Killers BEM de longe. Of Monsters and Men foi bonitinho, mas só. Flaming Lips serviu para constatar que se passaram oito anos após o primeiro festival – e consequentemente primeiro show – da minha vida. O Lolla que me desculpe. Mesmo com toda a estrutura e shows incríveis, guardo afeto pela edição do Claro que é Rock em 2005, no Rio de Janeiro. Conheci a banda ali, parecia criança no show (eu era, de fato, quase isso), e ainda tive maravilhas como Nine Inch Nails para ver no mesmo dia. Esperava algo mais 2005, mas gostei mesmo assim. Passion Pit foi ok, talvez tivesse empolgado mais se eu estivesse próxima do palco. Killers também veio com uma carga nostálgica meio pesada. Lembrei daqueles tempos de Hot Fuss e no quão legal era conhecer bandas por conta própria (e assistindo The OC, obrigada, Adam Brody). Confesso que cantei Mr. Brightside a plenos pulmões para honrar o saudosismo.

Fiquei sossegada no primeiro dia porque tinha carnaval indie no dia 30. Precisava de fôlego para pular e dançar até constranger quem estivesse por perto. Two Door Cinema Club e Franz Ferdinand (não, eu ainda não tinha visto a banda ao vivo) cumpriram a tarefa. Uma pena que o Franz e boa parte das bandas que se apresentaram no palco Butantã tenham sido prejudicados pelo som, que entre oscilações sempre acabava baixo demais. Passei mal no Queens of the Stone Age por motivos de: só quem viu ao vivo entenderá. Principalmente nós, mulheres, vítimas de toda a ousadia de Josh Homme. Com Black Keys eu mandei o que me restava de compostura para as cucuias. Meio mundo reclamou que foi morno e etc. Nem tive tempo de constatar tal fato, pois estava ocupada demais pagando de louca no meio dos adolescentes.

The Black Keys

The Black Keys

Um fato curioso, por sinal – a estatura média do público mudou de forma assustadora no show do Pearl Jam. Se no Black Keys eu tinha mil jovens na minha frente que em nada atrapalhavam a vista, no Pearl Jam só tinha gigante e homens cheios de afeto querendo dar demonstrações públicas de amor ao pendurar suas queridas namoradas nas costas. Senti vontade de dar na cara de cada um e juro que não é amargura. Nada pessoal, só queria ver mais ou menos o palco. Ainda assim, vi o último show da noite quietinha, rolaram lágrimas tímidas no final por motivos de nostalgia – sou fraca MESMO com essas coisas sem explicação do passado.

Why can't it be mine morrendo, by Pearl Jam

Why can’t it be mine morrendo, by Pearl Jam

Com exceção dos headliners, o último dia foi totalmente dedicado ao ácido (ou qualquer outra droga de preferência). Estavam todos tomados por uma loucura de fazer inveja. Cheguei para o Kaiser Chiefs e me deparei com um Ricky Wilson alucinado correndo pelo palco, brincando feito um retardado com as câmeras e escalando as grades assim, numa boa, como se não houvesse perigo algum. Um dos shows mais divertidos, apesar do recorrente problema com o som. Vi boa parte do The Hives na fila (valeu, Lolla!), mas me diverti com essa banda gracinha igualmente trabalhada na loucura. Grande show. Recomendo inclusive para quem não os conhece. Há tempos não via uma apresentação com tanta energia no palco. Não entendi o apelo com o Hot Chip. Da primeira vez que os vi estava deitada no chão do playcenter para descansar – no Lolla não dava para sentar na lama, então a experiência não foi das melhores.

As qualidades são facilmente mascaradas pelas bebidas e alimentos com preços absurdos, a lama descomunal, as filas intermináveis, o desconforto de passar tanto tempo em pé, entre tantos outros contratempos. Só que você automaticamente se submete a tudo isso ao pagar pelo ingresso. Está certo, ninguém precisa abaixar a cabeça para as falhas do evento – mas é preciso ter paciência e tentar colocar um pouco dessas coisas de lado também. Caso contrário você só se aborrece e não consegue ao menos aproveitar a programação.

Sim, também existe uma birra com esse público que só vai para fazer uma social e fotografar o look do dia. E a minha teimosia, vem de onde? Não faço a menor ideia. No fim das contas eu devo ser meio masoquista e curtir essa tortura de me espremer no meio de um monte de gente para curtir alguns minutos de música ao vivo. Desculpem-me, mas não dá para comparar o dvd de casa com o fato de fazer parte de algo tão grande. Ninguém gosta de abrir mão do conforto do sofá da sala, a visão é privilegiada e tudo mais. O mesmo se aplica ao público que assiste tudo bem de longe do palco. Não é a mesma coisa. Ainda que seja durante três músicas, se você gosta daquele barulho, é diferente. O dvd é um material extra para relembrar apresentações memoráveis ou ter uma prévia do que pode ser visto ao vivo um dia. Não sou da defesa dos festivais, mas sim da ideia de ver de perto. Confesso que tenho um fraco para apresentações em casas menores e com show único, mas todos deveriam passar pela experiência de um festival pelo menos uma vez na vida.

É difícil evitar o imbróglio ao falar sobre todos os shows vistos nestes três dias – e digo o mesmo com relação ao evento como um todo. São muitas coisas em pouco tempo e a dificuldade em juntar as peças e absorver todas as experiências que o festival pôde oferecer é grande. Só um toque final: numa dessas você pode sair no lucro: conhecer bandas novas ou passar a respeitar outras que você sempre achou que fosse detestar mesmo depois de ver o show.

* we are the angry mob/ we read the papers everyday day/ we like who we like/ we hate who we hate/ but we’re also easily swayed

(o título é uma referência ao momento alegria nível descontrole de Ricky Wilson ilustrado abaixo)

Nota: todas as fotos do post foram tiradas com o Iphone.

Kaiser Chiefs de longe, no palco Butantã

Kaiser Chiefs de longe, no palco Butantã

Queens of the Stone Age de longe, para minha tristeza

Queens of the Stone Age de longe, para minha tristeza

Carnaval do Two Door Cinema Club

Carnaval do Two Door Cinema Club

Franz Ferdinand

Franz Ferdinand

Nível do público

Nível do público

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Um comentário sobre “we are the angry mob*

  1. Concordo com você, Lidy.
    É um absurdo o preço dos ingressos, ainda mais para quem não paga meia. Mas, se pagamos, temos que ter em mente que em nenhum festival (do Brasil), teremos conforto. O único que eu tive um pouco de conforto e ainda andei de carrinho de bate bate (apesar da fila imensa), foi no Playcenter, e olha, como eles acertaram fazer festival lá. Pena que…

    Eu nunca conseguiria ir em 2 dias desses festivais de feriados. Muito menos em 3 dias, hahaha. Mas eu sempre gostei muito de ir aos shows e, pelo menos, 1 dia eu teria que ir. No Lolla desse ano, eu iria para assistir QOTSA, mas como já os vi no SWU, eu deixei pra lá, porque não valeria a pena o ingresso para mim. A experiência do Lolla do ano passado, não foi das melhores. E eu tenho uma birra enorme com o Jockey que olha, vai ser difícil eu gostar desse lugar, hahaha!

    Mas para quem disse que gosta de (só) fazer programas de velhinhos, você me surpreendeu! hahahaha

    Go, Lidy, go!!

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